Um Beijo Ao Azul Escuro
16 Uma queda muito dura
Chegar em casa depois de tanto tempo longe serviu-me de alívio. Acho que consegui respirar um pouco melhor, quando fechei a porta atrás de mim deixei meu corpo escorregar rente a madeira encontrando meu traseiro com o chão, e ficando lá, parada, recobrando bem o ar em meu pulmão.
Engoli a seco levando meus dedos até a franja rebelde que insistia em cair em minha face... Respirava fundo e o ar não chegava tão bem como eu queria, estava divida entre me sentir bem e ficar sufocada, eu não conseguia me imaginar ficando lá, nem conseguia pensar no que me aconteceria se eu saísse, o que eu poderia encontrar ou que tipo de problema estava me esperando.
Os problemas viraram meus melhores amigos, se tornaram mais presentes na minha vida que qualquer pessoa que eu me lembrava, era difícil aceitar aquilo e mais difícil ainda ignorar esse acontecimento.
O dia fora daquelas paredes estava nublado e as gotas de chuva corriam na janela da varanda me lembrando que qualquer um podia desmoronar tal qual o céu, que chorava seus prantos com o que parecia o princípio de um temporal.
Tentei me levantar do chão, sem ter certeza que minhas pernas aguentariam meu peso fraco, na terceira tentativa o papel em minha barriga lembrou-me de sua existência, voltei a tentar empurrar o ar aos meus pulmões e consegui finalmente me erguer da cerâmica branca fria.
Sacudi para longe meus sapatos que acabaram por cair ao lado do sofá, meus passos arrastados me levaram para meu quarto, no meio do caminho fui tirando a roupa, perdi a blusa minúscula branca no meio da sala, a carta ficou em minha mão, ao contrário da calça que se perdeu no vão da porta.
Joguei-me na cama, que ainda estava desforrada pela pressa com que saí do dia anterior, os lençóis estavam gelados e acolheram com carinho meu cansaço, a carta ainda pesava incomodamente em meus dedos, de forma que aprumei um dos travesseiros em minha cabeça e tentei recomeçar a leitura, correndo os olhos pelas letras e elegante caligrafia de Grissom.
“...estava pensando quando aconteceria o inevitável, quando olharia em seus olhos e entenderia a razão de respirar, e, querida, foi muito mais rápido que eu pude imaginar.
Minha efêmera felicidade se dar ao singelo prazer de sua companhia, sua voz reverberando em meus ouvidos, o toque de sua mão contra minha que tento a todo custo evitar por ter consciência que ele não demorará muito, de forma que apenas me machuca saber que suas mãos me levam ao céu e não posso as possuí-la sempre.
Sinto muito não atender este chamado de minha alma agora, eu precisa de tempo, um tempo que sei que ainda possuímos, um tempo que precisamos, um tempo que anseio que aguarde por mim...”
Sim Grissom, eu também sinto muito.
Quando percebi a ardor dos meus olhos se transformarem em lágrimas e ousadamente transbordarem dos meus olhos tive certeza que não queria saber do resto e antes que eu conseguisse ter certeza sobre essa conclusão, abaixei os olhos para a visão embaçada do papel, se li o resto não me lembro do final, talvez eu não o tenha conhecido uma vez que me vi imersa nos braços de morfeu tendo como descanso para minha cabeça cheia o travesseiro molhado com a água salgada que lavei da minha alma qualquer tolerância que teria com Grissom por diante.
Standing humble a fist of rage
Erguindo humilde um punho de raiva
A silent army, they call my name
Um exército silencioso, chamam meu nome
See that firmly, and not in dismayed
Veja que com firmeza, e não em espantes
I’m never broken, and I’m not afraid
Eu nunca estou quebrado, e eu não tenho medo
So come with me, let’s take this world and make a change
Então venha comigo, vamos pegar este mundo e fazer uma mudança
And we’ll give this, more than we can take away
E nós vamos dar a este, mais do que podemos tirar
And we’ll see this, through eyes we always thought were blind
E nós vamos ver isso, através dos olhos que sempre pensei que eram cegos
If we could find, just one light to shine
Se pudéssemos encontrar, apenas uma luz a brilhar
One Light – 3 Doors Down
Não tinha certeza quanto havia dormir, mas sei que senti meu corpo tremer com o sobressalto da campainha chamando, tudo girava a minha volta, tudo ainda estava ligeiramente embaçado, eu quase ri com a sensação do dejavú. Mas dessa vez meu corpo estava ligeiramente mais leve, talvez pela falta da roupa, do jeans pesado ou de qualquer outra peça que não aquele conjunto de calcinha e sutiã branco que pareciam se confundir com a cor da minha própria pele – e claro pelo desaparecimento repentino da carta.
Sentei-me na cama enquanto a campainha soava alto novamente, minha mente clareou-se com o convite de mais cedo que fizera indecentemente ao meu supervisor em frases entrecortadas.
Olhei a zona a minha volta, minhas roupas espalhadas pela casa, principalmente por meu quarto, a falta delas em meu corpo. Gargalhei quando me vi andando pela casa naqueles trajes – melhor, na falta deles – até a porta. Crente da minha pequena vitória abri a porta inconscientemente disposta a mostrar o que os últimos dias me tornaram graças a ele.
Minha surpresa não poderia ser maior quando encontrei vidrais verdes o lugar do céu azul limpo no olhar, quando os cabelos grandes e desgrenhados se apresentaram no lugar dos curtos e prateados e quando o rosto que eu esperava ser completamente diferente do que eu via.
O cenho largo de Lion me encarava do outro lado da porta, seus olhos estavam em meu corpo quase nu encarando o encontro dos seios no sutiã rendado. Eu pensei em ficar sem reação por um instante, mas o grito de raiva e indignação da minha garganta não se controlou.
-O que porra você está fazendo assim? Como mulesta você sabe onde eu moro?
Acho que gritei alto demais, brava demais, decepcionada demais, tanto ao extremo que o vi retroceder dois passos e me olhar quase magoado. Mas eu estava bem mais magoada que ele, não por causa dele... E ele só conseguia me olhar sem entender nada.
-Vem cá. – Eu chamei baixo, atirando minha mão para fora da porta indo de encontro com a sua, trazendo-o para dentro, senti seus olhos em minha bunda branca que balançava enquanto eu andava lhe levando para dentro do apartamento.
O encarei pelo rabo do olho, ele ignorava a bagunça da sala a sua volta enquanto sua sensibilidade lasciva crescia a medida que ele passava a língua ao redor dos lábios.
Levei Lion a minha cama e o joguei sentando nela, enfiei as mãos em sua jaqueta de couro fazendo-a escorregar por seus braços e enquanto eu levantava sua blusa refiz a pergunta.
-Quem te disse onde eu morava?
-Seu amiguinho loiro.
Eu quase ri, com certeza Greg não falara com facilidade.
-Como você saiu?
-Eles pegaram de tarde meus amiguinhos, estou respondendo o processo em liberdade.
-Pensei que não era mais da jurisdição de Las Vegas uma vez que fosse confirmado atentado terrorista...
-E não é... – Ele riu no canto dos lábios. –Tudo bem um bando de caras armados entrando de novo enquanto estamos da cama?
Eu ri também desafivelando seu cinto, me sentando em sua cocha com meus dedos em sua cueca, a ereção se fazia presente me lembrando seu tamanho.
-Confesso que não pediria nada diferente.
Quando percebi estava sobre ele, meus lábios nos seus, nossas línguas brigando, suas mãos em minha cintura invadindo meu sutiã, arrancando-o e tomando meus seios em suas mãos em um encaixe perfeito, eu estava sem cima dele, os quadris próximos e quando precisei dele para preencher-me foi de uma fez, caindo em cima com seus lábios que engoliam meus gemidos.
O ritmo daquela noite foi diferente, estávamos variando entre o forte e o suave, um tipo de despedida de nossos corpos que provaram todas as intensidades disponíveis de movimento.
Eu me vi sendo erguida pelas ancas e ele virando de posição ficando sobre mim, sua respiração quente em meu pescoço e meus gritos, pelas estocadas fortes, reverberando próximo aos seus ouvidos apenas instigando-o a fazer mais forte.
Não sei quando adormecemos, mas sei que estava ensopada de suor igualmente a ele, nossas pernas entrelaçadas e um de seus braços sobre meus seios, me envolvendo próximo a ele, eu poderia continuar aí sempre e por tal dependência acordei da madrugada sentindo a falta de seu corpo grande envolvendo o meu.
Andei pelo apartamento ainda nua, escutando o murmura de sua voz grave, ele estava parado em meio ao corredor com um celular na mão, com o meu celular, murmurando.
Eu me aproximei, tocando em seu ombro, ele se virou com um sorriso discreto encoberto pela barba.
-Espere, chefe, ela acordou eu vou passar para ela.
-Hey, quem é? – Eu perguntei longe do fone do celular, ele deu e ombros revirando os olhos.
-Gilson? Giusson?
Eu pisquei rápido pegando o telefone.
-Ei, Gil?
-Sara? – Ele pigarreou. –Desculpa interromper, mas sua folga já acabou e o FBI está atrás da testemunha.
Eu escutei um tom de ressentimento em sua voz que tive quase certeza ser imaginária. Assenti me tocando que ele não via o movimento da minha cabeça.
-Claro, Gil, estamos indo. – Ele desligou sem dizer tchau.
Lion virou-se para mim, suas mãos em meus ombros seus lábios contra os meus, minhas mãos fracas pelo fervor do jeito que já me molhara por dentro, ele se afastou me deixando respirar, ainda com o sorriso quase imperceptível sob a barba.
-Vamos. — Ele disse bem mais conformado que eu.
Ele estava conformado porque ele sabia que terminaria assim, com nós dois indo para cantos diferentes, eu não fazia ideia de como aquilo acabaria, de porque eu me afeiçoara a ele. O sussurro indesejável da minha consciência soou em minha mente como eu escolhia pessoa ainda mais destrutíveis e perdidas que eu para gostar, pessoas que não tinham um caminho e que consequentemente me fariam entrar nessa rota perdida.
Afastei aquele pensamento tirando uma mecha dos cabelos loiros da face de Lion, me inclinei para beijá-lo novamente, permiti-me memorizar o seu sabor doce para ter uma lembrança que me refugiaria das dores que Grissom ainda me causaria uma vez que a rota de Lion só me levara a outra curva para o caminho de Grissom.
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