Um Beijo Ao Azul Escuro

17 Uma estrada bem mais longa


Grissom não havia me dado um endereço, eu não fazia ideia do que estava acontecendo e a única coisa que eu sabia é que Lion se prejudicaria muito se não estivesse de volta para o FBI a tempo.

Ele havia recuperado a moto e me perguntou segurando minha mão se não poderia dá-lo a honra de um último passeio, ele não só podia como me devia a honra de um último passeio. O vento em meus cabelos levando embora de minha mente as preocupações, meus braços ao redor de sua cintura e minha cabeça escorada na curva de seu pescoço tendo como estofado seus fios loiros, desgrenhados e espessos, daquelas memórias a que mais guardo de feliz era a sensação de liberdade que me consumia quando o ronco do motor soava e o vento silvava em meus ouvidos.

Quando chegamos ao laboratório os olhares indiscretamente nos acompanhavam a medida que avançávamos por entre os corredores a procura de alguém que pudesse nos situar.

-Pelo amor de Deus... – Escutamos o rosnado em nossas costas quando estávamos perto da sala de Grissom. Virei instantaneamente encontrando o cenho franzido e irritadiço de Brass. –O Sanders tem sorte, isso sim... – Ele se aproximou em suas passadas rápidas e longas envolvendo o braço de Lion o puxando, foi quando percebi que nossos dedos estavam entrelaçados, Brass deu outro puxão que fez Lion se desvencilhar dele.

-Ei, eu sei andar! – Ele virou para mim, quase pedindo desculpa pelo tom alto, o brilho de seus olhos, intensos e de cores furtivas, foi outra coisa que fiz questão de guardar na memória. –Se cuida. – Ela disse envolvendo seus longos braços sobre os meus, meus olhos arderam e eu engoli o choro na mesma hora.

-Você também... Da próxima vez jogue logo um avião no pentágono. – Ele quase riu.

-Vou anotar.

Nós nos soltamos ao olhar impaciente de Brass que batia o pé irritamente no chão.

-Se você quiser nós podemos fugir agora, ir para bem longe, para fora do país, para qualquer canto que você queira... – Ele engoliu a seco percebendo o que acabara de dizer, ele revirou os vidrais oculares respirando fundo para encarar diretamente nos meus olhos. –Se você quiser... Nós estamos em Vegas, corremos daqui nos casamos em qualquer uma desses cantos, não é romântico, não é são... Mas se você quiser, fazemos isso e desaparecemos, como fantasmas, como sombras no tempo, ninguém mais escuta falar da gente... Eu posso prometer que vou tentar te fazer feliz.

Eu fiquei sem reação de primeiro momento e ri por nós dois, aquilo tinha sido quase um “eu te amo”, foi meigo e altamente ridículo devido a situação. Eu balancei a cabeça quase sem acreditar no que eu ouvi.

-Lion você já me fez muito feliz.

-E quase uma desempregada.

Foi com aquela frase que nós dois rimos.

-Sim, quase uma desempregada, procurada nacional... Mas feliz.

-Foi um prazer, querida...

Suas mãos voltaram a tomar posse do contorno do meu rosto, seus lábios contras os meus por um instante menor do que eu realmente desejei, ele me soltou com o sorriso ainda coberto pela barba indo onde Brass estava.

-Que lindo momento, vamos príncipe desencantado. – Eles foram andando e Brass em meio ao caminho virou a cabeça sem parar de seguir em frente. -214 com a Strip, Sara, duplo homicídio.

Assenti para o nada vendo as costas dos dois desaparecem em meio a curva do corredor... Eu precisava ir trabalhar e deixar aquilo para lá.

I followed you back to the end of the path

Eu segue você de volta para o final do caminho

But I never found the door

Mas eu nunca encontrei a porta

And you can work to save your love

E você pode trabalhar para salvar seu amor

You can bear it from the earth below

Você pode carregá-lo sobre a terra

You can work but you can't let go

Você para trabalhar mas não deixá-lo ir

But you have to know

Mas você tem que saber

Don't look back

Não olhe para trás

All you'll ever get is the dust from the steps before

Tudo que conseguirá será a poeira dos passos anteriores

Don’t look back – She&Him

Seus passos me levaram para a recepção do laboratório, quase que eu saia de lá, mas me lembrei que não havia levado meu carro e com certeza a moto de Lion voltaria a ser apreendida. Estava estagnada naquela sala até que alguém aparecesse ou que conseguisse o número de algum táxi e um telefone para ligar, ir para casa, pegar meu material, meu celular meu carro e poder trabalhar. A recepção estava vazia e percebi que aquele era um dos raros intervalos para o banheiro que eu tive o azar de pegar.

Minha vida estava ficando ridiculamente trabalhosa.

Sentei em um dos bancos de espera vendo o tempo passar no movimento vagaroso dos ponteiros no relógio de parede que ficava ao lado da mesa de informações, pouco antes da minha paciência se esgotar Greg apareceu na porta, entulhado de sacolas tanto nas mãos quanto nos braços, andando com dificuldade pela quantidade exorbitante de coisas que trazia.

-Que porcaria toda é essa?

Eu perguntei indo até ele, lhe salvando de uma queda iminente ao pegar uma parte em meus braços.

-10 horas de sono não são bastante.

-Como?

-Nick e eu terminamos tudo por volta das 6 da manhã, demoramos uma hora para trazer tudo que coletamos no armazém para cá e eu mais quarenta minutos para chegar em casa, então comecei a dormir de oito horas da manhã e acordei na hora de trabalhar.

Confesso que não entendi bulhufas do que ele disse, mas o acompanhei como seu burro-de-carga pelas entranhas do laboratório à sala de protocolar as evidências, os sacos estava pesados de alguma forma, da forma que me dava vontade de apenas jogá-los em cima da mesa livrando-me deles, mas pensei melhor e fui deixando cuidadosamente uma vez que não fazia ideia do que eles tinham.

-Independente do que aconteceu, você parece revigorado. – Disse para ele, finalmente, olhei em seus olhos, as bolsas roxas ainda eram carregadas por seus olhos, mas seu constante sorriso parecia mais leve e sua testa não estava contraída como uma ameixa seca de preocupação como antes.

-Por favor, eu ainda estou morto! – Ele disse jogando os braços para cima, rimos um pouco e então o silêncio penetrou naquele ambiente quase livre de tensão, os olhos claros penderam para o nada com seus lábios lendo em voz alta o pensamento que cobria sua mente. — Não sei como Grissom consegue.

-Ele já está acostumado. – Retruquei impulsivamente, só para escutar o que não devia.

-Sara, ele não foi para casa como a gente, ele voltou para o escritório e ficou lá, quando nós chegamos para o turno ele estava perambulando com o FBI atrás do seu namorado.

Eu pisquei furtivamente.

-Ah, muito obrigada por ter dado meu endereço para ele. – Mudança de assunto perfeita! Greg forçou um sorriso amarelo de desculpas, dando de ombros.

-Eu estava cansado, aquele cara tem o dobro da minha altura e eu não faço ideia como ele conseguiu pegar a moto.

-Logo você não estava em um prédio cheio de policiais, não é mesmo? — Eu exalei ainda conseguindo rir. –Como você sabe que ele estava de moto?

Os olhos reviraram em suas orbitas sem escapatória.

-Talvez eu por um acaso tenha dito onde encontrá-la...

-Sim, é melhor você depois pegá-la do estacionamento, antes que ele leve com os companheiros federais.

-Claro... Vou falar com Nick.

Ele encarou os sacos a nossa frente deixando cenho acusador franzir.

-Você não deveria estar trabalhando?

-Não vim de carro nem tenho material.

-Grissom vai comer seu fígado.

Um tipo de resposta envolvendo “fritar bem” e “cirrose” passou pela minha cabeça, mas ficou nela.

-Greg, por favor, me leva em casa? É só para pegar meu carro e você volta para protocolar tudo isso, eu prometo.

-E não fazer isso pra chamar seu namorado e ele vir bater em mim? Vou agora.

-Pare de chamar o Lion de meu namorado.

Quando saímos de lá, fazendo-o esquecer por um minuto o trabalho naquela sala, não pude deixar de pensar no que ele disse sobre Grissom, afinal de contas ele nem sequer quis sair de lá, quem dirá se deslocar para meu apartamento.

Voltei meus pensamentos para Greg que virou bruscamente a cabeça olhando para trás de onde andávamos, a sala de Grissom na espreita do corredor, a porta fechada, as persianas baixas, o santuário cercado e isolado para seu dono.

-Sabe me dizer o que Grissom fez o dia inteiro dentro daquele escritório?

-Não. – Respondi mais ríspida do que o necessário, engoli a seco tentando concertar o que eu disse e por fim deixei sair com uma pergunta. –E você tem alguma ideia de por que ele não foi para casa? — Greg deu de ombros, desatento demais para sentir a tensão na minha pergunta.

-Sara ele não tem anda esperando em casa, a vida dele é isso... – Seus olhos voltaram para mim. –Você sabe disso, ao menos deveria saber.

Eu exalei de novo, incomodada com o comentário, a involuntária alfinetada que Greg havia me dado.

-Ele deveria arranjar uma vida. – Novamente o tom brusco tomou posse da minha voz.

-Arranjar uma vida como você? Que encontrou na primeira esquina um terrorista sobre duas rodas? – Ele revirou os olhos. –Grissom encontrou uma Lady Heather... Acho melhor ele viver aqui, lá fora é muito perigoso para pessoas como vocês.

Pedi a mim mesma para ficar calada, discutir com Greg era desnecessário e irrelevante, uma vez que ele não estava propriamente dito certo, mas estava um pouco longe demais do erro.

Notas finais
Preferi postar mais cedo que não postar...