Um Beijo Ao Azul Escuro
3 Uma desculpa que justifique tudo
Não sei quanto tempo eu passei entre a cama de casal, recolhendo as penas dos travesseiros, as esponjas amareladas estouradas do colchão, minhas costas doíam e toda vez que olhava a minha volta, com todos os cacos de vidros brilhando sob a luz da manhã clara de sol escaldante, sentia que estava sem rumo. A ideia de abandonar tudo ali e sair de vez da casa era minha principal companheira.
Cravadas do que restou do colchão do quarto, as balas, pareciam um tipo de quadro abstrato, sua quantidade era estarrecedora, alguém pulara em cima da cama e começara a atirar. Não, não tinha sido uma brilhante dedução, as marcas de sapato estavam lá, fazia tempo que eu tentei deixar de entender o cenário que eu via pela frente. Mas aquilo me incomodava, quantas pessoas tinham sido necessárias para causar aquele estrago? Que tipo de exército destrutivo estaria por atrás daquilo?
Continuei catando pacientemente as balas, cartuchos fotografando parte da parte daquele pandemônio que se estendia para além da minha vista e estava impregnado em toda aquela mansão. E entre todos os pensamentos que me permiti possuir enquanto fazia meu trabalho displicentemente, aquele que eu estava evitando finalmente me tocou e sem pedir licença apresentou-se para ser a mais nova e incomoda reflexão. Só conseguia ter o vislumbre tremido de sua face à minha frente, àquele vulto negro sem rosto que me incomodava tanto, que me cuidou com tanto gosto. O pensamento incomodo veio tão rápido como foi. E só sei de sua existência porque agora avalio minuciosamente como tudo aconteceu.
Dei longos passos pelo quarto depois que me levantei da cama, aquele quarto era quase do tamanho do meu apartamento. Me dirigi às duas portas na extremidade retangular, a primeira era o closet, ou o que restara dele, como tudo aliais, que eu presenciava naquela casa. Minha vista só alcançava o que era o resto do glamour ou até mesmo da composição básica de cada objeto, eram pequenas evidência que sussurravam ao olhar: “estou assim agora, mas uma vez era tudo que você jamais conseguiria pagar”.
As prateleiras estavam caídas, uma sobre a outra, os sapatos desvirados e em uma estimativa visual eram mais de cem pares, entre Christian’s Louboutin e Pradas, as roupas que cercavam as outras duas paredes estavam jogadas no chão, blusas e vestidos rasgados e não encontrei nenhum jeans ou terno.
Comecei a fotografar sem saber ao certo o que, tudo estava revirado lá a porta alvejada e os outros projeteis atolados nas paredes, a casa havia se tornado um imenso tapete de balas 38, havia acabado duas das minhas marcações amarelas, estava usando como identificador notinhas autoadesivas brancas escritas à caneta preta, totalmente fora do protocolo oficial.
–Sara! – O gritou veio do andar de baixo, tão estridente que me sobressaltei. Um timbre bem mais grave e totalmente diferente do de Greg.
Larguei absolutamente tudo que estava fazendo, e a câmera só não caiu no chão porque a correia que a prendia estava no meu pescoço, e mesmo assim, saí correndo, pendendo-a para todos os lados em meu pescoço, quase me enforcando, tateei em meu jeans em busca de minha arma, e encontrei nada como resposta.
Ótimo, estava correndo porque alguém gritara meu nome, em uma casa que fora devastada por alguma espécie de gangue, que gastou mais balas em um quarto que todos os meus cartuchos juntos, e que, aliais, não estava comigo.
Suas cabeleiras se projetaram a baixo da escada, um misto de alívio e calma me possuiu violentamente rápido demais, Grissom estava de braços cruzados me encarando saltitar entre os degraus da escada. Greg mantinha seu olhar vago, para longe de mim, envergonhado.
–Alguma vez eu disse que vocês poderiam fazer o que quisessem? Já ouviram falar em uma palavra chamada “protocolo”? Você, Sara, tem condições de estar aqui?
Deixei-me engolir a seco, afinal, qual era mesmo cabimento daquela bronca? Em um dia de folga eu estava trabalhando, claro, eu estava de ressaca, quase que despreparada, atordoada, mas em qualquer outro momento eu deveria ganhar estrelinhas douradas junto com minhas horas-extras.
–Eu pensei que poderia ajudar.
–Você pode ajudar, claro, indo embora. Não precisamos de você.
–Você não precisa, o Greg por outro lado... Como você pode pedir para ele fazer isso sozinho?
–Do mesmo jeito que todos os outros estão fazendo, fazendo o seu trabalho.
–Afinal, de que tudo isso se trata?
Ele coçou a garganta, seus olhos pesaram enquanto me fitavam, ansiosos para quebrar o contato, mas de uma hora para outra, ele solta o ar com força, e balança a cabeça.
–Vá embora, Sara. Para seu próprio bem. Deixe todas as evidencias que encontrou onde estão e vá para casa.
–Grissom, ela... – Greg finalmente abriu a boca tirando as mãos dos bolsos, me encarnado com olhos em um misto de piedade e desculpa. Nosso bom supervisor apenas ergueu a mão impedindo-o de falar.
–Sara, por favor.
Sua voz não passou de um comando seco, revoltante, particularmente falando, seu olhar baixo, me mandava embora, mas não tinha nem a coragem de olhar nos meus olhos.
Ele sabia que eu tinha passado a noite bebendo, mesmo aquela distancia não era possível ver meu estado, eu tinha certeza que ele sabia disso, mas não fazia ideia como.
Been trying hard not to get into trouble, but I
Venho tentado arduamente não me meter em problemas, mas eu
I’ve got a war in my mind
Eu tenho uma Guerra em minha mente
So, I just ride
Então, eu apenas dirijo.
(Ride – Lana Del Rey)
Eu saí de lá contrariada, até certo ponto ofendida, me coloquei atrás do volante do Denali, aí sob um olhar crítico e metódico de Grissom, com uma suave insinuação se não precisava de ajuda para ir para casa, como se em algum momento eu estivesse tão desorientada que não saberia nem ao menos como chegar a minha própria casa.
Se eu realmente estava assim? Claro que estava, mas não era da conta dele.
Supostamente nada da minha vida deveria lhe interessa e a única coisa que era da conta dele, era justamente a que eu estava fazendo direito, indiferente do meu estado, mesmo desregrada, eu estava fazendo um bom trabalho, me esforçando, deixando a dor de cabeça me possuir aos poucos, mas trabalhando.
Lancei uma última olhada para seus olhos azuis baixos.
“-Sara, por favor.”
Repeti a frase em minha mente, reconstituindo seu tom seco, ou não, eu estava com muita raiva para julgá-lo imparcialmente. Grissom, por favor, vá para o inferno. O pensamento se projetou involuntariamente em minha mente, e me mantive firme para permanecer lá, arduamente para que ele ‘sem quer’ escorregasse até minha língua. Cérebro, boca, é tudo tão perto que me senti realizadora de uma proeza quando percebi que já estava saindo da propriedade abastarda com a frase ainda lá, não esquecida, mas contida na minha lista mental de atos desejosos.
Quando fui embora, deixei meu olhar correr pelo caminho, já não tão turvo quanto antes, imprudentemente ele correu pelo céu, e novamente lá encontrou um abrigo seguro em sua imensidão.
Um ponto que não me julgava, que estava lá apenas para ser admirado, por todos, qualquer um que tivesse um pouco de sensibilidade para olhar para cima sabendo que estava tão baixo, no meu caso, tão acabado como qualquer um.
Existe uma pequena diferença entre ser algum e ser alguém... Naquele momento as linhas que os separavam estavam completamente borradas, de forma que a existência de um “qualquer” era predominante em minha mente para toda a minha concepção.
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