Um Círculo de Flores

13 Já conversou com seu reflexo hoje?


O dia ficou mais quente. Os pássaros do lado de fora piavam pouco e todas estavam um tanto caladas dentro do casarão. Era de se esperar que Elaine e Judith não ficassem tagarelas depois de chamarem uma a outra de “vagabunda”; Leda também estava frágil e Liana foi fazer alguma receita demorada, uma boa atividade para distrair a cabeça e ocupar as mãos. Clarice esperava que fosse algo doce, como os biscoitos que eram uma de suas especialidades.

Enquanto isso, quis caçar algo para fazer. Não tinha timidez da solidão, mas se sentia um tanto patética estar numa casa daquelas só… respirando. Pegou sua câmera e seus acessórios e partiu para fora, pois ao menos terminaria a viagem com boas fotos para seu portfólio. Boas memórias, já era outra história. Já passava do meio da tarde e a iluminação ficaria ainda melhor até o entardecer; o sol não queimaria tanto e havia vento para refrescá-la.

Passou pelo espelho da antessala antes e algo captou sua atenção no próprio reflexo. Não sabia se estava pensando demais, de menos. Havia um conto de Rios sobre espelhos, não? Um escrito no final dos vinte anos, final também do que se sabe dela. Ninguém ligava tanto para “Já conversou com seu reflexo hoje?” porque era só um conto de vinte páginas estranho, embora Clarice considerasse tão impactante quanto “O espelho”, de Machado de Assis. E tal qual no conto dele, facilmente aquele grande espelho fosse a peça mais fina da casa; tal qual os personagens debatiam no começo, Clarice sentia-se com duas almas e sabia que uma delas jazia difusa, só não sabia qual: a de dentro ou a de fora. Nesse ponto, o conto de Rios lhe trazia mais caminhos, embora não respostas. Uma, duas, trocentas almas. Alguém poderia se partir em dúzias e todas essas partes eram verdadeiras, assim como um mosaico ou vitral. Mas você conversaria com todas essas partes de si?

A escritora também escrevera outro livro na época, mais notório. Clarice tinha ciúmes dele, quase dor. Não gostava exatamente de buscar pistas sobre o sumiço de Ofélia Rios, mas era impossível passar os olhos entre as linhas de “Um Círculo de Flores” e não tentar fisgar indícios de suas motivações. Todos faziam o mesmo, acadêmicos ou não. Impossível evitar. E ninguém conseguia descobrir o porquê especificamente ela desaparecera, para onde teria ido.

Um amante parecia improvável. Assassinato era só uma teoria barata. Suicidio era uma opção, mas e o corpo? Muitos falavam, sem grau de certeza algum, do sobrenatural. Clarice não tinha certeza sobre nada e gostava de pensar o que havia dito à suas amigas dias atrás. Ela podia só ter sumido. E pelo o que vivera, a fotógrafa não poderia julgá-la.

Os pais no mar, um irmão que lhe virou as costas, amores que só existiam na fantasia, não na prática. Ela só existia, talvez, em suas histórias. Tornou-se uma.

Aquele era o livro que ofuscava o conto anterior, só publicado em coletâneas de contos da autora e escolhido não como um dos mais importantes. Aparecia apenas em edições especiais, sequer existia no guia da pousada. Clarice tirou uma foto de si no espelho. Com o rosto próximo do aparelho, não seria possível ver seu rosto depois da foto ser revelada.

Rumou para o lado de fora, para o lago e para os ipês. Primeiro, voltou-se para trás e capturou a casa tingida pela luz mostarda da tarde. Depois, optou por absorver bem o que podia com os próprios olhos.

Havia algo com aquela casa. Havia? Judith e Leda tinham comentado aquilo, o pensamento também cruzou sua cabeça. Em seu íntimo, compreendia que não era verdade. A casa era uma casa, antiga e reformada; hoje para se estar, não para se morar; para agradar aos olhos. Igual a capa de um livro e, como todos de Rios, eram as histórias que perturbavam.

Colocou a câmera no chão, entre as folhagens e pétalas no solo, e deu mais passos em direção ao lago escuro. Observar seu reflexo ali era ver uma silhueta turva, quase sem identidade. Entendeu a razão daquela viagem ser tão estranha, o motivo de suas palavras ficarem suspensas no ar sem resposta. A viagem não era sua; era quase como se ela não estivesse lá. Quem sabe nunca. E aquilo lhe trouxe paz no lugar de desespero, como se enfim desvendasse o grande mistério de Ofélia que era, na realidade, tão óbvio e já encenado. As flores amarelas dos ipês dançaram na água, formaram uma moldura, um círculo grande e que lentamente girava. Clarice entrou na água. Caminhou pelo lago, até adentrar o círculo. Mergulhou.

E sumiu.