Um Círculo de Flores
4 Próximo livro?
Durante a manhã, o grupo se reuniu para conferir a lista de sugestões de como aproveitar a estadia — e as sugestões eram separadas em temas, mais especificamente, em livros de Ofélia Rios. E como presente, ou então item devidamente pago por aquela viagem, vinha uma edição limitada e de capa dura de cada obra selecionada. A crítica interna de Clarice calou-se, pois sabia que existiam obras da autora que nada remetiam ao casarão no interior e a coitada escrevera livros alegres, até bobos. Nem tudo era sua infância, sua adolescência, sua dureza. E mesmo sabendo que as letras impressas no guia, “Próximo livro?”, tinham fins comerciais numa espécie de branding post-mortem, Clarice se flagrou divagando e discordando de si. Sim, Ofélia não era só sua juventude órfã, mas o quanto essas outras coisas que ela era — autora prolífica, funcionária pública, amante de plantas — não tornaram-se tentativas de se afastar dessas primeiras camadas?
Quis falar disso com Leda. Ela lia bastante, embora não Rios, e tinha paixão por Biologia no colégio. Hoje, era terapeuta ocupacional e entenderia que, das camadas do encéfalo, as estruturas mais internas eram também mais primitivas; regiam o involuntário, reflexo, o instinto. A infância, a casa, a morte: eram o bulbo de Ofélia Rios. O que era mais externo aumentara sua sobrevivência, mas não era seu fundamento. E por isso, talvez não fosse absurda a divisão de temas e livros no guia da pousada; mesmo obras laterais tinham raiz na dor.
Pela profissão que tinha, Leda poderia arejar sobre a vida, as limitações e as adaptações que Ofélia fizera para existir, ser autônoma. Mas aquilo tudo era só uma viagem, não? Um devaneio sobre a própria adolescência, anotações de Ensino Médio e Ofélia Rios se fundindo com o agora. E antes que Clarice pudesse se manifestar, a discussão sobre o que fazer encerrara-se: Iriam para o lago.
No guia, um próximo livro era “A arruda”, de óbvia capa verde. O enredo se focava na personagem recém-demitida, mas era sobre arrependimento. Pelo menos se passava numa praia distante, de clima festivo duvidoso.
E então, elas foram festejar também.
Era bom assistir suas amigas enfim rindo, mesmo que parcialmente às custas umas das outras: Judith tinha horror a águas turvas e se manteve no gramado, esticada sobre a toalha enquanto as outras nadavam. E é claro que isso gerou provocações. Que ícone esotérico era aquele que aceitava a escuridão do mistério, mas não de um lago? E que adultas insensatas eram as outras, que riam sem saber o que podia puxar seus tornozelos? Clarice tomou cuidado ao capturar as memórias com sua câmera, que não era à prova d’água; molhara só os pés e evitou ficar perto da algazarra, principalmente durante a briga de galo.
Já no gramado, Leda sentou-se ao lado dela, nas toalhas maiores que Elaine trouxera da casa. Clarice comentou sobre a beleza do dia apontando para o cenário, para as amigas; Leda assistia tudo com tranquilidade. Um dia, foram mais próximas e a fotógrafa ainda mapeava pontos imutáveis de amiga: preferia um romance policial, não resistia à uma quiche e evitava homens relacionados de algum modo com Química desde um término péssimo na faculdade.
Quis comentar sobre literatura, bulbos e reflexões piegas, mas se deteve. Lembrou-se ajustando o foco da memória. De fato, Leda assistia quase tudo com muita tranquilidade; até mesmo Clarice ser tratada com indiferença por outras amigas no final do colégio. Como já tinha aberto a boca para falar, limitou-se:
“Quem imaginaria que a gente ficaria juntas depois de tanto tempo, né?”
Leda, cujos olhos miravam o lago, não demorou para piscar rápido e mudar a expressão. Era ar de choro? Qualquer que tivesse sido o pensamento amargo ou agridoce, logo passou: ela soltou um arquejo de raiva e deu-se um tapa na coxa.
“Nossa, pernilongos insuportáveis!”
Judith, do outro lado, concordou e lançou-lhe o repelente. Clarice deveria estar realmente distraída: agora que reparava nos insetos. Não sentira nada na pele.
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