A bebida desenhava traços fantasmagóricos em tornos das pessoas, auras embaçadas que se estendiam por toda minha volta tremeluzindo a cada passada dada. Acho que deveria ser alguém conhecido que me carregava pelos braços, alguém quente e confortável com cheiro fraco de lavanda.

Tropeçando em meus próprios pés fui levada por aquele suposto amigo desconhecido para longe das eufóricas luzes e ensurdecedora música eletrônica. Colocou-me em um carro, e confesso: seria pedir demais da minha condição para recordar o modelo ou até mesmo a cor, mas chuto no tão medíocre preto. Preto como o desejo da noite, que insistia em intensificar seu azul sem jamais conseguir ser negra, apenas aquele azul escuro intenso descaradamente ascendente ao negro, inutilmente sem assim sê-lo.

Talvez seja uma das poucas coisas que eu tenho certeza a respeito daquela noite, demorei muito naquele carro para ter esse reflexo lúcido — além do mais, o céu era a única coisa que não girava, era a única coisa que eu olhava e permanecia lá, a única coisa que o cheiro da bebida não alcança e que não me olhava feio em resposta.

Paramos em frente ao meu apartamento. Senti a súbita freada me arrancar do banco para frente sendo apartada pelo amplexo vigoroso do cinto de segurança. Minha sensatez é quem permite contar-lhes esses detalhes, nas manhãs seguintes a marca avermelha evoluíra até um grotesco hematoma arroxeado em meu ombro, que sob a pele tingindo-se dolorosamente como uma lembrança, uma advertência amarga do que acontecera. Fato curioso e que também despertara minha atenção foi que eu não colocara o cinto de segurança. Ligeiramente a ingratidão me bate mais forte que o cinto, no final das contas — naqueles momentos mudos que passamos, tudo que eu mais queria era mandá-lo para o inferno, e mesmo assim ele estava tendo todo aquele trabalho.

Carregou-me calado, um tanto quanto arfante, pelas escadas claustrofóbicas do prédio. Eu preferia que ele começasse a falar algo, gritasse comigo, dissesse algo que me fizesse sentir mal, seria um pouco melhor do que como eu estava me sentindo naquele momento, um zero a esquerda que atrapalhava a equação, um estorvo que deveria ser carregado como um fardo por alguma punição injusta.

Finalmente a porta se projetou a nossa frente. Ele me estendeu em sua fronte, como se esperasse alguma reação, uma reação muito óbvia; que não viria sem o suave e prolongado murmurar de sua voz rouca, seguido pelo pedido da ação.

–A chave? Pode pegá-la? — Me larguei de seus braços e usando os meus próximos tateei pelo jeans surrado que usava já há dois dias, apalpando os bolsos sem a mínima sensibilidade, arranquei de qualquer um o chaveiro em formato de lupa e lhe estendi.

Não sei o quanto pode ter demorado, mas ele o fez. Deixou-me na cama inebriada com meu sono, claro que após uma pequena cena onde lhe agarrava a mão e começava a gritar perguntando quem era e se podia ficar comigo.

Sua cabeça moveu-se bruscamente, largando-se da minha mão, com sua voz grossa novamente soando ao dizendo-me que não precisava daquilo. Tirei meus sapatos jogando-os contra ele, que não chegou a correr para fora do quarto, mas ao menos acelerou as passadas para fora do apartamento.

Tudo era absurdamente vago à minha memória, o timbre da voz, o toque das mãos macias sobre as minhas me impedindo de desabotoar a camisa social que ele vestia, o último olhar que me lançou quando amuada tirava os lençóis geladinhos e envolvia sobre a roupa ainda fétida de álcool.

Ele foi embora levando consigo um pouco da minha paz, me deixando na dúvida cruel de quem seria aquele que tão gentilmente se preocupou com uma bêbada jogada a mercê do acaso.