Um Beijo Ao Azul Escuro
15 As palavras embrulhadas na gaveta
Notas iniciais
I tell my love to wreck it all
Eu digo ao meu amor para abandonar tudo.
Cut out all the ropes and let me fall
Corte todas as cordas e deixe-me cair
Right in the moment this order's tall
Bem no momento dessa exigência exagerada.
I told you to be patient
Eu te disse pra ser paciente.
I told you to be fine
Eu te disse pra ficar bem.
I told you to be balanced
Eu te disse para ser ponderada
I told you to be kind
Eu te disse para ser gentil.
In the morning i'll be with you
De manhã eu estarei com você,
But it will be a different "kind"
Mas será de um jeito meio diferente
I'll be holding all the tickets
E eu estarei segurando todos os bilhetes
And you'll be owning all the fines
E você estará assumindo todas as punições
Skinny Love — Bon Iver
Naquela manhã não houve sol, olhei entre as frestas da persiana na sala de descanso e só vi o cinzento tomar conta do céu, estava sentada naquelas cadeiras acolchoadas pensando o que diabos estava fazendo ali, deveria estar em casa, deitada, fazendo qualquer coisa que não fosse pensar em como aquela situação se desdobrava por cima de mim.
Fiz menção de me levantar mais o moreno alto se projetou na entrada, os lábios grossos e os olhos verdes quase sorridentes e não tão cansados como todos os rostos que eu via.
–Quando vai ser o casamento, hein? Estão rondando essa conversa por aqui e fiquei sabendo que Grissom será o padrinho do noivo. – Eu quase ri, se não tivesse sentindo a espirituosa ofensa escondida.
Algo parecendo o diabinho que faz maus conselhos nos desenhos animados ecoou um pensando próximo a verdade, ninguém lá gostava de mim, Catherine, Warrick quase que assumidamente, as desavenças que iam e vinha com Nick quase sempre causadas por mim, Greg era a exceção da regra, não tinha quem gostasse ou desgostasse de Greg e vice-versa, ele tolerava até Ecklie.
–Acho que me esqueci de colocar seu convite do correio.
Ele sorriu amarelado.
–Vocês estão um caco.
–E você, onde estava?
–Homicídio na Strip, uma briga com facas.
–Saudade da simplicidade desses casos, todos aqui estão pirando por causa do massacre.
–Eu, pelo que eu fiquei sabendo, estão pirando por causa do seu namorado, afinal o que aconteceu? Uma hora isso tudo é só um tipo de destruição em massa e do nada estamos entrando tentando falar com a segurança nacional, como isso aconteceu?
– E se eu te contar que não sei, ainda não entendi bem... Parece que teve haver com manchas de óleo no jardim que levam até Lion e ele acabou confessando, tudo ainda está confuso para mim. – Os acontecimentos passaram como flashes em minha memória, rápidos demais para eu assimilar, talvez eu nunca conseguisse entender afinal de contas.
Ele se sentou ao meu lado, jogando em cima da mesa o casaco surrado que usava.
–Lion? Que tipo de nome é esse?
–Aparentemente não é nome de batismo... Edgar... O nome dele é Edgar.
Aquele momento chegou a ser um tanto comovente, parecia até que nós não nos odiávamos mutuamente. As águas entre mim e Warrick não corriam, certa amargura pairava no ar quando estávamos juntos, ele ainda sentia por tê-lo investigado. E no fundo um misto de inveja com raiva competiam contra meus bons sentimentos para com ele, uma vez que era o aluno preferido de Grissom e que se não fosse tão imprudente eu nunca teria ido parar em Vegas.
Às vezes gostava de jogar a culpa para outras pessoas e a pessoa certa era Warrick, caso ele não tivesse se metido em problemas eu jamais teria ido à Las Vegas, ele sim é o culpado por tudo, por minha reaproximação com Grissom, por minhas noites privadas de sono. Acho que assenti levemente a cabeça enquanto divagava em meus pensamentos, chamando sua atenção.
–O que foi?
–Eu não sei. – Disse por fim, admitindo algo para mim mesma naquelas palavras.
Eu nunca sabia de nada, nunca tinha certeza de nada e quando me arrisquei a ir para Vegas a única coisa que eu tinha em mente era Grissom. Um pensamento errado. E aquilo agora estava refletindo seu erro. Eu nunca deveria ter colocado Grissom como prioridade em nada, eu nunca deveria ter sucumbido aqueles olhos azuis.
Virei o rosto para Warrick, encarando as esmeraldas e as curvas escuras do seu cenho franzido.
–Obrigada. – Disse por fim.
Levantei-me e saí da sala, ele balbuciou um por quê, que não fiz questão de responde e sai entre as vísceras do laboratório ao encontro da sala de Grissom.
Naquele momento estava me sentindo esclarecida, estava sendo visionária, olhando o panorama completo da situação, vendo meus erros e minhas falhas e tendo certeza que continuaria assim caso não tomasse de uma vez por todas uma atitude, uma atitude consciente e provida de algum tipo de razão, algo que não fosse por impulso e que meu sentimentalismo não controlasse.
A sala de Grissom estava a minha frente, tão próxima e clara como minhas opções, minhas frustradas opções esclarecidas pelas decepções, respirando fundo concentrei o que restava da minha coragem, lucidez e determinação, chegando até a cruzar a porta sem bater.
Vi-me imersa na escuridão típica da sala fechada do supervisor da noite, quase ri, o ciclo vicioso e frustrante de sempre, de tudo que continha Grissom e eu no prisma de formação. A porta estava fechada atrás de mim pelo impulso e coragem repentina de entrar naquela sala.
Eu quase ia saindo de lá quando algo incomodo percorreu minhas lembranças. Catherine mencionara uma carta, uma carta que eu não havia recebido e que estava entre aquelas gavetas, uma carta que eu sabia que nunca me seria entregue nem abandona em um lixeiro aos pedaços. Eu sabia disso, esse era o estilo Grissom, guardar e preservar, esconder-se de si mesmo e ficar apreciando sua própria desgraça.
Eu estava lá, sozinha e poderia ser a minha chance de provar que minhas concepções a respeito dele estavam certas. Engoli a seco, hesitante, mas nem tanto, contornei a mesa e comecei a tatear pela mesa de mogno, encontrei a primeira gaveta e nela os papéis percorriam a ponto dos meus dedos aguçando meu tato, eram diversos e incontáveis, pastadas grossas, das mais diversas espessuras, tudo aquilo na mesma gaveta, exalei, quase desistindo da minha ideia. Eu não havia sido presa nas últimas horas e estava abusando da sorte de continuar fora das grades de uma prisão por violação da privacidade alheia.
Eu pensei remotamente na minha proposta de defesa, a carta estava endereçada a mim, então eu tinha o direito de vê-la, independente de quem a escrevera. Em todo caso, afastei aqueles pensamentos quando meus dedos tocaram uma ponta em meio aqueles papéis, o começo de algo nem tão grosso os lados que se estendiam incongruentes, um tipo de retângulo. Afinal de contas, eu conheci Grissom melhor do que eu imaginava.
Minha mão voltou a estender-se pela mesa, alcançado o abajur que ficava na extremidade, puxei a cadeira atrás de mim deixando meu peso cair em cima dela, a luz ofuscante amarelada formando um círculo em cima da mesa e meus olhos cansados das horas impostas para eles ficarem abertos estavam cooperando entre si para aguentarem um pouco mais.
Joguei o papel em cima e comecei a ler.
O papel de carta era creme, igualmente ao envelope SARA SIDLE, corri os dedos pela abertura, retirando as letras embrulhadas.
Querida Sara,
Parece-me apropriado que comece assim, uma vez que não existe nada mais sincero em meu ser que o intenso carinho que sinto por ti.
Não sei como transpor para palavras tal sentimento que me assombra desde a primeira vez que pus meus olhos nos seus, nem sei como algum momento terei coragem ou força suficiente para torná-lo vivo em gestos presentes à sua vista.
Percebo que a cada diz me perco mais do caminho que trilhei que me mantive fiel, sinto que perco de vista minha sensatez quando se coloca a prova ao lado de todo o jato de emoções que percorrem minhas veias ao seu lado.
Queria ter só um pouco mais de força para desviar-me da poderosa magia de me sentir vivo ao seu lado...
Eu gostaria muito de continuar minha leitura, a porta abriu subitamente me gelando até a alma, me vi estática sendo pega com a boca na botija, a claridade entrava pelo vão da porta em que ele estava parado me encarando, tornando-o uma sombra sem face.
Engoli a seco recobrando aos poucos meus sentidos, larguei a carta lá, desligando o abajur também sendo coberta pelas trevas da sala.
–Sara? – Sua voz rouca me chamou, estava tão cansado que não tinha força de levantá-la ou mudar sua entonação. Respirei fundo ponderando minhas opções inexistentes.
–Sim?
–O que está fazendo aí?
–Vim atrás de você.
–Mas?
–Você não estava...
–E?
PARE DE FAZER PERGUNTAS QUE EU NÃO SEI RESPONDER! Eu fiquei tentada a gritas, meus dedos estavam pousados sobre a carta e ele permanecia imóvel no extremo da sala.
–Resolvi te esperar.
–Lendo?
–Sim.
–O que? – Aquele desejo de gritar com ele veio até a garganta, ele não precisava fazer tantas perguntas, ele estava cansado, ele era um perito não um detetive, não um agente especializado em interrogatório da CIA.
–Isso está ridículo. – Disse por fim respirando fundo, sonoramente para que ele entendesse de uma vez por todas que não estava disposta a continuar respondendo suas perguntas inquisitivas que derivavam das minhas respostas incompletas sobre estar invadindo sua sala.
–Também acho.
–Pois bem, eu vou indo. – Disse me levantando em um pulo
–O que queria falar comigo?
Do nada parei qualquer movimento, até respirar seria perigoso para uma resposta assim. Do nada um medo forte me possuíra, eu não queria que ele soubesse que estava com a maldita carta, eu precisava lê-la até o fim para saber o que pensar.
–O que?
–Você não estava me procurando?
–Sim!
–E? – Suas sobrancelhas arqueavam inquisitivas.
–Eu estava te procurando e te achei! Pronto! – Escorreguei a carta dobrada para minha calça, sob a proteção do escuro escondi dentre os contornos rentes do jeans com minha pele prendendo-a lá.
–Muito bem, que seja... – Ele finalmente acendeu a luz e agradeci a algum tipo de força superior por minha tenacidade. Saí de trás da sua mesa tendo certeza que fechei a gaveta, mas deixando o abajur ligado.
Estávamos relativamente próximos
–Certo... – Empurrei-o para o lado saindo do inferno particular de Grissom e antes que eu pudesse seguir firme, me virei uma última vez, dando mais uma das últimas chances para nós dois, mais uma das tantas que eu prometia para mim mesma serem as derradeiras, mais uma daquelas que me decepcionavam ao perceber que sempre existiria outra e sempre aguardaria ansiosa pela próxima. -Se vocês terminarem mais cedo... Eu vou estar em minha casa... – Meus olhos reviraram: o lugar que eu não deveria ter saído esses dias. –Certo... é isso... Se você quiser ir... Enfim... Faça o que achar melhor. – Disse por fim sabendo que aquela é a escolha de palavras erradas, voltei atrás de novo. –Eu gostaria muito que você passasse na minha casa hoje à noite, antes do turno começar e bem depois que você descansar, isso significaria muito para mim, nós ainda precisamos conversar muito, Gil.
Isso! Sem pensar, sem respirar, apenas cuspindo o que vinha na minha mente, com meus passos frenéticos indo para longe dele, soltando a bomba e correndo do estrago, quando me vi já tinha virado a esquina do corredor de sua sala, sabendo que tinha dado o meu melhor e mais uma das últimas chances.
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