Notas iniciais
Gente, agora a Kagome tem cabelo negro, não loiro, ok ?

Não havia como discutir com aquele homem. Kagome andava pelo chão de madeira do elegante dormitório, lutando para controlar a raiva. Antes que tivesse a chance de se recuperar do susto por Miouga tê-la reconhecido, fora levada para dentro da casa e instalada em um quarto no andar superior.

Protestou a escolha, porém Inu Yasha nem prestou atenção. Para ela, seria bem melhor dormir no estábulo. Ele respondeu com uma sonora gargalhada, afirmando que a queria bem perto, onde pudesse observá-la vinte e quatro horas por dia.

O que era uma prisioneira?!

A decoração do quarto era fantástica. Kagome passou a mão pelos pontos coloridos de uma bela tapeçaria. O fogo ardia na lareira, diante da qual havia uma grande banheira de madeira redonda, decerto para que se banhasse. Era um luxo para poucos, e tinha de admitir que era bem melhor do que o tanque de água fria do estábulo.

Sango, a jovem que conversara com Miroku na porta de entrada, estava na cozinha aquecendo a água.

Uma grande janela dava para o estábulo e o pátio, onde Miouga inspecionava as ferraduras dos cavalos que tinham acabado de voltar. Dois jovens, que pareciam uma versão mais nova de Miouga, lavavam os três garanhões. O pai deles apenas dava instruções. Suas suspeitas se confirmaram: ele era o responsável pelo estábulo.

Mas como sabia seu nome?

A porta de seu quarto se abriu. Sango ordenou que os dois homens carregando baldes de água fervente derramassem-na na banheira. Atrás deles vinha uma mulher de mais idade, enrolada em uma manta dos Taisho. Ela ficou parada, com as mãos na cintura, observando os criados, como se quisesse ter certeza de que não derramariam uma únicagota para fora.

Quando terminaram, os dois se retiraram, e Sango soltou a cortina presa para afastar o frio e garantir a privacidade.

A boa educação de Kagome lhe dizia para ser gentil, embora a senhora não parecesse das mais simpáticas.

— Meu nome é Kagome.

— Eu sei. Sou Kaede. Agora, tire a roupa e entre na banheira antes que a água esfrie — ordenou, abrindo uma bolsinha de couro e despejando o conteúdo na água. Um delicioso aroma inundou o ar.

— É um lindo vestido, milady — elogiou Sango, ajudando-a a se despir.

Toda aquela formalidade a punha nervosa.

— Por favor, gostaria que vocês me chamassem de Kagome.

Assim que Sango passou a roupa para as mãos de Kaede, a senhora franziu as sobrancelhas para inspecioná-lo.

— Está imundo! O que andou fazendo? Cuidando de porcos?

— Algo do gênero — respondeu ela, relembrando-se das mãos repulsivas de Reynold Grant.

— Bem, precisaremos de algumas peças novas. Este vestido não tem mais jeito. — Sem pensar duas vezes, Kaede jogou-o no chão.

— Ah, não! — Kagome tirava o corpete. — Gosto muito dele.

— Cuidarei desse traje, milady. — Sango o pegou.

— Muito obrigada.

Kaede a levou até a banheira. Kagome entrou e logo se envolveu com o calor aromático. Sentou-se e fechou os olhos.

A sensação não podia ser melhor. A viagem de dois dias e uma noite não fora nada fácil.

Kaede começou a lavar-lhe os cabelos. O perfume de alecrim permeou-lhe os sentidos. Kagome sucumbiu às mãos da senhora e soltou a cabeça.

Todavia, não conseguiu relaxar. Uma série de perguntas sem resposta a espicaçava. Não poderia descansar enquanto não respondessem pelo menos algumas. Assim, decidiu que começaria ali mesmo.

— O que você faz aqui na casa, Kaede?

— Eu sou… era criada e parente de lady Ellen Taisho.

— A mãe de Inu Yasha.

— Sim.

— Era? Você não a serve mais?

— Não. Milady faleceu. Agora, mergulhe. — Kaede empurrou-lhe a cabeça.

Kagome prendeu a respiração e se baixou na água para enxaguar a cabeleira.

— Sinto muito — disse ela, assim que voltou à tona.

— No começo de maio.

Quase um mês atrás. A irritação de Inu Yasha não era de se estranhar. Faria o possível para tratá-lo com mais simpatia.

Estava curiosa de saber o que acontecera aos Taisho depois de terem deixado suas terras.

— Lady Taisho morava aqui, com Inu Yasha?

— Sim. E os outros dois meninos também. Viemos para Braedün Lodge logo depois do… Lady Ellen nasceu aqui.

— Ah…

Kaede foi para o outro lado da banheira e começou a esfregar-lhe os pés.

Kagome decidiu ser atrevida:

— E o que aconteceu com o Castelo Findhorn?

— Está sob guarda dos Grant há onze anos. Ninguém mora lá, mas os soldados dos Grant rodeiam a propriedade, obstruindo as terras e águas com sua sujeira.

Kaede quase lhe arrancava a pele. Kagome puxou as pernas.

— Desculpe-me, milady. Acabei me distraindo ao falar naquela ralé.

"Ralé…" Kagome era ralé. Afinal de contas, fora excelente ter escondido sua identidade.

— Grant e Inu Yasha são inimigos? — insistiu Kagome, mesmo sabendo a resposta.

— Dizer isso é pouco. Reynold Grant matou o pai dele. Foi horrível.

Kagome compartilhara da angústia de Inu Yasha naquela manhã cinzenta, tantos anos atrás.

— Sim, foi.

— Como?

— Eu… — Era melhor mudar de assunto. — Então aqui é a casa de Alistair, tio de Inu Yasha?

— Sim, Alistair Davidson é o chefe do clã. E é o melhor homem que já conheci. — Kaede estendeu-lhe uma toalha.

— Não o vi quando cheguei.

— Ele e a esposa, lady Margareth, estão viajando a negócios. Devem retornar daqui quinze dias.

Kaede terminou de enxugá-la, e Kagome ergueu os braços para que Sango lhe colocasse um novo espartilho.

A jovem indicou uma pequena banqueta perto da lareira.

— Sente-se perto do fogo para que eu possa penteá-la e arrumá-la.

Kaede parou à porta.

— O jantar será servido dentro de uma hora. Mandarei um vestido para você usar.

— Obrigada, Kaede.

Apesar dos protestos de Kagome de que não precisava de ajuda com os cabelos, Sango permaneceu no aposento. Por fim, cedeu, sentando-se na banqueta. As mãos delicadas da jovem, junto com o calor do fogo, a deixaram sonolenta.

Estava exausta e, para ser franca, uma série de pensamentos atormentava-a. Kagome lutou contra o cansaço e manteve-se ereta, esforçando-se para continuar de olhos abertos.

Quando Sango começou a cantar uma antiga canção, Kagome se lembrou de Miroku, o guerreiro a quem Inu Yasha Taisho chamava de amigo.

— Sango? Você tem um namorado?

Kagome deu um grito quando Sango puxou-lhe os cabelos.

— Desculpe-me, milady! Bem, não é exatamente um namorado, mas há um homem de quem gosto bastante.

— Miroku, não é?

— Como sabe?!

— Vi a maneira como você o olhou quando chegamos. — Sentiu os dedos da jovem tremerem.

— Sério? E você acha que ele reparou em mim? — Sango fixou o olhar no fogo, esquecendo-se de todo o resto. — Miroku é um guerreiro Taisho, um dos amigos mais próximos do chefe do clã. — Suspirou e voltou-se para Kagome. — Acha que existe alguma esperança para mim?

— Bem mais do que isso — respondeu ela, lembrando-se do encantamento de Miroku ao reencontrar Sango depois de dias longe, viajando.

— Vou deixá-la sozinha para que descanse um pouco antes do jantar. — Sango colocou o pente sobre a penteadeira.

Assim que ela se foi, Kagome jogou-se na cama, acomodando-se no aconchego das almofadas de pele. Estava esgotada, mas não achava que poderia dormir.

As palavras de Kaede a preocuparam. Não sabia sobre os soldados cercando o Castelo Findhorn. Durante todos aqueles anos, questionara o pai sobre os Taisho. Naraku, todavia, lhe dera apenas respostas vagas, contendo poucas informações.

Não deveria ser uma situação nada agradável para Inu Yasha ter seu lar tomado por homens de outro clã. Pelo que sabia, ele não fizera nada para recuperar sua propriedade. Era de se estranhar? O exército de Reynold tinha quase mil homens, e sobraram poucos Taisho. Pelo menos os que se encontravam em Braedün Lodge. Talvez houvesse outros no Norte.

De repente, Kagome se deu conta de que Inu Yasha Taisho estaria assinando seu próprio atestado de morte se desafiasse Reynold Grant. Sentiu um nó no estômago e enterrou o rosto nas almofadas.

Não podia negar, ainda o amava. E aquela verdade correu por suas veias.

"São verdes. Seus olhos." Essas tinham sido as primeiras palavras de Inu Yasha naquela manhã. A lembrança do braço forte em sua cintura, da respiração em seu pescoço, do cheiro masculino, causou-lhe arrepios.

Precisava revelar-lhe a verdade. Sobre si, sobre a ameaça que Reynold Grant representava para sua família e sobre o casamento do qual não via escapatória. Ah, como queria lhe contar a verdade… Mas o que o levaria a resolver os problemas de uma estranha? O que Inu Yasha faria? Nada, talvez.

Ele descumprira sua promessa, afinal, nunca voltara.

Kagome retesou-se. Não significava nada para aquele homem. Não passava de uma colega de infância, nada mais. Será que ele se lembrava de todo o tempo que passaram juntos?

Entretanto, Inu Yasha a olhara com preocupação e até um pouco de carinho no dia anterior, ao limpar a sujeira e o sangue de sua pele.

E se Inu Yasha Taisho se preocupasse?

Não, não podia lhe revelar nada. Não arriscaria a vida daquele homem em seu próprio benefício. Na realidade, o que poderia fazer? Tinha de resolver sozinha sua pendência com Reynold Grant. Depois pensaria no assunto.

Com um suspiro, Kagome se deixou levar pelo conforto do leito.

Música. Não, pássaros. As pálpebras de Kagome se abriram, e ela estreitou os olhos contra a luz do sol que entrava pela janela.

— Dormiu bem, milady?

A julgar pela intensidade da luminosidade, Kagome supôs que o sol nascera fazia muito.

— Que horas são? — quis saber, pulando da cama.

— Você perdeu o desjejum, mas eu guardei um pouco de comida. — Sango apontou para a pequena mesa perto da lareira. Havia uma bandeja em cima.

— Obrigada.

— Estava dormindo tão bem ontem à noite, como um bebê, que Kaede pediu-me para não acordá-la. Inu Yasha… quer dizer, o chefe pediu para vê-la, porém Kaede não permitiu.

— E mesmo?

Será que Inu Yasha descobrira sua verdadeira identidade e por que estava fugindo?"

— Sim, e não gostou nem um pouco quando Kaede se colocou à frente da porta e não o deixou entrar.

Então a senhora era bem mais amável do que a primeira impressão indicara.

— Por favor, diga a Kaede que eu agradeço por ter preservado minha… privacidade.

Sango sorriu, depois abriu um baú ao pé da cama e tirou um vestido de lã verde. Colocou-o no colchão e virou-se para ajudar Kagome a vesti-lo.

Era demais aquilo tudo. Não estava acostumada a ter uma pessoa para ajudá-la a se vestir.

— Sango, não preciso de suas bajulações. Posso me arrumar sozinha.

A jovem pareceu muito magoada.

— Não está contente com meu serviço? — Os olhos angelicais se encheram de lágrimas.

— Ah, Sango! — murmurou Kagome, tomando-lhe as mãos entre as suas. — Estou muito feliz com sua ajuda. É que… Bem, não estou acostumada com tanta atenção.

O rosto dela se iluminou.

— Não é problema algum. Gosto de servi-la, milady. Kaede disse que preciso cuidar muito bem de você, caso contrário Inu Yasha ficará bravo comigo.

— Sério? — Kagome esboçou um sorriso.

— Sim! Precisava vê-lo ontem. Não se agüentava de tanta preocupação com você.

Kagome sentiu o rosto enrubescer, e puxou o vestido pela cabeça para esconder a vermelhidão de Sango.

— Ficou lindo, milady!

Kagome alegrou-se com o elogio. Não tinha o costume de usar vestidos, pois ficava a maior parte do dia no estábulo, usando calça comprida e botas de couro.

— De quem é este traje?

— Pertenceu a lady Ellen, quando ela era jovem.

— A mãe de Inu Yasha? Acha que eu devo usar as roupas dela? Inu Yasha não ficará zangado?

— De jeito nenhum. — Sango apanhou o pente. — Kaede falou que o chefe ficará encantado.

— Mas não seria melhor se as roupas de lady Ellen fossem dadas para a esposa de Inu Yasha? — Kagome prendeu a respiração e aguardou pelo que ouviria.

— Inu Yasha não é casado. E não tem sequer uma pretendente.

Kagome ficou aliviada.

— Já Sesshoumaru é outra história… Se é que entende o que quero dizer.

— Quem é Sesshoumaru?

— Sesshoumaru Taisho, o irmão do meio de Inu Yasha. É um dos homens mais bonitos que já vi na vida. A não ser por Miroku, claro.

As duas se assustaram quando escutaram um barulho vindo do estábulo. Todos os homens tentavam controlar um cavalo que relinchava e se debatia sem parar. Kagome foi até a janela para ver o que acontecia de fato.

Um garanhão preto saiu correndo, empinando de raiva devido a uma corda de treinamento presa a seu pescoço. Miouga e seu filho tentavam, sem sucesso, acalmar o animal furioso.

Kagome ficou toda arrepiada ao ver um menino de cerca de quinze anos pulando perto do garanhão, também no intuito de controlá-lo. Miouga tentou afastá-lo, mas de nada adiantou.

— Quem é o garoto, Sango?

— Ah, meu Deus! É Conall Taisho, o irmão mais novo do chefe.

O garanhão empinou outra vez, e o garoto se aproximou mais. Sem pensar duas vezes, Kagome saiu correndo do quarto, descalça, desceu as escadarias e saiu da casa.

O animal tornou a empinar. O menino se enfiou sob as patas dele e tentou segurar o freio.

— Conall! — Era a voz de Inu Yasha, mas ele não estava à vista. — Saia daí!

Conall ignorou a ordem do irmão. O garanhão corcoveou quando Miouga pegou a corda. Uma multidão se formou ao redor deles, assustando ainda mais o pobre cavalo.

Kagome sabia que o cavalo empinaria.

— Garoto, você está muito perto! — gritou Kagome, jogando-se para frente e pegando o menino.

Conall tropeçou, e os dois foram para o chão. O garanhão bateu as poderosas patas a poucos centímetros da cabeça do menino.

Não havia tempo. A julgar pelo brilho dos olhos do cavalo, ele tentaria empinar de novo. Kagome se levantou, desembainhou sua adaga e cortou a corda de treinamento. Ele estava livre. Em um movimento suave, que lhe era bastante natural, ela se segurou na crina do animal e pulou para cima, acomodando-se.

Sem precisar da ajuda das rédeas, Kagome guiou o cavalo por um grande círculo ao redor do pátio do estábulo. Os músculos tensos do animal relaxaram quando ela afagou-lhe a crina e sussurrou palavras dóceis em sua orelha. Poucos segundos depois parecia outro animal. Calmo. Sereno.

Miouga tirou Conall da sujeira, resmungando.

— Garoto atrevido!

Não era assim que pretendia começar o dia, Kagome pensou, vendo Miouga cocar a barba.

Quando Kagome diminuiu o passo do garanhão, avistou Inu Yasha parado no portão do pátio do estábulo, e a multidão que o rodeava. A julgar por sua aparência, ele não aprovara suas ações.

O rosto dele estava vermelho como uma maçã de outono. Seus olhos brilhavam como carvão em brasa. E mesmo a distância Kagome enxergava as veias saltadas no pescoço dele. Teria problemas pela frente…

O que queria que ela fizesse? Que ficasse parada assistindo a uma desgraça acontecer?

Kagome o encarou, e o que viu a deixou mais nervosa do que o acidente com o garanhão. Quase nem notou Miouga ajudando-a a desmontar e levando o cavalo embora.

Em três passos, Inu Yasha chegou a seu lado. Kagome não saiu do lugar, e eles ficaram tão próximos que ela sentia a respiração dele em seu rosto.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele virou-se de repente para o irmão Conall, inclinado sobre a cerca. Então, pegou-o pela gola e o empurrou na direção da casa.

— Bankoutsu! Miroku! Venham aqui! Agora!

A pequena multidão que se formara explodiu em uma cacofonia de risos e comentários. Palavras de louvor, e também de punição, foram dirigidas a Kagome. Sim, fora uma atitude estúpida de sua parte. Tanto ela quanto o menino poderiam ter se machucado.

Miouga, junto com o homem que o ajudara com o garanhão, surgiu ao lado dela e levou-a até um tanque de água. Kagome estava mais chocada do que imaginara, e desabou no banco de madeira.

— Muito bem, filha. Você fez um excelente trabalho. — Miouga afagou-lhe o ombro.

— E o garoto, está bem?

— Conall? Não se preocupe com ele. Não duvido nada que adorará estar naquela situação outra vez.

Kagome franziu o cenho.

— É sério. Inu Yasha não poupará o irmão. Conall nunca mais se esquecerá do incidente.

— Ele vai machucá-lo?

Kagome nunca vira Inu Yasha tão furioso, porém, suspeitava que parte daquela ira seria direcionada a ela.

— É provável que Conall não consiga se sentar durante um ou dois dias… Não, não se preocupe Inu Yasha não machucará o irmão.

— Sim — disse o homem mais novo. — Ele ama aquele garoto como se fosse seu filho.

— Quando o pai deles morreu, Inu Yasha tomou para si a responsabilidade de criar os meninos.

— Sesshoumaru e Conall?

— Sim. São pessoas excelentes, graças a Inu Yasha.

O jovem ajoelhou-se ao lado de Kagome.

— Você está bem? Quer que eu pegue um pouco de água do poço?

— Não, muito obrigada. — A preocupação dele a emocionou. — Estou bem.

— Imagino que esteja com mais medo do chefe do que do garanhão — brincou Miouga.

— Tem razão.

— Não se preocupe filha. O chefe é teimoso demais e, por mais que eu o ame, sei que pode ser tão tolo quanto uma pedra. — Miouga quis dizer algo mais com seu olhar, porém ela não compreendeu.

Mais do que qualquer coisa, queria saber como Miouga descobrira seu sobrenome. Entretanto, preferia esperar por uma ocasião em que estivessem a sós.

— Meu nome é Kagome — ela disse ao rapazinho.

— Eu sei. Chamo-me Shippou.

— É meu filho. — Miouga abriu um sorriso orgulhoso.

Naquele momento, Bankoutsu apareceu.

— Milady, vou acompanhá-la até a casa.

Ordens de Inu Yasha, sem dúvida. Não fazia diferença. Kagome estava faminta e se divertira bastante naquela manhã. Sua conversa com Miouga teria de esperar. Se sabia alguma coisa a seu respeito, mantivera em segredo.

"Será mesmo?"

Ela se lembrou do rosto vermelho de Inu Yasha.

— Vamos lá, Bankoutsu. — Levantando-se, aceitando o braço do guerreiro. — Estou com tanta fome que poderia devorar um cavalo

— Achei que já o tivesse feito — gracejou, sorrindo.

Kagome passou a tarde explorando a residência dos Davidson e conhecendo seus moradores. O incidente com o cavalo se espalhara como um incêndio, e algumas pessoas a encaravam com desconfiança.

Bankoutsu não saiu de seu lado por um instante sequer. Recomendações do chefe.

Kagome não vira mais Inu Yasha desde então, e se perguntava onde estaria e fazendo o quê.

Atrás do estábulo havia alvos de flechas e um grande pátio de treinamento, onde os guerreiros aprimoravam suas habilidades de batalha. A atividade era intensa no local aquela tarde, e Bankoutsu a impediu de entrar.

Era bem provável que ele estivesse ali.

Sem problemas. Após ter testemunhado a ira de Inu Yasha aquela manhã, Kagome não sabia se já estava pronta para encontrá-lo. Além do mais, não tinha a menor vontade de encurtar a excursão vespertina.

Por todos os lugares que passavam desde a cozinha da casa principal ao celeiro, notou vários tipos de armas: lanças, arcos e flechas, machadinhas com duas cabeças e diversas adagas. Braedün Lodge parecia mais um acampamento do que uma propriedade familiar. Quando questionou Bankoutsu sobre a variedade e quantidade de armas, ele respondeu que era "coisa de Inu Yasha.”.

Kagome recordou-se das armas que ele carregara durante a caçada: duas espadas, uma lança, duas adagas visíveis e, na certa, mais algumas escondidas pelas roupas.

O que significava tudo aquilo?

Não sabia responder, mas sua intuição não era das melhores. Depois de exaurir Bankoutsu com uma série de perguntas, que ele não respondeu, e quando o sol começou a desaparecer no céu, Kagome retornou a seu aposento, pronta para jantar.

A tentativa de Sango de convencê-la a usar mais um elegante vestido foi em vão. Aquele de lã verde estava ótimo. Era simples e confortável, apesar de um pouco justo demais no corpete. Recusou-se também a fazer um penteado mais suntuoso, uma vez que apreciava usar os cabelos soltos, uma cascata selvagem de fios cor de mel que descia até sua cintura.

Ao descer a escada para reunir-se a seus anfitriões, Kagome ouviu o barulho intenso que vinha do grande salão. Ou seriam seus captores? Não sabia ao certo como se referir a eles.

Parou no último degrau e procurou algum rosto familiar.

Havia oito ou dez mesas cheias de membros do clã, a maioria dos quais conhecera à tarde. Quase todos usavam a manta dos Davidson, e os poucos Taisho sentavam-se em outro canto.

A mesa mais próxima da lareira ficava em cima de um tablado, de modo que as pessoas ali ficavam visíveis a todos no salão. Inu Yasha estava ao centro, Conall à esquerda e outro jovem com a manta dos Taisho à direita. De certo seu outro irmão. Bankoutsu e Miroku acomodavam-se um pouco mais longe, junto com alguns homens do clã dos Davidson.

Bankoutsu abriu um largo sorriso quando a viu, e Miroku fez o mesmo. Inu Yasha não mexeu um único músculo facial. Quando encontrou o olhar dele, Kagome ergueu o queixo, provocando-o. Talvez não tivesse aprovado o vestido que ela usava.

— Lady Kagome! — gritou o jovem à direita de Inu Yasha, estendendo a mão. — Não quer juntar-se a nós?

Era tão alto quanto Inu Yasha, porém não tão musculoso. A semelhança entre ambos restringia-se aos traços fortes e ao olhar tempestuoso. Inu Yasha era moreno de cabelos castanhos e sério. O outro tinha cabelos loiros e um sorriso encantador, quase perigoso. Kagome imaginou que haveria inúmeras mulheres aos pés dele. Sim, só podia ser Sesshoumaru.

Ela caminhou até o tablado, aceitou a mão do guerreiro e, um momento depois, viu-se acomodada entre ele e o irmão. Alguns homens lhe ofereceram o copo. Sem saber como agir, Kagome fitou Inu Yasha. Os olhares se encontraram, mas a expressão dele não era das mais amenas. Irritado, colocou o copo à frente dela.

— Obrigada. — E Kagome levou o copo aos lábios.

— Sou Sesshoumaru, o segundo filho de Colum Taisho.

A descrição que Sango lhe dera fora das mais precisas.

— É um prazer conhecê-lo, Sesshoumaru.

Do outro lado da mesa, o jovem Conall a fitava com admiração. Seu jeito a fez lembrar-se do jovem Inu Yasha. Uma grande ternura a invadiu, e seus lábios se curvaram em um lindo sorriso. Conall quase caiu da cadeira.

— O que foi Conall? Nunca viu uma mulher bonita antes? — zombou Sesshoumaru.

— Para ser sincero, não.

Inu Yasha resmungou algo que ela não conseguiu compreender.

— Nem eu. — Sesshoumaru cobriu-lhe a mão com a sua, para total surpresa dela.

Sim, Sango tinha razão. Aquele homem era um perfeito conquistador.

— Já basta! — Inu Yasha bateu a mão no tampo da mesa.

Na mesma hora, Sesshoumaru soltou Kagome.

Pelo visto, o flerte do irmão deixara Inu Yasha enciumado. Não havia outra explicação plausível para todo aquele nervosismo.

Kagome lutou para manter-se séria, mas sentiu os cantos da boca se curvaram para cima. Sem coragem de olhar para o chefe do clã, virou-se para o lado.

Bankoutsu levou a mão engordurada à boca, no intuito de conter o riso. Os outros guerreiros, tanto Taisho quanto Davidson, pareceram se divertir com a cena.

Chegara a hora de quebrar o gelo. Kagome se voltou e deparou com o olhar intenso de Inu Yasha. Na mesma hora, ele baixou os cílios e fingiu grande interesse no pedaço de carne em seu prato.

— Inu Yasha, eu…

— Todos me chamam de chefe, a não ser os mais chegados. Se desejar, entretanto, eu a autorizo a se dirigir a mim pelo primeiro nome.

Por Deus, como aquele homem era arrogante! Talvez o menino intolerável que conhecera ainda vivesse dentro dele.

— E você pode me chamar de Kagome.

Inu Yasha terminou de mastigar sem conseguir esconder sua surpresa com tamanha audácia. Abriu a boca para falar, depois mudou de idéia, e seus lábios de abriram e fecharam várias vezes, como os de um peixe.

Aquela não era a ocasião exata para provocá-lo. Por isso, Kagome decidiu comer em silêncio.

— Seu tio é chefe aqui?

— Sim. Ele é o Davidson.

— E por que você ocupa o lugar dele à mesa?

— Na ausência de meu tio, sou o responsável pelo clã e pelas propriedades dele.

— Ele não tem filhos?

— Não. Alistair e Margareth não tiveram filhos. Quando Sesshoumaru tiver idade suficiente, ele será o chefe deste clã.

— Mesmo sendo um Taisho? Os Davidson não protestarão?

Inu Yasha achou graça, como se estivesse tendo uma agradável lembrança.

— Nós três somos Davidson e Taisho. Como Sesshoumaru foi criado aqui e é muito amado pelo clã de minha mãe, sem dúvida todos o aceitarão. Aliás, já aceitam.

Inu Yasha se virou para o irmão, que entretinha os amigos contando alguma piada do outro lado da mesa.

— Entendi. E você, Inu Yasha Taisho, onde está seu futuro?

— Em qualquer lugar.

Aquele homem exercia um poder inexplicável sobre Kagome. Na realidade, sempre fora assim.

Todo o ruído pareceu cessar à medida que Inu Yasha foi se aproximando. Os rostos de ambos ficaram muito próximos. Kagome olhou para cima e seus lábios se entreabriram por vontade própria, como num sonho.

Um "Urra!" ensurdecedor quebrou o encanto momentâneo, e todos os presentes de levantaram para brindar. Kagome respirou fundo, tentando se recompor, quando percebeu que o brinde era para ela.

Ainda sentia o coração descompassado quando Inu Yasha se levantou e soltou-lhe a mão. Como assim? Ela nem ao menos tinha percebido que a segurava!

Pouco depois, o povo se acalmou e voltou a seus lugares.

— Ainda não lhe agradeci por ter salvado a vida de meu irmão. — Inu Yasha tornou a se acomodar.

— Não foi nada, chefe. — Kagome teve de controlar a emoção, pois, quando crianças, Inu Yasha nunca lhe agradecera por nada. — Posso dizer que sou bastante hábil com os cavalos.

— Foi o que pareceu. Mas quero que me prometa que nunca mais se arriscará daquela maneira.

Inu Yasha apertou-lhe os dedos. Se sua vida dependesse de uma palavra, Kagome não teria conseguido responder.

— Você… poderia ter morrido.

Ela quase desmaiou ao ver o imenso carinho estampado no semblante dele.

Sim, Inu Yasha se importava!

Um calor tomou conta de seu corpo, e Kagome ficou exposta à vulnerabilidade de seus sentimentos.

— Inu Yasha, eu…

Ele se afastou na mesma hora, de repente.

— Não quero que chegue perto daquele garanhão outra vez. Fui claro? É um animal de grande valor.

Alguns minutos se passaram antes que Kagome compreendesse a reprimenda.

— Escutou?

— Animal de grande valor? — repetiu ela, entre os dentes cerrados. — É com isso que se importa?

— Basta! Não quero mais falar disso.

Todo o salão silenciou, e todos os rostos se voltaram para o chefe do clã. Inu Yasha se levantou e empurrou a cadeira para trás, derrubando-a. Sem dar nenhum tipo de explicação, retirou-se.

Kagome ficou calada, tentando compreender o que houvera. Confusa, fitou Sesshoumaru em busca de uma resposta.

— Não acredito! Ele está apaixonado! — comentou o jovem guerreiro, estupefato.

Notas finais
Espero que tenham gostado, esse cap foi meio grandinho, eu acho.
bj