Um Círculo de Flores
11 Chegou rápido! Que tal descansar um pouco?
A noite estava seca, mas a temperatura permanecia fresca e ventava. Elas decidiram fazer algo diferente do guia, levando toalhas de piquenique para o lado de fora do casarão, embora não tão perto do lago. Precisavam de um espaço mais aberto, para que o céu não fosse entrecortado por galhos. Iriam admirar as estrelas e, quem sabe, enxergar alguma caindo.
Antes de se deitar, Clarice se deteve. As luzes que vinham da varanda eram suficientes para que não ficassem desorientadas na escuridão, mas eram luzes amarelas e tingiam a cena com uma doçura que talvez não existisse ou fosse só muito breve. Como as flores do ipê, que rodopiavam ao vento e depois boiavam no lago escuro. Ela teve a intenção de fotografar a cena, mas ela funcionava melhor só como memória, fosse embaçada ou não. Também teve o delírio de querer entrar na água negra, se afundar onde as flores amarelas se amontoavam e continuar mergulhando até encontrar algo. O quê, sua imaginação não sabia.
Uma resposta, quem sabe.
Com as toalhas estendidas, garrafas de bebida por perto e repelente, Leda e Liana já fofocavam lado a lado, comentando de uma viagem que fizeram juntas anos atrás, durante o Ensino Médio. Clarice foi ouvindo, aliás tinha ouvido várias vezes sobre aquela viagem no último ano. A fuga para a praia. Os dramas de colegas nos quartos ao lado. Confusão no aeroporto. Os gastos. As festas. Tudo aquilo que não teve oportunidade de participar, mas que ela ouvia com educação — já que suas amigas ficavam empolgadas com o assunto e, de fato, nada podiam fazer contra o saldo bancário ruim de sua família. Outro ponto: reclamar sobre aquelas histórias ainda lhe daria a nuance de ciúmes, o que tecnicamente não era mentira. Mas Clarice gostaria que suas amigas enxergassem dor em seus olhos, não cobiça; e que assim pudessem oferecer certa cordialidade do silêncio.
Afinal, se o silêncio era fácil de lhe dar, ao menos que fosse nos momentos certos.
Judith, sentada perto, também não comentava tanto. Quando foi a vez de fazer essa viagem com sua turma, o controle que tinha sobre sua própria língua era igual ao controle com sua carteira e consumo de álcool: nenhum. As outras souberam de certos episódios por terceiros. Judith, com a expressão neutra, sempre afirmava que tinha sido uma viagem razoável e só. Satisfatória.
Elas conversaram e conversaram e o vento levou as palavras. Esqueceram um pouco do céu. E depois da segunda garrafa, Elaine apareceu para se juntar a elas. Judith levantou a taça:
“Chegou rápido! Que tal descansar um pouco?”
“Me poupe.”
De camisola cor de rosa, ela pegou o lugar vago na toalha estendida. Clarice notou sua expressão desgostosa ao tocar na garrafa de vinho e notar que já não estava na temperatura ideal. Nada disse.
Além do Cruzeiro do Sul, Clarice identificou apenas outra constelação que seu irmão tinha lhe ensinado. Mas nenhuma estrela cadente. Goles de vinho, comentários esparsos, vento. Quando ela fechou os olhos, a voz de Judith voltou:
“Por que você veio, Elaine?”
O tom era ébrio e venenoso, despertando todas. Liana levantou o torso e sibilou, em tom de aviso.
“Judith.”
“Isso é injusto.”
Mas ela terminava mais uma taça e não se incomodou com o desconforto que causara.
“Ora, e vocês não se perguntaram isso mas sessões fofoca das duas? Pelo amor de Deus, eu sei que sou a única com coragem de perguntar o que todo mundo está pensando.”
“A questão é que você não pode falar por nós, Judith.”
“Vamos, por que você veio, Elaine?”
Elaine era quase uma estranha no grupo, Clarice pensava. Não tinha estudado com elas. Mas até aí, não via problemas. Já não tivera que conviver com namorados e namoradas das amigas, gente ainda mais chata e todas seguiam a vida? E ela própria não ficava só às margens daquela suposta amizade entre elas?
A voz de Elaine veio esganiçada:
“Você sabe o porquê! E não é pela mesma razão que todo mundo aqui?”
Clarice até abriu a boca para tentar mediar o atrito. Ora, era por causa dela, não? Quem mais insistiria nessa viagem à Casa Rios? Antes de falar, porém, Elaine levantou.
"Você se incomoda porque eu realmente não precisaria estar aqui, né? Por ela. Mas você sim."
Foi tudo muito rápido. Judith jogou vinho nela. Vieram os xingamentos. Clarice não sabia quem era o principal alvo de ódio ali: Elaine ou Judith, a pobre Ofélia Rios, ou ela própria, que imaginou uma viagem bem menos tensa do que aquela.
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