Um Círculo de Flores
6 Que roupa eu visto?
O estômago de Clarice não estava preparado para comida naquele estado, muito menos seus nervos permitiriam que dormisse cedo. Desceu as escadas com pressa de encontrar alguma distração e não demorou a encontrar, por mais que não fosse o que queria: Elaine estava se encarando no imenso espelho da antessala. O seu primeiro impulso foi achar a visão doce, pois a amiga trajava um vestido bonito, leve e de pálida cor rosa, girando e fazendo poses para si. Ela sempre tivera um quê com a aparência e Clarice recordava-se bem quando as duas, amigas de infância e vizinhas durante anos, começaram a crescer e ela lhe perguntava antes de sair:
“Que roupa eu visto?”
Entretanto, a nostalgia se limitou a isto, um impulso esquecível. Clarice admitia a tolice de seu coração, mas não era estúpida e muito menos tinha amnésia. Clarice e Elaine eram vistas sempre juntas até os onze anos. Depois de Elaine trocar de escola, as coisas mudaram e foi mais do que distância geográfica ou puberdade. O colégio novo era um daqueles em que alunos têm motorista e às vezes não entregam algum trabalho porque passaram o final de semana numa ilha. Por mais que Clarice soubesse da diferença financeira entre as duas, ainda mais quando o pai viúvo casou-se com uma mulher riquíssima, não achou que era maior do que promessas infantis de amizade eterna.
Não foi a primeira nem a última vez que ela estava errada sobre as pessoas.
Elaine a visitava ainda, é claro. Por um tempo. Até os dezesseis anos, talvez? Ganhou um celular, levava-o para casa de Clarice para continuar conversando com novos amigos por SMS na época em que ainda era cobrado caro à parte do plano de telefonia. Também levava revistas coloridas com guias de roupas de atrizes com medidas bem diferentes das que elas tinham e sequer precisavam ter. Ainda na casa de Clarice, Elaine combinava saídas com amigos novos, partia para restaurantes e se despedia antes do pão de queijo assar ou o filme acabar. Afinal, ela também não queria repetir a experiência de levar Clarice e se incomodar em comprar mais roupas ou lidar com uma amiga tímida. A convivência diária se tornou mensagem de texto e esbarrões ocasionais na cidade.
Talvez fosse irritação, mas Clarice não se recordava do porquê Elaine aceitara vir ou o porque ela se deu ao trabalho de convidar, em primeiro lugar. Evitou cruzar o olhar com amiga — amiga? — pelo espelho e poupou a memória externa da câmera. Seguiu para a varanda. Era melhor ouvir o vento.
Quando pensava naquela viagem, pensava que descobriria alguma coisa. Não que esperasse algo que nem acadêmicos não tinham desvendado sobre Ofélia Rios, mas algo sobre si, sobre a vida. E não havia nada novo. Só uma repetição do que ela já vivera.
Bufou e sentou-se num móvel de madeira. Esperou a brisa. No fim, deu uma olhada no celular, mas não havia sinal para sua operadora de celular e a pousada não oferecia o Wi-Fi para manter a ilusão de volta no tempo. Clarice xingou e pensou que voltará ao início do 3G instável.
O inferno era assim? Uma viagem indeterminada com ecos e mais ecos do que ela já tinha pensado demais na vida. Inspirou fundo. Quis deletar cada foto, jogar o celular de Leda no lago e gritar com Elaine porque ela virou uma desgraçada obcecada em aparência e flertes a ponto que nem o irmão adulto de Clarice foi poupado. Ele escapou, é claro. E já fazia mais de uma década. Além de falar para Clarice que havia bloqueado a menina nas redes sociais e trocado o número antigo, aquele mesmo que ele tinha dado para casos de emergência quando estivessem juntas fora de casa, a alertou que não era boa ideia manter amizades dispostas a perseguir caras de trinta anos. Haveria muitos que se aproveitariam.
Ela riu de nervoso. Queria falar com seu irmão, Elias. Mas sem sinal, impossível.
Afastamentos, dinheiro, homens. O que Ofélia Rios diria? Enquanto Elaine se sujeitava a perigos na adolescência e se chocava com o menor assédio por ser adulta hoje, a escritora erguera muros para barrar o tio, que lhe lançou o próprio filho para garantir um contrato de partilha de bens mais simples: o matrimônio. Mas seu foco era o irmão pequeno.
E Laerte tornou-se menos do que ela esperava.
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