Um último Fio de Esperança
4 Capítulo 4 - Desabafo
Notas iniciais
Hoje não tenho nada a declarar e N
Fomos nos deitar já tarde da noite. Foi engraçada a tia Jú olhando pra ele desconfiada e falando ‘Posso confiar em você?’. Eu ri essa hora. Ele revirou os olhos e disse ‘Eu já tenho namorada, se foi isso que você quis dizer tia’.
Eu e ele tivemos que dividir o quarto de visitas. Eu fiquei na cama e ele dormiu em um colchão no canto do quarto. Fiquei com pena de roubar a cama dele, mas ele insistiu.
Por mais que esse restinho de dia tenha sido ótimo, eu não consegui dormir. Assim que me deitei, me senti só de novo, como se eu estivesse no meu quarto deserto. E, junto com as lembranças do meu quarto, vieram as da minha mãe... E a da morte dela. E os medos, as dúvidas, me tomaram de novo. Milhões de perguntas. Tantas e tão freqüentemente que eu já estava me acostumando com elas. E com as lágrimas. Eu nunca havia chorado tanto quanto chorei hoje. E, inconvenientemente, eu comecei a soluçar em meio ao choro. Sentei-me, escorei na cabeceira da cama e abracei meus joelhos, tentando fazer silêncio – afinal, o Cebola não precisava perder a noite como eu.
Para minha extrema falta de sorte, ele tinha o sono leve e começou a se mexer no seu colchão. Porcaria, porcaria, porcaria.
– Carmem, o que foi? – ele disse, se sentando e olhando pra mim. Eu não agüentei.
– Minha mãe morreu, o cara que eu sempre tive como pai na verdade é um aproveitador, meu pai verdadeiro chega em alguns dias para cuidar de mim e eu nunca vi sequer uma foto dele! Não tenho ninguém com quem desabafar e, para ajudar, ainda tem aquela droga de prova de geografia amanhã! – eu quase berrei. Ele ficou me encarando de olhos esbugalhados – Desculpe – eu disse, as lágrimas idiotas escorrendo pelo meu rosto.
– Não, tudo bem. Que barra. – ele olhou para o lado, não sei para quê.
– Você nem imagina – respondi.
– Levei um susto quando te vi lá na rua. Tipo, você tem noção da distância que você tá da sua casa?
– Hum... – pensei. Nunca havia estado aqui antes – acho que não.
– Imaginei. Posso fazer uma pergunta?
– Acho que sim. – respondi, confusa.
– Por que você saiu na chuva?
– Eu... Não sei... – e não sabia mesmo. – Acho que eu queria... Fugir. Minha casa estava uma confusão por causa da... Da... – as lágrimas escaparam de novo.
– Argh, que idiotice a minha. Eu devia ter ficado de boca fechada. – assenti com a cabeça e escondi o rosto nas mãos.
Ele ficou um tempo me olhando enquanto eu chorava como uma idiota. Depois, ele se levantou e se sentou ao meu lado.
– Posso te dar um abraço? – ele disse. Eu assenti de novo, e senti seus braços me envolverem, e encostei minha cabeça nos ombros dele, ainda com as mãos no rosto. Não demorou muito e ele me soltou.
– Você tem que dormir. Vamos ter que acordar mais cedo pra você passar na sua casa antes de ir para a escola.
– Eu sei. Obrigada. – eu disse, enxugando o rosto com a minha coberta.
– De nada. Boa noite. – ele se levantou e deitou-se no colchão.
– Boa noite – eu disse, baixo, e me deitei.
Embora estivesse exausta, ainda demorei um pouco para dormir. Ao menos não tive pesadelos.
Acordei cedo. Tia Júlia preparou panquecas para o café da manhã e estavam deliciosas. O tio do Cebola nos levou meia hora antes para o bairro do limoeiro, para que eu pudesse pegar meu material e trocar de roupa. Ele ficou sem fala diante da minha casa e eu ri.
Desci do carro – quase caí, por causa do meu pé. Entrei em casa em silêncio – pretendia que ninguém me visse – mas dei de cara com alguém que eu não esperava encontrar ali, sentado no sofá da sala principal.
– Nimbus? – eu disse, confusa.
– Você demorou pra chegar. Mas eu sabia que estava bem. – ele deu um sorrisinho.
– Que diabos você está fazendo aqui? – perguntei, irritada.
– Alguém me contratou como seu guarda costas dois dias atrás. – eu sabia que ele se referia a minha mãe.
– Que ótimo. Agora eu tenho uma babá. – disse, mal-humorada.
– Tenho certeza que esse alguém tinha boas intenções. – ele disse.
– Ok, eu sei. Desculpa, estou estressada. Tenho que trocar de roupa pra ir pra escola – eu disse, indo para o corredor.
– Eu preciso ir te buscar depois da escola? – ele disse. Eu podia ouvir a ironia.
– Se você quiser, vai. – gritei da porta do meu quarto.
Fui direto para o closet. Coloquei a blusa de uniforme, uma camisete lilás quadriculada por cima, uma saia franzida preta, um cinto branco acima do umbigo e um sapatinho tipo boneca preto. Peguei meu material e desci.
– Boa aula – disse Nimbus, ainda no sofá – e se você não chegar até as onze e quarenta, eu vou te procurar – ele completou, rindo.
– Vou evitar isso. Tchau!
Andei o mais rápido que o meu pé permitia. O Cebola precisou segurar a minha mão para eu entrar no carro.
Dentro do carro, refleti que enquanto estivesse com alguém, seria normal. Mas, se eu ficasse sozinha, ficaria mal e iria chorar. Então eu ia tentar ter sempre alguém junto comigo.
Chegamos em tempo recorde. Tentei prestar atenção a quem passava na rua para distrair minha mente. Vi alunos do Limoeiro High School, vi pessoas com uniforme de trabalho e vi corredores com seus cachorros. Nada terrivelmente interessante.
O carro parou bem em frente ao portão principal que estava escancarado. Depois que o Cebola desceu e se virou para me apoiar, pude ver que repararam no que estava acontecendo. Assim que saí do carro, vi a Mônica com uma expressão que misturava incredulidade e raiva. Fechada a porta do carro, o tio Carlos foi embora. Mônica se aproximou de nós.
– Deu uma carona para a Carmem hoje, Cê? – eu ouvi a ironia.
– Ela dormiu na casa da tia Jú – ele disse, inocente. Segurei a ponte do meu nariz, impressionada. Do modo que ele disse, iam pensar coisas erradas.
– Ah, é? Quer dizer que vocês estão ficando? – ela disse.
– É claro que não! – eu disse – Só fiquei na casa dele porque a tia dele insistiu e estava tarde para eu ir embora!
– E o que você estava fazendo na casa do meu namorado altas horas da madrugada, posso saber?
– Ela quase foi atacada por dois homens perto da casa da minha tia. Deu sorte que eu e o Cascão estávamos passando por perto na hora. – disse o Cebola.
– Ah, claro. Como se eu fosse acreditar nessa lorota toda! – a voz dela subiu de tom – Você não foi a minha casa ontem, mas agora eu sei por quê. Você estava na casa da sua tia com a Carmem sabe-se lá que horas e ela ainda dormiu lá! Você podia ter arrumado uma desculpa melhor, mas dizer que ela quase foi atacada? Faça-me o favor! Vai dizer o quê agora? Que a mãe dela morreu? Ou o pai? Deve ser por isso que ela saiu mais cedo do shopping. Para se encontrar com você. É claro. – ela falou. Nessa hora, duas lágrimas desceram dos meus olhos. Coloquei uma das mãos sobre a boca e corri para o banheiro feminino, não antes de ouvir o Cebola dizer:
– Parabéns, Mônica. Você conseguiu, como sempre, acabar com uma pessoa. Você não deve estar sabendo, mas a mãe dela morreu, ontem à tarde. E foi por isso que ela foi embora mais cedo. Ela só ficou na casa da minha tia porque fugiu de casa.
– Por que ela fugiria de casa? – ela disse, parecendo se acalmar.
– Se sua mãe morresse você ficaria em um lugar onde conversava e ria com ela? Acho que não. – ele respondeu, um pouco irônico. Continuaram conversando, mas eu já não podia mais ouvir.
Parei em uma das pias e lavei o rosto. Peguei um lanço dentro da minha bolsa e me sequei. Limpei o borrado do meu lápis de olho e retoquei. Eu sairia dali de cabeça erguida e não falaria sobre a morte da minha mãe com ninguém. Olhei em volta. Alguém entrou no banheiro.
– O que foi aquilo ali fora, fofa? Fiquei pink. – nem preciso dizer quem era, né.
– Não foi nada, Denise. – eu disse, sem olhar pra ela.
– O que o Cê disse lá fora... é verdade? – ela disse, meio sem jeito.
– É. – eu respondi.
– Ah, Carmem, que horror! Meus pêsames – ela disse, e me abraçou. Eu a apertei.
– Obrigada, Nise. – eu disse, e dei um sorrisinho.
– Agora, fofa, vamos calar a boca desse povo. Ninguém pode ficar falando da vida dos outros assim, que coisa feia. Espera – isso no seu olho é um borrado? QUE HORROR! Vamos arrumar isso. Você vai mostrar pra todo mundo que é forte e que não vai ficar se debulhando pelos cantos. Uma diva nunca cai do salto. Bola pra frente.
Eu sorri mais verdadeiramente. Denise vai ser sempre Denise.
Notas finais
Amei o cap. Principalmente a parte da Mô -NN. Espero que tenham gostado.
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