Todas já faziam as malas, mas Elaine tinha sido mais rápida, apesar de ser aquela que trouxera mais bagagem na viagem. Com tudo organizado e já na antessala, avisou ao restante do grupo que estava partindo mais cedo e sozinha. Sim, já já. Um motorista veio buscá-la na Casa Rios e, depois de um almoço simples na cidade ali perto, partiria de volta na estrada. Esperava nunca mais vê-las. A pretensão era que aquela viagem suscitasse lembranças boas do que deveria ser lembrado, algo que lhe trouxesse o mínimo de alento ou paz, mas a casa era uma prisão quente e elas eram todas diabas. As outras reagiram como elas eram: Judith rebateu e xingou-a até que o motorista tivesse colocado as malas nos carros, já Leda só assistiu impassível ao espetáculo e Liana tinha mais o que fazer.

Nenhuma delas poderia dizer que estava totalmente errada, porém.

Foi só no dia seguinte que deram uma uma última caminhada, pois sabiam que logo partiriam e não voltariam a se encontrar tão cedo. Nada definitivo quanto Elaine desejava, embora todas também desconfiassem que mesmo as promessas pérfidas dela seriam quebradas. Mesmo assim, era necessária uma pausa para colocar os pensamentos no lugar. Ainda bem que o cenário bonito, repleto de árvores e com o som do vento, proporcionava um sentimento apropriado para caminhadas sem grandes objetivos, pensamentos sem ruídos.

Se havia algum segredo, de fato, na Casa Rios, elas não o desvendaram.

Liana, andando e respirando fundo o ar lá fora, comentou:

“Nossa, já passaram todos esses dias. Parece mágica.”

Judith não quis se aproximar do lago. E parecia ter uma opinião muito diferente: Os dias não tinham escorrido como água, tinham gotejado bem aos poucos.

“Não acho que mágica tenha a ver com isso.”

“Quanta ironia, não?”

A outra não respondeu à provocação que já ocorrera no início, envolvendo seu esoterismo e simultânea tensão ao que era denso e também impalpável. E Liana não ligava para superstições ou crendices, de qualquer forma. Leda comentou:

“E não fizemos tudo do guia.”

“É. Significaria algo. Mas tinha muita opção ali inventada que não precisava, sabe? Deu só pra… ficar na casa. E a cozinha era ótima, que balcão.”

“E Elaine não ajudou no cronograma, né.”

Liana ergueu a sobrancelha para Judith.

“E quem é que bebeu demais?” Suspirou, mas não deu tempo para resposta. “Não lembro de ter visto isso nas sugestões de programação.”

A fala seguinte de Leda interrompeu o provável rebate:

“Sabe, pensei muito em algo. Clarice tiraria boas fotografias daqui.”

“Ah, sim. Também acho.”

“Também pensei nela nesses dias todos. Não tinha como não pensar, na real.”

“Bom, dane-se. Agora já passou.“

Retornaram para casa. Organizaram os livros que ganharam com o pacote de boas-vindas com brindes e instruções e conferiram se tudo estava em sua devida ordem. Por mais que não fossem pagar taxas por não fazerem faxina no casarão, não queriam dar margens a alegações de danos. Portanto, fizeram o mínimo. Foi assim que notaram algo despercebido até então: A escada retrátil que levava ao sótão tinha sido mexida e havia um pouco de papel espalhado por lá. Liana achou um bom toque da cenografia, mas que nenhuma delas tivera curiosidade de conferir antes. Era como se Ofélia Rios fosse adentrar o recinto e declamar algum trecho de alguma de suas obras. Ou então sentar-se à escrivaninha para continuar.

Um pensamento bobo, apenas. Liana sequer tinha lido muito Rios. E ainda assim, tivera essa impressão esquisita de uma presença.

Fechou essa porta, fecharam a casa. Partiram.