Um Beijo Ao Azul Escuro

12 O que está por trás das sombras


Demorou um instante para recuperar minhas reações e ligar o carro, Grissom já tinha partido a incontáveis minutos atrás me deixando ainda mais perdida que antes.

Não sabia se realmente queria continuar em Vegas, nem se conseguiria, mesmo com ele. Eu precisava de um tempo, dar um tempo a tudo a minha volta. O termo “clinica de reabilitação” passou pela minha cabeça, mas foi rapidamente afastada com um riso de deboche, eu não estava tão desesperada ou descontrolada assim... Ou estava, mas não queria admitir.

E de todas as coisas que eu suspeitava e não tinha certeza, o que eu havia dito a Grissom era inalterável, isso era absolutamente claro agora. Eu havia dito que continuaria lá por ele, não nessas palavras, mas nessa implicância direta.

Eu não tinha condições nem estava disposta a esperar ele se decidir o que queria da vida, mas fui categórica em aceitar lhe aguardar, eu poderia ter dito que estava indo, eu poderia dizer que estava ficando sufocada, que tudo que eu havia sentindo naquele dia me provara que existe um mundo que não conhecia, um mundo fora dos padrões e horários e toda a sua estrutura de vida... Um mundo que não o tenha, mas que fosse melhor que ele, unicamente para mim e minha sanidade.

A estrada estava sombria tomada pelas trevas do azul escuro da noite, mesmo a escandalosa Vegas estava longe demais para ser avistada e tudo me remetia ao tempo que passei com Lion.

Com certeza havia caído em suas garras, mas não em sua graça. Sentia que estávamos empatados, eu o havia usado para esquecer meus problemas, ele havia me usado para passar o tempo, mas ainda tinha aquele estranha necessidade de vê-lo, ainda queria conversar com ele.

O horário de visitas havia acabado séculos atrás e pela primeira vez naquele eu estava feliz de ser uma CSI, ainda podia falar com ele se estivesse na sala de interrogatório, tudo era possível uma vez que eu não fazia ideia de onde ele estava e era uma boa ideia ter essa conversa.

Tell me what you want to hear

Diga-me o que quer ouvir

Something that'll like those ears

Algo que agradará os seus ouvidos

Sick of all the insincere

Cansado de toda esta insinceridade

So I'm gonna give all my secrets away

Então abrirei mão de todos os meus segredos

This time

Dessa vez

Don't need another perfect lie

Não preciso de outra mentira perfeita

Don't care if critics never jumped in line

Não me preocupo se as críticas nunca aparecem de uma só vez

I'm gonna give all my secrets away

Eu estou me desfazendo de todos os meus segredos

Secrets — One Republic

Os corredores estavam frios, e a maçaneta chegou a congelar minha mão trêmula quando a envolvi e abri aquela porta de uma vez.

Ele estava sozinho como eu já sabia, esparramado na cadeira desconfortável e sobre a mesa. Seu olhar desdenhosamente encontrou a mim enquanto fechava a porta. Estava calado, me encarando em seu silêncio.

-Você armou para mim? – Foi a primeira coisa que saiu de sua boca, quando me sentei a sua frente. –Vaca, você armou para mim?

Eu balancei a cabeça.

-Eu te faria mesma pergunta. – Disse calmamente, ele já estava ereto, me encarnado nos olhos, os vidrais opacos e irritadiços como sempre.

-Por que eu faria isso?

-Porque eu trabalho aqui, você poderia me usar para conseguir algum tipo de informação.

-Para que? Eu parei de fumar quando entrei na cadeia, não preciso saber onde consigo.

-Não se faça de desentendido. – Eu disse encarando em seus olhos, finalmente havíamos estabelecido o contato visual.

-Eu realmente não sei do que você está falando.

Exalei fundo.

-Você e seus amiguinhos participaram de um massacre em um bairro rico daqui. Destruíram mansões inteiras, e você está agindo como se eu não soubesse que você fez parte disso.

-Eu estou agindo como se você soubesse disso antes de ir para cama comigo! – Ele desceu a mão sobre a mesa de forma estrondosa e escandalosa sua tapa a fez reverberar até o chão. Fechei os olhos engolindo a seco, respirando fundo.

-Sim, é claro que eu sabia, por isso fui afastada do caso, por isso todos os meus colegas estão pensando que eu sou uma espécie de traidora que passou informações confidenciais para o namorado bandido! – Estava quase acertando o tom da voz de mentira.

O cenho encoberto pelos cabelos desgrenhados franziu e ele coçou a barba, já quase sem paciência.

-Você não sabia?

Eu sacudi a cabeça.

-Claro que não.

-Então você parou lá por acaso. – Revirei os olhos e engoli a seco, aquela reação de novo, Quão difícil era acreditar que às vezes o azar acontece com os desavisados?

-Exatamente assim.

-Isso é bom... – Ele concluiu inclinando-se para trás, no suporte da cadeira. –Isso é muito bom, eu estava achando que uma vadia qualquer tinha me enganado. – Os pequenos pontos cristalinos reviraram a sala e voltara na direção dos meus. – Porque eu não sinto como se você fosse uma vadia qualquer.

-Porque eu realmente não sou! – Eu bufei me inclinando para frente, pousando a mão na mesa, estendendo para a dele, sua palma grande e quente, toquei-a por cima e logo em seguida ele entrelaçou nossos dedos. – Me deixe te ajudar, me ajude e me deixe te ajudar, não precisa ser assim, nem para mim nem para você, nós dois podemos sair bem dessa história.

-Que mágica você poderia fazer?

-Eu posso falar com a promotoria, dizer que você nos ajudou a prendermos os outros.

-São meus amigos, eu não vou entregá-los.

-Eles vão atacar de novo, não é? – Ele não respondeu, encontra partida apertou ainda mais forte minha mão. Engoli a seco, aquele toque forte e quente... – Por favor, Lion, não precisa ser assim.

-Você não entende. – Seus lábios se curvaram em um sorriso sem gosto. – Eles não vão parar, eles vão continuar, eles gostaram, não é só a minha equipe, tem outras... Três ao todo, eles só vão parar quando tudo estiver destruído.

-Tudo o que? Todo bairro, toda a cidade? – Ele calou-se repentinamente, e suspirei.

-Eu gosto de você, mais do que eu deveria, mesmo assim não vale apena. Estamos falando de dinheiro e muito.

-Não Lion, estamos falando de vidas, estamos falando de patrimônios públicos e privados, estamos falando de uma injeção em sua veia assegurada pela pena de morte no estado de Nevada. – Eu levantei a voz o suficiente para ele saber que eu não estava brincando. –Você não precisa morrer assim.

Ele abaixou o olhar para nossas mãos, e finalmente o curvar nos lábios foi um pouco mais sincero.

-Não é assim que as coisas funcionam. – Ele suspirou, e vi aquele grande e indomável homem murchar na minha frente, sem perspectiva, sem selvageria, sem sua arrogância natural por possuir a tão incontrolável liberdade, o homem que me fez andar de moto em sobre calçadas, furar sinais, me possuiu em um hotel barato, mostrou-se ser um monstro maior que os demônios dos meus problemas e me libertou deles enquanto estive em sua companhia. Aquele homem conhecia seu destino e seu caminho, e por algum motivo não queria mudá-lo.

-Me explique Lion, me dê um bom motivo para não funcionar assim, me diga por que você não quer ir embora e viver sua vida, desfrutar da sua liberdade.

-Porque se eu for para a cadeia, eles me matam... – Ele engoliu a seco. – Olhe, isso não começou por acaso, não pensamos simplesmente: “Estamos entediados, vamos quebrar tudo por aí”

-Me conte a história... – Finalmente percebi o que eu deveria fazer. – Lion! – Gritei, para tirá-lo na neblina de seus pensamentos e recordações sombrias. – LION, PORRA, ME CONTA LOGO E ME DEIXA TE AJUDAR! ME AJUDE! CARAMBA! – Soltei nossas mãos e da mesma maneira que ele, desci a mão na superfície da mesa de forma dolorosa aos ossos da minha palma, tendo certeza que causei tanto estardalhaço quanto ele.

Ele quase gargalhou.

-Certo, querida... Chamaram minha turma e disseram que deveríamos fazer o maior estrago possível, grana preta, com adiantamento. – Ele respirou fundo. –Pensamos que era apenas para fazer baderna, “inferno, é dinheiro fácil, se detonarmos completamente o lugar ninguém vai vir atrás da gente”, isso era um tipo de certeza que tínhamos, pediram para ir a um depósito, estava completamente cheio de armas, um grande armazém com as paredes estufadas de metralhadoras e mesas longas de madeira cheias de munição, iríamos jogar vídeo game em 3D de verdade! – Os olhos quase brilhavam com a lembrança. – Todo mundo pegou o quanto pode, tinha também um mapa dizendo onde seria a festa.

“Quando chegamos lá, já tinham começando, era umas duas da manhã, e nós estávamos atrasados, eram balas para todo lado, o barulho de motos sobre a grama, uma bala acabou acertando o cano de uma moto do meu pessoal. E não parava! – Lion parou um pouco, minha mente tentava recriar a cena do pandemônio que deveria ser. – Não sabíamos o porquê daquilo, mas estávamos nos divertindo pra caralho, era um tipo de emoção que você só consegue com um baseado muito forte. Os outros vieram falar com a gente, disseram que como tínhamos chegado tarde, nós terminaríamos o trabalho, claro que concordamos!

“Então no outro dia o mesmo cara que tinha acertado com minha turma falou que estávamos contratados para algo grande. Algo realmente grande. Nossa próxima parada é no número 1600 da Pennsylvania Avenue Northwest. E inferno de novo, nós iríamos!

-Quando fomos naquele restaurando que nos conhecemos, o cara disse que eles iriam encontrar com você. – Ele deu de ombros.

-Talvez eles tenham voltado pra Sandrine. – Desconheci o nome arqueando as sobrancelhas. –É o nome da dona do hotel! – Ela esclareceu. Aquiesci. – Se Sondrime contou a eles que a policia passou para me buscar eles já estão longe.

Meus olhos arregalaram involuntariamente, não, aquilo certamente não era confiável e, com certeza, inesperado, e algo me dizia que Lion seria incapaz de criar uma história tão bem bolada. Me levantei em um empurrão que fez a cadeira cair para trás, dei a volta na mesa, meus dedos foram até os cabelos da barba, infiltrando-se entre os fios espessos e loiros e o puxando para um beijo.

-Obrigada. – Disse entre seus lábios. Descolei nossos lábios e quase lhe sorri, se não tivesse saído quase correndo para fora da sala.

Notas finais
~Todos os capítulos essa semana serão postados à noite!