Um Beijo Ao Azul Escuro
2 Um pouco mais real que a sensatez
Se por um acaso eu soubesse exatamente onde estava, que horas eram e como eu havia ido parar lá, teria certeza que foram memórias implantas por extraterrestres.
A ressaca me possuía abusivamente e não conseguia distinguir nada a minha frente, só a luz ofuscante que invadia as frestas da persiana mal fechada. Minha cabeça pesava uma tonelada, no mínimo, e aquele barulho infeliz estava me ensurdecendo, onde estava? Onde? Eu não conseguia enxergar nada a minha frente, tudo ainda girava, tudo estava dolorido, absolutamente tudo.
“Hey, é Sara Sidle, no momento não posso atender, por favor, deixe seu recado e ligo assim que puder”.
“Sara? É Greg, por favor, me desculpa estar te ligando no seu dia de folga, mas eu preciso de você, não sei quando você vai escutar isso, mas quando escutar, por favor, liga pra mim, eu realmente preciso de ajuda. Aahh, e não conte ao Grissom, por favor, por favor, por favor, eu fico te devendo uma.”
Tentei me levantar, mas minhas costas doíam, meu pescoço estava duro, e não sabia se conseguiria me aguentar em pé. Desisti depois de três tentativas com minha cabeça fixa no travesseiro.
–DROGA! – Gritei, escutando o eco da minha própria voz entorpecida.
In the mornings
Nas manhãs
I was anxious
Eu estava ansioso
Better just to stay in bed
Melhor apenas permanecer na cama
Didn't want to fail myself again
Não querendo falhar comigo mesmo novamente
(Save Me – Gotye)
–Apareceu a Margarida... – Seu tom deveria ser de deboche, mas ascendeu ao alívio, ele veio em passadas longas, os cabelos amarelos costumeiramente espetados para cima haviam murchado, eu vi sua testa enrugada e seus lábios uma linha sem curvas, estava sério, tenso. E confesso que só podia notar isso por causa da aura quando ele se aproximou, normalmente Greg transpirava alegria, entretanto naquele momento até seu olhar era incômodo.
–O que houve? – Disse dando outra mascada no chiclete de menta.
Estava com meus maiores óculos escuros, meus cabelos presos, e acho que derramei quase metade da minha colônia de banho depois do suplício para passar 10 minutos debaixo de uma água escaldante, quase literalmente cozinhando a ressaca.
–Eu vim pra cá às seis horas da tarde... de ontem! – Ele enxugou o suor com as costas da mão e me olhou fundo nos olhos. –Eu fui tentar pedir ao Grissom pra te chamar, mas ele veio como um louco pra cima de mim, dizendo que era meu trabalho e que eu deveria fazer isso sozinho. Mas Sara, eu tentei, juro que eu tentei, só que lá está um inferno.
Olhei por cima do ombro de Greg, só conseguia ver o muro de pedras com pelo menos o dobro da minha altura coberto por uma exuberante videira.
Estávamos em uma zona afastada do centro de Vegas, uma lugar precisa portar pelo menos mais seis zeros no meu contra cheque para começar a sonhar em morar por lá.
Todas aquelas mansões isoladas por muros, cercas, qualquer outra coisa que impedisse de se aproximar, que preservasse sua privacidade, a privacidade do luxo. De repente me pergunto onde está meu cobertor, tal analogia me fez pensar como seria estar no conforto da minha casa, deixando-os serem esnobes sozinhos, lhes dando o luxo de privarem-se da minha paciência.
Por outro lado, vi os olhos suplicantes de Greg, sua testa, um mar ondulante de preocupação, seu suor incontrolável que estava me deixando agoniada — parecia uma torneira quebrada pingando sem cessar.
As coisas giravam levemente e qualquer movimento brusco bastava para me levar ao chão, e mesmo assim, sabendo da minha incapacidade de fazer qualquer trabalho realmente produtivo comecei a andar para dentro da mansão, me enganando que estava fazendo um favor a um amigo, me enganando que ninguém perceberia meu estado.
Meus olhos encontraram com a carnificina em meio à sala arduamente decorada com vasos de porcelana chinesa quebrados, quadros italianos rasgados e espalhados pelo cenário, os enormes sofás estavam com o estofado trucidado, a televisão de tela plana fixada na parede havia sido alvejada por no mínimo treze tiros, o caminho que levava para as escadas estava tomando por uma faixa de sangue que já haviam sido marcadas pelos indicadores amarelos numerado, o tapete persa ainda continuava lá, banhado com sangue e algo que me pareceu um pouco de tudo da sala, inclusive o que restou do centro quadrado de vidro — obviamente ainda pra ser processado.
–Onde estão as fotos? – Me deixei pensar alto.
–Como?
–Uma casa desse tamanho, sem fotos da família?
–De onde eu venho isso é brega.
–Onde eu trabalho isso é corriqueiro.
–Não tinha nenhum tipo de bancada ou algo do gênero.
–Certo. – Afirmei para mim mesma. –O que você quer que eu faça, garoto problema?
–Vá lá pra cima, eu nem ao menos comecei aqui em baixo.
–Onde você passou a noite toda?
–Na piscina, na churrasqueira, na quadra de tennis, com vizinhos... Já pode me interromper se quiser.
–Todos esses cantos estavam assim? – Fiquei mais que ligeiramente surpresa, eu senti meus olhos arregalarem por trás dos óculos
–Na verdade, aqui está até um pouco arrumado se comparado a grama de quadra.
–Afinal, o que é isso tudo Greg? Como Grissom deixou você sozinho aqui?
–Por que cada um de nós está em outra casa.
–Como?
–Cada um de nós, Grissom, Nick, Catherine e Warrick, cada um, está em uma casa.
Aquilo me paralisou momentaneamente, enquanto eu estava cambaleante por algum lugar — encontrando o caminho de casa com ajuda de um desconhecido sem rosto à minha memória; cinco casas foram reduzidas a quinquagésima potência do nada.
–Sara, tudo bem? – Greg me perguntou na sua irritante falsa simpatia.
–Tudo, vamos apenas... Vamos... Vamos fazer o nosso trabalho. – As palavras tinham me faltado, da mesma maneira que minha mente me faltava com a motivação necessária.
Eu tinha uma obrigação moral, e uma condição física, e confesso, a segunda estava ganhando o quebra-braço. Algo próximo ao pensamento de: “Não fui eu quem fez a bagunça, eu não deveria arrumar” passou em minha cabeça assustadoramente perto de ser considerada uma conclusão, mas foi afastado no mesmo instante quando Greg pousou a mão sob o látex frio na minha pele do ombro desnudo direito pela blusa branca de alças.
–Sara, parece que você não está bem, se não puder me ajudar, tudo bem, eu é que estou errado nessa história.
–Não é nada. – Resmunguei jogando o braço dele para longe de mim, um pouco grossa demais. –Vamos trabalhar, eu vou lá para cima, você termina o que começou.
A maleta parecia incrivelmente mais pesada do que de costume, os degraus da escada estavam terrivelmente maiores do que eu imaginei, e mesmo assim subi, sem vontade, sem motivação, apenas com a lembrança dolorida do sorriso no canto dos lábios de Greg. Ao contrário de todos os pensamentos que queriam me desmotivar eu repeti para mim mesma que amigos servem para todas as horas, todos os momentos e que se fosse eu em seu lugar, ele estaria fazendo a mesma coisa.
Em minha mente as coisas mesclavam entre o certo e o errado, meus óculos pendes ao decote da minha camiseta só me lembravam que ele não poderia ver meu rosto, pelo arroxeado nas bolsas dos olhos entregariam que não estava apita para a tarefa. Meu pescoço mal virava para os lados, duro e dolorido, ainda pior que quando acordei. E confesso, não fazia ideia de quanto eu aguentaria. Entrei no primeiro quarto, esperando que a solução de todos os meus problemas viesse com o trabalho, duro, pesado, costumeiro, que aquilo me possuísse por completo e expurgasse de mim todos os maus que me cercavam.
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