A festa ia desenrolando-se de uma forma insólita. Primeiro de tudo, Apolo fazia falta com sua animação, e ele estar em uma cabine junto com Ártemis não era algo que fazia as coisas tornarem-se mais normais. Segundo, Dionísio, e este não era o fato surpreendente, já tinha bebido uma quantidade de álcool absurda, mas ao invés de estar animado como em todas as outras festas, sua carranca era mais aprofundada do que o normal, e ele respondia atravessado a todas as perguntas que lhe faziam. Isso quando não era ele a começar alguma discussão ridícula com a primeira pessoa que aparecia à sua frente — geralmente o barman, que a essa altura já estava começando a se irritar de verdade. Pelo menos o deus não parecia entediado enquanto brigava.

Já Zeus com certeza tinha tédio no rosto, sentado de costas para o cano central por obrigação. Lá dançavam, sensuais e vulgares, as ninfas que haviam sido convidadas.

– E por que mesmo você convidou esses vermes, Afrodite?

A deusa da beleza fuzilou as dançarinas com os olhos, os braços cruzados.

– Nem eu sei, Hera. Aliás, onde está Ares? Se eu pegar aquele infeliz olhando de novo para elas eu juro que faço uma greve de sexo por um mês! — exclamou ela, soando indignada — Eu devo ter dançado na cruz para merecer uma coisa dessas!

– Sabe que é uma coisa completamente irônica você dizer isso, não sabe? — perguntou Hermes, divertido, desviando o olhar do poste para ela, o corpo sentado em um dos banquinhos do bar.

Afrodite bufou, ignorando-o, e voltou o olhar para o cano, este olhar que foi perdendo a raiva em poucos instantes e logo esquadrinhavam o lugar por uma razão desconhecida ao deus que ainda a observava, percebendo a expressão preocupada que ela havia vestido em tão pouco tempo.

– Ares tinha me dito que foi no banheiro. Só não posso garantir o que ele está fazendo lá.

– Hum? — fez a deusa, olhando momentaneamente para Hermes. — Ah, não, não, eu estou procurando Atena. Você a viu, por um acaso?

Ele deu de ombros, meio surpreendido.

– Não faço ideia de onde está, acho que não chegou ainda. Ou talvez ela nem venha, não sei mesmo.

– Mas por que ela não viria?

– Afrodite, isso é uma despedida de solteiro.

– Oh não, mas eu disse que não iriam ter strippers no convite, e pedi para que ela viesse.

– É, eu vi, mas se ela não apareceu até agora deve ter decidido te desobedecer. Bem, como eu disse, existe a opção de ela estar vindo, mas acho pouco provável, pra ser sincero.

E dizendo isso, virou um resto que ainda estava em seu copo e se levantou, abrindo um sorriso, alheio à preocupação que tinha feito crescer drasticamente na deusa.

– O que eu faço com as minhas roupas para entrar na banheira?

– Você vai achar cortinas para se trocar logo ali do lado, e um armário pra colocar suas roupas — informou de forma automática, os seus olhos ainda levemente maiores pela conclusão dele que, pensou ela, já deveria ter tido.

– Certo, obrigado — disse, se encaminhando para lá com um sorriso.

Ela sorriu de volta, e logo depois fechou o rosto e olhou à sua volta novamente, dessa vez de forma mais desesperada.

– Oh meus Deuses... — sussurrou Afrodite para si mesma. — E onde está Poseidon agora?

Tendo olhado em cada canto, sem ter êxito em encontrar Atena ou Poseidon, moveu os pés com agilidade para o lado de fora e, para uma parte de seu alívio, seus olhos avistaram o deus dos mares. Lindo como o deus grego que era, tinha os cabelos voando levemente pela brisa fria, as mãos no bolso e o olhar perdido nos lagos que observava, sua expressão calma desmentindo a inquietude que provavelmente estava sentindo. Afrodite aproximou-se, tocando-lhe o braço e fazendo com que ele se virasse bruscamente para ela, os olhos verdes brilhando de esperança, e esta mesma desaparecendo em questão de segundos.

– Afrodite. Estou começando a ficar muito preocupado.

– Sim, eu também. Ela não pode simplesmente ter decidido não vir, pode?

– Ah, sim, ela pode, e é por Atena ser quem é que a minha preocupação só aumenta. Estamos em uma despedida de solteiro, ela estava passando um pouco mal por causa da poção da última vez que eu a vi, e, bem, tenho certeza que ela também pode inventar outros mil motivos para não vir. E o que a gente faz se isso acontecer?

– Não, isso não pode acontecer, não pode. Vamos esperar ela por mais trinta minutos, e aí, se Atena não estiver aqui, nós tomamos medidas mais drásticas.

– Não podemos tomar as medidas drásticas agora?

– Só mais trinta minutos — insistiu ela -, e eu prometo que vamos procurá-la.

Ele suspirou, os olhos tristes.

– E onde estão Apolo e Ártemis?

– Lá dentro, não sei em que lugar exatamente. A parte boa é que eles estão juntos.

– E a parte ruim é que essa é a única parte boa dessa noite até agora.

– Não se desespere, vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo — repetiu, mais para si mesma do que para ele, como se isso ajudasse de alguma forma a acalmá-la.

– Tenho que acreditar nisso — ele soltou o ar dos pulmões, bagunçando o cabelo negro com uma mão e voltando os olhos para a paisagem.

Afrodite observou-o por alguns instantes, apenas para olhar na direção que os olhos dele apontavam. Ela percebeu as próprias pálpebras se fechando para deixar o vento acariciá-la. Ficou parada ali por alguns instantes sem dizer nada, apenas sentindo a brisa. Então, lembrando-se de algo, virou-se para ele.

– Poseidon? Você disse que Atena passou mal por causa da poção?

Ele não desviou o olhar do horizonte, mas seus lábios se abriram em um pequeno sorriso.

– Ela apareceu... em Atlântida. Hoje.

– O quê?! — Afrodite arregalou os olhos, os lábios curvados.

– Ela foi até lá pra saber o porquê de eu não ter ido junto com ela para arrumar os preparativos do casamento, já que tinha acompanhado Atena em todos os outros dias.

Poseidon fez uma pausa, sorrindo como se a lembrança o agradasse imensamente. Olhou para Afrodite, e viu que os olhos da deusa brilhavam de excitação.

– E?

Ele riu, uma risada gostosa que levou toda a preocupação para longe no tempo em que se prolongou.

– Ela ficou toda vermelha, e logo depois eu contei da minha saudade e... nos beijamos, por um tempo tão curto que mal pude começar a mostrar o quanto a amo. Mas acho que ela percebeu, já que a poção fez Atena surtar do mesmo jeito de ontem.

– Awnnnn.

Poseidon ergueu uma sobrancelha, ainda que seu sorriso não tivesse desaparecido.

– Você acha isso fofo?

– Mas é claro! Vocês se beijaram!!

– E logo depois ela começou a gritar feito uma doida que me odiava.

– Puff, mas isso, como você mesmo disse, é a poção fazendo efeito nela. Ela te ama tanto, que precisa esconder isso fingindo dentro dela um ódio por você. — e então Afrodite sorriu maliciosamente, enigmática.

Poseidon encarou-a por alguns momentos, pensando que só poderia ter interpretado errado aquela frase acompanhada daquele sorriso.

– Você não pode estar insinuando uma coisa dessas.

– Mas eu estou, oras, é a mais pura verdade.

– Afrodite, Atena talvez me ame agora, mas isso não significa que simplesmente fingia me odiar antes dessa semana.

– E você não amava ela?

– Eu? Não, é claro que não.

– Engraçado, é como se você ainda estivesse na fase de negação.

– Afrodite, eu sou apaixonado por ela agora, mas não gostava dela antes. Não suportava Atena.

Ela soltou uma risadinha.

– Você a ama desde que ela pisou os pés no chão pela primeira vez, ou acha que nunca percebi isso? Eu sou a deusa do amor, Poseidon.

– O quê? Eu admito que sempre achei ela linda e sempre fui atraído fisicamente por ela, mas amor? É uma palavra muito forte.

– Sim, é tão forte que aquele apaixonado pode acabar inventando um ódio pela sua amada simplesmente porque sabe que os dois nunca poderão ficar juntos.

– E por que nós não poderíamos?

– Muito simples: porque você achava que ela te odiava.

– Porque é assim que sempre foi.

– Não, não é. Atena, uma deusa que jurou castidade, que tem o seu título de sabedoria e é conhecida por sua racionalidade, de repente se vê apaixonada por um homem. Qual é a primeira coisa que você acha que ela faria? Ela fugiria, ela tentaria esquecer de todas as formas. O amor é irracional, Poseidon, ela não insistiria nisso, principalmente logo após ter nascido, época em que sua imagem ainda não tinha sido criada. — ela fez uma pausa, olhando para ele.- Mas é mais forte do que ela, que mesmo sendo uma deusa muito poderosa, não consegue deixar de pensar em certos olhos verdes e no som de uma risada. E então? Qual é a saída deste problema? Ora, ela que sempre conseguira desvendar todos os enigmas que passaram pela sua frente, não consegue se livrar de algo tão fútil como o amor? Talvez ela tenha pensado em impor o ódio, sentimento igualmente forte, para tentar esquecer você. Ou talvez, estivesse tão frustada por você tê-la deixado assim, que uma chama de raiva acendeu nela, e tudo o que Atena precisou fazer foi alimentar esse fogo. Seja como for, o tempo foi passando e ela passou a acreditar fielmente nisso, e como a pessoa equilibrada que sempre foi, ou fingiu ser, seus sentimentos foram interpretados da forma como ela queria: Atena odeia Poseidon. A partir daí, Poseidon odeia Atena.

Afrodite ficou em silêncio, observando-o. Poseidon tinha as sobrancelhas franzidas, os olhos confusos.

– Certo. Ou isso, ou ela simplesmente me odiava.

– E de repente começou a gostar de você? A deusa racional é enfeitiçada, vai se casar, mas se apaixona em menos de uma semana pelo deus dos mares que sempre odiou? Pense bem, Poseidon, você também dizia que a odiava, mas quando soube que os dois iriam se casar, passou a ir atrás dela. Não estava aqui, não vi como você recebeu a notícia, mas para tudo isso ter acontecido, vocês não podem ter simplesmente se esbarrado pelo Olimpo e decidido que passariam a se amar.

Os olhos verdes atentos brilharam por dois segundos.

– Como... Como você faz isso?

Afrodite abriu um sorriso, satisfeita.

– É tão óbvio que passa despercebido.

– Pelo amor dos Deuses, você não pode achar que tudo isso é óbvio.

– Para uma pessoa que prestasse a mínima atenção era, e eu sempre estive muito atenta a vocês dois. Sabia que os opostos se atraem?

Ele rolou os olhos para o sorriso dela, mas acabou abrindo outro, de lado.

– Como eu não me lembro então de ter passado por isso? De ter amado ela e desistido porque ela me odiava?

– Porque provavelmente foi inconsciente, e você fingiu confundir seu amor pela sua atração por ela.

Poseidon deu de ombros.

– Aceito a hipótese sobre mim, mas é bem mais difícil aceitar a de Atena.

– Mas é claro que é, talvez nem ela saiba disso tudo, e isso é algo completamente inédito, visto que Atena sempre sabe das coisas. O que estou tentando dizer é que, sinceramente, acho que o que se passou pela cabeça dela, toda essa complicação, foi tão inconsciente quanto o que aconteceu no seu caso. Talvez só o que ela se lembre seja de te achar maravilhoso na época, embora eu tenha certeza de que ela nunca admitiria isso. — ela fez uma pausa, abrindo outro sorriso malicioso. — A não ser que você a fizesse dizer, é claro.

– A ideia me agrada.

– É claro que agrada — riu ela, Poseidon mantendo seu sorriso.

Afrodite lançou um olhar estranho para ele, como de quem sente saudades.

– O que foi?

– Hum?

– Por que você 'tá me olhando desse jeito?

– Ah... Estava pensando... Posso contar um segredo?

– Hum... Eu posso pensar sobre isso e te dar a resposta amanhã?

– Sem gracinhas, por favor.

Ele deu de ombros, sorrindo.

– Neste caso eu lhe dou a minha permissão.

– Certo — sorriu, lançando-lhe um olhar mais ameno logo em seguida. — Ia dizer que, sabe, acho o seu amor por ela lindo e que, embora torça também por Apolo e Ártemis, você e Atena sempre foram meu casal favorito. — de repente, ela foi abrindo um sorriso caloroso e triste, como se estivesse se lembrando de algo. — Em cada briga... Em cada briga imaginava você se aproximando, a voz grave fazendo ela perder um pouco a concentração, mas, nunca se rendendo, continuando a chegar perto, até que você não aguentasse mais, e, em meio a tantos xingamentos, a agarrasse e a beijasse como se... Como se necessitasse daquilo, como se precisasse mostrar que não eram aquelas palavras jogadas e vazias que mostravam o que realmente sentia.

Os lábios de Poseidon estremeceram, e ele olhou para os olhos molhados da deusa, perguntando-se como nunca admirara a paixão que ela trazia neles.

– Pra ser muito sincero, já quase fiz isso, muitas vezes.

Afrodite sorriu, chorosa.

– E ainda tem coragem de dizer que não a amava.

– Isso está ficando dramático.

– Já está dramático há muito tempo.

Ele riu, analisando-a depois por alguns segundos.

– Acho que deveríamos entrar, ver se ela chegou.

A deusa suspirou, assentindo com a cabeça lentamente enquanto lançava um olhar ao salão de festas.

– Vamos lá enfrentar os nossos problemas.

E aquele lago realmente era o perfeito refúgio.

Notas finais
Estou muito sumida, eu sei, perdoem-me a demora, se é que vocês ainda acompanham a história :/ Bem, ando um pouco sobrecarregada nesses últimos dias, então espero realmente que entendam que não é porque deixei de amar vocês ou qualquer coisa relacionada a isso, porque é horrível até pensar nisso. É. E vou responder os outros reviews nesse final de semana, nem que seja de domingo à noite, prometo. Agora sobre o capítulo, eu viajei, assim, completamente /risos. Espero que tenham gostado, vou tentar me concentrar um pouco mais no próximo ;) Mas fazer o quê, essas explicações de Afrodite são tão... tão o que eu penso sobre eles que eu acabei não conseguindo me conter. Vocês sabem como é *U*