Um Casamento Um Tanto Bagunçado
44 Atena perde alguns sentidos
Atena não sabia como tinha parado ali. Chegara há algum tempo, sem preocupação alguma, atrevendo-se inclusive a ligar o rádio e dançar sozinha. Agora, porém, ia diminuindo seu ritmo, estranhando a situação. Olhava para os lados, o cenho inteiramente franzido, a cabeça completamente confusa. Por que raios estava naquela sala? A música mudara, ela não sabia como, e podia perceber que estava colorida pela luz vermelha. Perdida em sua confusão, talvez não tivesse notado quando ele entrara pela porta, mas ela poderia jurar por todos os deuses que não ouvira nenhum ruído. No entanto, lá estava Apolo, em um canto mais escuro, os olhos azuis brilhantes voltados em sua direção. Trazia um sorriso aberto no rosto que arrepiou-lhe a alma.
– Me desculpe por não ter aparecido pra te ajudar. Eu senti saudades.
Atena sorriu, sentindo algo horrível a corroendo por dentro.
– Sentiu, é?
– Aah!, e como senti.
– Então prove — ouviu-se dizer, sua voz soando firme e distante ao mesmo tempo, como se fosse se dissolvendo aos poucos.
O rosto de Apolo desmanchou-se em um riso, e ela o acompanhou, mesmo que não entendesse o motivo, mesmo que fosse a última coisa que quisesse fazer.
– Só se você jurar que me ama de verdade — sussurrou, caminhando lentamente até ela.
Atena prendeu a respiração. Naquele momento, conseguiu controlar os próprios lábios para não abrir um sorriso, mas uma dor terrível lhe deu uma pontada na cabeça, e ela sentiu as pernas ficarem bambas. Via Apolo aproximar-se sem poder fazer nada, enquanto seu coração pesava no peito. Por um momento, sentiu algo tão ruim que sua visão ficou turva de lágrimas. Seus pés pareciam presos ao chão, a dor presa a ela. Então sua cintura foi pressionada pelas mãos dele, e Atena esqueceu-se de qualquer rumo de pensamento enquanto olhava-o nos olhos. Eram de um azul tão, tão lindo...
– Jure para mim.
Ela notou com um sorriso entorpecido o quão dourados eram os seus cabelos. Atena poderia ter se derretido, se não fosse sua vontade continuar ali para sempre, apenas sentindo o calor dele.
– Eu estou completamente apaixonada por você — suspirou, os olhos inebriados.
Ele abriu um sorriso de muitos sonhos.
– Eu amo você, Atena — e sem aviso prévio, seu rosto tomou outro rumo. As sobrancelhas fecharam-se, a boca não mostrava qualquer resquício de paixão, emoldurando uma cena que poderia ter passado a ela um profundo medo, se não tivesse ido embora tão rapidamente quanto viera. -, sempre lembre-se disso.
Atena beijou-o em uma estranha necessidade, o coração a mil, a cabeça repleta de desejo. Não via nada, nem a si, nem mesmo Apolo. Era como se estivesse cega, e não parecia, embora isto fosse inexplicável, que havia qualquer relação com os seus olhos ternamente fechados. Amava-o de todo o coração.
De súbito, ouviu estranhas batidas, e abriu os olhos. Ainda podia ver. Mas, era curioso, como tinha ido parar no sofá? Viu Apolo em cima de si, e seu sorriso a chamar-lhe para outro beijo. Porém, ainda ouvia aqueles toques na madeira, aumentando cada vez mais de altura, tal era o desespero de quem os produzia. Mas onde estavam? Estaria cega novamente? Enxergava Apolo, e sorriu de alívio. Era a única coisa que importava. Beijou-o novamente, sentindo-o quase lhe despir a blusa conforme passeava com as mãos pelo seu corpo.
"Atena!!", chamou algo, em algum lugar, com certa necessidade.
Levantou a cabeça, procurando com as sobrancelhas juntas de preocupação de onde vinha aquele som. Apolo fez carinho em seu rosto, e ela esqueceu-se em um segundo do que ouvia. Ele aproximou-se, tomando-a de beijos no rosto, beijando os lábios dela como se fossem sua propriedade.
"Atena!!!", gritou-lhe a mesma voz, com ainda mais força, parecendo desesperada.
Ela lutou para sair de um beijo, e ofegou de confusão. Sua cabeça doía. Por que estava ali? Precisava desesperadamente chegar àquela voz. Ele a puxou novamente com um sorriso, mas ela o afastou por um momento. Então viu uma ira atingir-lhe os olhos novamente, e ela sentiu o coração desandar.
"ATENA!!"
Nunca tinha sentido tanta vontade de fugir. Seus olhos estavam molhados quando ela se levantou, mas não adiantou nada. Apolo puxou-a até que ela caísse em seu colo, e a paixão voltou, como se nunca tivesse ido embora, aos dois lados, e os gritos foram sumindo aos poucos. Sua cabeça parava de doer. Ela finalmente sorriu, completamente em paz. Estava finalmente surda. Beijou os seus lábios de sol com toda a vontade.
"ATENA!!... ATENA!... OH meus Deuses, por favor, abra a porta!!"
Atena abriu os olhos, a respiração ligeiramente ofegante, o consciente inconsciente de tudo. As batidas haviam parado, mas ela ouvia um choro do lado de fora de sua porta. Com uma mistura de alívio e incredulidade, percebeu que fora um sonho. Mas seus olhos derramaram lágrimas como se ainda estivesse naquele lugar. Fora horrível. Passou a mão pela toalha que ainda envolvia o seu corpo, agarrando o lugar onde misturava-se o seu coração. Não poderia colocar em palavras, mas as gotas pareciam explicar tudo o que sentia. Lembrando-se inevitavelmente de que não eram suas únicas companheiras, sendo que o choro lá fora aumentava a cada instante, levantou-se da cama, as lágrimas ainda escorrendo, e apoiou a mão delicada na maçaneta.
– A-Afrodite? Está sozinha?
– ATENA! — e o seu grito fora tão alegremente alto que a deusa deu um pulo, por um momento afastando-se da porta e afastando-se de novas lágrimas. Um sorriso ocupou-lhe o rosto mesmo que tudo estivesse terrivelmente errado. — OH, nem acredito!! Poseidon foi te procurar na biblioteca, então estou sozinha! Atena, pelo amor dos Deuses, você me mata de susto assim! Achei que tinha morrido!!
Atena simplesmente não conseguiu conter uma risada. Enxugou as lágrimas e abriu a porta de modo que ficasse atrás dela, já que ainda estava sem roupas.
– E como poderia ter morrido? Eu sou uma deusa imortal.
– Ora, mas nunca se sabe! — exclamou ela, fechando a porta atrás de si e mostrando a maquiagem inteiramente borrada, os olhos vermelhos arregalados. — Pensei logo em suicídio! Oh, Atena — ela a abraçou como se quisesse amassá-la -, sabe que eu amo você, não sabe?
Afrodite se afastou por um momento, ainda segurando os seus braços e olhando-a nos olhos, os seus mais abertos e aflitos do que o possível.
– Oh, meus Deuses, você sabe, não é?! É por isso que não foi hoje? Eu juro que amo você!!
Atena não segurou a risada mais uma vez.
– É claro que eu sei, também amo você, Afrodite. Mas você realmente é dramática demais. Suicídio? — ela bufou, mas, de repente, sentiu os olhos marejarem — Eu não estou tão mal assim... Estou?
A deusa do amor guinchou de tristeza.
– Awn, não aguento ver os seus olhos vermelhos assim. O que aconteceu? Por que não está na festa? E por que só me atendeu agora? Se fosse preciso eu chorava junto com você!
Atena sorriu, os olhos incertos e carregados.
– Obrigada, Afrodite, mas não foi algo voluntário, eu... eu juro. Tomei banho há algumas horas atrás e deitei em minha cama. Acabei dormindo e tive... Um pesadelo. Ah, Afrodite, você não sabe como foi ruim. Minha cabeça ainda dói.
– Oh, o que aconteceu? Pode desabafar, se quiser, Atena, eu sou toda ouvidos.
– Bem... Você pode achar que não foi nada demais, é só que... Ah, nem sei se consigo explicar o que senti enquanto sonhava. Estava na sala de Poseidon. Na sala que, er, estive hoje com ele — ela ficou vermelha, se interrompendo de repente. — Quer dizer, não que eu tenha ido por vontade própria. Na verdade, bem, eu fui, mas é porque tinha que tratar assuntos com ele. Hum, certo, o sonho — ela praguejou mentalmente enquanto tentava ignorar o sorriso de Afrodite. — Eu estava na sala, feliz e dançando, até que percebi que a situação era estranha, e parei o que fazia, e até as luzes mudaram de cor. Estava confusa, não sabia porquê estava ali. Então Apolo chegou. Meu estômago se revirou, mas... Não foi de uma forma boa. Senti dor de cabeça, e era como se eu não controlasse minhas reações. Ele pediu para eu jurar... Jurar que o amava. Mas de repente era como se... Como se... — ela parecia incapaz de terminar a frase.
– Como se não amasse-o mais? — perguntou Afrodite, com toda a suavidade que encontrou.
Atena só pôde aquiescer, a cabeça voltada para baixo, os lábios franzidos.
– Mas eu o amo — disse, levantando o rosto -, o final do sonho me fez ver isso com uma certeza que eu não tinha nem quando ele me pediu em casamento. Eu o amo mais do que tudo que amo na minha vida.
Afrodite parecia prestes a dizer algo quando se calou. Inclinou levemente a cabeça para o lado.
– E que final seria esse?
– Eu... Bem, depois de esse sentimento horrível tomar conta de mim, vi ele como sempre o vejo. Os cabelos dourados como o próprio sol, os olhos de um azul cristalino, a boca de formato ideal... Deuses, voltei a vê-lo como ele realmente é, inteiramente perfeito. Er... — fez, parecendo lembrar-se então do rumo que deveria tomar — eu lembro de beijá-lo e perceber que estava no sofá logo depois. Ouvi as batidas que você fez fora do sonho, e foi como se estivesse me acordando do sonho que é Apolo, porque voltei a querer que ele estivesse longe de mim. Isso durou por algum tempo, até que ele me lançou um olhar de raiva quando levantei. Afrodite... — os olhos dela marejaram — Meu coração quase saiu pela boca. Mas e-ele me puxou de novo para o seu colo, e nos beijamos como se nada tivesse acontecido, como se fosse finalmente pra sempre. E parecia que seria para sempre. Então acordei.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e então voltou a falar, a voz um pouco trêmula:
– Eu não sei bem o que aconteceu, Afrodite, mas as coisas me levam a pensar em uma solução que não sei se me deixa aliviada, se me deixa com raiva, ou mais magoada do que estive nesse sonho. Talvez as três coisas ao mesmo tempo. Achei um significado pra ele, Afrodite.
– E qual seria ele?
Atena mordeu o lábio.
– Acho que Poseidon está tentando destruir o que tenho com Apolo. É por isso que estava na sala dele, e é por isso que Apolo não parecia uma pessoa boa, ou a pessoa que eu realmente amo. Poseidon está tentando me confundir, mas no fim do meu sonho eu consegui perceber que não estava apaixonada por ele, e sim cega de amor por Apolo. Se encaixa perfeitamente. Mesmo porquê... O sonho tinha partes muito parecidas com o meu encontro hoje à tarde com Poseidon.
– Atena, sei que talvez isso pareça muito lógico pra você, mas não tire conclusões precipitadas, por favor. Poseidon não está fazendo nada com o objetivo de te deixar infeliz.
– Eu também não achava isso durante essa semana, mas é a única explicação, Afrodite. Ah, por que ele tem que destruir tudo? Argh, e pensar que cogitei a possibilidade de... Argh, como eu o odeio! Odeio-o com todas as minhas forças.
– Atena, a culpa não é de Poseidon, você só teve um sonho ruim!
– A culpa é dele, sim, Afrodite. Não percebe? Me seguiu a semana inteira, só para que eu me apaixonasse e isso estragasse meu casamento!
– Atena...
– Você sabe que é verdade, não tente contestar!
– Atena, se acalme. Poseidon pode ser muitas coisas, mas tenho certeza que não estragaria o seu casamento simplesmente porque não gosta de você. Me ouça, no fundo sabe que eu estou certa. Foi um sonho ruim, que te passou sentimentos piores. Não tente relacioná-lo com Poseidon, por favor.
Atena abriu a boca para dizer algo, mas Afrodite a interrompeu.
– Eu tenho uma proposta — disse, em um tom de voz calmo. — Esqueça disso por agora. Respire fundo, se quiser de um abraço ou qualquer coisa eu estou aqui, mas depois se troque. Venha comigo pra festa, eu te ajudo a escolher a roupa, e você vai passar uma noite muito melhor.
– Afrodite... não sei se estou em condições de ir agora.
– Talvez... Talvez Apolo esteja lá — concluiu, com certa má vontade.
Os olhos de Atena se acenderam.
– Apolo... Tem certeza?
– Tenho. Mas outras pessoas também vão estar, sabe. Vai ser bom pra você.
Atena assentiu. Parou por um segundo, olhou para os lençóis revirados, para os pratos de bateria em cima de sua poltrona, e para Afrodite em pé ao seu lado. Sua roupa era curta demais, mas era linda em seu corpo na mesma proporção. Seus olhos estavam escorridos de maquiagem preta.
– Eu acho... Eu vou, então. Só quero lavar o rosto antes.
Afrodite deu um sorriso aberto.
– Fique a vontade. Vou separar sua roupa.
– Hã... Sem nada indecente, de preferência.
A deusa do amor soltou uma risadinha.
– É claro.
E virou-se para o armário, passando de dedo em dedo vários e vários cabides. Atena olhou-a por mais alguns segundos. Depois, sorriu para si mesma, e encaminhou-se para o banheiro. Afinal, seria bom distrair-se, nem que fosse por uma noite.
OoooO
N/A: Er, olá, leitores. Eu tenho muitas coisas pra falar, mas não quero que isso fique maior que o capítulo, e nem mais longo que a minha demora, então vou tentar ser mais breve. Eu realmente sinto muito por ter ficado tanto tempo sem dar nenhuma satisfação. De verdade, não é porque deixei de amar Poseidon e Atena, escrita, e muito menos vocês. É só que ando com cada vez mais coisas na cabeça, e ela está muito distante desse site. Gostaria de voltar com a devoção que tinha no começo, gostaria de esquecer do mundo enquanto vivo por aqui, mas sempre tem alguma coisa que me puxa com muita força pra fora, e eu não consigo permanecer por muito tempo. Quero dizer que não desisti dessa história, embora pareça o contrário, e que tento muitas vezes escrever um capítulo novo. É só que parece desconexo do resto, e fico com a impressão de que ele não está certo.
Queria que soubessem que não foi por mal, e que guardo um carinho enorme por vocês. De verdade. E me desculpem de novo.
P.S. Já estou escrevendo o outro, mas não faço ideia de quando vou postá-lo. Se alguém ainda ler isso, claro /risos. Muitos beijos... Como vocês vão?
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