Um Beijo Ao Azul Escuro

14 Assim tão difícil de entender


Eles estavam receosos, minhas atitudes só provavam que havia algo errado, os lampejos em seus olhares eram desconfiados e Catherine era o mais resguardado, o mais sorrateiro, o mais atento, o que mais me incomodava, mal pude respirar naquela sala com o ar infestado de tensão.

Estávamos calados, um pouco demais e Grissom passou pelo corredor com duas pessoas engravatadas, talvez o promotor e o defensor público? Fomos saindo, os acompanhando, quando senti uma mão envolver meu braço, uma mão pequena e macia, mas firme, bem mais firme que a de Greg, me virei e os olhos azuis de Catherine me encaravam embebidos na raiva.

-O que foi? – Perguntei depois de ficarmos sozinhas, ela finalmente me soltou e acho que agradeci por esse gesto em pensamento, não estava disposta a sair no tapa com ela

-“O que foi?” Eu que deveria perguntar isso a você.

-Catherine, direto ao ponto, por favor.

-Sara, o que pensa que você está fazendo? Você é uma de nós, mas eu não consigo ver de que lado você está, com quem você está.

-Eu estou comigo mesma Catherine – Disse um pouco ríspida demais, meus olhos estreitavam lhe encarando. Aquilo principiava uma discussão épica, sentia nas minhas veias enquanto elas pulsavam mais fortes.

-Vamos fingir só por um instante que eu sei de absolutamente tudo que se passou entre você e Grissom, e eu quero saber, vai valer apena jogar tudo fora?

Exalei, é claro que ela sabia de alguma coisa, alguma coisa de mais. A melhor amiguinha sempre disposta a proteger o chefinho.

-Esse tipo de pergunta prova o quanto você não sabe nada, porque eu não teria nada para jogar fora, não existe um tudo, não existe um algo... – Eu cruzei os braços, mais defensiva do que gostaria, revirando os olhos fugindo um pouco da sua avaliação pertinente em minha íris. – Ele sempre quis que só existisse o nada.

Ela balançou a cabeça, reprovativa.

Mas finalmente sua compostura desfez, as mãos pálidas foram parar nos cabelos amarelos, elas deu duas longas voltas em círculos em minha frente encarando o chão, jogou os braços para cima e finalmente voltou o olhar para mim, um olhar assustadoramente cansado, derrotado, esgotado, a fadiga estava lhe consumindo tanto quantos os problemas e fazia uma competição em sua aparência para saber qual era mais devastador.

-Vocês deveriam ter só um pouco mais de respeito pelo trabalho... Não importa o que está acontecendo entre vocês, deixem isso longe daqui, já pensaram o que pode acontecer se alguém ficar sabendo?

-Afinal, o que você está sabendo?

Ela revirou as safiras em suas órbitas baixas pelas pálpebras pesadas, engolindo a seco.

-Aconteceu sem querer e Grissom nunca é para saber disso. – Ela me advertiu com o dedo em meus ombros. –Entrei em sua sala procurando uns papéis de transgressão que tinha perdido, acabei mexendo em suas coisas, encontrei um presente embrulhado em sua gaveta, um cartão de natal dele para você e embaixo uma carta.

Eu pisquei furtivamente.

-Uma carta?

Ela assentiu.

-Sim uma maldita carta toda vez que vejo vocês juntos me faz pensar porque tive a infelicidade de ler... Eu poderia estar trabalhando como os outros, ignorando completamente essa briga de vocês, pensando como eles que é apenas fruto dessa sua súbita inconsequência... Mas eu só consigo ver a implicância de dois idiotas que tem me tirado o sono por três dias... Eu não vejo minha filha três dias e a culpa é de vocês... Sua por não nos ajudar, e dele porque está deixando você fazer merda em cima de merda.

Eu estava sem reação aparente, aquelas palavras de Catherine soavam cruas demais para serem um discurso elaborado no decorrer do dia, eram palavras enérgicas de raiva e razão, era um tipo de desabafo que intercalado com engolidas a seco tentava colocar novamente para dentro toda a explosão daquela frustração.

-Eu não sei carta você está falando. – Eu disse baixo, revirando os olhos, eu concordava com tudo que ela tinha dito, mas não queria voltar atrás, não conseguia deixar de ser teimosa o suficiente para parar de implicar. –Eu não estou fazendo isso por pirraça. – Sim, eu estava. –Mas Lion virou uma espécie de amigo, eu não posso deixar ele se ferrar... – Eu revirei os olhos novamente. –Mas ele vai ajudar e isso tudo irá acabar.

-Sara não foi porque ele te comeu que ele virou seu amiguinho... Nós somos seus amigos, e que dane o que ele diga ou o quanto ele ajude, isso vai se repetir, você vai atrair mais problemas caso não se ajuste! – Aquelas incomodas engolidas a seco... Ela colocou uma mexa amarela atrás da orelha, recobrando a compostura, controlando-se para manter o tom de voz baixo. – Essas gangues de motoqueiros não são um problema nacional; você, esse seu relacionamento com Grissom e os resultados futuros disso é que são. Podemos prender qualquer bandido, mas não estamos prontos para combater uma guerra interna.

Ela respirou fundo e me deu as costas, sem querer escutar uma resposta, ou uma justificativa, ela não precisava disso, sabia mais do que eu mesma sobre aquilo, tudo que eu não queria entender, e no fundo eu sabia que ela estava certa.

Quando eu pensei que não haveria mais lama para me afundar, o fundo do poço parecia cada vez mais distante de chegar. Aquela história que a luz no final do túnel também poderia ser a lanterna de um trem pronto para lhe atropelar pareceu apropriada, uma vez que ainda haviam meus restos para serem estraçalhados.

I'm all outta luck but what else could I be?

Eu sou toda sem sorte, mas o que mais eu poderia ser?

I did him wrong.

Eu lhe fiz mal

Keep it to yourself.

Guarde para si mesmo

I was never no, never no, never enough,

Eu nunca fui, nunca fui, suficiente

But I can try, I can try to toughen up.

Mas eu posso tentar, eu posso tentar amadurecer

I listened when they told me

Eu ouvi quando eles me disseram

Change is hard, I should know.

Mudar é dificil, eu deveria saber

I should know.

Eu deveria saber

I should know

Eu deveria saber

Change Is Hard – She&Him

Meus passos estavam mais arrastados que de costume, quando me aproximei da sala de interrogatório meus colegas já estavam saindo, Catherine com o telefone no ouvido, Greg e Nick dando tapinhas das mãos.

-Hey, finalmente seu namorado cooperou. – Greg disse rindo se aproximando com os braços abertos me dando um abraço apertado.

-Foi? Ele disso o que?

-Umas placas, umas rotas, disse os endereços. – Ele suspirou me largando. –Ainda vamos checar isso.

-Está quase amanhecendo. – Eu disse baixo, eles passaram muito tempo sem dormir e ainda iriam trabalhar.

Greg me respondeu com sorriso enorme.

-Querida, a noite é uma criança.

Nick se aproximou dando um tapa no ombro de Greg.

-Vamos logo ver o armazém, Grissom disso que estaríamos libera assim que trouxéssemos as coisas para análise. – Ele virou-se para mim em um sorriso discreto, mas exausto. –É bom saber que vai estar tudo bem Sara, principalmente com você.

-Obrigada Nick.

Eles passaram enquanto Catherine ainda perambulava em círculos no corredor com o telefone do ouvido fazendo questão de me ignorar coisa que só demorou até Grissom sair da outra sala, ela me olhou e depois virou os olhos para ele, refazendo o trajeto de círculos para a direção além do corredor.

Nós voltamos a ficar sozinhos.

-Então? – Perguntei.

Os olhos azuis evitavam encarar diretamente os meus.

-O que? – Ele perguntou seco, estendendo os papéis em minha direção.

-Não quero ler isso, quero que você me conte o que aconteceu.

-Ele deu o endereço de onde conseguiram as armas, Nick e Greg foram lá avaliar, Catherine está ligando para a policia rodoviária, repassando as placas, nomes e descrição que ele cedeu.

-E ele, o que acontece? – Quase vi uma careta de desprezo tomar conta de sua face, mas foi apenas um lampejo rápido demais para ser considerado relevante.

-Ainda não sabemos bem, ele tem um acordo com a promotoria e vai ser a testemunha chave para o julgamento, mas tem essa história do atentado terrorista que se for comprovado ele vai entrar em um tipo de proteção a testemunha a nível federal.

Eu quase ri.

-A porcaria do protocolo do 11 de setembro. – Ele também compartilhou meu deboche. –Fazemos o trabalho pesado para o FBI levar crédito. – Ele assentiu concordando. – E você, vai fazer o que?

Ele deu de ombros.

-Eu acho que tenho que falar com o Brass.

-Você acha?

Aquele sorriso de banda que denunciava toda sua instabilidade estava se tornando frequente.

-Depois desses dias parei de ter certeza sobre muitas coisas.

-“Nós” foi uma delas? – A pergunta saiu sem precedes ou cálculos, saiu dos meus lábios impulsivamente.

-Acho que a principal.

A cabeça balançou vagamente e eu não consegui ter uma reação precisa, sentia que precisava dizer alguma coisa, mas as palavras não vieram à garganta, talvez não existem as palavras certas para evitar um desastre comprovado com atos.

Notas finais
É o seguinte: não faço ideia se vou conseguir postar amanhã... e vou viajar do dia 2 ao dia 9... Então só amanhã saberei se irei postar... Se postar amanhã vou continuar bem até dia 2... caso contrário, nos vemos dia 10 com o próximo capítulo! Então, desde já... FELIZ ANO NOVO!!!