Um último Fio de Esperança

3 Capítulo 3 - Depois do Susto


Notas iniciais

hã, terceiro capítulo. eu gostei, achei fofinho. espero que gostem.

– Senta aí, Carmem. Quer alguma coisa?

– Eu tô ensopada. Vou molhar todo o sofá. – eu respondi, por mais que estivesse muito cansada.

– Hum... – ele me examinou – Vou chamar a minha tia. Ela pode te arrumar uma roupa e... Fazer alguma coisa quente pra você beber.

– Eu não preciso de nada. Vou pra minha casa. – não estava com a mínima vontade de trazer as lembranças à tona, mais não queria dar trabalho.

– Você vai ficar aqui, vai se sentar aí e vai beber o que minha tia fizer sim. – ele praticamente me empurrou pro sofá. – Eu já volto – ele saiu. Grosso.

– Agora, sério... O que você tava fazendo na rua, sozinha, na chuva e a essa hora da noite? É perigoso, sabia?! – Cascão não parecia muito satisfeito com o que eu tinha feito. Pra falar a verdade, nem eu.

– Eu... Não... Tô bem... – não queria falar sobre meus problemas. Mas não podia dizer ‘Não to bem e não quero voltar pra casa’. Iam achar que eu tinha fugido. Tremi. Estava começando a ficar com frio com as minhas roupas molhadas.

– Traz uma coberta pra ela também, careca. – ele disse. E virou pra mim – O que é que aconteceu? Quer dizer, se não quiser falar, tudo bem. A gente nem se fala direito...

– Minha mãe... – não consegui terminar. Cebola passou pela porta com uma toalha, uma coberta e alguma outra coisa, que julguei ser uma muda de roupas.

– Minha tia já está vindo. Você brigou com a sua mãe? – ele disse me entregando as coisas.

– Não, ela... M-m-morreu – só bastou falar e as lágrimas já fugiram de dentro de mim. Infelizes. Coloquei o rosto entre as mãos, mas vi eles se entreolharem.

– Pêsames – Cebola se sentou do meu lado e colocou a mão sobre o meu ombro.

– Puxa Carmem, desculpa, eu não teria tocado no assunto se... – eu o cortei

– Tudo bem. Você não sabia, não é culpa sua. – eu disse meio enrolada. Uma mulher entrou na sala. Deduzi ser a tia do Cebola. Ela era alta, cabelo castanho escuro, na altura da nuca e espetadinho para todos os lados. Ela usava um vestido básico vermelho, de alças, na altura do joelho. Parecia jovem e era bem bonita.

– Você é a Carmem, certo? – assenti – Bem, você precisa de um banho quente, roupas limpas e uma sopa. – ela pegou a minha mão – Você quer alguma coisa? Eu já ajustei o chuveiro no quente. Quando quiser, pode tomar banho.

– Obrigada. Não, não quero nada não. Eu... Vou tomar banho logo.

– Qualquer coisa é só chamar. Estarei na cozinha. – ela deu um sorrisinho e um beijo na testa. Ela parecia minha mãe.

– Tudo bem. Onde é o banheiro? – disse, enquanto pegava a toalha e as roupas.

– A primeira porta do corredor – Cebola apontou e eu segui, com um pouco de dificuldade pra andar.

O banheiro era pequeno. Só o básico, pia, privada e chuveiro. E um Box. Pendurei a toalha e deixei as roupas na pia. Tirei minhas roupas, pesadas e molhadas, e liguei o chuveiro. A água estava morna e gostosa. Permiti-me usar o xampu que tinha em uma prateleirinha ali. A água quente escorrendo pelo meu cabelo era reconfortante e me ajudou a controlar algumas lágrimas que ainda queriam sair. Examinei o meu pé; estava doendo e eu teria dificuldades para subir escadas ou qualquer outra coisa que não fosse plana. Droga.

Desliguei o chuveiro, saí e me sequei. Sequei meus cabelos e desdobrei as roupas que a tia do Cebola separou para mim. Um vestido, não muito curto e de mangas pequenas, listrado de dois tons diferentes de cinza com um desenho em roxo e verde na frente. Vesti; ficou um pouquinho largo, mas bom. Ficou quase curto demais. Sinceramente, eu gostei do vestido. É fofinho. Penteei o cabelo e saí, carregando minhas roupas molhadas.

– Você demorou um pouquinho – ela disse, e deu um sorrisinho.

– É um saco lavar o meu cabelo. Eu usei um xampu que tinha no banheiro. Tem problema?

– Não, claro que não. Vamos, me dê isso – ela pegou minhas roupas – e vá tomar um pouco da sopa, os garotos já estão lá. A propósito, meu nome é Júlia. E, por favor, não me chame de ‘senhora’ ou ‘dona’. Prefiro ‘tia’ mesmo. – ela disse, ainda sorrindo.

– Tudo bem – sorri também – e obrigada pelo vestido. É muito confortável.

– De nada! A cozinha é ali – ela apontou.

Fui por onde ela disse e logo vi os meninos sentados a uma mesa, cada um com um prato de sopa, e um terceiro prato em um lugar vago, que julguei ser o meu.

– A tia serviu seu prato, para ir esfriando. – Cebola disse. Provavelmente, eu estaria com uma cara confusa.

– E está bom. – Cascão disse, em seguida. Realmente tinha uma aparência saborosa. E eu estava com fome. Dei um sorrisinho e me sentei no lugar vago na ponta da mesa.

A sopa era de macarrão com legumes. E estava mesmo uma delícia. Tomei meu prato todo. Ninguém disse uma palavra; imaginei que eles estariam meio assustados com o que tinha acontecido comigo hoje, mais cedo. Levantei e lavei o meu prato. Agora a tia Júlia já estava na cozinha também.

– Não precisava lavar querida. – ela disse, e em momento nenhum aquele sorrisinho deixou o seu rosto.

– Considere um agradecimento. A sopa estava uma delícia. – eu disse, e sorri. Ela me deixava a vontade... Assim como minha mãe.

– Podia simplesmente agradecer, então. – ela disse

– Fiz questão de lavar. Se continuarem me tratando assim, eu vou ficar mal-acostumada.

– Não é por nada não Carmem, mas mal-acostumada você já é. – Cascão disse, levando um tapa na cabeça do colega.

– Agora eu entendo por que a Magali chama você de cabeção. – ele disse, e todo mundo riu. Até eu – seu pé está incomodando? – perguntou, direcionado a mim.

– Um pouquinho, nada sério. Mas aposto que vou ter problemas com as escadas. – fiz uma careta.

– Quer ligar para a sua casa? Suponho que queira voltar. – tia Jú (olha a intimidade) me mostrou o telefone, perto da porta. Acima dele, vi um relógio e me assustei. Já estava bem tarde.

– Hã... Acho que a essa hora, Charles vai estar dormindo. Naná pode estar acordada, mas ela não sabe dirigir. Vou ter que chamar um táxi.

– Há essa hora, seria tão perigoso quanto seu passeio de hoje, mais cedo. Você fica aqui. – ela disse, como se estivesse me corrigindo. Eu e Cebola arregalamos os olhos.

– Ah, eu não posso. Estou te dando trabalho.

– Não se preocupe, eu amo visitas! – ela sorriu abertamente. – ou você não pode ficar aqui porque minha casa é muito ‘pobre’? – completou, com um olhar de uma dúvida falsa.

– Não, claro que não! Acredite, fico mais à vontade aqui do que na minha própria casa. Deve ser porque você parece minha mãe. – sorri – Pra ser bem sincera, não estou com a mínima vontade de voltar pra casa. Só não quero dar trabalho mesmo.

– Imagine. – ela andou até o meu lado e passou um braço sobre meus ombros – Eu gostei de você. – ela sorriu também.

– Bom, eu tenho que ir, antes que minha mãe me degole. Tchau careca, tchau Carmem e tchau tia Júlia. – ele disse, já passando pela porta – Valeu pela sopa! – acenou.

– Tchau! Volte sempre! – tia Jú disse, acenando de volta pela janela – Cebolinha, você está tão calado... – ele corou ao som do apelido antigo.

– Sei lá, parece que eu tô esquecendo de alguma coisa... – ele disse, esfregando o queixo. Um pouco depois, arregalou os olhos.

– Que foi? – eu disse.

– Eu tinha um encontro com a Mônica! – ele disse, batendo na própria cabeça – Ela vai me matar!

– E esqueceu por minha causa. Que ótimo. – reclamei.

– Não é sua culpa. O Cascão já tinha atrapalhado quando me encontrou. Hum... Falando nele, quer jogar videogame? – ele me perguntou

– Se não for jogo de atirar no primeiro pixel da tela que se mover, acho que sim. – eu disse. Ele riu.

– Não é não. Fica tranqüila. – ele falou

– Mas só vão poder jogar enquanto meu marido não chegar. Então, vão logo. – tia Jú nos empurrou para a sala.

Cebola arrumou o videogame e colocou um jogo que eu já tinha jogado, para minha surpresa. Era Guitar Hero, e eu tinha na minha casa. Até jogava quando não tinha nada pra fazer. Ou seja, direto. Mas ele não tinha as guitarrinhas, e a gente jogou no controle. Mais isso não me impediu de ganhar dele várias vezes. Acho que ele ficou um pouco bravo. Eu ri. Tia Jú fez pipocas e ficamos até quase uma da manhã, a hora que o tio do Cebola chegava. Ele trabalhava a noite. Mas até essa hora, nós três já tínhamos conversado, jogado e rido bastante.

Era bom eu estar ali. Parecia que tudo o que tinha acontecido comigo não passava de um pesadelo horrível. Estar ali, brincando com eles, era como se eu estivesse me divertindo com a minha própria família. Foi bom esquecer o que tinha acontecido em casa; eu precisava esquecer, ao menos para melhorar um pouco meu humor.

Mas eu não podia esquecer dos meus problemas para sempre. Naná estaria preocupada comigo, mas ela sabia que teria que me dar um tempo para eu me acostumar com tudo. Meu verdadeiro pai já deveria estar a caminho daqui, e eu nunca tinha visto sequer uma foto dele. Minha mãe não estava mais aqui para me dizer que tudo ficaria bem. E eu ainda tinha aula amanhã!

Só que, enquanto eu estava ali, não queria pensar nisso. Queria só me divertir um pouco, em meio ao caos que minha vida se tornou em um só dia.

Notas finais

não maliciem, não vai acontecer nada ok? -n -t.