Ultraviolence
17 I Can Fly.
Notas iniciais
You saw me waiting, I was crazy
On fire, waiting to fly
I can fly
Nico permanecia em silêncio ao meu lado, seus olhos fixos nas ruas lotadas e asfaltadas de Manhattan. De vez em quando eu o espiava rapidamente, mas ele parecia impassível. Não demostrava nenhuma reação, apenas os cabelos negros ainda mais bagunçados e caídos enquanto os lábios eram comprimidos um pelo o outro.
Tenho certeza que se não houvesse um engarrafamento dessa proporção, Nico já estaria em uma velocidade bem excedente, então eu agradecia mentalmente pelo trânsito infernal de New York.
–Eu, sinceramente, nem sei o que dizer para você, Annabeth... –Começou Nico após algum tempo, passamos um Starbucks lotado e eu fechei os olhos. Malditas lembranças. –Sei que o que você fez é algo que, talvez não tenha sido pensando, mas fora necessário. Zeus Grace não dá ponto sem nó e ele, a todo custo, quer detonar Percy e além de usar o dossiê, está usando você. Diria para você pensar em onde está se metendo, mas você não sabe...
Olhei para a janela e suspirei.
–Nico, já está feito. Não há nada que se possa fazer. E além do mais, Percy não se preocupa comigo o suficiente, você estava lá... Ele simplesmente deu as costas e saiu. Fim.
O trânsito parou o carro outra vez e Nico xingou, buzinou e bufou.
–Annabeth, eu não sei como consigo gostar de você, garota... –Ele reclamou e eu arregalei. –Você realmente acha que se Perseu não se importasse ou gostasse de você estaria viva? Annabeth sua vida não é nada comparada a vida que ele e Sally tiveram e o que ele passou depois... Tudo o que ele enfrentou, transformou no homem que ele é. Sei que ele te enforcou, te humilhou e te prendeu em cárcere, mas isso é porque.... –Ele se calou. –Ele perdeu tudo, Annabeth... Ele construiu uma máfia com dois quilos de maconha e cem dólares, talvez Percy não seja um herói, mas para alguém que estava no fundo do poço e perdeu a praticamente todos que amava, ele se importa o suficiente com você.
Calei-me.
–É só que...
–Eu entendo seu ponto de vista, Annabeth, mas não posso fazer nada... Reclamar de como Perseu te trata não fará nada, tente ser melhor com ele, ele é homem e como todos os homens, não resiste a uma loira gostosa.
Encarei ele que riu.
–Com todo respeito, é claro.
–Quem Percy perdeu?
–Tudo, ele teve a vida muito difícil desde de criança. Sally engravidou de um turista inglês, e era um mera doceira que mal conseguia pagar as próprias contas, tentou abortar, mas desistiu. Criou a criança com dificuldade, sem pai e nenhum ajuda, mas era um garoto bom. Não conseguiu uma faculdade boa, e tudo começou a ruir, mas ele a conheceu. Rachel. Era uma garota que morava atrás da casa dele, era a menina mais linda do bairro. Se apaixonaram, casaram cedo e então, quando ele descobriu que ela estava grávida foi no mesmo período que ele foi demitido; não tinha como manter tudo e ele procurou durante um tempo melhorar a vida até que cedeu ao tráfico, era o único jeito. Eu não sei o enredo todo, mas Lyanna – é o nome que ele daria para a filha – nem chegou a nascer, Rachel a perdeu aos sete meses de gestação e a mulher de Percy morreu no parto. Ele perdeu tudo, e eu não sei como ele ainda consegue fingir que isso não o atinge. Porque, Annabeth, não deve existir dor no mundo pior do que perder um filho.
Assenti com o corpo contraído. Deuses! Quanto sofrimento, perder a mulher e a filha no mesmo dia é algo que deve ser destruidor.
Por fim, pude entender porque tamanha irritação quando Bianca falou de Lyanna.
–Então, não reclame se ele é assim com você... Ninguém é obrigado a te dar flores, Annie, mas se você cultivá-las irá ganhar.
***
Foi por volta das vinte horas que a campainha tocou.
Um homem grande e negro estava à minha espera na porta, era careca. Tinha olhos da cor de âmbar e mãos do tamanho de uma tampa de panela. Eu engoli em seco e suspirei esperando que ele falasse algo.
–Senhor Grace mandou vir buscar a senhorita. Está pronta? –Ele tinha uma voz terrível e medonha, parecia aqueles loucos de pedras que usavam ternos e afins.
Assenti e ele indicou para continuar, olhei para trás sentindo o frio na barriga e o medo tomar conta de mim em um grau absurdo. Piper piscou o olho para mim dando apoio, e eu suspirei. Sai do apartamento seguindo ele, estava com o celular em uma das mãos a pedido de Piper para fazer alguma ligação, caso quisesse. Sentia uma queimação no meu estômago e minha boca ficou seca, dei um suspiro e o gás carbono saiu rasgando pela minha garganta e eu fiquei enojada. Eu não queria transar com Zeus Grace. Não queria tocar no corpo dele e nem sequer ficar no mesmo cômodo que ele, eu não queria.
‘‘Mas, você se meteu nisso e agora vai aguentar calada como uma boa garota que será recompensada no final do dia.’’
Era minha consciência atentando em alguma tentativa vã de me acalmar. Descemos o elevador e fomos em direção a saída do prédio, o carro importado branco estava à disposição e o homem abriu a porta da direita na parte de trás para mim. Sorri agradecendo e ele posicionou-se no banco do motorista.
Nenhuma música foi ligada, o que apenas piorou minha tensão. Eu estava com frio na barriga e nesse momento, a roupa que Silena havia mandando parecia vulgar demais. Minha cabeça entrava em um processo de como me livrar disso, apesar de saber que era inútil, mas nesse momento acho que contaria até carneirinhos para poder acalmar meus nervos.
Abrir a porta e pular? Deve ter um sistema de trava elétrico. Só iria parecer uma estupida.
Enforcar o cara e fugir para bem longe tanto de Percy como de Zeus? Pior ainda, dois malas me perseguido.
Contar carneirinhos? É uma boa, vai que eu caia no sono no meio da foda.
Apesar de o trânsito parecer infernal, eu não estava ouvindo, afinal ouvir buzinas, xingamentos e raspadas de pneus no asfalto não estavam em minhas metas noturnas.
Esfreguei minhas palmas uma na outra e sucumbi ao desespero e fechei meus olhos com um exagero de força.
–Está tudo bem, senhorita? –Perguntou o homem e eu sorriu, permanecendo de olhos fechados.
–Sim. Quanto mais cedo chegarmos, mas rápido virei embora.
***
O prédio era lindo e jamais irei negar isso. Havia toda uma arquitetura deslumbrante em volta; um branco límpido pintava as paredes, as colunas eram bem trabalhas e polidas sem nenhuma textura e o piso de mármore era tão lustroso que acho que dá para ver minha calcinha, uma enorme porta de vidro estava instalada na frente.
Entrei e fui até o balcão esculpido com formas confusas, entretanto bem trabalhada. Uma das atendentes levantou o olhar para mim e sorriu, seus cabelos lisos e loiros necessitavam que ela retocasse a raiz o mais rápido possível.
–Não temos mais os quartos barateados, mocinha. Sinto muito. –Ela falou sorrindo, os dentes estavam com aqueles ferros em uma cor singela que – como se fosse possível – a deixava ainda mais feia.
–Eu tenho um encontro com Zeus Grace, lá na cobertura. Saiba que é muito feio julgar as pessoas... – Esgueirei-me para a frente e achei o crachá dela. Tiffany. Nome de puta. Céus. –Tiffany, aproveite o salário de baixa renda e hora extras e retoque a raiz colega.
A mulher olhou para mim com uma cara de nojo e eu dei meu melhor sorriso cínico. Ela pegou o telefone e mexeu no computador lentamente, como se fizesse para me provocar – o que eu tinha certeza -, ela sorriu para mim com aqueles ferros na boca.
–Pode subir, garota. –Ela entregou um cartão para o 30º andar.
Afastei-me do balcão, rebolando e tendo o barulho dos saltos dos meus sapatos soando pelo salão muito bem arrumado e repleto de sofá e pessoas perambulando. Um cheiro agradável de camélia percorriam toda a sala e era tão agradável que me fez sorrir enquanto buscava o local dos elevadores, onde apertei o botão que logo teve sua luz iluminada e sinalizando que estava chegando.
Uma música ressoava no fim e eu senti as pernas tremeram de nervosismos e suspirei várias e várias vezes. Ajeitei minha saia e tentei afastar o pensamento de estar fazendo sexo com um cara da idade do meu avô.
O elevador abriu e eu agradeci mentalmente, pois sabia que logo minhas pernas cederiam. Entrei, não havia ninguém e continuei agradecendo. Apertei o botão do trigésimo andar.
Uns quatro minutos depois, as portas se abriram e eu dei de cara com uma porta na minha frente. A única porta do andar, era branca e tinha o número 1500 em uma cor prata. Contei até cinquenta para criar coragem e abrir a porta.
1, 2, 3, 4, 5, eu preciso ligar para minha mãe e mandar mais dinheiro para ela, 10, 11, 12, 13, 14, 15, talvez eu pergunte sobre meu pai, 20, 21, 22, 23, 24, 25, vou perguntar a Percy sobre Bianca e o que ele tem com ela, 35, 36, 37, 38, 39, 40, se tudo estiver bem, talvez eu possa voltar a morar na Quinta Coorte, 45, 46, 47 e ter uma boa relação com Percy, 50.
Na hora que eu bati na porta, um ‘‘Entre’’ sussurrado chegou aos meus ouvidos e eu abri a porta com a maçaneta e dei de cara com Zeus.
O tão poderoso Zeus Grace, idolatrado pela Elite de Manhattan e pelo sistema judiciário. Contudo, tão podre e corrupto quando um mafioso de quinta categoria.
Ele sorriu para mim, usava um terno perfeito à risca, nenhum amassado e a gravata azul estava ao lado da poltrona em que ele estava sentado. Fechei a porta e suspirei, fechando os olhos por alguns segundos. O ar era abafado devido a corrente do ar condicionado que estava presa pelo espaço, não havia nenhum barulho externo e nem interno que pudesse nos incomodar. Uma garrafa de uísque estava ao lado de Zeus e um copo na mão dele, seco.
–Annabeth Chase... Que sobrenome poderoso o seu, garota. –Ele disse, anunciando minha chegada. –Tantas pessoas dariam a vida pelo seu sobrenome, inclusive seu amante e você nem sabe o que ele significa. Por mais que, espero que isso tenha acontecido, alguém tenha colocado a culpa nisso em você, você é a ingênua nessa história, cara Annabeth. Uma bonequinha feita de saco de pancada para Perseu e uma boneca que ainda não foi usada pelo seu nada adorável pai.
Pai?
–Eu nem sequer sei sobre meu pai, nem sequer o conheci.
–Poucos o conhecem, senhorita. Até mesmo eu, nunca vi o rosto dele, dizem que é tão belo quanto o de um deus e devo dizer que sua beleza não foi herdada de sua falsa religiosa mãe.
–O senhor sabe tanto sobre minha vida, até mais do que eu. –Presumi.
–Todos estão bem inteirados na sua familiaridade, Annabeth. Surpreende a mim que Perseu a deixe tão ‘‘livre’’.
Livre, o caralho.
–Você no momento, é a pessoa mais influente do submundo. Quem tiver você nas mãos terá os Shax sobre os seus pés.
Frederick. Frederick Chase. Meu pai. Um grande plano. Chase. Annabeth Chase. Um plano glorioso. Inquisidor. Pessoa influente. Shax.
–Eu sou filha do Inquisidor dos Shax? –Eu perguntei com a voz áspera e ao mesmo tempo, trêmula.
–Muito bem, Annabeth. Você é uma garota bem esperta e é por isso que eu não vou transar com você, não quero meu pênis onde Perseu enfia o dele. Além do mais, meus assuntos com você são um nível menos propício a sexo e sim, a dinheiro e poder.
Ele não quer fazer sexo comigo. Ele não quer fazer sexo comigo. Ele não quer fazer sexo comigo.
Alguém lá em cima realmente se importa comigo.
Suspirei aliviada e sorri para Zeus que como resposta ofereceu um copo de Bourbon para mim, meu sorriso se enlanguesceu.
–Dinheiro e Poder? Isso tem a ver com meu pai? –Perguntei e ele indicou a cama para que eu sentasse, e obedeci.
–Tudo na sua vida se move por causa de seu pai. O mundo se move de acordo como Frederick Chase dá as cartas, e todos estão cansados disso, mas ninguém pode bater de frente com ele, exceto você. Sabe porque? –Ele tinha um sorriso carregado de malicia, os cabelos muito bem penteados e a pele tão limpa quanto a de um bebê, ele era realmente bonito.
Mas, não tanto quanto Percy e Nico.
–Porque eu sou filha dele. –Respondi e ele fez um gesto com a cabeça assentindo.
–Agora... Eu odeio Perseu Jackson, odeio o modo como ele leva a vida para obter o que precisa, mas eu odeio ainda mais seu pai. É um ódio muito grande, caso queira saber. Eu proponho uma aliança, não com Percy ou com a bosta da máfia dele, mas com você.
Ele parou e me observou, levantou da poltrona bege e andou até a janela, abrindo-a e uma rajada de vento excessivamente forte nos atingiu, meus cabelos foram jogados para trás com uma profusão enorme enquanto os dele nem sequer se moveram.
Ele ajeitou um anel no dedo e se virou para mim.
–Você vai amar Perseu Jackson – isso se já não amar -, vai casar com ele e ser feliz. Vai se preocupar todas as noites se ele irá chegar vivo em casa ou se eu não terei mais propriedade dele e o prenderei. Você comandará a Elite de NY, fará festas e encantará a todos, amará ele e isso atacará seu pai, afinal ele fez de tudo para que você e seu irmão não se envolvessem e você acaba casado com o cão sardento do Jackson.
–Você quer que eu ame Percy? –Perguntei e ele riu.
–É um fato, Annabeth. E isso já está acontecendo, você está querendo provar para ele que é merecedora de tudo... Que pode ser melhor do que é. Voce está nos estágios iniciais do amor e logo Perseu responderá ao sentimento.
–Você está enganando a mim e a você, ele nunca irá me amar. –Retruquei.
–Você acha que ele estava naquela festa onde se encontraram há meses atrás à toa? Você acha que ele te fodeu à toa? De início, você seria sequestrada, mas quando ele bateu o olho em você, convidou-a para ser esposa dele.
Zeus sabia de tudo, era como se fosse impossível negar ou esconder algo dele.
–E o que isso tem a ver com você? –Perguntei.
–Você ama Percy, Percy ama você, eu destruo Frederick e todos saem felizes. Enfim, quando você sair daqui dirá a Percy que transamos... –Ele fez cara de nojo e tossiu. –E que você nunca mais vai querer repetir a experiência. Está entendendo?
–E o que acontece se por acaso eu não fizer o que você quer?
–Eu vou te deportar para o lugar onde nasceu, voltará para Inglaterra e irá ficar com os Shax e dirá adeus a tudo que fez aqui. É fácil, Annabeth, só precisa amar Perseu e se for tão difícil assim, finja, mas tenha uma relação firme com ele, se torne tudo o que ele quer e no fim, todos estarão vivos. Menos seu pai.
Bufei.
Sou Annabeth Chase, minha mãe é uma religiosa psicótica cheia de pecados, meu irmão é um soberbo. Meu pai me abandonou e ainda é um mafioso, o cara que me fode é outro mafioso, o cara que é simpático comigo é outro mafioso e não tenho mais nada além de um celular caro e quinhentos dólares na bolsa.
Não tenho nada.
Não sou nada.
Mas posso ser.
–Feito. –Sussurrei e eu sorriu.
–Não achei que você seria tão estúpida em negar minha oferta. Agora... –Ele veio até mim e acariciou meu cabelo. –Você precisa de um dia no salão, querida. Roupas novas e um cabelo com mais brilho. –Ele pegou meu cabelo e sorriu. –Se arrume mais, querida. Agora tenho que ir, já passa de meia noite, pode dormir aqui, meu motorista estará na entrada a seis da manhã. Tenha uma boa noite, Annabeth Chase... Futura Jackson.
Sorri e ele pegou a gravata, saiu do quarto em seguida.
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