Um Círculo de Flores
15 A noite vai ser fria
Quando os ipês amarelos florescem, as portas da Casa Rios se abrem. E depois que as flores caem, tudo se fecha e começa a limpeza. Após a última visita, funcionários adentraram o casarão para a faxina de praxe e começaram pela troca de roupas de cama, aspiração de pó e verificação dos itens da casa. Era necessário assegurar que algo não havia sido subtraído ou danificado, como já ocorrera no passado com alguns vinis da coleção da escritora e peças menores de decoração. Só a cozinha ficava por último, já que os itens que abasteceram a estadia seriam retirados para não estragar.
O processo era metódico, portanto a equipe pouco mudava. Afinal, não era interessante ter que treinar gente diferente todos os anos e garantir bons resultados, sem falar na questão da confiança.
E quem perguntasse a qualquer um, ouviria que não havia nada de especial lá senão a beleza de um lugar antigo, elegante e bem cuidado — e que não poderia ser usufruído por todos, assim como a maioria dos lugares do tipo. Portanto, não era nada incomum, apenas inacessível.
Na boca do noite, um dos funcionários saíra para fumar a céu aberto e já de cor púrpura. Um colega seu acompanhava-o, contando vantagem de que tinha separado algumas comidas congeladas para si.
“A noite vai ser fria, né?”
O primeiro deu uma longa tragada e concordou em um murmúrio indistinto. Estranhamente, ventava mais fresco depois de dias quentes e eles ainda caminhavam para o verão. Torcia para que viesse aquela brisa sorrateira de chuva. Viu vento levantando um pouco de folhas, um pouco de pétalas já secas, na direção do lago. E mesmo que seu colega continuasse falando, ele já não prestava atenção. Só não sabia dizer se era por costume, já que todo ano era a mesma ladainha de saquear a geladeira dos hóspedes, ou se algo mais captava sua atenção. Era quase uma sensação, embora o quase fizesse toda diferença.
Diziam coisas sobre a Casa Rios.
Pessoalmente, ele nunca havia visto nada. Numa nova baforada, ele divagou sobre os boatos antigos. A tal da autora tinha sumido há décadas. Tinha gente que fazia o mesmo, ainda que parte desse povo usasse os livros da autora como justificativa pra um sumiço repentino só pelo objetivo de causar um drama nas pessoas ao redor — e depois voltavam ao cotidiano comum, achando que eram só fãs excêntricos. Havia outros casos esquisitos, como de uma moça que desapareceu ano passado numa cidade não tão longe e, ao que se dizia e ele próprio desconfiava ser mentira, não havia porquê ela sumir. Era uma fã de Rios. Ligavam uma coisa a outra. Bobagem. Muita gente sussurrava sobre o mistério da escritora como se não quisesse fazer igual. E, ao mesmo tempo…
Quem sumiria, de fato, senão quem já não era visto antes? Impossível ser deixado em paz nestes tempos. Como agora, em que só queria fumar e ouvia o mesmo papo de sempre, sobre assaltar os congelados.
Não havia nada a ser desvendado na Casa Rios que já não se soubesse: pessoas inventavam e acreditavam em histórias só para se apoiar em alguma coisa. A tal da Ofélia deve ter sido só mais uma sortuda que conseguiu não deixar rastros ao abandonar a própria vida tediosa. No fim, criou um mito.
Foi quando se deparou com uma câmera no solo, próxima ao lago. Não era um modelo barato, mas sim algo com uma lente mais poderosa. Talvez fosse profissional. A tentação foi grande, o senso de responsabilidade maior: entregou-a à supervisão da equipe, que ligou para o primeiro número da lista de contatos das visitantes da temporada: Elaine.
Não, ela não sabia nada de uma câmera com aquelas descrições. Afirmou e repetiu que não era de ninguém ali. Podiam fazer o que quisessem com ela, incluindo nada. Assim foi feito: a memória externa foi deletada e a câmera ficou à disposição dos novos visitantes. Não desvendariam muito na Casa Rios, mas poderiam capturar memórias.
E, quem sabe, se livrar delas também.
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