Um Beijo Ao Azul Escuro
5 Uma volta dentro de mim mesma
Não faço ideia de quanto tempo demorei pra aceitar o fato de ter que me sentar em seu colo, Lion, um nome um tanto quanto adequado em vista do físico, mas era muito requintado para se realmente proporcional a ele. Ele era muito quente, e tive até certa vontade de lhe perguntar se estava com febre, mas depois percebi que eu que estava gelada.
As meninas me cumprimentaram com um sorriso sem ânimo, e um aceno de cabeça, o máximo que fariam, estavam ocupadas demais agarradas a seus brutamontes. Com uma cortesia sarcástica, Lion me apresentou cada um da mesa, Rebecka, Jane e Taylor, as “meninas” de Jered, Jay e Rod, respectivamente, Carl e Paul, casados há dois anos e Rommy e Ted.
Cada um daqueles caras tinha no mínimo 1,80 de altura, eram mal-encarados, usavam casacos de couros, e tinha os rostos quase encobertos pelos cabelos e barbas, preconceitos à parte foi um ligeiro espanto para me assimilar um casal assim, naquele grupo.
–Então o que vocês são? – Perguntei virando a cabeça para Lion. Não queria encarar o outro lado da mesa com medo de que reação poderia gerar.
Ele estreitou os já minúsculos olhos antes de responder procurando e ponderando a palavra certa. Eu estava em seu colo, com as costas escoradas na mesa diferente de todas as outras garotas. Eu obviamente não era uma delas, e talvez aquela fosse minha forma de deixar isso claro para ele, eu tinha a faixa etária errada, o cabelo errado, o tipo de corpo errado. Não era minúscula como elas, não era jovem e não tinha o tipo de rosto necessário, não era uma daquelas bonequinhas de porcelana que ficavam tão bem guardadas e protegidas nos braços de seus machos.
–Somos uma equipe.
–Uma equipe? – Repeti interrogativa, como se fosse necessário que ele confirmasse para ter certeza se queria descrever aquele bando com uma palavra tão singela como aquela.
–Sim, uma equipe.
–E você é o único solteiro? Sem dupla?
–Eu sou o único livre! – Os risinhos se proliferaram atrás das minhas costas. Ele olhou por cima do meu ombro curvando os lábios em uma desaprovação que só fez aumentar o som das risadas. –Sou um cachorro muito grande pra ser domando, com esse bando de bundões atrás de você.
Minhas sobrancelhas arquearam inesperadamente com o comentário, um gesto involuntário que só demonstrou como eu me divertia com o comentário.
–Todo cafajeste tem cura, é o pensamento de toda mulher. – Os múrmuros se seguiram atrás de mim, e gostei ligeiramente da atenção em nossa conversa e do incentivo a um debate mais efetivo.
Ele estreitou aqueles vidrais oculares e senti algo que chegou a ser um frio na barriga, de repente minha fome se esvaiu e senti outra vontade me possuir pelo ventre, ele me encarou fundo nos olhos e só percebi quanto aquilo me afetou quando me dei conta que estava boquiaberta.
Me recompus imediatamente engolindo a seco, não existia barulho audível enquanto nos encarávamos mutuamente, sua mão estava pousada em minhas cochas e sabia que as queria em outro lugar, um menos crítico, um menos insinuativo, sugestivo, desejoso...
Ele novamente desceu sua mão em uma palma sonora em minha cocha, aparentemente chamando atenção oficialmente da mesa em nossa direção.
–Hey! – Reclamei com um olhar severo que ele recebeu com a recomposição do seu sorriso zombeteiro.
–Levante-se. – Ele disse baixo tirando seu olhar lascivo de mim e encarando qualquer lugar sobre meu ombro. –Vou dar um volta...
Praticamente pulei de seu colo, sua mão tomou a minha entrelaçando os dedos, eu poderia reclamar, eu deveria reclamar, mas gostei do calor de sua palma grande contra a minha, o controle que eu demonstrava possuir, a forma singela que ele estava demonstrando que estava interessado em levar aquele joguinho até o fim, em como ele demonstrava a seu modo que me queria.
Ele foi me puxando para fora daquela espelunca, me arrastando para o mormaço do começo da tarde, passei a manha inteira sentada com um bando de desconhecidos que me fizeram rir naquele tempo mais do que o último ano inteiro, eu estava elétrica, estava animada, excitada com a idéia do que poderia me acontecer se continuasse por esse caminho selvagem.
Ele se sentou em sua moto, obviamente um das Harley’s do lado de fora, uma preta cromada, eu olhei distraidamente para suas costas a frase cravada em sua jaqueta, “I'm on the highway to hell”, juntamente com o logo do AC/DC, pela primeira vez o frio que percorreu minha espinha tinha uma sensação oculta em sua performance, em vez do desconforto natural que me causava eu sentia um ligeiro gosto por aquilo. Concordei em pensamento com a frase, uma vez que tinha certeza que o inferno não podia ser pior do que a situação patética que minha vida se encontrava.
Ele me puxou de novo para cima da moto, largando minha mão em sua cintura, que era inacreditavelmente menos flácida do que eu imaginei. Sim, eu já o tinha imaginado, por baixo daquele cabelo, sem aquela jaqueta, o jeans surrado e as botas pesadas, e só Deus sabe que outras coisas que havia imaginado com ele.
–Segure-se. – A ordem foi baixa e sugestiva, enlacei sua cintura com meus braços, um abraço apertado por trás que não contive um gemido de satisfação por assim fazê-lo, que foi alto o suficiente pra escutá-lo rir, não era em si um riso, era um barulho estranho e bem-humorado que me fazia ter certeza o divertia.
Por um momento eu ignorei meu carro esquecido lá em meio ao nada, eu ignorei as coisas dentro, a máquina da perícia, meu celular, as chaves da minha casa... Pela primeira vez em muito tempo eu parei de pensar na minha vida, nos meus riscos, no que eu podia ou devia, eu me permitir desfrutar o momento com as injeções de adrenalina sendo meus únicos entorpecentes.
I drive fast, wind in my hair
Eu dirijo rápido, vento no meu cabelo
I push it to the limits, 'cause I just don't care
Eu vou até o limite porque simplesmente não me importo
You ask me where I've been, but I've been everywhere
Você me pergunta onde eu estve, mas eu estive em todo lugar
I don't wanna be nowhere but here
Eu não quero estar em outro lugar senão aqui
I've got a burning desire for you, baby
Eu tenho esse desejo ardente por você, querido
(Burning Desire– Lana Del Rey)
Seu cabelo esvoaçava em meu rosto, eu me permiti deitar a cabeça na curva do seu pescoço, o vento corria por nós, través de nós, o sol dourando nossas peles, provocando o suor que fazia o contato dos nossos corpos ainda mais intenso. Não sei como posso conjurar em meras palavras o sentimento de libertação que aquilo me provocou, nem nas minhas piores bebedeiras me senti tão foram de mim, tão livre do meu corpo, o vento passava por mim e me levava as lembranças de outrora, lembranças duras que eu podia resumir em um único nome...
Passamos o caminho inteiro calados, e aquilo estava virando um ciclo vicioso, na sua presença os olhares falavam mais altos que qualquer voz, seus gestos e atos eram expressivos e tudo que predominava era nossa sintonia sobrenatural.
Quase não abri os olhos, mas nas poucas vezes que contemplei o cenário daquele passeio vi a estrada a minha frente e a imensidão do nada que se tornara tudo.
Por um minuto eu me larguei dele, e ergui os braços... Liberdade, liberdade, liberdade... Essa palavra estava ganhando outro significado.
Ele acelerou fazendo a moto sacolejar, voltei a me agarrar a ele na mesma hora.
–Não se solte de mim! – Ele gritou sobre o vento.
–Por quê?
Ele não me respondeu.
Involuntariamente o agarrei mais forte, e voltei a pousar minha cabeça em seu cabelo rebelde, desejando poder definhar lá.
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