Um Círculo de Flores

10 O lugar onde o dinheiro entra


O restante do grupo chegou com o almoço ainda quente e, apesar de falarem de maravilhas do cenário e horrores do calor e insetos, pareciam satisfeitas. Exceto Judith, talvez. Aquele seu ar quieto não era só cansaço, isso era nítido para quem convivia um pouco mais com ela. Para Clarice, o silêncio dela era óbvio até demais: enquanto sua boca estivesse se movendo e destilando acidez aqui e ali, estava tudo dentro do normal. A quietude era mais profunda, mesmo que a amiga gostasse de se fazer de difícil ou misteriosa.

Clarice achava engraçado ela não se perceber como um livro aberto. Amuada daquela forma, a fotógrafa não tinha como virar a página e entender com clareza os motivos. Também não entendia bem a razão de investigar. Mas não poderia ser a vaidade de Elaine, certo? Ou então a passividade enjoada de Leda?

Cada uma arrumou o que fazer após o almoço, como ficar na varanda ou aproveitar o sofá da sala de estar. Liana também gostava de artistas que Ofélia Rios escutava, então era possível ouvir o som da vitrola e uma conversa agradável entre ela e Leda. Com o celular sem sinal e pouca vontade de engajar em uma conversa com as duas ou Elaine, onde quer que estivesse, Clarice parou.

Como era estranho conviver naquela casa. Questionou-se se Ofélia sentia-se um espírito e, se sim, como era realmente ser um espírito depois de uma existência inteira tratada como se não fosse de carne?

Subindo as escadas e rumando para um dos quartos, Clarice viu Judith sentada no chão, de novo com as cartas de tarot rodeavam seu corpo, viradas com a face para baixo.

Entrou com timidez. Judith pareceu ter ouvido seus passos e encarou um pouco a porta, mas Clarice já estava sentada na cama. A amiga não se constrangia por seus temas espirituais, muitas vezes a um ponto embaraçoso: se fosse de religiões específicas, seu jeito poderia ser comparado a um inócuo proselitismo. Mas não chegava tão longe, limitava-se a inconveniência. Hoje, Clarice achava graça, mas lembrava-se de uma leitura de tarot errada sobre emprego, sobre como ela seria aceita na empresa nova após mandar o currículo e novas oportunidades viriam. Não apenas tinha sido rejeitada quanto continuava no mesmo local, agora ajudando clientes rudes com o sistema de autoatendimento do caixa que logo a substituiria. Que ironia, a vez que ela tivera as palavras mais doces para Clarice, foi a vez que ela errou.

Embora desconfiasse das outras leituras também.

Não imaginava que fosse ego ferido seu pensar que Judith superestimava seus dons. Além da ocasião da leitura errada sobre o emprego, tinha falado coisas que Clarice sabia que não eram conselhos de quaisquer entidades. Era a voz de Judith falando que ela era inflexível, materialista e negligente com sua própria espiritualidade. Mas era algo fácil de condenar quando Judith ainda tinha a gasolina paga pelo pai. O lugar onde o dinheiro entra dita muito como sai; pena que Clarice não tinha jeito ou tarot para expor isso de volta.

Aceitara essa verdade na relação entre as duas; que a condição financeira diferente as colocava em graus de simplicidade distintos na vida. Emprego ruim? Se demita. Celular quebrado? Compre outro. Era uma tolice ora perversa, ora só infantil. E foi acreditando nessa infantilidade que Clarice não conseguia inteiramente culpá-la, só queria ser tola com dinheiro igual. Portanto, não apreciou vê-la ali, com o olhar morto e as cartas cravadas no tapete. Falou qualquer coisa:

“É estranho não mencionarem muito a cunhada da Ofélia Rios, né? Aliás, estranho nada, foi ela que começou a falar pro marido que Ofélia queria a casa só para ela. Mas não devem botar isso no guia porque a pousada foi invenção dos filhos dela, os sobrinhos da Ofélia.”

O rosto de Judith era infeliz quando disse.

“Essa casa… Eu pensei que uma volta lá fora iria melhorar. Pensei que ia poder conversar. Me sentir diferente. Mas a música não tinha feito isso antes, então é claro que… Que isso não deu certo também.”

“É por isso que você não… Não está mais lendo o tarot? Está difícil? É a casa?”

“Essa viagem foi um erro. Essa casa, as lembranças… Eu não consigo.”

Clarice não entendeu, mas deixou-a chorar até que as lágrimas secassem.