Um Beijo Ao Azul Escuro

4 Um sentimento que eu costumava sentir


Notas iniciais
Gente, não deixei claro... Mas essa fic é totalmente inspirada na Lana Del Rey... Acho que quem a conhece, ou já assistiu o clipe "Ride", vai entender melhor essa fic... #FicaADica

Decidido, eu não volto pra casa

Ao lar, ao corpo e todas as palavras

Que a vontade, conseguir pensar.

(130 anos – Agridoce)

Todos os caminhos não me levaram a canto algum.

Passei o dia inteiro vagando pelas ruas, das movimentas, às desertas, às residenciais, às industriais, então, finalmente, me vejo saindo da cidade, de uma forma que nunca pensei que aconteceria. Não tinha uma muda de roupa, em dinheiro acho que me restavam uns 30 dólares no bolso de trás da calça, meu tanque não estava cheio, as únicas coisas que me restavam eram a estrada, à distância e a vontade incontrolável que uma me levasse a outra.

Se alguma vez, naquele meio tempo eu parasse pra refletir tudo que estava acontecendo, perceberia que estava sem limites, que estava sem rumo e direção e talvez, só talvez, se eu tivesse dado atenção aos indícios, eu não teria tornado essa situação literal.

Em meio à estrada percebi que estava com fome, faria dois dias que eu não comia nada sólido, ou sem álcool, e como uma resposta divina as minhas necessidades um posto se projetou ao longo, na linha divisória do horizonte entre a estrada e o céu claro do dia.

Não era bem um posto, as bombas de gasolina estavam enferrujadas e possivelmente vazias, estava em meio ao deserto com a poeira tomando conta do lugar, algo próximo a uma cena se faroeste passou pela minha mente, onde o vento frio da manhã levantava uma pequena nuvem de poeira em meio ao sol escaldante, e todo aquele silêncio só intensificava minha imaginação.

Algumas coisas me davam indícios de que não seria uma escolha feliz parar ali, na frente da espelunca uma fileira de no mínimo seis grandes Harley’s Davidson turbinadas descansavam na brisa, o lugar era um tanto quanto rústico de madeira de quadrado, sabia que não poderia ser tão grande para comportar tantas pessoas, quem diria uma gangue de motoqueiros corpulentos, e apenas aquela aura que emanava mesmo distante, me fazia perguntar se não estava na hora de parar aquele pequeno passeio sem destino.

Minha barriga reclamou alto de sua seca, respirei fundo, e me perguntei o que eu tinha a perder se parasse ali, claro que minha vida não estava nem perto de pertencer a essa lista, claro, eu era uma perita, desarmada, sem distintivo, sem autoridade fora da jurisdição de Vegas, que ficara 40 quilômetros para trás, mas estava crente na minha imaginação que tudo bem que em ir lá.

Assim que abri a porta o inebriante cheiro do álcool bateu fundo em meu subconsciente, senti minhas entranhas esfriarem ainda mais, era uma mistura tão pura de álcool, cigarro, suor e liberdade que me esqueci completamente que em algum momento tive medo.

Naqueles rostos cobertos por cabelos e barbas, óculos grandes e bandanas estampadas com caveiras, eu vi algo que não via há muito tempo, eu vi diversão, eu vi sorrisos escondidos, eles se olhavam entre si, soltando gracejos íntimos que não pude escutar pelas gargalhadas que abafavam seu motivo.

Eram ao todo oito homens, três garotas, e contei enquanto me dirigia ao balcão olhando-os pelo rabo do olho.

Elas eram jovens, os cabelos mesclando do caramelo ao loiro e ruivo, três cópias genéricas da outra, com shorts curtos, e t-shits folgadas estampadas com alguma banda que não pude identificar só que diferiam entrem si. Estavam sentadas nos colos de três membros da ponta, sendo laçadas por um braço; cada qual recostada em seu respectivo companheiro, deitadas em seus peitorais largos, esparramadas em seus corpos grandes.

Eles, por sua vez, enquanto as envolviam, tinham a outra mão ocupada com um copo de cerveja maior do que suas enormes palmas, isso os que ainda seguravam na ponta dos lábios grossos bitucas de cigarros com cheiro forte.

Por um momento eu quis estar lá, estar no colo de um deles, rindo despreocupa como aquelas garotas, até certo ponto tentada a me aproximar, mas segui reto sem ser notada, ou até fui, mas fizeram questão de me ignorar. Sentei-me em um banco encostada ao balcão, o atendente se aproximou e perguntou em uma voz desdenhosa o que eu queria.

Eu não sabia o que eu queria, na verdade, eu sabia, queria ter 12 anos a menos e estar sentada com aqueles caras, esquecer quem eu era, queria tomar uma cerveja gelada, e fingir que a ressaca jamais me pegara, queria nunca ter estado em Vegas, e se alguma vez tivesse estado que fosse com algum tipo de jogatina louca, curtindo a vida adoidada. Ri de mesma com o pensamento infantil e imaturo.

–Uma água com gás e um hambúrguer vegetariano.

–Quer sem gordura também? – O atende me olhou quase rindo, com sarcasmo e deboche, secos.

–Apenas me dê alguma coisa pra mastigar, ok?

Disse baixo, ríspido, encarando a superfície de madeira com poeira. Me perguntei se a bancada estava suja daquele jeito, qual seria o estado da cozinha, e nem esse repugnante pensamento desestimulou minha fome.

–Hey, você! – A voz veio das minhas costas, e como eu acompanhava tudo que se passava daquele agrupamento de mesas pelo rabo do olho, sabia exatamente onde olhar.

–Falou comigo?

–Está vendo outra pessoa aqui? – Múrmuros ascendentes e risinhos lotaram o ambiente.

Exalei e dignei minha paciência a encará-lo, o único da ponta que não tinha uma pequena ninfeta em seu colo.

–Sim?

–Eu já vi você antes.

Sua barba era loira, igualmente aos cabelos, enormes e grossos, descuidados e desgrenhados, uma jaqueta de couro por cima de uma regata branca manchada de graxa na altura da gola, ele era alto, muito mais alto que eu, e soube disso quando se levantou afastando todos a sua volta, dando-lhe passagem.

Ele se aproximou lentamente, com as botas de couro soando estrondosamente alto, o cheiro de cigarro e cerveja tomando conta do ar, e tudo que eu poderia pensar naquele momento que esse seria o cheiro da liberdade, o verdadeiro gosto dela, nua e crua.

–Sério? Onde? Para eu nunca mais voltar lá.

Os risinhos condescendentes soaram atrás dele, que não desviou em nenhum instante os pequenos pontos de vidro que eram seus olhos, bolinha que eu comparava as de gude em uma cor variante do azul ao esmeralda, uma bela cor de olho em contrate com o traste de gente que o possuía.

Ele também sorriu sem graça, contrariado e amarelado.

–Você aparece na TV, eu sei, eu já vi, Você é uma daquelas pessoas que usam maletas estranhas e entram nas cenas de crime. Você estava no caso do assassino que deixou a policia e o FBI doidinhos, não estava?

Eu sorri, quase surpresa por ele saber o que é televisão. Minhas sobrancelhas arquearam e meu queixo caiu em uma gargalhada debochada.

–Você assiste o canal policial pra ter certeza que nenhum de nós está indo atrás de você? – Não tinha sido uma pergunta, era um tipo de insinuação implícita, e acho que ele sabia quando voltou a rir contrariado e sem graça.

–Então, você é uma tira...

Meu sorriso ligeiramente diminuiu, não se desfez do meu rosto, mas diminuiu significantemente. Comecei a mordiscar meu lábio inferior.

–Não sou tira. – Disse por fim. Não sei exatamente onde eu queria chegar.

–Mas trabalha com a polícia.

–Eu sou uma perita, tem diferença. – Finalmente a água chegou num copo de vidro que poderia jurar estar lascado no fundo, e não era água com gás, mas bebi quase metade em um gole, minha garganta estava seca, ao mesmo tempo, desejei estar tomado algo mais forte. Voltei a encarar aqueles vidrais esféricos.

–Gostaria de se sentar em nossa mesa? – Meus olhos estreitaram perigosamente rápido, dando a impressão que eu já pensara em fazer aquilo, e não impressão de ponderar se era uma boa idéia, foi quase um alerta que eu adoraria estar com eles, desde que eu entrara lá. – Ou não se mistura com a escória da sociedade?

Eu exalei recobrando meu sorriso, era fácil rir daquela situação esdrúxula.

Ele havia estendido a mão na direção da mesa, eles estavam calados olhando para nós dois, atentos a cada detalhe do que se passava daquele lado da espelunca, aquilo me deu o incentivo que faltava, me levantei em um pulo, ainda com o sorriso boboca estampado no rosto. Nos primeiros passos que dei em direção da mesa, sua mão foi de encontra a minha bunda, a palmada soou alto e quase todos riram da minha surpresa.

–Seja bem-vinda, tira... – Ele disse baixo, um sussurro com seu bafo quente banhando meu pescoço, me causando arrepios, e só por um momento gostei daquilo.

Notas finais
Próximo capítulo amanhã... o/