Um Círculo de Flores
3 Está no quarto da pessoa mais velha da casa…
Ao se deitar, Clarice notou que permaneceria acordada por mais horas. Nada incomum, aliás. E para se distrair, repetiu para si própria que o barulho de grilos do lado de fora era bucólico e a melancolia em seu peito era apenas efeito do romantismo triste daquela casa. Pensou no contexto em que Ofélia Rios herdou-a tão jovem e com um irmão ainda mais novo: era só outro verão chuvoso de final de ano e sem empregados na casa, quando os pais morreram em um acidente no mar, em uma festa em um barco. O tio de Ofélia ainda assumiria as incumbências legais por um tempo, mas por dias ela foi a responsável da casa do interior. Bastou uma tempestade, uma maré, um telefonema.
Clarice pensou nela, no irmão e na passagem do Ano Novo que seria colorido de preto, não de branco. Pensou em como aquele sótão em que estava deitada, de súbito, tornou-se o quarto da pessoa mais velha da casa e essa pessoa era apenas uma adolescente. O irmão de Ofélia que, em relatos de biógrafos, comentava da dificuldade de puxar as escadas e ir vê-la. Ele era novo, talvez uns oito anos, ela logo seria maior de idade. Por vezes, naqueles dias em que ficaram ele, Ofélia e o luto, ela sumia em seu refúgio. Laerte, criança, não conseguia subir no sótão quando ela puxava a escada. Mas ele nunca relatava má vontade da irmã. Voltava falando versos, era muito responsável e carinhosa. Laerte só foi entender a gravidade daquele verão tempos depois; Ofélia absorveu o primeiro impacto.
Clarice virou, revirou e desvirou no divã que fez de cama. Levantou-se, acendeu um abajur de vidro verde e se pôs a observar o cômodo pintado pela luz diferente, pela noite. Entendia que quase tudo ali eram réplicas, como as anotações de Ofélia e os lápis que usava — pois ela preferia a democracia do grafite, não gostava do absolutismo da tinta — mas era quase como viver em uma fotografia. Esperava ver a autora ou ouvir as tentativas de Laerte puxar a escada do sótão.
E por fim, pensou nas suas amigas; se perguntou se elas entendiam a gravidade de tantas outras estações que viveram juntas, ainda novas. Às vezes, quando as encarava, tinha também a impressão de viver em um cenário antigo, uma fotografia ainda sendo revelada. Tudo aconteceria, mas na verdade já tinha acontecido segundos atrás.
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