Um Beijo Ao Azul Escuro

20 No inviolável caminho do fim


Lurking in the shadows of madness

Espreitando nas sombras da loucura

I'm feeling like a fool in the silence

Eu estou me sentindo como um tolo no silêncio

I'm waking up sideways

Eu estou acordando pelos lados

Waking up sideways — Kassidy

Quando percebi já havia sido espetada, não tinha noção do que era maior: a seringa ou minha indisposição, contra minha vontade Catherine mandou o policial que estava na viatura me levar ao hospital mais próximo e o seu parceiro recolher minhas coisas e levar de volta ao meu apartamento.

Depois de um bate boca, que ganhei pelo cansaço e preocupação crescente dela, eles me trouxeram meu próprio carro, se bem que foi mais vergonhoso ser carregada da viatura até o meu carro, em um levantamento geral das minhas opções.

Eu quase pedi para eles desviarem da rota e me levarem para casa, minha cama era o único remédio que eu precisava, mas pela forma que a loira gritara com eles tive alguma espécie de certeza que seria uma briga perdida. Aquele fora o maior gesto de amizade que Catherine já demonstrara para comigo, não entendi bem por que daquela preocupação genuína em seu semblante, não sabia se realmente era comigo ou se por motivos terceiros, a única coisa que eu podia afirmar era seu súbito desespero sincero.

A enfermeira tirou um quarto do meu sangue para fazer os benditos exames que o médico pediu só me restou tirar a roupa e colocar aquela bata ridícula que todos eram obrigados a vestir. Uma vez que aquele tipo de pano, um mistura em minha concepção de papel com plástico, cobria meu corpo e eu estava deitada na cama do apartamento no hospital, eu vi não me restava mais dignidade a perder.

Me recostei naquele minúsculo travesseiro ligando a televisão conseguindo pegar o segundo episódio daquela série hilária que eu assistia em casa.

Acabei pegando no sono e acordei quando a luz do sol invadia a janela aberta do apartamento, deveria ser umas dez horas pelo calor e intensidade da claridade, mas culpar unicamente aquela claridade abusiva que me irritava os olhos era dar muitos créditos a fotossensibilidade de uma individua pálida como eu, o mesmo médico que ordenara que me tirassem metade do meu sangue sorria animadamente para mim medindo minha pressão.

-Bom dia, dorminhoca!

Ele disse com um sorriso tão sincero e contagiante que eu pensei em sorrir também só para lhe desejar um bom dia também, não o fiz, mas não fui indelicada de não curvar os lábios em uma espécie de sorriso forçado e desejá-lo o mesmo.

-Bom dia.

-O que temos aqui, 12 por 8, uma mamãe saudável que não pode mais ficar se aventurando tanto no trabalho.

Eu pisquei furtivamente sentindo meu cenho franzir e minhas sobrancelhas contraírem, entendi errado. O sorriso que lhe lancei foi tudo menos simpático. Ele retirou o tensiometro do meu braço guardando em um estojo próprio.

-Susto já passado, agora é só voltar a ativa depois de tomar umas boas doses de proteínas, pedir para sua obstetras incluir em sua dieta e não ficar se expondo tanto.

-“Mamãe”, “obstetra”, pare de ficar repetindo coisas com relação a gravidez.

Ele me olhou desentendido, não sei pelo que exatamente, pela minha reação, talvez?

Ele piscou da mesma forma que eu quando escutei aquelas palavras, sua mão desceu em meu ombro suavemente com um sorriso caloroso nos lábios.

-Querida, você está grávida.

Pensei estar louca, surda, ainda dormindo, mas a realidade era pior que qualquer pesadelo.

Algo pra justificar

Uma vida morna

Por isso eu me entrego

À um imediatismo cego

Pronta pro mundo acabar

Dançando – Agridoce

Quando recebi alta, ainda naquela fatídica tarde de abril eu não tinha para onde ir, nem como chegar a canto algum, fiquei no meu carro por mais de meia hora vendo o inexistente movimento do estacionamento, eu engoli a seco e inspirava fundo tentando fazer com que o preciso oxigênio chegasse aos meus pulmões, de forma que ele se negava a me ajudar em algum momento a permanecer viva e levar a cabo toda a ideia maluca que eu estava construindo de realmente ter esse filho.

Ou filha, a ideia me pareceu apropriada, uma menina de pele branca e olhos verdes como os de Lion, ela teria o cabelo negro e... E eu estava perde o resto da minha sanidade, eu não teria condições psicológicas de criar um filho... Financeiras até poderia, sairia de Vegas e voltaria para São Francisco, tinha um apartamento lá, já seria menos a despesa do aluguel, era em um bom bairro ao lado de uma pré-escola e...

Meu deus, eu estava mesmo planejando como eu criaria essa criança... Foi quando a ficha caiu eu realmente a teria, eu não iria tirá-la, eu queria sair de Vegas e, que eu fosse para o inferno com esse pensamento, mas um filho seria a desculpa perfeita. Aquela cidade não poderia abrigar uma criança e uma mãe desajustada sem tempo para cuidá-la ou alguém para deixá-la junto.

Muito bem, tentei mais uma vez engolir o ar com força para clarear meus pensamentos, em minhas mãos pesavam o atestado médico que deixei no banco do passageiro, no porta copos meu celular descansava com três ligações perdidas e tive certeza que havia perdido o juízo quando o tomei em minhas mãos e comecei a ver a lista de contatos para o Centro de pesquisa que vivia oferecendo oferta de trabalho.

Atendeu quase imediatamente e quando eu me identifiquei dizendo que gostaria de discutir vi todos os meus sentimentos se materializarem em lágrimas que corriam em uma cascata sem fim por meus olhos, minha voz estava quase fraquejando e me via tremendo ao segurar o celular, quando a atendente transferiu a ligação foi o tempo que tive para tentar engolir o choro, que não teve muito sucesso.

-Bom dia, Doutor Clark? – Minha voz estava mais fraca e trêmula que eu queria.

-Senhorita Sidle! – Ele disse animadamente, realizado, finalmente havia conseguido. –Eu confesso estar particularmente surpreso com o retorno de minhas ligações.

-Eu sinto muito ter demorado tanto para respondê-las. – Eu sacudi a cabeça sacudindo também o choro, eu não deveria ter ligado tão abalada, com a cabeça tão cheia, tão impulsivamente. –Sempre estava deixando para depois... Mas vi que o depois chegou. – Dei uma risada sonora sem graça que foi acompanhada por mera condescendência do homem do outro lado da linha.

-Sinto-me lisonjeado com sua consideração de me dar uma recusa por telefone, não precisava gastar seu tempo.

Eu franzi o cenho, ele tinha revogado o pedido sem eu saber?

-Não, sinto muito novamente, mas eu estou realmente interessada em conversar sobre sua proposta.

-Como?

-Sim... – Minha voz falhou mais uma vez. –Devido a circunstâncias inesperadas eu me vi atraída a sua oferta ou o convite foi desfeito?

-Não! – Ela quase gritou. –Jamais! –Seu tom de voz moldou-se ao tradicionalmente simpático. –Quero dizer, onde eu estiver as portas sempre estarão abertas para a aluna mais brilhante de aplicação da física de Havard. Sara, não faz ideia de como me deixa feliz em ao menos considerar minha proposta, sua ajuda será verdadeiramente útil em minha pesquisa, não faz ideia do quanto estou contente.

Eu quase sorri com sinceridade, Professor Clark, o gay mais enrustido que conheci na vida, encontra partida a mente mais brilhante que já tive a honra de estudar, com direitos a indiretas para certo palestrante de biologia especialista em entomologia.

-Doutor, o senhor não faz ideia de como eu estou contente por saber disso. – Respirei fundo pensando qual o próximo passo. –Mas como eu disse, são circunstâncias inesperadas que me levam a aceitar sua oferta de emprego, o que me deixa na obrigação de alertá-lo a respeito de minha possível licença no decorrer da pesquisa.

-Tenho certeza que conseguirá com maestria compensar sua ausência com um trabalho reforçado. Cara Sara, por favor, não me dê uma alegria dessas e me tire no mesmo momento, eu já estava disposto a lhe pedir férias sabáticas de três meses de seu laboratório para vir acudir meu trabalho por esse curto período, tinha certeza que conseguiria mais progresso em três meses com sua ajuda do que três anos sem ela, tenho que dar um retorno as verbas que me mandam e com certeza conseguirei responder com suas aplicações teóricas.

Acho que poderia sair saltitante do carro e mandar um aviso prévio de demissão para o laboratório e ir com a roupa do corpo para São Francisco, tudo que eu precisava no momento.

Terminamos a ligação com Doutor Clark dizendo que me enviaria o contrato com o valor do pagamento, o teor da pesquisa e minha função por e-mail e que mesmo sabendo que não era certo, ele já estaria pessoal ofendido se não passasse pelo menos três meses lá.

Pois bem, segundo minhas contas eu adoraria passar pelo menos 14 meses lá, seria perfeito, mas sabendo que os caminhos turvos para a ciências são complexos e conhecendo bem o gênio de meu antigo professor a pesquisa estava bem mais adianta que ele realmente admitia o que dava no máximo mais um ano de verbas garantidas caso não fosse terminada ainda mais rápido.

Clark era um homem facilmente irritadiço e birrento, se ele não tinha a equipe que queria ninguém teria os resultados queriam, aparentemente eu era a última peça... Respirei fundo agradecendo internamente toda minha dedicação na faculdade, àqueles anos dourados ainda resplandeciam mesmo em um futuro totalmente distante.

Meu rosto ainda estava úmido, avermelhado, mas minhas mãos pararam de tremer, o que me dizia que já poderia dirigir, olhei a tela do celular me permitindo saber quem havia se preocupado comigo. Uma ligação de Catherine, de Greg e Nick. Verdadeiramente amável da parte deles.

Voltei a colocá-lo no porta copos e segui com um rumo mais claro para meu apartamento, entre as ruas de frenética Vegas vi o céu azul limpo e claro encher-se de nuvens grandes e pesadas, o majestoso dia estava dando lugar a um princípio forte de chuva, interessante, foi difícil não fazer novamente aquela analogia a minha vida, sempre quando as coisas pareciam ficar calmas só significava que um problema ainda maior estava por vir.

Notas finais
Eu sei que muita gente tá pensando que eu tô enchendo linguiça... Mas eu realmente preciso fazer isso para no final ninguém tá dizendo que perdeu tempo lendo essa fic...