Um Beijo Ao Azul Escuro
21 Uma difícil decisão
Chegar em casa foi a parte fácil, difícil foi saber o que fazer.
O resumo das minhas últimas horas, nu e cru, parecia esdrúxulo: eu estava grávida, determinada a ter um filho sem pai – certo, ele tinha pai, eu sabia quem era, mas me pergunto que tipo de trauma criaria para a criança se lhe contasse que seu pai era um motoqueiro terrorista procurado pela polícia que entregara os comparsas e estava sob proteção do FBI sem um paradeiro determinado – e estava certa que passaria um período de tempo indeterminado em São Francisco — em uma pesquisa que não fazia ideia de sua duração, com um chefe que não entendera que sua funcionária de ouro estava grávida e ela nem se incomodara em informá-lo.
O que eu faria agora, qual era o meu próximo passo?
Eu me perguntei incontáveis vezes enquanto eu recolhia as coisas espalhadas pelo apartamento. Faria uma das coisas lógicas que estava na lista de toda grávida: procuraria uma obstetra! Sim, um obstetra, em São Francisco.
Mas antes eu precisava abrir meu e-mail e pegar o contrato, saber quanto eu receberia em São Francisco e ver quanto eu tinha no banco.
E claro, pedir demissão. Sim, eu pediria demissão, mesmo que o trabalho com Clark não desse certo, mesmo que eu não conseguisse achar outra coisa para trabalhar, eu não voltaria para Las Vegas.
Uma mãe solteira desempregada... Meu futuro parecia brilhante aos olhos do meu diploma em Havard.
All by myself
Totalmente sozinha
I don't need anyone at all
Eu não preciso de ningué mesmo
I know I'll survive
Eu sei eu vou sobreviver
I know I'll stay alive
Eu sei, eu permanecerei viva
All on my own
Tudo sozinha
I don't need anyone this time
Não preciso de ninguém
It will be mine
Será meu
No one can take it from me
Ninguém vai tirar isso de mim
You'll see
Você vai ver
You think that you are strong, but you are weak
Você acha que você é forte, mas você é fraco,
You'll see
Você irá ver
It takes more strength to cry, admit defeat
É preciso mais força para chorar, admitir a derrota
I have truth on my side
Eu tenho a verdade ao meu lado
You only have deceit
Você só teve a falsidade
You'll see, somehow, someday
Você irá ver, de alguma forma, algum dia
You'll see — Madonna
Uma vez que estava determinada a ferrar de uma vez por todas com toda a minha vida, estava de novo no meio dos corredores do laboratório, eu havia deixado de ser o tema dos sussurros de todos, das fofocas entre as portas de vidro e quando eu já estava gostando das minhas orelhas sem queimarem, tudo voltaria com ainda mais intensidade – eu não poderia adiar isso.
Na minha mão estava a carta de demissão... Carta... Uma vida, minha vida, resumia-se em papéis, palavras e letras incompletas e não entregues...
A porta de Grissom estava fechada, mas as persianas estavam abertas, estava sentado em sua confortável cadeira acolchoada, com a luz do abajur sobre sua face acentuando o brilho natural dos olhos azuis intensos, o prateado dos cabelos grisalho e redelineando os contornos do rosto pelo foco de luz.
Passou por minha cabeça entrar sem bater, mas isso era um tipo de privilégio que não mais me cabia. Bati relutante.
-Entre! – Ele gritou sem erguer o rosto.
Eu o fiz. Entrei fechando a porta atrás de mim com um baque atraindo sua atenção.
-Soube que passou mal, está melhor? – Ele perguntou indiferente voltando a olhar para o papel em sua mesa, me senti insignificante pelo gesto rude e grosseiro.
-Não sei bem, acho que o bebê não gosta do cheiro de sangue e quer que eu aprenda a comer carne.
Ele piscou os longos cílios sob a armação quadrada dos óculos, erguendo acanhadamente a cabeça.
-Como?
-Não era assim que eu deveria dizer. – pensei alto, admitindo que com certeza aquela não deveria ser a melhor forma de falar aquilo, eu me aproximei de sua mesa, jogando a carta sobre sua superfície de madeira como quem joga uma bomba em uma área deserta, disposta a correr o mais rápido possível para não se aventurar de receber parte da explosão.
Ele não me perguntou mais nada até abrir a carta e lê-la rapidamente, mas rápido do que eu queria.
-O que significa isso, Sara? Você pode ir trabalhar sem pedir demissão, pode pedir férias, você as tem acumuladas.
Seu tom era frio demais, era ríspido demais para não ser forçado, seus olhos evitavam os meus, ao mesmo tempo, percorriam minha face como se quisessem ler meus pensamentos a encarando.
-Não posso mais ficar em Vegas. – Era verdade. –Não consigo mais respirar nessa cidade. – Verdade. –Nada mais pode me fazer ficar aqui. –Meia verdade. –E não consigo mais. –Verdade.
Ele estava impassível, apenas me encarando seco, seus lábios entreabriram.
-Para onde você vai?
-São Francisco.
-Quando?
-Quando eu terminar de encerrar meus assuntos aqui, espero receber tudo por meus anos de trabalho, cancelar o contrato da locação do apartamento, assinar o meu novo contrato do Centro de Pesquisas... Você sabe, colocar tudo em ordem.
Ele assentiu pegando a carta e colocando dentro da gaveta.
-Muito bem. – Ele disse mais para si mesmo que para mim, estendeu a mão sobre a mesa que eu aceitei quase incrédula de sua forma de reagir.
Não esperava um mar de lágrimas, que implorasse que eu ficasse... Mas esperava no mínimo que perguntasse o que me levou a ir, me indagasse se não haveria outra forma daquilo acontecer.
Meus olhos arderam mais que deveriam, para jogar sal na ferida sorri, sorri até o fígado com a mística da falsidade pesando sobre os lábios naquela curva forçada.
Dei as costas imersa na decepção.
-Sara. – seu chamado me parou instantaneamente. – o que você quis dizer quando a historia do bebe?
Eu sorri novamente piscando os olhos para disfarçar o marejo.
-Eu estou grávida Grissom
Seus olhos brilharam de espanto e desentendimento, eu funguei jogando para dentro todas as lágrimas que aquele olhar indescritível em sua confusão me causava.
-Você está grávida? – Ele repetiu para ter certeza.
Sacudiu a cabeça com o choque levantando-se, engoliu a seco, apoiando o corpo com as mãos na mesa.
-Eu... Quer dizer... Eu... Eu fico feliz por você, parabéns... – Ele não estava feliz, ele não estava gostando daquilo ele não me olhou nos olhos e estava ligeiramente pálido, ele estava irritado, muito irritado.
Eu pensei que ele ficaria naquele estado de incredulidade, mas finalmente ele ergueu o olhar com raiva, uma raiva efervescente. Ele finalmente havia entendido.
-Você está grávida e por isso vai embora... Certo Sara, grande plano, e quem vai te ajudar nele? Quem é o pai do seu filho?
Eu respirei fundo pensando de que forma chegamos aquele ponto, como ele finalmente tinha dito alguma coisa substancial, como ele finalmente erguera os olhos e encarar os meus, inquisidores, incisivos. Ele estava tomando uma posição.
-Eu sei que não é um bom plano, mas é o que eu tenho.
Aquilo soou inacreditável sincero em mim mesma, se eu tinha opções e não sabia quais eram, se eu tinha outro caminho não tinha visto e talvez até não quisesse, quem sabe eu gostasse de ser mãe? Quem sabe eu fosse uma boa mãe? Eu não podia destruir uma vida, eu não seria a juíza de uma vida. Exalei e tentei encarar Grissom, sua raiva mesclava de intensidade e pareceu que passamos séculos nos encarando, buscando uma resposta no outro que nenhum de nós mesmos possuía.
Minha garganta fraquejou e eu engoli a seco, novamente tentei respirar tendo certeza que deveria sair dali o mais que rápido que eu podia. Eu virei de costas, já não me restava mais nada ali que me impedisse de ficar ou que me obrigasse a olhar em sua face.
-Então é assim que acaba? – Ele perguntou quando eu já tinha dado os primeiro passos para longe.
Eu virei para ele dando de ombro.
-Nunca começou, não é mesmo?
Ele sacudiu a cabeça. Nossas grandes e decisivas conversas sempre terminando em um silêncio mútuo, irritante de totalmente desnecessário.
Eu não tinha mais nada a perder, me virei para ele, e deixei meu corpo cair sobre o seu, meus braços ao redor de seu pescoço, suas mãos timidamente encaixando em minha cintura, nossos rostos colados. Então eu me virei, deparando nossos lábios, foi um toque macio, um encostar harmonioso e simples, e molhou-se com ar de despedida. Ele nunca tomou a iniciativa, mas não estava abrindo mão de provar o sabor de meu beijo. Até naquele momento ele conseguia ser irritantemente covarde.
Me afastei quase se fôlego sentido o ardor tão já comum nos olhos, me afastei sem dizer mais uma palavra, sem olhar para trás, me afastei quase correndo, sabendo que se eu ficasse um pouco mais seria fatal para meus planos, para meu coração.
Fale com o autor