Ultraviolence
20 Cola
Notas iniciais
''Come on baby, let's ride
We can escape to the great sunshine''
O aeroporto da Califórnia estava lotado.
Dezenas de pessoas estavam dispostas nas plataformas carregando malas de todos os tamanhos, algumas crianças choravam ou conversavam em um tom de voz exagerado enquanto adultos falavam uns com os outros ou se mantinham entretidos ao celular. Carrinhos de carregamento eram motorizados para irem e voltarem afim de ajudar as pessoas com as malas e eu e Perseu estávamos ali aguardando nossas malas. O voo havia sido um sucesso e tudo estava dando certo.
Mas eu tinha a impressão certa que esse ‘‘Tudo certo’’ iria acabar quando chegássemos a casa de minha mãe. Eu até estranhei o fato de Perseu insistir em querer conhecer minha mãe, se ele já sabia de tudo sobre minha família por qual motivo ele se interessaria em conhecer a fanática Athena Parthenos? Será que tem algo a ver com meu pai?
Não sei.
Entramos no carro um pouco antes do meio dia, um homem dirigia o carro e não deu nenhuma palavra durante o caminho. San Francisco permanecia a mesma de sempre, alguns prédios se diferenciavam, mas eram as mesmas coisas. Mesmas ruas, mesmo transito, mesmo mar. O motorista deveria saber exatamente o enderenço da minha casa, passou pelo centro lotado direto, sem pestanejar. Diversos carros lotavam as avenidas, mulheres e homens percorriam as calçadas e eu me lembrei da minha infância e adolescência que eu passei ali. Largada em meio as ruas, vendo vitrines, tomando banho no mar...
–Está lembrando-se de algo, Annie? –Perguntou Perseu, tocando minha perna.
–Minha adolescência, eu aprendi a nadar me afogando em uma lagoa que tinha perto daqui, acho que era uns três quilômetros de distância da cidade, minha mãe quase me matou novamente quando cheguei em casa. Teve outra vez que eu recusei ir para o culto e ela me trancou no quarto, mas eu fugi, quebrando o vidro da janela, naquele dia eu apanhei. Minhas costas nunca mais foram as mesmas.
Perseu riu, era um som sombrio e ao mesmo tempo melódico.
–Voce era o cãozinho com vagina, não? –Ele disse rindo, passando os braços pelo meu pescoço. Fazendo com que eu encostasse minha cabeça nos ombros dele.
–Toda família tem uma ovelha negra, meu bem... Com os Pathernos não podia ser diferente.
–Eu sempre fui um bom filho para Sally e até meus dezessete era o filho perfeito.
Eu encontrei a deixa para atentar o demônio que me perseguia desde o dia em que encontrei com Luke e que fora ainda mais atiçado com as lembranças da conversa com Zeus. Sorri baixo e enlacei nossas mãos enquanto ainda mantinha nossos corpos alinhados, suspirei, beijando seus lábios. Era agora.
–Perseu, quem é Rachel? –Mandei na lata. Senti o peito dele parar por alguns instantes, não levantei minha cabeça e continuei brincando com nossos dedos unidos como se minha pergunta não fosse nada.
–Annabeth, não é a hora certa. –Ele respondeu não fora rude e nem bruto. Era uma voz calma e nítida, como se ele não quisesse falar sobre aquilo, como se aquilo o incomodasse o suficiente para não querer comentar. –Não vou mentir para você, mas não vou contar sobre Rachel agora. É uma história longa.
Assenti e dei um espaço para ele.
–Tudo bem, Perseu. Conte-me quando quiser, estarei aqui.
Ele sorriu e beijou minha testa.
***
O Sol da Califórnia após o meio dia era um estágio para o inferno. Todos aqueles raios solares penetravam na minha pele causando uma ardência sem fim e eu mal tinha saído do carro e já estava assando. O maldito verão se instalara na costa da Califórnia e eu sorri. Não há uma californiana que se preze que não goste do sol.
Perseu parecia incomodado com o calor, ajustava as blusa social de mangas e o colarinho. Mas também, sua roupa aparenta ser para uma festa do que para conhecer a sogra. Sogra. Esse nome causa um arrepio sem fim na minha coluna, causando uma desestabilização rápida. Luke jamais conheceu minha mãe e eu nunca havia levado um cara para conhecê-la, afinal eu nunca havia tido um namorado que durasse mais de duas semanas.
Eu não sei como Athena irá reagir com a presença de Perseu na sua casa durante um dia, eu não sei como ela irá se sair. Porque Athena é instável demais para conviver em sociedade e Perseu Jackson é um cão maldito pronto para morder qualquer coisa que possa ser ameaçadora... Ou não. É um cão raivoso que ataca tudo que ver pela frente.
Sinto os braços dele enlaçarem minha cintura e dou um sorriso para ele, passando qualquer tipo de confiança com aquele gesto. Sorrindo de um jeito meigo e apaixonado que os homens gostam, daqueles que digam que eles sempre estão no poder.
Olhei para a rua. Dezenas de casas estavam dispostas em fileiras e do mesmo modo. A rua 08 era a mesmice de sempre e tenho certeza que mesmo que a Califórnia sofra um terremoto de 11 gruas na escala Richter e se separe do continente, essa rua continuará a mesma de sempre. A casa de minha adorável mãe era duplex, com um jardim na frente e atrás. Tinha aquelas cercas brancas bonitas e alinhadas, com um jardim bem podado com grama verdinha na frente e algumas flores. Poucas. Sentir toda uma nostalgia magica percorrer meu corpo como uma onda furiosa invade o barco, senti a mão de Perseu apertar ainda mais minha cintura em um gesto quase de ‘’ Estou aqui.’’. Ajeitei minha blusa branca e coloquei os olhos no topo da minha cabeça. Respirei tão fundo que senti o oxigênio batalhar na minha traqueia.
–Vamos embora. Juro a você que faço anal, mas só precisamos ir embora. –Pedi e ele sorriu torto, elevando o lado direito dos lábios, formando um sorriso de arregaçar vaginas.
–Tarde demais, querida. –Ele falou. Abriu a pequena porta e pisou na trilha de cimento e eu quis chorar.
***
Athena estava tão estática quando uma estátua da deusa da qual ela herdou o nome. Seus imensos olhos cinzas, assim como os meus, pareciam querer saltar das órbitas e voar pelos ares. As mãos dela apertavam o avental com tanta força que o tecido parecia que iria ceder a qualquer instante. Sorrio fracamente tentando atrair a atenção dela para mim, mas é inútil.
–Mamãe... –Chamo com a voz delicada, um tom que raramente uso com ela, mas que aparece-me adequado nesse momento.
Ela parece que está engolindo uma cabra, vejo o bolo se formar na garganta e ela engolir, antes de pronunciar algo.
–O que ele está fazendo aqui? Na minha casa? –Ela esbraveja na cara de Perseu, sem sequer nos convidar para entrar, Perseu parece indiferente a reação de Athena, como se aquilo sequer o atingisse.
–Mamãe... Estava com tantas saudades. –Iniciou a conversa, afastando ela e entrando na casa, mas trazendo Percy consigo.
–Tire ele de minha casa, Annabeth! Como ousa, menina, trazer um assassino para minha casa?
–Mãe, ele não é isso! Voce está enganada, é meu Percy. –Respondo aos gritos dela.
–Não a estresse, Annie. –Sussurra Perseu ao meu lado.
–Eu tentei durante anos proteger você e Malcolm de tudo isso e o que você me faz? Traz o demônio para nossa casa! — Athena gritara. Sua boca era fina como um fio e lábios rosados que beiravam o ódio. Seus olhos estavam assumindo um tom negro e uma fúria capaz de amaldiçoar toda a Califórnia se esgueirou como o vento e se ajoelhou perante Perseu, que se mantinha intacto.
–Por favor... –Ela suplicou, lágrimas irrompendo seus olhos. –Deixe minha filha em paz, ela não tem nada em comum com você e seu mundo. Ela é só mais uma adolescente sem juízo se metendo com coisas ruins, nossa família não se mete mais com isso, senhor. Por favor, deixe-nos em paz.
Ela chorava e colocava as mãos no rosto, como quem implora pela vida. Nunca tinha visto Athena assim, tão frágil e tão humana, nunca tinha visto ela ser tão mãe comigo.
–Eu não estou fazendo nada com vocês, Athena. –Respondeu Perseu, sentando em uma das cadeiras que estavam postas próximo ao corredor. –Eu acabei de chegar, não estou colocando um fuzil na cabeça de alguém.
–Eu conheço vocês, conheço gente da sua laia... Vocês são amaldiçoados por tudo o que tocam. Vocês destroem tudo o que há de humano nos seres humanos, são bárbaros imundos que roubam os pertences e violam as mulheres. Vocês são o mal no qual eu evito durante anos. –Ela fazia gesto quando falava vocês como se olhasse para o redor em busca de alguém que ela não desejava ver.
–Vocês quem mãe? Perseu é o único por aqui.
–Único? Ele será o primeiro a chegar aqui, o primeiro. E depois, virá... Ele chegará e descontará toda a fúria dele em mim por ter deixado você se meter com ele. Eu fiz tudo por você, Annabeth. Te criei do mesmo modo que criei Malcolm e ele é um menino tão bom e vai casar com uma garota maravilhosa e você traz a minha casa um criminoso. Ele irá me matar e apedrejar como quiseram fazer com Madalena. Mas as forças do bem irá me impedir. Deus é bom, senhor Jackson, e Ele fará você pagar por cada gota de sangue humano que derramaste. Deus punirá a todos vocês...
–Mãe, se acalme, por favor...
–Saia daqui, Annabeth!! Voce fez suas escolhas! Voce se meteu no Inferno e agora queimará pelos seus atos. Voce se corrompeu pelo mal e eu não te quero mais como filha. Eu não quero ser punida por ele pelos seus erros, Annabeth. Frederick irá me matar... Frederick irá me matar... Oh meu Deus, tem piedade de minha alma e do mundo inteiro e não deixe que malditos como ele, tomem posse de tudo!! –Ela gritava já de pé, gritava pela casa e sua voz histérica se espalhava. -Saia daqui Annabeth e nunca mais volte aqui enquanto estiver ao lado desse louco, psicopata, assassino.
Perseu riu.
–Poupe-nos dos seus discursos, Athena. Annabeth e eu já estamos de saída, não é meu bem? –Ele tocou meu rosto, fazendo-me sentar em seu colo. Minha mãe ofegou e gritou, chorou aos prantos, murmurando que ele iria matá-la. –Se Frederick vier, diga a ele que o jogo começou e eu não irei parar até que ele esteja morto. De adeus para sua mãe, Annabeth... Essa é provavelmente a última vez que você a verá.
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