Um Conto de Zumbis.
1 Prólogo.
Notas iniciais
Sempre achei a vida meio monótona. Não particularmente a minha, mas no geral. Viver, procriar e morrer, para que a próxima geração faça exatamente a mesma coisa, até que o Sol nos engula e dê fim á tudo que criamos. Se o foco fosse achar um meio de escapar da Terra com vida ao invés de procriar, seria mais interessante. Não que eu não goste da ideia de fazer sexo e reproduzir a espécie. Só não tive chance de fazer o primeiro e por consequência, o segundo. Frustrante, sim, mas já superei esse fato que eu provavelmente nunca vou botar uma criança na Terra. Não é porque eu sou magrelo demais como o Cazuza no último mês de vida, ou por ser acanhado demais para fazer qualquer contato social com outros seres humanos, mas sim porque no final não vai dar em nada, porque todos nós vamos morrer e todas as nossas criações vão virar história. Por esse motivo, nunca me preocupei em manter relacionamentos com qualquer pessoa. É tudo efêmero. Obrigado Sol.
Meio depressivo? Talvez sim. Sem esperança? Completamente. Porém, por mais que o futuro não nos reserve nada de bom, ainda toco a MINHA vida pra frente. Empurro com a barriga, pra ser exato, mas ainda sim, em frente. Como todo ser humano "decente", completei toda o maldito ensino fundamental e médio, e agora pairo numa cidade aleatória, longe de toda a minha família e amigos do interior, para completar meu papel de universitário e conseguir um emprego medíocre e desinteressante depois. Quem sabe ascender alguns cargos depois disso, apenas para auto-satisfação. E por fim, deixar esse mundo sem o meu legado na Terra, por opção inteiramente minha. Desculpa, pai e mãe, a linhagem dos Bassani acaba comigo.
Enquanto isso, o resto dos universitários dessa cidade grande "aproveita a vida" ao máximo. Como, eu me pergunto. Só o que consigo fazer é ficar trancado em casa, tentando transformar meu porte físico de aidético em algo mais ou menos normal, como o Christian Bale em O Operário. É, aquilo seria um avanço. Mas parece que comer apenas miojo não adianta muito para tentar ganhar quilos. Tenho que mudar a tática, e procurar outras formas de ganhar peso ou massa. Academia nem pensar. Não tenho tanto dinheiro pra poder gastar em Academia, ainda mais agora que vivo sozinho num apartamento totalmente silencioso e opressor.
Não que eu esteja reclamando. Não, não. O apartamento onde moro é bom. Bom não, ótimo. Infelizmente, não adquiri os genes de socialização dos meus familiares, que através das amizades de longa data com várias pessoas, conseguiram uma cobertura com uma varanda imensa por um preço ridículo para a minha pessoa residir confortavelmente. Dois quartos, um de casal e um de solteiro. O de casal, com janela dando direto para a varanda, ou seja: acordar com a luz daquele que vai nos engolir em alguns bilhões de anos. Delícia. É como ter um Big Mac para comer todos os dias inteiramente de graça: você sabe que alguma hora aquilo vai te matar, mas você não dá a mínima e aprecia ao máximo. O de solteiro é completamente mais simples, uma área do tamanho exato da cama, com uma janela dando para o prédio da frente. Engraçado, mas acho o de solteiro muito mais aconchegante. Por esse motivo, é onde eu durmo. Foda-se a cama de casal super espaçosa e fofa. Aquele cubículo é meu espacinho no mundo. Minhas regras, vadias.
Vamos pra sala. Um sofá em um canto, com uma cama embutida por baixo, e uma estante no canto oposto, com uma televisão generosamente esquecida pelos donos anteriores. Muito obrigado. É um espaço bastante grande
pra apenas uma pessoa. Não vou negar: nessas horas, sinto muito a vontade de possuir vários amigos, e chamar todos eles para jogar videogame e se divertir um pouco. Mas meu pessimismo e meu antissocialismo afastam essa possibilidade. Já aceitei o fato de que sou um lobo solitário. Não que eu me ache melhor que os outros, que eu sou o escolhido, uma águia no meio das ovelhas, ou o Deus do Novo Mundo. Simplesmente minhas habilidades de socialização são mínimas, o que me leva ao triste fato de que, sim: Morrerei sozinho. Agora bola pra frente.
Primeiro de tudo, preciso me levantar da cama. A parte mais difícil de todo o dia. Como não tenho precisão do horário atento meus ouvidos para o lado de fora. Silêncio. Silêncio quase absoluto, quebrado pelo barulho solitário de um carro ou outro, em intervalos de três minutos, mais ou menos. Já que esse silêncio todo é algo impossível de se ter no centro da Cidade, deduzo que seja de madrugada. Ótimo. Mesmo. Não existe período melhor que a madrugada para ficar acordado. O ambiente leve e a noite simplesmente acalmam todo o ambiente. Me levanto com um ânimo a mais, abro a porta e entro no corredor que dá para a sala. Abro a janela que fica na parede entre o sofá e a estante, apenas para sentir o clima. Friozinho. Obviamente, pela época do ano, vai fazer um calor do caralho pela manhã e tarde. Uma pequena amostra do que o Sol fará conosco daqui alguns milênios. Mas na madrugada é possível ignorar o fator calor e pelo menos fingir que estamos no outono. Dou a volta na cozinha, que se separa da sala apenas por uma mesa americana e que ao mesmo tempo é por onde é possível acessar a varanda. Quero dizer, é possível acessar pulando a janela do quarto de casal também, mas quem diabos faria essa macaquice?
Antes de ir para a varanda, pego um casaco de flanela. Sei que é verão, mas o frio da madrugada é realmente FRIO. Checo os bolsos dela, e acho uma nota de dez reais. Que ótimo. Mais miojo para mim. Guardo a nota e me dirijo á varanda. Uma varanda absurdamente grande, diga-se de passagem, tipo, caberiam fácil vinte pessoas na área sem se apertar. Mas como não conheço nem cinco pessoas direito, não tem muita utilidade. Pelo menos, a visão é de praticamente 360º de Pelotas. Tirando a parte em que o prédio da frente tapa, por possuir onze andares contra os pobres seis do meu apartamento, é possível ter uma visão completa do lugar. Sinto o frio da madrugada quando respiro. O ar gélido, prazeroso de inalar, parece que leva parte das preocupações pra longe. Me apóio na beira da mureta que me impede de cair para morte certa e fico admirando o cenário. Não há muitos prédios maiores que o meu. Além do que há exatamente na frente do meu prédio, é possível contar nos dedos das mãos quantos prédios são maiores do que o que eu resido. Não é literalmente uma cidade grande, mas comparado com de onde eu vim, já é muita coisa.
Quando a escuridão dá os primeiros sinais de que vai sumir, decido fazer um café por questões de sobrevivência. Não dá pra passar o dia sem um café preto. Então volto para dentro de casa, e começo o ritual da concepção daquele que me sustenta, ó glorioso negrão amargo. Como sou uma moça fresca, não pego a água da torneira da pia. É totalmente anti-higiênico e tem a possibilidade de dar uma caganeira braba, mesmo fervendo até matar as bactérias. Mas também percebo: não há mais água na geladeira. Então, decepcionado pela necessidade de ter que sair e por ser um viadinho, pego as chaves do apartamento, calço meu All-Star preto e pego minha mochila e saio. Ao invés de pegar o elevador, decido descer as escadas, sem motivo nenhum. Ué, porque não?
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