Um Círculo de Flores

2 Caixas e mais caixas…


Enquanto as amigas escolhiam as suítes, comentavam dos banheiros completos e espalhavam os objetos, Clarice se pôs a observar com certa timidez. Não trouxera grande coisa. Não tinha uma necessaire do tamanho daquela trazida por Elaine, com cosméticos caros, ou trouxera malas de cacarecos esotéricos igual Judith. Era estranho: Um eco de uma noite do pijama na adolescência, porém agora adultas. Leda mandava um áudio para sua paciente, Liana procurava sinal dos dados móveis para conferir se precisavam dela no escritório. Certas questões juvenis persistiam, por exemplo a sensação de inadequação de Clarice. Se anos antes ela parecia fingir ser adolescente, agora parecia um fantoche de adulta. E ao ver a confusão de malas e a conversa desencontrada, preferiu dar um passo para trás no corredor e explorar a casa, que mais era um casarão. Melhor não interferir na cacofonia do grupo, não revirar arestas não resolvidas dentro de si mesma, seja da vida adulta ou não.

A fotografia era uma desculpa para se afastar.

Se lembrava direito a descrição no site, havia um sótão — nada como o estereótipo úmido ou assustador de filmes, sendo apenas o último cômodo na casa de Ofélia, com direito a uma escrivaninha e um divã. Achou a escada estreita com facilidade e, após adentrar, não teve dúvidas: passaria a noite ali, quem sabe todas as noites. Apesar de não ter um banheiro próprio, tinha uma visão privilegiada dos ipês e do lago. Tirou fotos. O teto triangular, com vigas de madeira e fruto de um telhado de duas águas, também ajudou-a se transportar para um humor mais sereno. Portanto, mesmo sendo difícil se lembrar quando começou o papo de realmente vir para a Casa Rios com suas amigas, Clarice conseguiu inspirar fundo e se sentir grata por estar ali. Passou as pontas dos dedos nos móveis, nos desenhos do papel de parede, segurou um lápis de aparência antiga e simultaneamente intocada, deitou-se no divã de veludo verde-musgo. Estava no mesmo lugar em que sua autora favorita inventara suas histórias prediletas; encarava o mesmo teto que ela, só muitos anos depois. Isso quase a fez sentir vontade de escrever outra vez, mas não haviam mais histórias para Clarice contar.

Resoluta — e ouvindo as vozes das amigas ficando mais esparsas, mais distantes — decidiu sair do sótão e conferir o que elas faziam agora que a noite já tinha caído e faltava uma janta para domar as emoções ferozes das viajantes. Encontrou-as reunidas na sala, perto de onde seria a sala de jantar. Liana segurava papéis, sentada numa poltrona, enquanto as outras se dividiam entre sentar-se no sofá ou no tapete macio. Na mesa de centro, embrulhos.

“E aí? Encontraram algo bom?”

Judith soltou um suspiro e afundou-se na poltrona oposta de Liana, buscando o próprio celular no bolso.

“Só existem caixas e mais caixas. Que tédio.”

“São brindes,” Leda a lembrou com forçada gentileza. O pacote de bolachas que trouxera já estava no fim e ela ainda parecia com fome. “E instruções.”

“Esse lugar é tipo… um Airbnb antes do Airbnb, né.

“Mais caro…” Emendou Elaine.

Fazendo barulho com a embalagem da bolacha e ainda mastigando, Leda pegou uma caixa de papel para admirar a qualidade do material.

“E aí, o que mais diz essa papelada toda?”

Clarice quis rir da expressão de Liana. Era óbvio que preferia que todas lessem, havia uma caixa para cada uma. E só porque trabalhava com advogados, não era responsável por todas elas. No fim, ela decidiu encurtar suas objeções apenas esclarecendo a dúvida:

“Além do lembrete do contrato sobre não danificar nada, é só um pacote de boas-vindas com brindes e instruções. Tem uma rota para a cidade aqui perto, não pega a rodovia de onde viemos. Entregam comida geralmente em uma hora e tem uma lista de restaurantes parceiros.” Ela deu uma pausa e pegou o próprio celular, quem sabe para ver as opções de comida. “Aqui não é tão isolado quanto dão a entender na propaganda.”

Seguiu-se silêncio. Clarice se aproximou para ver os papéis, todos com uma tipografia bonita e um estilo especial para “Casa Rios”, em dourado metálico. A autora gostava de coisas finas, tinha nascido numa família abastada — mas que empobrecera durante o final da sua adolescência. O gosto não se perdeu, o casarão também não. Clarice achava que ela iria gostar do material e dos cuidados com seu lar, só não tinha certeza se ela concordaria com o princípio de abrir ao público. Apesar de não ter tido filhos, o irmão de Ofélia teve gêmeos e uma caçula. Foram os sobrinhos mais velhos da autora que idealizaram a casa como pousada.

Sua reflexão foi cortada pela voz de Judith.

“Vocês acham que ela se matou?” Houve uma pausa tensa. Elaine engoliu seco, Leda franziu suas sobrancelhas espessas. Liana encarou a amiga muito fixamente, já Judith revirou os olhos com a reação. “Estou falando da autora, é claro. Fico pensando se isso… Influenciou algo.”

“É diferente. Não tem corpo. E nem uma carta de suicidio,” Elaine deu de ombros. “Ela escreveria uma das boas.”

Leda, leitora assídua de romances policiais, palpitou:

“Um assassinato, quem sabe?”

A hipótese foi negada por um estalo de língua de Liana.

“Não há materialidade do crime. Impossível afirmar.”

E era impossível não pensar no desaparecimento de Ofélia Rios. Mas Clarice não queria focar nisso, mesmo que o desejo de só desaparecer não parecesse distante de ninguém. E se Ofélia só tivesse partido? Ido para longe, onde não precisasse lidar com ninguém. Acostumada a falar pouco, a fotógrafa sentiu necessidade de expressar sua opinião:

“Ela pode só ter… sumido.”

Mais uma pausa. O vento soprou lá fora, arrastando folhas e provavelmente destacando muitas flores dos ipês. As amigas pareceram refletir um pouco, embora um tanto distraídas. Liana suspirou e começou a guardar os papéis de volta na caixa.

“Pedi pizza. Já sei os sabores que todo mundo gosta.”