Um Círculo de Flores

5 Só precisa acender a lua e vai ficar lindo!


O som das cigarras foi substituído pelos grilos. Clarice esperava dormir melhor naquela noite, num provável sono estranho em que não se sabe que está dormindo. Por enquanto, ela sentava-se na cama perto da janela, no quarto onde parte de suas amigas dormia. A pilha de livros e os papéis do guia da pousada jaziam acima da roupa de cama embolada, então a fotógrafa aproveitou para folheá-los e compará-los com fotos que havia tirado; ainda todas na memória extra da câmera. Talvez ainda tivesse dúvidas sobre a ordem de livros e atividades sugeridas, mas seria uma boa lembrança categorizar as fotos de acordo com o tema em questão. O ventilador rodava e Leda estava deitada na outra cama. Mexia no celular quando Liana chegou com os cabelos enrolados numa toalha, máscara cosmética no rosto.

“Tá vendo fotos?”

Leda soltou um murmúrio, concordando. Passaram-se segundos. Clarice, embora ciente de que não deveria ser ou de fato era incluída em tudo, se perguntou o porquê a amiga não partilhava o momento logo com ela, uma fotógrafa. O benefício da dúvida salvava a inconveniência da inimizade; talvez Leda só julgasse-a ocupada como sempre, trabalhando em suas próprias fotografias.

“É aquela festa?” Ela se sentou ao lado da outra na cama. Juntas, deram uma risada e de novo veio uma pausa. “Faz o quê, uns cinco anos já?”

“Mais. Nunca bebi daquele jeito de novo.”

“Ótimo para a saúde.”

“Ora, você é advogada e eu que sei dos meus direitos? Pelo amor de Deus, eu precisava de álcool para conviver com essa gente. Lembra do Anna? Não mudou nadinha. Um porre.”

“Não lembro, tava mais distraída com a calvície do Carlos.”

Gargalhadas. Inverdades. Simultaneamente, franqueza. Podiam ser tópicos do outro livro de Ofélia Rios, mas eram pensamentos escorrendo de Clarice. Ela não precisava estar mais próxima das duas para entender exatamente o evento que falavam, mesmo que ela não tenha participado dele. Foi um encontro de turma do Ensino Médio, anos depois. Clarice, Leda e Liana estudaram na mesma sala, embora Clarice e Leda tivessem se conhecido mais cedo, aos onze anos. Judith também estava na festa, mas era dois anos mais nova que todas: só acompanhava o namorado na época do reencontro, Matheus, outro da turma das três.

Clarice só foi entender que perdera a festa quando viu as fotos em postagens com comentários e efeitos de música. Trabalhava demais na ocasião, não tinha dado certeza da presença porque não haviam escolhido a data exata ainda. E se isso foi interpretado como desinteresse ou oportunidade de evitar um convite direto, ela não sabia; sabia só que o convite dos organizadores nunca veio e suas amigas também não comentaram nada; nem antes, nem depois.

Era infantilidade, ego ferido ou lealdade quebrada sentir pontadas no coração mesmo anos depois? Clarice sequer sabia como começar a explicar-se. Não faria o mesmo. Nem entendia a razão de falarem com ironia de Anna, Carlos ou qualquer outro nome, já que conviviam antes e conviviam bem depois. Se Anna implicava de forma recreativa sobre a aparência de colegas ou se Carlos era agradavelmente arrogante, pouco importou durante a adolescência.

Continuaram conversando, Clarice continuou folheando e refletindo. Nenhuma parte do guia comentava que Ofélia Rios, durante boa parte da vida adulta, não aproveitou tanto o casarão. Tinha um irmão para criar, comida na mesa para pôr, problemas a resolver. Pior de tudo, ela tinha esse sonho ou maldição de escrever. E o tempo era curto, era quase como se soubesse. As brechas rendiam contos, novelas, romances.

Veio o som súbito de um obturador digital.

“Hm, a iluminação não ficou legal.”

Liana apontou o abajur redondo, próximo a cama. O vidro dele era leitoso, com detalhes de crateras, e mais do que uma luz suave, provavelmente acendia um clima nostálgico junto.

“Só precisa acender a lua e vai ficar lindo!”

Outro clique, uma lembrança eternizada. Clarice sorriu ao eco do passado e levantou-se. Partiria.

“Continua horrível, amiga!”

Risadas, agora atrás de si. Por fim, um comentário que ardeu e foi deixado no fim do corredor:

“A Clarice tiraria uma foto melhor.”