Life goes on

A vida continua,

It gets so heavy

E fica tão pesada

The wheel breaks the butterfly

O esforço é vão

Every tear, a waterfall

Cada lágrima, uma cachoeira

In the night, the stormy night

Na noite, a noite de tempestade

She'll close her eyes

Ela fechará seus olhos

In the night

Na noite

The stormy night

Na noite tempestuosa

Away she'd fly

Para longe ela voaria

Paradise — Coldplay

Os dias estavam cada vez mais vagarosos, eu me perguntei quando aquele meu surto de adrenalina voltaria, quando eu explodiria de cansaço, quando eu novamente teria minha injeção de loucura que me faria largar Las Vegas e fugir de uma vez daquele inferno em meio ao nada.

O problema é que eu me via sem perspectiva, eu andava cansada constantemente, minha raiva desaparecera, ao mesmo tempo, que estava excessivamente exausta, nada me fazia ficar mais excitada que minha cama, minhas cobertas um tempo livre para dormir.

Naquele momento, enquanto eu pensava a respeito do meu parasitismo em relação ao tédio, virando uma espécie de dependente dele, quase sentiria pena de mim mesma, se não estivesse ao mesmo tempo tão feliz e leve.

Cheguei inúmeras vezes a querer beber, encher a cara virando a madrugada, na medida, que virava as garrafas de cerveja e os copos de tequila, entretanto me aparecia vontades mais incontroláveis e bem mais atrativas que ver o mundo girando a minha frente, naquele momento, por exemplo, nenhuma garrafa poderia ser mais deliciosa que aquele copo gigante de coca-cola, mais saborosa que as batatas fritas gordurosas do McDonalds, muito menos, mais divertido que aquela comédia boba que passava na TV.

Eu já estava na minha quarta gargalhada seguida quando meu celular vibrou em cima do centro da sala, era minha adorável amiga Catherine.

-Sara, eu sei que é sua folga, mas precisamos de ajuda. – Ela disse mais alguma coisa, endereço, caso e achei completamente aceitável ir até lá.

-Claro, já voltou. – Eu disse, suavemente feliz.

Depois que se excluem os problemas, os contratempos, os problemas, as adversidades, os problemas, as lembranças incomodas, os problemas, os aborrecimentos momentâneos, os problemas, a significância das trapalhadas do dia-a-dia, os problemas... Tinha-se aquele estado de calmaria em que eu me encontrava no momento.

Levantei-me desligando a televisão e indo para o quarto trocar de roupa, vesti uma calça que eu precisei deitar na cama para abotoar. Eu sabia que não tinha engordado tanto assim e repeti para mim mesma que a calça tinha encolhido na lavagem e por isso ficara tão difícil passar nos meus quadris, peguei uma camisa de alças qualquer que estava em meu armário e respirei aliviada quando encarei meu perfil no espelho e não encontrei nada mais que uma suave curvatura comum em minha barriga. Eu definitivamente não estava engordando, só um pouco mais curvilínea na altura do ventre.

Dentro do carro eu via as ruas correndo em minha volta, as luzes neons ofuscantes e chamativas ainda mais incandescentes que o normal e o céu possuído pelas trevas do azul escuro na noite, um azul escuro que as nuvens negras tentavam tornar acinzentado e que resaltavam o extasiante brilho da lua duplicando sua intensidade.

Quando cheguei a uma das ruas paralelas a Strip já avistei de longe o carro da necropsia estacionada, ao meu lado a maleta de material me fazia companhia e quando eu saí do meu próprio carro foi em um pulo.

A concentração maior de pessoal era na calçada da casa de shows, Catherine estava agachada ao lado de David com um homem deitado no chão, a cabeleira amarelada de Catherine estava no meio da minha visão e quanto mais eu me aproximava mais que queria saber porque aquele homem que eu só via os cabelos negros curtos e ralos estava deitado em meio a calçada.

Tinha algo avermelhado do lado dele, ao redor dele, um vermelho vivo que me fazia encarar quase assombrada para sua cor intensa e forte, quanto mais olhava para aquilo mais queria saber o que era, por que o deitariam em uma poça vermelha tão asquerosa?

Quando estava a poucas passadas dos dois, Catherine se levantou bruscamente e eu enxerguei com clareza, os cabelos ralos pertenciam a um homem sem rosto, o vermelho provinha dos ferimentos em sua face que se ossos, carne e pele se fundiam em uma coisa grotesca. Encarei aquilo por meio segundo, sentindo meus olhos arregalarem e minhas sobrancelhas arquearem. Não havia nem passado pela minha cabeça aquilo ser sangue.

Eu tentei respirar fundo para evitar aquele mal-estar que estava sentindo me possuir as entranhas enquanto assistia aquele filme de horror ao vivo, mas quando inspirei todo o odor metálico do ferro se fez presente em meus pulmões, o cheiro inebriante do sangue que me atingiu o estômago reivindicando tudo que nele possuía, o gosto da bílis já na garganta como se lubrificasse a passagem para tudo sair mais rápido.

Meus joelhos enfraqueceram assim como minhas mãos, consequentemente minha maleta caiu no chão com um baque, atraindo a atenção de Catherine e David que me olharam confusos, quando dei por mim estava debruçada no nada em direção ao meio fio da rua, apoiada no capô de uma das viaturas colocando para fora todo o que outrora fora um bom lanche.

Não conseguia entender aquilo, eu já vira coisas piores, com certeza já vira, já sentira o cheiro de coisas piores, eu procurei evidencias dentro de um saco de vômitos, já olhara dentro de uma bacia de saliva, tentei repetir para mim mentalmente tudo que eu já fizera — que era indiscutivelmente pior que aquilo — mas aparentemente só conseguia estragar ainda mais a situação, nenhum daqueles pensamentos estavam ajudando muito, a não ser a me desfazer do que eu comera do último ano.

Eu senti a mão de Catherine em meu braço, me ajudando a permanecer de pé, seu cenho franzido e preocupado em meus olhos e na minha boca babada, ela me estendeu um lenço de papel, visivelmente abalada pela minha súbita reação. O mundo estava começando a girar a minha frente e com certeza não me seguraria em pé se ela e David não tivessem aberto a outra viatura e me sentado no banco do passageiro, eu tentei agradecer, mas mantive o lenço de papel contendo qualquer reação inesperada em minha boca.

David sorriu pedindo desculpa com o olhar por não sei o que, ele estava ainda mais preocupado que Catherine, quando ela reapareceu, com uma garrafa d’água que não me atrevi a imaginar a origem, já foi me estendendo e pedindo para David ir cuidar do corpo, liberá-lo para o necrotério.

Ela me encarou por alguns instantes enquanto eu lavava a boca com a água tirando o gosto ruim e depois tomei dois goles longos para acalmar o restara dentro de mim – nada, disso tenho certeza.

Ela esperou pacientemente eu me recuperar, e até algum tempo mais, enquanto eu recobrava minha brancura natura, uma vez que eu imaginei ter ficado amarela para Catherine ficar tão preocupada assim comigo. Tentei me levantar, mas ela me impediu imediatamente, finalmente falou.

-Sara, você está bem?

Eu dei de ombros.

-Nunca mais como coisas sem olhar a validade. – Eu disse em um tom de brincadeira que ela não relevou.

-Onde você estava?

Eu estreitei perigosamente os olhos, ela estava insinuando alguma coisa, sim, estava insinuando que eu estava bêbada por isso vomitei perto de uma cena de crime. Respirei fundo por todos os motivos cabíveis em minha situação, era difícil para mim acreditar que me deixei impressionar por causa de um cadáver destroçado, uma vez que deveria ser impossível para Catherine assimilar a mesma coisa devido a meu histórico, sem dúvidas.

-Por mais que não seja da sua conta, — disse rispidamente, deixando claro que eu entendia sua insinuação — eu estava em meu apartamento, comendo porcaria, batata frita, coca-cola, sabe? Essas besteiras.

-Você não quer ir para um hospital ou algo do tipo? Infecção alimentar é uma coisa séria.

-Eu só comi muito fritura, só isso. – Eu disse por mim, me levantando de uma vez por todas, amaldiçoando no mesmo instante o ato, o mundo deu três voltas ao redor do sol e eu me sentei de novo simplesmente porque meu corpo caiu no banco sem eu conseguir sustentá-lo em pé, percebi naquele momento que o gosto da bílis voltara à minha garganta e eu já não tinha mais o que regurgitar, tudo estava girando, eu estava inacreditavelmente tonta.

Catherine piscou umas três vezes olhando para mim, a surpresa palpável em sua face, chocada, estava completamente sem reação diante da minha súbita e detestável fragilidade, meu estado incoerente com tudo que eu era.

Catherine avançou segurando minha mão, me escorando no banco, deixei a cabeça cair encosto, daquele jeito estava melhor de respirar, levantei-a para ver se o que quer que quisesse sair de minha garganta voltava para seu devido lugar.

-Só muita fritura? – Ela retruca sarcástica

Eu não estava em condições para replicar, apenas fiquei esparramada naquele banco me perguntando quando eu entenderia que calma só se significa o anuncio de problemas ainda maiores.

Notas finais
Gente,ninguém pense que eu só quero encher linguiça, eu realmente não quero só fazer isso... Mas é preciso algo bombástico, algo tão surpreendente que já seja previsível... É necessário algo comotivo que leve Grissom a tomar uma decisão.