Um Beijo Ao Azul Escuro

8 O choque com a verdade


Meus cabelos ainda pingavam, os olhos azuis analíticos de Catherine encaravam sem discrição a mancha arroxeada no meu ombro desnudo pela alça excessivamente minúscula de minha blusa, comprada com intenção de ser usada por baixo de algum casaco que Nick não encontrou dentro do armário.

-O que foi Catherine? – Perguntei já impaciente com seu olhar fixo em meu braço.

-O que foi isso? – Ela perguntou com um tom condescendente, apontando com o olhar para o nó escuro na pele. – Foi ele?

-Claro que não. – Eu escorei a cabeça no braço flexionado em cima da mesa, deixando o cabelo molhando esconder o hematoma, encarei-a vagamente. Catherine estava diferente, hesitante, abria a boca e fechava, tentava dizer algo, mas parava, aquilo estava me cansado. Olhei para o extremo da sala de interrogatório, escorado entre a porta e o vidro espelhado, Grissom me encarava em uma face indescritível, estava irritadiço, calado, compenetrado em me olhar fulminantemente. Voltei o olhar para ela, que não aparecia satisfeita ou convencida com a resposta. –Eu não me lembro bem como foi, eu sei que teve haver com um cinto de segurança, algum problema?

-Sara, você tem alguma ideia de porque Edgar foi detido?

Balancei a cabeça, procurando a paciência que tinha me escapado com a lembrança da cena desagradável do hotel naquela tarde.

-Não me contaram... Eu não o conheço como Edgar, ele se apresentou a mim como Lion.

-Lion, o que?

-Não sei... Só Lion. – Ela revirou os olhos, como se aquilo fosse um tanto quanto óbvio. Sim, claro que era, afinal, eu entraria na cama com qualquer um que me aparecesse na concepção de Catherine.

-Uma evidência relacionada ao massacre South nos levou até ele, acho que você conhece o caso, afinal, — Pontuou com ênfase essa palavra. — estava em uma das mansões atacadas coletando evidencias. – A sobrancelha fina dela estava arqueada demais para aquilo não ser uma insinuação.

-Vamos direto ao ponto.

-O ponto Sara – a voz veio grossa e ríspida do outro lado da sala, Grissom se aproximou em passadas longas e rápidas batendo com as palmas das mãos na superfície da mesa – o ponto é que você estava na cama com o nosso principal suspeito de formação de quadrilha, fichado e em condicional! – Ele gritou comigo de uma forma que nunca tinha feito antes, olhando nos meus olhos, seu azul estava nublado de raiva, o cenho franzido em fúria. – O ponto Sara, é saber se você não saiu da cena de crime e foi correndo contar a seu namorado o que tinha encontrado lá!

Passei um instante para criar uma reação, entender do que ele estava me acusando exatamente. Exalei e vi que não adiantava continuar naquela linha de raciocínio e calmaria.

-Você está com raiva do que exatamente? De eu estar com o principal suspeito, ou de estar na cama com ele?! Eu ainda não entendi bem porque você está falando nesse tom comigo?! – Ele me olhou como se com seu olhar pudesse e ferir de algum modo, do modo como minhas palavras o afetaram. Ele exalou e socou novamente a superfície da mesa, deu as costas e saiu da sala fechando a porta em um baque ensurdecedor.

Catherine exalou e eu tentei me acalmar, olhando para ela, que perdia a paciência a cada subida e descida do peito arfante.

-Então, Sara, o Grissom está certo?

-É claro que não. – Minha indignação foi quase tão sincera quanto minha raiva.

-Então como você explica o que aconteceu?

-Vamos deixar claro aqui, eu não sei o que aconteceu, ou como aconteceu... – Eu revirei os olhos. – Grissom me expulsou da cena de crime, eu apenas...

-Por que ele lhe expulsou? – Ela me interrompeu sem entender a velocidade dos acontecimentos, éramos duas, mas me contive e contei calmamente.

-Eu não sei! – Tentei procurar em minhas memórias o que aconteceu exatamente. – Greg me chamou, pediu ajuda, eu apenas fui, estava terminando o primeiro quarto quando Grissom, irritado meu nome, me mandandoeu ir embora, ele não me deu explicações apenas me mandou ir embora.

-Você largou sua folga para trabalhar e ele simplesmente te mandou embora?

-Simplesmente assim. – Da forma que eu falei pareceu algo dramático, omiti que estava de ressaca, que tinha bebido muito, omiti que cheguei em casa por causa da bondade de um estranho desconhecido, omiti as coisas óbvias que talvez o levassem a fazer isso, mas que ele precisava saber o que havia acontecido comigo para isso ser relevante.

Catherine passou a mão sobre o rosto recolhendo uma meche amarelada rebelde que insistia em cair de trás de sua orelha, olhou para mim, o cansaço pesando em suas pálpebras, deixando claro em seu silêncio que minha aparição indesejada em seu campo de visão à noite não fazia parte de seus planos.

-Droga Sara... E depois você fez o que?

-Eu comecei a dirigir.

-Você começou a dirigir? – Ela repetiu incrédula, me encarando e balançando a cabeça tentando entender em que mundo aquilo faria sentindo.

Dei de ombros.

-Sim, dirigir, eu não estava com saco para ir para casa, então comecei a dirigir... – Eu fiquei pensando o quanto aquela história passava credibilidade, que se resumia a nenhuma. Respirei fundo e continuei. – Estava no meio da estrada para fora de Vegas, quando fiquei com fome e parei em um tipo de posto no meio da estrada, ele tinha algo parecido com uma lanchonete que estava cheia de motos na frente. Eu resolvi entrar.

-Recapitulando, você dirigi sem mais nem menos Las Vegas a fora, fica com fome e para no primeiro posto que lhe aparece, que a propósito, está cheio de motoqueiros... – Ela suspirou. – Me diga, você bebeu?

-Não estou pedindo para acreditar, eu estou contando a verdade.

Ela fechou os olhos, assentindo.

-Você se lembra quantas pessoas eram?

-Oito homens, três mulheres, contando com o Lion.

-Sabe descrevê-lo? Cor do cabelo, altura?

-São todos parecidos, na verdade. A única coisa que muda é a cor do cabelo e a da bandana.

Catherine suspirou.

-O que mais?

-Não tem mais, Lion e eu começamos a conversar e... – eu procurei as palavras para descrever o que havia acontecido, mas elas não me viam a cabeça.

-E aí você simplesmente vai para um quarto de hotel barato com ele, não é? – O agridoce sarcasmo de Catherine fazia aquela história ser desarmada de todas as graças que me levaram a protagonizá-la, perdia o sentindo em seus lábios desdenhosos e jocosos. Eu não iria contestá-la, não havia razões para isso, a não ser se eu quisesse perder o que me restava de paciência.

-Acho que acabamos. – Eu respondi baixo, engolindo a seco.

-Eu também acho. – Ela revirou os olhos. -O que precisarmos entramos em contato. Acho melhor você ir para casa. – Assenti com a cabeça, mas voltei atrás.

-Antes de ir eu quero falar com o Lion.

-Edgar, Sara, Edgar, o nome dele é Edgar. – Concordei, sim, o nome dele poderia ser Edgar, mas para mim era Lion.

Lost but now I am found

Perdida, mas agora me encontrei

I can see but once I was blind

Eu posso ver, mas uma vez já fui cega

I was so confused as a little child

Eu estava tão confusa, feito uma criancinha

Tried to take what I could get

Tentei pegar o que eu podia

Scared that I couldn't find

Com medo de não conseguir encontrar

All the answers, honey

Todas as respostas, querido

Born To Die – Lana Del Rey

Não iria falar com Lion, não estava com saco para isso, mas também não iria embora sem mais nem menos. Do outro lado da sala o corredor estava deserto e quando dei o primeiro passo para sair de lá a porta da sala ao lado do interrogatório abriu e uma mão me puxou para dentro.

Greg segurava firme meu braço com a testa enrugada e olhar assustado.

-Então é verdade? – Ele perguntou com um tom que ascendeu do surpreso ao indignado.

-Sim, é. – Disse com o fio de voz que me restava.

Tentei fugir dos seus olhos confusos, mas me forçavam a encará-los com sua meiguice e espanto genuíno, tive pena de desiludidos a respeito do fascínio sem igual para com história, que ele acreditava tão veemente ser mentira.

Meus lábios se entreabriram para falar alguma coisa, mas nossa atenção voltou ao vidro, ao grande janelão do qual se tinha uma vista panorâmica de Catherine prestes a se levantar sendo parada por Grissom.

Greg e eu só tivemos olhos para o vidro.

Ele entrou calado, encarando irritadiço para Catherine que retribuía em mesmo nível o olhar dele.

-O que foi? – Ela perguntou ríspida.

-No que deu esse showzinho?

Ela exalou, sendo palpável sua ponderação a respeito se deveria ou não se importar com isso. A loira simplesmente sacudiu a cabeça deixando para lá todo o protocolo, e foi direto ao assunto.

-Afinal, por que você mandou ela embora da cena de crime do Greg? Se você não tivesse feito isso, ela não teria saído por aí que nem uma doida!

-Você não entende!

-Eu realmente não entendo, nem você faz questão de me explica!

-ELA ESTAVA BÊBADA! – Ele gritou perdendo o controle da sua respiração, batendo na mesa e voltando a encará-la. –Ela passou a noite bebendo, se eu não tivesse chegado lá ela talvez tivesse acordado no meio da rua, embreagada!

Eu engoli a seco.

-Sara, do que ele está falando? – Greg perguntou ao meu lado, como o menino curioso que era, sempre atrás de respostas inconvenientes

Não dei atenção no primeiro momento e continuei prestando atenção na conversa.

-Aquela mancha no braço foi quando eu parei o carro, ela estava deitada de mal jeito e como eu freei rápido ela quase foi lançada para frente do parabrisa.

-Ela sabe disso? Ela não me contou nada.

-Eu não sei, ela estava tão bêbada que eu fiquei surpreso por ela se lembrar que tinha sido do cinto de segurança aquela marca.

Catherine revirou os olhos, e pousou no nada, tentando assimilar o que estava acontecendo.

Ele estava acabado, a raiva havia passado, mas sua expressão não havia mudado, aquela coisa indecifrável que mesclava de emoções duras à furiosas e frustradas.

Porra Grissom.

Ele saiu da sala, e aquilo me deu a deixa que minha impulsividade precisava, sai na mesma hora da sala. Estabelecemos nossa primeira troca de olhares, o céu azul nublado estava dissipando as nuvens, recobrando a limpidez costumeira do olhar, uma lucidez incoerente com sua face. Minha respiração estava desregulada e quando eu estendi o dedo em sua cara percebi como aquilo estava me descontrolando.

-Você não tem esse direito! Ou você entra em minha vida ou você a assiste de longe, você não tem o direito de se meter assim nela! — Eu estava gritando, meu dedo em seu peito nossos olhos em um contato inquebrável.

-Eu lhe fiz um favor!

-Que eu não pedi! Você não tem mais esse direito! Você escolheu não ter! Sabe como eu me senti confusa quando eu acordei? Sabe como eu pensei como tinha chegado lá? – Os flashes da noite passavam em minha mente como borrões desfigurados dos quais só entendia o meu próprio cambalear e me recordava do gosto amargo em minha boca proporcionado pelo álcool.

-Mas não estava se lembrando disso essa tarde, não é mesmo?

-Não, não estava, nem queria! Por sua culpa isso está acontecendo!

-Não me culpe por seus erros!

-A questão Grissom é que eles só aconteceram por você! Você provocou tudo isso, e sabe tanto disso... – Eu respirei procurando as palavras, procurando o ar, minha garganta seca, meus olhos ardendo e minha vontade incontrolável de lhe bater a face. – Você sabe tanto disso... – Repeti baixo sem mais colocar o dedo em seu peito me afastando dele, quebrando finalmente a visão do céu azul limpo. – Você sabe tanto disso, que esperou que tudo explodisse para começar admitir o que fez... Toda essa sua raiva é consigo mesmo, e você não tem nem coragem de negar.

Notas finais
Postei bemmm mais cedo do que de costume, vai que o fim do mundo não obedeça o horário de verão né??
Gente, brincadeiras a parte... Se tiver próximo capítulo ele vai começar com a autora escrevendo "sobrevivi o/"