Um Beijo Ao Azul Escuro

13 A bruma densa da verdade


Não tive certeza do que seus olhares julgavam, minha entrada extravagante, minhas palavras ofegantes ou seu conteúdo bombástico, mas estavam lá, olhos arregalados despertos de qualquer defesa pela surpresa com que tinham sido pegos.

A sala de evidências se encontrava em um silêncio fúnebre, as respirações cortadas ecoavam no interior como um sinistro som de fundo para que toda a tensão do momento se culminasse e por fim explodisse no clímax, que não chegou até que repeti pela segunda.

-Tudo isso se trata de um ataque terrorista! – Disse novamente, cuspindo as palavras de uma só vez.

-Como? – Grissom perguntou, encarei os olhos azuis, o céu estava nublando-se com preocupação, com o humor variável de acordo com a estabilidade do caso.

-Lion me contou o que está acontecendo. Seu grupo está indo para Washington, DC. – Engoli a seco de novo. -Pennsylvania Avenue Northwest.

Os longos cílios de Catherine piscaram furtivamente, suas sobrancelhas arquearam e seus lábios se entreabriram procurando a melhor forma de falar sem causar a terceira guerra mundial.

-Você está dizendo que um bando de motoqueiros vai cruzar o país, de Nevada até Virginia, para usar a Casa Branca como alvo de tiro? – O dom de seus lábios destruírem a solidez e credibilidades de qualquer história, de reapresentarem os fatos de maneira pejorativa a real desdenhando sua importância e veracidade.

-São três bandos e vão dirigir sem medo até lá. – Eles me olharam confusos... “Sim, e o que fazemos com isso? Se é que vale apena se preocupar com isso...”, suas faces me perguntavam no silêncio do seu olhar. –Podiam pedir, por favor, para interromperem o tráfico de motos nas estradas interestaduais.

-Com o depoimento de um dos motoristas como fundamento para isso? –Catherine quase gritou, era impressão minha ou ela estava tentando colocar minha lucidez em xeque? Ela soltava aquelas frases tão crentes de minha tolice que chegou a ofender-me intimamente a desconfiança quase palpável que a sala estava emersa para comigo.

-Exatamente, enquanto eles ainda estão em Nevada.

-Sara, você tem ideia de quantas pessoas viajam de motos? O lado sombrio do sonho americano da liberdade, a adoração pelo estilo sem barreiras, fronteiras, limites... Você melhor que todos da sala deveria conhecer. – As alfinetas de Grissom vinham indolores, mas a maneira que ele falava, sempre a maneira como as palavras soavam, distantes e intensamente vazias, como se fossem um discurso superficial parecia que era uma forma de me repreender. – São inúmeras pessoas que viajam, alguns bandos de motoqueiros lícitos, não podemos simplesmente pará-los, se tivéssemos números de placas, uma rota específica, mas você até agora não nos deu algo para basearmos esse ato.

Eu encarei seus olhos, buscando por algo mais que essa justificativa, algum tipo de raiva oculta, algum tipo de segundas motivações, mas só encontrei o vestígio de uma preocupação genuína, ele também achara a história coerente demais para ser apenas mais uma mentira qualquer de alguém desqualificado como Lion.

Eu assenti, entendendo seu lado.

-Ele vai cooperar, com tudo, se ele ganhar algo em troca.

Ele saiu da sala sem dizer uma palavra sequer, todos nós acompanhamos seus movimentos com os olhos, enquanto suas costas desapareciam na curva do corredor para algum lugar desconhecido.

You say you always keep your word

Você diz que sempre mantém sua palavra

Show me what you're after

Mostre-me do que você está atrás

I thought you'd promise me the world

Eu pensei que você tinha me prometido o mundo

Tell me what you're after

Diga-me do que você está atrás

Go on and take it way too far

Não quero levar longe demais

Cause here we are waiting once again

Porque aqui estamos, esperando mais uma vez

A little faster – There For Tomorrow

Todos transpiravam tensão, nossos olhos atentos ao vidro, excertos os de Catherine, eles se dividiam conflituosos entre mim e Grissom, eles me sussurravam no silêncio oscilante de sua atenção que ela sabia de algo mais, algo que a incomodava, que haveria a necessidade de monitorar-me ao mesmo tempo em que envolvia os atos de Grissom no seu cuidado.

Ele estava frente a frente com Lion, compenetrado e com uma pasta jogada em cima da mesa, meus vidrais giravam desdenhosos por seu rosto, meus vidrais, Lion haveria se tornado algum tipo de posse indireta? Algum tipo de pertencer assim tão vivo à mim?

-Eu vim confirmar um acordo da promotoria. – Ele disse calmamente. –Podemos chamar um defensor público para sua assistência se precisar, mas ele dirá o mesmo que estou dizendo: você não irá conseguir um acordo melhor que isso, talvez ganhe uma cela mais imunda, não um acordo melhor.

Lion deu de ombros.

-Eu já contribuí com tudo que eu queria. – Os dedos grossos e grandes de Lion tamborilavam em cima da mesa relutantes a tomar posse dos papéis.

-Sua palavra não é confiável o bastante em um julgamento, queremos algum tipo de prova física, evidência... – As palavras soaram desprovidas de emoção, ele umedeceu os lábios antes de continuar mudando o tom do discurso. –Você não identificou o contratante, não deu o endereço do armazém onde encontraram as armas, não disse que rota seus amigos pretendiam seguir, e não podemos simplesmente parar todos os motoqueiros das ruas interestaduais, nos dê algum tipo de placa, de algum deles.

Lion assentiu.

-Quero falar com a morena. – O jeito que ele falou era como se cuspisse na cara do Grissom, que por um instante perdeu toda a compostura, mas respirou fundo e balançou a cabeça.

Quando percebi, estava empurrando todos da sala e invadindo o interrogatório, Grissom estreitou os olhos me fulminado. Eu apenas pisquei furtivamente me aproximando de Lion.

-O que foi? – Perguntei baixo em pé no extremo da mesa.

-O que você acha disso?

-Eu não sei qual o acordo, eu não li. – Fui sincera e revirei os olhos para Grissom, de feições impassíveis, engoli a seco, voltando o olhar para Lion.

-Leia comigo? – Podia ter soado como uma pergunta, mas tinha aquele verbo imperativo, aquele tom sugestivo que sempre ocultava uma ordem que poderia ser ou não acatada.

-Claro.

Os vidrais foram para Grissom.

-Um pouco de privacidade?

Ele sacudiu a cabeça.

-Ela não faz parte da investigação, ela está aqui por ser um incomodo crônico nos procedimentos de custódia.

Lion quase riu, ele não entendeu uma mera palavra do que Grissom dissera, mas estava disposto a ignorar tudo que ele falou. Deu leves tapas em sua cocha me chamando para sentar lá, eu balancei a cabeça.

-Lion... – Adverti me aproximando. –Cuidado.

Ele apenas sorriu, falar a ele para se controlar era como pedir a uma criança que não comece chocolate. Me inclinei sobre seu ombro, lendo por cima as letras do papel que ele erguia.

Acordos com a promotoria eram o caminho mais econômico do sistema judiciário, evitavam julgamentos e todas as penas só precisavam da assinatura do juiz em uma audiência de 10 minutos, eles normalmente terminavam em corpos mofando na cadeia em vez terem os as veias dilaceradas com as injeções letais.

Mas naquele momento eu tive certeza que aquilo estava errado, muito errado, dizia que SE Edgar fosse intimado ele poderia responder o processo em liberdade e seria sujeito a pena mínima, caso sua informação fosse relevante e testemunhasse em julgamento contra os outros ele seria isento de pena.

Meu cenho franziu involuntariamente.

-Muito generoso. – Falei sem pensar, me arrependendo imediatamente do que disse. –Quer dizer, é muito bom mesmo. – Repassei o olho no papel. –Sem letras minúsculas. –Virei a página. –Sem porém... – Assenti.

-Você não vai querer um conselho legal? – Perguntou Grissom.

-Não, eu tenho o dela. – Lion respondeu com aquele sorriso debochador dele e a vontade de lhe beijar novamente passou pela minha mente. –Então, querida, eu posso confiar?

Eu balancei a cabeça.

-Chame um defensor público. – Disse por fim.

-Mas você disse que estava bom.

Eu concordei.

-Está muito bom, bom demais. – E virei meu olhar para Grissom, o céu nublado e feição irritadiça. “Bom demais”, eu poderia, deveria, ter ficado calada, mas aparentemente quis deixar claro que tinha um lado, o lado de Lion. E se me perguntarem o motivo, apenas para irritá-lo, ver Grissom irritado era como ganhar meu dia, eu poderia dormir tranquila sabendo que eu fui a responsável por isso, e sim, ele estava completamente irritado atrás daquela face compenetrada e enganosamente calma.

-Ouviu a moça, poderia chamar um defensor, por favor? – Ele enfatizou a palavra como se fosse outro cuspe. Eu quase sorri. Mas me contive estreitando os olhos e encarando Lion balançando a cabeça, reprovando sua atitude. Ele apenas soltou um beijo de volta, que me forcei a ignorar revirando os olhos.

-Espere. – Grissom levantou-se e com olhar pediu para sairmos juntos.

Quando cruzamos a porta e ele fechou-a atrás de si, deu um passo a minha frente com o dedo encostado ao meu ombro.

-Por que você fez isso? O acordo é bom, muito bom.

-Qual é a sua? Ele não merece esse acordo, esse tipo de coisa não existe.

-Eu o quero longe, longe de circulação, longe da minha jurisdição...

-Longe de mim... – Soltei baixo, ele não me respondeu, apenas virou-se e pegou o celular no bolso do casaco discando um número que não vi.

Notas finais
Gente... complicado vir aqui nesses feriados... Eu não consigo escrever, quase ninguém pode ler... acho que vou cancelar postagens até as férias acabarem...