Um Círculo de Flores

7 O lugar onde há mais cantoria


Pouco antes de voltar para dentro, música. Tocava suave, em um sistema de som curioso com uma espécie de ruído fundo que só podia significar algo analógico. Vinil, é claro. Ofélia Rios amava discos e tinha uma pequena coleção, isso estava no guia da pousada também. Clarice não sabia quem tinha colocado a vitrola da sala de estar para tocar, mas agradeceu a distração e o volume bom. Espaireceu um pouco, cogitou que assim, imóvel e solta dentro da própria cabeça, a autora ficava ouvindo música. Ou talvez não. Ninguém estava lá para ter certeza e havia detalhes que mesmo as mãos faladeiras de Rios não ousaram escrever a grafite ou datilografar. Era quase como as fotos que Clarice não tirava e pareciam pesar ainda mais.

Ela lançou um último olhar para as árvores lá fora e para o lago pouco adiante. A umidade do ar estava boa, a água refletia o cisco da lua minguante. A temperatura não estaria ruim para outro mergulho e a ocasião parecia poética, assim como todos os dissabores naquela viagem soavam mais literários. Uma casa engraçada, de fato, Fizera-a pensar nadar nua sob o pouco luar, só por estar triste e ouvir uma canção suave. Voltou para a casa.

Chegou ao cômodo certo justo quando veio uma pausa súbita, um leve som arranhado: alguém trocando o disco de forma amadora.

Judith estava sentada ao chão, com os vinis espalhados sobre o tapete. As capas eram coloridas e imitavam os originais que pertenciam à Ofélia, que na realidade eram uma edição especial fabricada para a pousada, tipo os livros que vinham junto com o guia — que, inclusive, tinha a seção “O lugar onde há mais cantoria”. Ninguém poderia levar, mas era possível apreciar com praticidade a seleção de discos mais tocadas pela autora, segundo à disposição original dos objetos e relatos. Tipo uma playlist analógica. Os discos verdadeiros, sabe-se lá onde estavam. Talvez com sobrinhos da autora.

Ao lado da amiga, cartas de tarot ainda jaziam para baixo. Ela escolheu o próximo vinil como quem escolhe outra carta e soltou a agulha. Pareceu ter tomado a decisão certa, pois abriu um sorriso mudo. Clarice lhe cumprimentou de leve, sentou-se na poltrona e calou-se para não atrapalhar. Não demorou para que Elaine, talvez ainda brincando na frente do espelho da antessala, viesse. Usava outro vestido diáfano e apoiou-se no sofá como se a casa fosse sua.

Judith faltou apenas soltar um arquejo audível, mas seus olhos já diziam que a outra não era muito bem-vinda ali com seus trejeitos de garota mimada, fato que Clarice achava engraçado. Ambas eram mimadas, só que de jeitos diferentes; tanto é que por vezes se uniam. Mais cômico ainda, era que Elaine por vezes emulava mais riqueza do que realmente tinha, enquanto Judith era o oposto: achava que era pobre.

“Não tem nada melhor? Nem é daqueles modelos com bluetooth para carregar nossas playlists? Meu plano é pós-pago, não tem problema.”

“Não tem problema porque não quero botar uma playlist sua, mesmo se o meu plano pós-pago estivesse sem sinal.”

“Você é um doce, Judith.”

“Não apresse achando que é algo pessoal, não estou fazendo isso por você. É por Clarice. Ela queria essa viagem.”

A fotógrafa franziu os cenhos, sem ligar para o suspiro de Elaine. Sempre pôde confiar na língua ardida de Judith, mesmo quando desnecessário, inconveniente e deselegante. Mas fazia tempo que não testemunhava a amiga sendo direta em algo que não fosse para si. Entretanto, foi tão estranho que Clarice não conseguira aproveitar nada, fosse a ação de Judith ou o silêncio constrangido de Elaine.

Mais fácil aproveitar a música. As cartas de tarot permaneceram ocultas.