Um Conto de Zumbis.
2 Assalto à Loja de Conveniência.
Notas iniciais
Lógico que me arrependi. Quando finalmente cheguei no térreo, depois de descer algumas dezenas de lances de escandas, a sensação de que o gostoso ar da noite tinha se transformado em partículas de oxigênio envoltas por pequenas serrinhas do mal destruindo minhas fossas nasais e pulmão me fazia ofegar como Sasha Grey em qualquer vídeo que ela não estivesse com a boca ocupada. Levei uns bons dez minutos para me recuperar. Decididamente, eu devia caminhar mais. Ou não. Ok, decididamente, eu devia pegar mais elevadores. Enfim, saí do maldito hall para as ruas quase amanhecidas de Pelotas, e fui atrás de algum posto 24 horas que pudesse suprir minha necessidade de água pura e bebível.
Depois de circular algumas vezes pelas calçadas normalmente vazias, cheguei no posto mais próximo, a umas três quadras do apartamento. Era engraçado como o posto se destacava na noite, iluminado pelos letreiros normes que indicavam que havia um posto 24 horas lá. Parecia como o "objetivo" em algum jogo de videogame, em que o próprio jogo se dava ao trabalho de destacar exatamente aonde eu deveria ir naquele cenário escuro e macabro. Estranhamente, não haviam frentistas atendendo os poucos motoristas que lá esperavam para encherem seus tanques ou qualquer coisa do tipo. Exceto pela movimentação desses poucos motoristas, não haviam mais muitas pessoas na rua. Devia ser umas cinco da manhã agora, então não era nada de surpreendente. Eu acho que é até melhor assim. Entrei na lojinha e, que surpresa, vazio também! Que ótimo. Peguei a maldita garrafa de água de 1,5 litros do freezer da loja e me direcionei ao atendente fantasma. E esperei. Parado, na frente da bancada, fiquei esperando até que alguém aparecesse. E por longos vinte minutos foram apenas eu na lojinha e os motoristas do lado de fora esperando que um anjo vestindo uma camisa cagada de sujeira e líquidos aparecesse pra nos salvar.
Sinceramente, esperar é uma coisa que eu odeio. Esperar e deixar os outros esperando. Depois de mais dez frustrantes minutos, decido pegar toda a prateleira das bolachas e tacar na minha mochila, só de birra mesmo. Com a minha sorte, algum funcionário apareceria na hora para me prender e chamar a polícia. Mas não deu em nada. Apenas eu, agora botando várias garrafinhas de água na droga da mochila, e ninguém para me repreender. Vou admitir: era divertido. Claro que eu estava apavorado, imagina se não. Se me pegassem, era xilindró na hora, eu acho. Mas tudo parecia tranquilo e quieto lá fora, e nem sinal de algum funcionário. Porém, o posto de gasolina já estava bem mais cheio, com carros enfileirados de modo que bloqueava a estrada. Por sorte, nenhum deles parecia interessado em entrar na loja de conveniências. Pareciam estranhamente apressados. Muitas, muitas buzinas agora.
Foi quando atrás de mim, eu ouvi uma porta se abrindo. Vinha do banheiro que ficava no canto oposto ao que eu me encontrava. Junto com a pessoa que o abria (um funcionário! Que vestia a costumeira camisa podre de frentista e um boné que cobria seu rosto) vinha um cheiro horrível, que enojou e me causou ânsias de vômito. Desnecessário dizer, meu esfíncter encontrava-se lacradíssimo na hora. Agora era hora de quem quer que seja me encontrar e "chamar os tiras". As duas prateleiras que haviam no meio do estabelecimento e que separavam-me do cagão não batiam no meu peito, então instintivamente eu me joguei no chão e sentei, de costas para a prateleira mais próxima de mim, de modo a me esconder. A ideia foi uma merda, óbvio. Aquela posição deixava mais que evidente que eu estava fazendo alguma merda. Meu coração batia muito rápido agora. Na minha cabeça, várias imagens do que vinha pela frente passavam pela minha cabeça. A decepção da família, os colegas de cela retirando minhas pregas, coisas do gênero. Minha respiração ofegante era encoberta pelas muitas buzinas agora, de todas as pessoas que provavelmente queriam encher seus tanques e dar o fora dali logo. Mas o funcionário, ao invés de dar uma vasculhada na loja, saiu dela com passos extremamente lentos e foi se dirigir aos clientes. Suspeitei que fosse algum idoso, para demorar o tanto que levou para chegar ás portas automáticas, que eram praticamente do lado do banheiro fétido. E fétido era elogio. O vovô devia ter exagerado no Activia de ameixa. Ainda por cima, o Matusalém murmurava alguma coisa que eu não entendi. Coisa típica de velho. Felizmente, quando o titio atravessou as portas e elas se fecharam, percebi que eu ainda tinha uma chance de não ir pra cadeia. E eu ia aproveitar com certeza.
Quando me levantei, olhei através das portas automáticas transparentes, e o que vi foi todos os motoristas exigindo satisfações com o pobre frentista, formando um círculo á sua volta, todos gritando e gesticulando ameaças. Isso tudo na frente do estabelecimento. Coitado do vovô. Ele parecia acanhado, curvado. Porra gente, é apenas um frentista. Um só. Peguem leve com o coitado, ele estava com uma caganeira braba até agora. Como ele estava de costas pra porta e, consequentemente, pra mim, não pude ver sua expressão. Mas apenas pela sua posição dava pra ver que o frentista estava acuado, botando as mãos na frente do corpo como forma de se proteger da enchurrada de ódio e reclamações dos motoristas insatisfeitos e com pressa. Por mim, ótimo. Foquem no frentista e não me notem enquanto sutilmente tento sair daqui. Quando me viro para fechar a geladeira aberta (porque caralhinhos eu me prestei em fechar a porta eu não faço ideia), ouço gritos do lado de fora. Cara, como os gritos das mulheres se sobrepõem aos dos homens. Procuro a razão dos gritos e percebo que o frentista resolveu partir para a agressão. Enquanto ele dava cabeçadas e enforcava o pobre motorista, que tentava se livrar do frentista enfurecido, o resto das pessoas que haviam formado o círculo da opressão e tirania se dispersava, correndo de volta aos seus carros. Aproveitei a deixa e fugi também, me entrosando na multidão com bolachas e água que davam pra uma vida inteira na mochila. Claro que eu não corri tanto, não havia feito nada para o pobre frentista para ele me atacar, e era improvável que ele me alcançasse de qualquer maneira. Enquanto isso, o resto das pessoas parecia querer fugir á toda velocidade. Óbvio que ia dar merda e que ia rolar algum acidente com aqueles motoristas apressados, mas eu não ia ficar ali para ver.
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