Um Beijo Ao Azul Escuro

22 No final da estrada aberta


Notas iniciais
Gente, está me doendo muito postar hoje o último capítulo dessa fic tão especial... Todos que acompanharam eu lhes agradeço do fundo do meu coração!

Was a long and dark December

Foi um longo e escuro dezembro

From the rooftops I remember

Quando os bancos tornaram-se catedrais

There was snow white snow

E uma raposa tornou-se Deus.


A questão é que faltavam três semanas para o mês acabar e de certa forma meu locatário insistia que eu pagasse o mês inteiro... A conversa do telefone prometia ser longa e duradoura, se a porta não tivesse chamando eu certamente teria passado a tarde inteira lá com ele na linha, antes de combinarmos uma visita ao imóvel no outro dia de manhã.

Toda a minha estadia em Vegas me permitiu esquecer a utilidade olho mágico, uma vez que eu nunca o usava e já ia abrindo a porta assim que ela chamasse. Sem nenhum tipo de perspectiva de saber quem era, ou ideia possível e imaginável, Grissom estava parado lá em seu vão, tão surpreendente que chegou a ser óbvio em algum momento.

–Desculpa, — ele disse secamente – podemos conversar?

Nós sempre poderíamos conversar Grissom, mas nunca chegaríamos a canto algum.

–Claro. – Eu não o chamei para entrar, não sabia se seria seguro o suficiente comigo naqueles surtos de “nada a perder” com meu sofá ou minha cama assim tão próximos. Ele percebeu que não sairíamos da entrada então, hesitante, começou a falar.

–Acho que não tem muito a ser dito, — não diga o óbvio, querido – eu preciso que você saiba de uma coisa Sara: acho que estamos fazendo isso errado. –Sentia sua voz fraquejar, ao mesmo tempo, que era difícil olhar diretamente para mim, era um tipo diferente de vergonha que ele possuía, uma tão grande e tão deplorável que não o permitia se dirigir diretamente a mim, eu pensei a respeito de sua raiva, de sua indignação, eu jamais pensaria que todo aquele estouro fosse resumido àquilo que o vulgo denomina de nada. –Não acho, tenho certeza. – Ele engoliu a seco.

Por que agora, Grissom? Por que não antes? Eu não materializei aquelas indagações, suas finalidades não estavam prontas, aquele era um dos raros momentos que eu me via calada, Sara Sidle sem palavras ou gritos, apenas ouvidos, aquele era o momento perfeito para isso... “Uma vez que eu não tinha nada a perder”, repeti sarcasticamente para mim mesma encarando sua face baixa e atenta as suas palavras baixas e trêmulas.

–Não pode ser assim.

Eu estremeci dentro da blusa de flanela branca e a calça de moletom. “Não pode ser assim”. Tão determinado que cheguei a acreditar naquelas palavras, cheguei a reacender por alguns efêmeros instantes a chama da ilusão que tentava a todo custo apagar, que ainda sobrava uma suave fumaça lembrando-me que ainda existia, estava esperando apenas o combustível necessário para reacender as brasas que minhas lágrimas apagaram.

Meus braços envolvia meu corpo, engoli a seco admitindo minha posição defensiva e tentando imaginar que carranca minha face exibia. Suspirei fundo amolecendo dentro de mim mesma, levei meus dedos à face áspera pela barba por fazer, cresciam os primeiros fios duros de pelo arranhando meus dedos enquanto eu tomava posse de seu rosto, levantando-o para encará-lo finalmente nos olhos, os mares azuis estavam pacatos, sem perigo algum de me afogarem, estavam cansados depois de tantas tormentas, águas paradas que eu estava quase me atrevendo a navegar.

Desejei por um instante não estar naquela situação, naquele dilema, lembrei vagamente do seu toque, de como sua pele era quente e macia mesmo com a barba dei dos passos para seu lado, enquanto eu respirava seu cheiro inebriante me subia pelas narinas, ele não usava perfume, isso poderia contaminar a cena de crime, mas o cheiro natural de sua pele, aquele tipo de odor que todos possuem, malditos feromônios irresistível.

Suas mãos pousaram em minha cintura, nossas testas estavam juntas e nossas respirações banhavam o rosto do outro.

–Não precisava ser assim. – Eu disse com os olhos ardendo, percebi que mesmo fechados eles transbordavam. Aquilo estava acontecendo rápido demais, eu estava tão emotiva, aquilo já seriam os hormônios da gravidez? Respirei fundo, sem forças para me afastar, eu gostava de estar tão próxima assim dele, do calor de suas mãos infiltrando-se sobre o tecido de minha blusa, da pele do seu rosto roçando contra a minha... –Mas será.

Eu disse por fim, me impedindo de cair na teia de aranha que eu mesma havia tecido.

–Você não está entendendo, Sara... – Ele engoliu a seco, seus ombros pesavam curvados ligeiramente para baixo, algo de estranho em sua fisionomia denunciava os sinais do cansaço psicológico, de como aquilo estava lhe acabando por dento e por fora. –Eu não vou deixar que seja assim.

–Assim como Grissom? – Eu perguntei cedendo mais uma vez, minhas mãos desceram até seus ombros próximos demais de sua nuca, nossos narizes se tocavam de maneira que eram os únicos obstáculos para a junção dos lábios, eu não queria que essa conversa fosse tão próxima, que estivéssemos assim tão ligados. Eu sempre desejei a proximidade de Grissom, seu toque, sua respiração para mim, agora eu estava tentando muito afastá-lo, com todas as minhas forças colocá-lo para longe da minha vista.


When the future's architectured

Quando o futuro é arquitetado

By a carnival of idiots on show

Por um carnaval de idiotas em amostra

You'd better lie low

Seria melhor você mentir.


Era engraçado como as coisas da vida aconteciam da maneira mais sacana possível, eu imaginava o tipo de relacionamento possível, gradativo, onde as pessoas passavam por etapas para finalmente consolidá-lo.

Era uma longa escada, que não necessariamente seria subida em conjunto, por isso alguns relacionamentos não davam certo, algum dos lados sempre estava disposto a dar o primeiro passo para subir um novo degrau conseguindo finalmente consolidar a relação, no nosso caso eu estava no último andar, o mais elevado, eu o via atrás a todo instante, aceitando que ele jamais começaria a subir aquela escada.

Eu estava cansada de esperá-lo lá em cima e de tão frustrada estava de braços abertos, disposta a me jogar daquela altura, a abandonar todos os compromissos que tinha conquistado internamente para com ele.

Em algum ponto percebeu o que fez e tomou sua decisão, ele subiu as escadas, desesperado, cada degrau que eu tinha enfrentado internamente para subi-lo que fez em questão de segundos, ele subiu desesperadamente como alguém que corria até outro para impedi-lo de jogar-se em um precipício, talvez ele realmente estivesse fazendo isso, talvez se ele não tivesse chegado eu teria me jogado lá de cima no precipício da sorte, abandonando de vez a possível existência de um relacionamento para nós – quando ele chegou até mim seu azul estava nublado de preocupação, o cenho franzido e naquele silencioso momento ele me perguntou por que fiz aquilo, porque estava lá.


Bury me in armour

Enterre-me em uma armadura

When I'm dead and hit the ground

Quando meu corpo cair no chão.

My nerves are poles that unfroze

Minha coragem são postes que não congelaram.

And If you love me

E se você me ama,

Won't you let me know?

Não vai me deixar saber?

Violet Hill — Coldplay


–Eu te amo. — Disse como uma resposta a toda aquela confusão que se passava internamente entre nós, não foi uma grande coisa, mas foi a frase que esclareceu completamente nossa situação.

Ele me amava por isso eu não podia ir embora, ele me amava por isso não me deixaria ir embora, ele me amava por isso me queria feliz independente de sua própria felicidade, ele me amava e estava percebendo que eu só seria feliz a seu lado, dessa forma ele faria o que fosse preciso para eu ficar feliz.

–Eu te amo. – Ele repetiu sustentando o seu olhar ao meu. –Não posso te deixar ir sem mim, não posso ficar sem você. Assim, que eu digo, é o nós quebrado.

–A situação a mudou. – Minha frase foi curta, crua, fria, ríspida no seu sentido, entrando o tom de voz que eu estava me forçando a usar era estranhamente cálido, eu não queria dizer aquilo e conscientemente eu não falava, meu sistema de autodefesa estava ligado e era ele que estava combatendo, tardiamente, as possíveis ilusões que aquele momento desesperado poderia causar.

Algum parte de mim estava em impedindo de aceitar aquela declaração facilmente, minhas mãos escorregaram do seu corpo para minha barriga e eu fiz algo que jamais pensei ter força suficiente para fazer, eu retroagi um passo.

–Eu não posso... – Eu disse levando as costas de uma das mãos livres ao meu rosto, enxugando as gotas que escorriam por minha face. –Sinto muito, eu não sei se eu posso... Eu não sei se conseguiria matá-lo...

De algum lugar desconhecido veio o menção daquele ser diferente, não era mais sobre mim, era sobre nós, um nós que não incluía Grissom e eu, mas sim meu bebê e eu. De uma forma que eu só podia pensar em olhos verdes deslumbrantes, cabelos loiros espessos em um rosto angelical infantil, livre de qualquer traço meu; aqueles comentários que sempre diziam às crianças: “Como ele é parecido com o pai!”.

Em São Francisco ninguém saberia quem o pai era, ninguém poderia compará-lo a ninguém, não haveria um referencial.

Perguntei-me naquele momento se quando Grissom visse a criança quando nascesse, e olhasse em seus olhos, admirando os vidrais verdes, ou o cabelo amarelado, ou algum tipo de traço genético do pai, ele só conseguiria enxergar em sua face inocente o homem que prendeu e encontrou na cama comigo, o homem por qual nutria total desprezo e estava disposto a pagar caro para tê-lo longe.

Nunca chegou a mim pensar que a criança não resistiria, que pela debilidade do meu organismo carente de proteína eu não conseguisse mantê-la, se ela nasceria com algum tipo de doença... Aqueles pensamentos tenebrosos e longínquos nunca chegaram a mim, excerto aquele momento. Do nada todos os detalhes minuciosos a respeito de crianças vieram pairar em minha mente, justo naquele momento.

Enquanto eu tocava em minha barriga inchada e me perdia naquela floresta negra de dúvidas e incertezas, eu senti um calor diferente sobre minha mão. Uma luz incandescente me cegou, roubando-me daqueles trevas, de uma forma avassaladora me vi de novo diante daquele mar calmo, aquele mar que queria tanto navegar.

Grissom tocava em minha mão sobre a barriga, seus dedos nos espaço entre os meu, conseguindo alcançar pequenas fissuras da minha blusa, seu calor natural penetrando no tecido.

–É disso que você tem medo? – Sua voz estava baixa, totalmente gostosa de ouvir, um tom grave seco que se tingia de uma ternura quase palpável.

–Você não? – Percebi que não conseguiria responder aquilo diretamente, eu tinha medo, era óbvio, mas não sabia de que... Da criança, da maternidade, de tê-lo ao meu lado e ele não aguentar a pressão de criar o filho de outra pessoa.

–Acho que meu principal medo é ter feito isso tudo e você me dizer não

Eu quase rir, aquela declaração singela tinha sido linda. Finalmente flores para aqueles que tinham se arrastado nos espinhos?

–Se a criança tiver pequenos olhos verdes, longos cabelos loiros... E adorar moto?

Eu vi um vislumbre de divertido em seus lábios, os dedos percorreram meu braço correndo até meu rosto, fazendo uma suave carícia sobre ele até meus cabelos, infiltrando-se neles, colocando-os atrás de minha orelha.

–Se nosso filho tiver olhos verdes ou cabelos loiros, será lindo... Se gostar de motos, daremos uma quando tiver idade certa... Iremos para corridas... O que acha, nós três com bandanas de caveira na cabeça?

Não teve como não rirmos, ele estava falando realmente sério.

–Você teria coragem disso?

Ele deu de ombros, ele não sabia se o que tinha agora era coragem ou um medo aterrorizante de me perder, ele não sabia se conseguiria se perdoar se me deixasse ao mesmo tempo que se sentia responsável pela criança... Aquela confusão complexa era estampada em seu semblante, poderia ser o prenuncio que deixar-me entregar-se era uma má ideia.

E quando eu senti a decepção se espreitando tudo o que se passava no seu rosto se desfez, ele suavizou o máximo que pode seu rosto das dúvidas.

–Claro, — soou tão sincero como poderia — contanto que ela também vá a uma corrida de baratas um ou duas vezes por ano comigo. – Eu não consegui não rir, nem ele. Aquela mescla de tensão e humor que infestava o ambiente não me deixava mais segura a respeito do rumo que aquilo tomava.

O pensamento deles agitando bandeirinhas vermelhas, gritando o nome de algum integrante de uma banda britânica clássica antiga com uma barata reativou todo o meu organismo dormente desde o meu lanche da tarde.

–Você não vai criar baratas em nossa casa. – Eu sentenciei mais que severa.

Suas mãos estavam em meus quadris, novamente estávamos criticamente próximos.

–Então, isso é um sim?

Colei novamente nossas testas, respirações banhando o rosto do outro, minhas mãos largando de mim mesma para ele, sem mais delongas nossos lábios se tocaram, aquele encontro suave e altamente prazerosos apenas por sua existência, seu gosto contra minha língua e aquela vontade incontrolável e surreal de nunca mais nos separarmos.

Minha consciência era testemunha que eu resisti o máximo que pude, que eu lhe jurava proveito intenso e eterno enquanto durasse, que eu pensei em cada problema que eu teria e poderia me aparecer enquanto estivesse em seus braços.

Quando nos soltamos estava rindo, verdadeiramente rindo, ele tinha aquela descontração carinhosa em seus olhos, sim, o mar ainda estava calmo, navegável como nos últimos momentos, estávamos abraçados no corredor e eu já iria convidá-lo para entrar quando senti o já conhecido gosto da bile em minha garganta, meu sorriso se desfez no mesmo momento e dei de costas correndo apartamento adentro, deixando-o para trás.

Me vi debruçada sobre o vaso jogando fora tudo que outrora fora comida em meu estômago.

Droga.

Quando me levantei com o gosto enjoado na boca, ele estava lá no vão da porta, fui até a pia e com a mão em formato de concha peguei um punhado de água lavando da boca o gosto ácido do vômito.

–Você ainda pode mudar de ideia e fugir.

Eu disse vencida pela dor das contrações internas no meu estômago ultimamente hipersensível. Por outro lado, senti seus braços envolvendo minha cintura por trás e seus lábios em minha nuca sobre o cabelo, escutei um murmuro parecido com um tipo de risadinha baixa.

–Precisa fazer pior que isso para me se livrar de mim.

Notas finais
Então... Tem um epílogo, mas esse, em si, é o último capítulo!