Ultraviolence
23 All You Need.
Notas iniciais
Just let go
Don't say no, dear
Doutora Pierce deu-me exatamente quatro horas para pensar, em um silencio incrivelmente estranho, e definitivamente eu nunca pensei tanto na minha vida. Dizem que sua vida passa por diante dos seus olhos quando você está à beira da morte, mas agora eu acho que quando você sofre um dilema que pode mudar a sua vida e a dos outros ao seu redor, esse filme passa e como ver todos os seus erros, brigas, dores, choros. E como se isso não fosse tão suficiente, no final de tudo que é sempre o pior momento eis que surge um grande letreiro.
VOCÊ AINDA VAI CONTINUAR ASSIM?
Eu não sei.
Eu juro que eu não sei.
Em algum dado momento, Nico entrou no meu quarto, carregando um enorme copo de café que me embriaga pelo cheiro forte e doce. Apesar de todo o momento anterior que passamos juntos, ele tinha um sorriso nos lábios e naquele momento, ele – dentre todas as pessoas do mundo – conseguiu me passar uma segurança incrível.
Ele sentou ao meu lado e entregou o café para mim. Não falou logo de cara, esperou que eu tomasse uns dois goles da bebida para então, abrir a boca e despejar palavras.
–Se você quiser abortar, eu serei o primeiro a te apoiar. Se você quiser ter esse bebe, eu também te apoiarei nisso e não me importo com a opinião de Perseu. Eu te apoio, Annabeth, independente do que essa criança nasça... Mesmo se ela nascer com dois chifres, orelhas pontudas ou rabo de peixe. Eu estou disposto a te ajudar. –Ele diz e sinto meu coração acelerar.
–Nicolas... Como eu irei criar esse filho com Percy como o pai? Criar esse filho em um quarto em cima de quartos de torturas? Para que ele vá a escola e seja motivo de chacota dos amiguinhos dele? Ou para que os amiguinhos dele tenham medo dele por causa do pai? –Questiono, sem tomar folego, o que ocasiona em uma tosse chata e barulhenta.
Nico me encara como se minha pergunta fosse a coisa mais estupida do mundo. Posso ver a escuridão profunda em seus olhos pretos brilhosos, posso ver a gotinha de suor próxima a seus cabelos lisos e negros. Posso ver cada traço amenizado de seu rosto tão familiar para mim...
–Silena cria uma filha sem pai, e você sabe quem matou Charles... Foi Silena que entregou o próprio marido a morte, foi ela quem descobriu e ela o matou. Ela matou o pai da própria filha, imagine como não deve ser a cabeça desse ser. Sally criou Percy sem pai e sem nenhum tipo de ajuda financeira. E elas não são mães ruins. Silena não é uma mãe ruim. Sally não é uma mãe ruim... E você, Annabeth, apesar de ser espontaneamente sem confiança e extremamente intensa, não será uma mãe ruim.
–E você acha que Perseu vai querer essa criança? –Pergunto, juntando meus dedos assim como eu fazia quando era uma menininha dos cabelos longos e óculos grandes. Nico sorri para mim, vejo seu sorriso repleto de consolo e sem nenhuma confiança.
–Eu não sei da metade do que se passa na cabeça de Perseu... Eu não sei como funciona nada daquele homem, aparentemente tudo o que eu falo ele faz o contrário. Mas, Annie, eu conheço Perseu, eu sei a essência dele e eu sei, que ele não poderá te proibir de ter um filho mesmo que ele não queira. Ele não é monstruoso a esse ponto. –Ele argumenta, sorrio afetada com seu discurso. Mas sinto o aperto em meu peito.
–Eu não sei ser mãe, Nico... –Confesso.
–Nem eu, Chase. –Ele termina a conversa com uma risada e toma o copo de café das minhas mãos. Beija o topo da minha cabeça, e sai deixando-me totalmente absorta em meus pensamentos inertes e complexos.
''''
A primeira imagem que eu vejo assim que acordo é a de Perseu. Apesar de sua aparência abatida, ele está idêntico a antes. Seus olhos estão fechados e sua cabeça reclinada como se ele estivesse tirando alguns minutos para sossego. Seus lábios são tão finos e delicados que parecem estar crispados, mas estão apenas pressionados levemente. Seus cabelos guardam vestígios de um banho recente e suas bochechas estão rosadas.
Ele parece um homem comum e nesse momento, eu queria que ele fosse um homem comum. Um homem normal, com um trabalho normal, casa normal, família normal... Um homem que sorrisse e me abraçasse quando eu dissesse que guardava um filho dele dentro de mim, que beijasse meus lábios e compartilhasse a felicidade comigo e principalmente, que dividisse os fardos que pesa toneladas das minhas costas.
Mas ele não é um homem normal. Ele não tem uma vida normal, ele não tem uma casa normal e eu sinto dentro do meu coração que ele não irá reagir tão bem a notícia da gravidez. Eu sinto a dor antecipada de imaginar as palavras duras que serão proferidas a mim por ele, por não ter me precavido o suficiente para evitar uma tragédia como aquele.
–Voce está me encarando há sete minutos, Annabeth... –Ele fala cortando minha linha de pensamentos.
–Não queria estragar sua vibe, Pers. Voce falou com a minha médica? –Pergunto querendo saber se ele já tinha conhecimento sobre algo.
–Não, mas Nico pediu que eu viesse para cá, e que você desejava falar comigo. –Ele diz, senta no sofá corretamente e cruza as pernas.
–Lembra, que a algumas semanas atrás você levou-me aquele motel na Quinta Avenida? Onde você alongou uma noite para quatro? –Pergunto. Havíamos ido para um motel BDSM em uma das avenidas principais. Perseu não havia ultrapassado dos limites durante o sexo, o máximo que chegou foi a amarrar minhas mãos... E pernas. E a boca também. –Eu não me protegi com as pílulas e nem você usou camisinha, Pers.
Eu parei no instante em que ele se levantou. Foi um movimento tão brusco que até afastou o sofá por alguns centímetros, suspirei e enterrei meu rosto nas minhas mãos. Ele havia matado a charada e assim como eu previra, não havia gostado tanto assim. Ele passou as mãos grandes nos cabelos e suspirou. Encostou a cabeça na parede branca e ficou assim...
–Quantas semanas, Annabeth? –Ele fala continuando de costas para mim.
Eu hesitei por alguns instantes, então as lágrimas irromperam novamente meus olhos e no meio de um grunhido digo:
–Três. Então, Pers.. O que nós vamos fazer?
–Nós? –Ele questiona. –Isso não vai depender de mim, Annabeth Chase. Voce conseguiu desafiar mafiosos de todo o México e está me perguntando o que vamos fazer? Eu sei o que eu quero, e você também sabe o que eu quero. Mas as suas lágrimas, a sua voz te entrega... Voce quer essa criança, você quer. Eu sou conhecido por fazer as coisas do meu jeito, Annabeth. Mas eu não irei te obrigar a isso. Se você quiser, aguente as consequências. –Ele responde olhando para mim. –Iremos embora daqui a meia hora, odeio a língua espanhola. Odeio o México. –Ele sai do quarto em seguida.
Percy não quer o bebe, e isso está claro. Mas eu não tenho nada, nem família, nem lar, nem dinheiro e nem estudo. Não tenho nada que seja meu. A não ser uma curiosidade imensa para conhecer o pai que me abandonou. Eu posso ter um filho, posso cuidar dele, e se Perseu não quiser, também posso me distanciar dele aos poucos e começar uma nova vida.
Eu posso tanta coisa...
’’’’
A neve já começou a cair, apesar de faltar ainda um pouco mais de um mês para o Natal. Minha gravidez continua, já estou indo para o terceiro mês de gestação e tive que encarar os olhares reprovadores de boa parte dos integrantes da Quinta Coorte. Nico, Piper e Sally são os únicos que continuam ao meu lado apesar dos pesares. Na verdade, a mãe de Percy parece até mesmo empolgada com a chegada do primeiro neto. Suas visitas diárias sempre vem acompanhadas com doces dos mais variados tipos e eu não consigo negar.
Os enjoos são muito forte e os vômitos são tão frequente quanto a respiração, o sono que toma conta de mim é aumentado por trinta na tentativa de fingir que não vejo as visitas porque estou dormindo. Mas não vejo as visitas porque elas não vem.
Foi Nico quem deu o primeiro presente do bebe. Um sapatinho de crochê branco com algumas fitas, veio dentro de uma caixinha transparente linda. Eu não nego a emoção que senti quando vi a fofura que exalava do presente.
–Vamos lá, nada de choro, Chase. –Ele disse sorrindo e eu agradeci, guardando em uma gaveta do guarda roupa.
–Aonde Perseu está? Faz dias que não o vejo. –Pergunto, Percy se mostrou uma outra pessoa, eu jurava que ele já estava realmente gostando de mim e tudo mais e quando veio a bomba da gravidez, ele se distanciou. Não me procura mais, nem me convida para os jantares que já estavam se tornando habito e nem me chama para sua cama... Ignora-me totalmente.
–Foi a Boston. Deve voltar logo. –Ele disse enquanto roubava um doce azul delicioso que Sally havia trazido.
Mas ele não voltou logo, Perseu só voltou depois do ano novo e eu fiquei só com Nico e Piper. Sally também fora para Boston, Silena e Rebekah haviam sumido pelo mundo e a chata da Clarisse e seu marido bundão havia ido para bem longe de mim, não que eu tenha reclamado.
Quando o Natal chegou, apenas nós três restávamos na Quinta Coorte e eu acho que Nico só ficou por mim, afinal seria humilhante demais ficar só com Piper. Não foi o melhor natal da minha vida, nem o mais especial. Não trocamos presentes, apenas comemos em silencio e fomos dormir antes da meia noite. Quer dizer, eu subi para o quarto antes da meia noite, mas eu não conseguir dormir já que eu chorava tanto de modo tão descomunal, tão frágil que, na verdade, naquela noite ninguém dormiu.
Meu bebe ganhou a primeira roupinha no fim do dia de Natal e foi dada por Piper, a quem eu havia decidido que seria a madrinha do meu bebe e Nico, o padrinho. Era branco, uma roupinha simples, mas perto da redoma que tinha formado em torno de mim, onde todos estavam se afastando aquilo era incrivelmente especial.
Três dias depois do Natal, Nico e Percy brigaram pelo telefone e eu acho que foi por minha culpa, sinto-me mal por causar tamanho transtorno a eles, mas eu não consigo ver nenhuma saída para meu problema. E nem Nico...
Quando Janeiro chegou e trouxe Perseu junto, aproveitou para botar um pouco de bom humor na vida dele. Ele voltou sorrindo e até mesmo com uma simpatia incrível comigo. Eu estava deitada lendo quando ele entrou no meu quarto e como é de seu habito, sem bater na porta. Ele trazia uma pequena caixa e parecia um pouco nervoso.
Ele fico em pé por alguns instantes, até que eu pude perceber que ele queria ser convidado a sentar ao meu lado, o que logo fiz. Afastei um pouco meu corpo, reclinando ele para a cabeceira. Havia vomitando bastante durante a madrugada e tinha decidido passar o dia na cama.
–Eu sei que eu fui um pau no cu durante essas semanas, mas eu preciso que você me entenda. Eu não sou nenhum pouco familiar, não tenho hábitos de família, não piso em uma igreja desde o velório de Rachel, não seguro crianças que não seja Rebekah... Eu não sei ser pai, Annabeth. Eu nunca tive um pai presente na minha infância, eu só sei destruir coisas, roubar pessoas, destruir inimigos e vender drogas.
–Eu não sei ser mãe, Pers. E mesmo assim estou aqui, ninguém nasce sabendo... É caindo que se aprende a andar, você devia saber.
Ele ficou alguns minutos em silencio encarando a caixa e eu estava muito curiosa para saber o que tinha na caixa, extremamente curiosa na verdade.
–Eu fui a Boston, ver meu pai, ele é um homem complicado, mas tem bons conselhos... Eu fui conversar com ele sobre isso, porque eu não quero ter um filho e odiá-lo, eu não quero ser um monstro a esse ponto, Annabeth. Então, eu comprei algo. Para o bebe.
Sorri satisfeita e estendi as mãos para que ele me desse a caixa branca.
Abri a caixa com cuidado, desfazendo o laço principal e sentido a textura em meus dedos. Era um barco. Um barco do tamanho da minha mão, tinha detalhes perfeitos e até uma tripulação de ursinhos marrons bonitinhos.
–É lindo, Percy, mas quem te disse que é um menino? –Pergunto rindo e sentando mais perto dele.
–Intuição masculina, Ann. Algo me diz que será moreno dos olhos verdes... Voce acha que é uma menina?
–Não importa, quero que venha com saúde.
–Eu quero escolher o sexo, se for menina, nó vendemos e trocamos por um garoto. –Ele falou sério e eu fiz uma cara de desdém.
Passei a perna direita para o lado ao mesmo tempo em que inclinava me corpo, sentei-me no colo dele e deixando o navio de brinquedo de lado. Sinto suas mãos ao redor do meu corpo e suspiro quando meus lábios encontram a curva de seu pescoço. Percebo que ele já está buscando maneiras de tirar minha blusa e balanço a cabeça.
–Abrace-me, só me abrace.
Ele parece desnorteado com meu pedido, sempre que fazíamos qualquer gesto de afeto mútuo, acabávamos rolando na cama um com o outro, mas não me sinto bem o suficiente para começar uma transa.
Ele afasta os meus cabelos e percebo que ele tenta ser carinhoso comigo, e aceito seus gestos desengonçados. Seus toques são leves, buscando uma delicadeza em meu corpo. Mas, ele não toca em minha barriga. Ele não tocou em minha barriga diretamente, por causa do bebe, até os cinco meses.
Minhas consultas era no New York Hospital, era próximo ao centro da cidade e minhas companhias eram sempre Piper. Apesar de Percy ter se aproximado de mim durante os últimos meses, ele não se ofereceu para ir a consulta em nenhum momento ou para comprar o enxoval do bebe. Minha medica obstetra chamava-se Addison Sherpard, tinha cabelos ruivos e rosto fino, era super engraçada e sem um pingo de pudor.
As primeira consultas que foi no período de três meses foram boas, e ainda não era possível saber o sexo do meu bebe, e isso era algo que eu estava extremamente curiosa para saber isso. Um fato engraçado era que Addison acreditava que eu e Piper eramos um casal e isso rendeu boas risadas e uma serie de pedido de desculpas cheio de gargalhadas.
Infelizmente as risadas acabaram quando fui na consulta do mês de Janeiro, já tinha meus cinco meses de gestação e dessa vez, por motivo de doença, Piper não pode ir e Nico me acompanhou. Eu estava tão empolgada que passei o trajeto tagarelando sobre o bebe e que a tarde eu e Sally iriamos comprar o berço de acordo com o sexo que eu iria descobrir hoje. E Nico só sorria e fazia perguntas como: ‘’E mesmo?’’ ‘’Que bom!’’ ‘‘Como você sabe?’’
Mas eu perdi o chão no dia 19 de Janeiro. Addison passou quase meia hora calada em silencio, levando aquele aparelho para lá e para cá em meu ventre. Sentia a pressão cada vez mais forte e então perguntei:
–Dá pra saber o sexo? O pai quer um menino... –Comento sorrindo, lembrando das piadas que ele havia feito nos decorrer dos meses.
–Annabeth, pegue. Precisamos conversar. –Ela estendeu o papel para mim, para que eu tirasse o gel da minha barriga já inchada e exorbitante. Ela saiu do banco e foi para a escrivaninha aonde eu acompanhei e trouxe Nico ao meu encalço.
–Annabeth, eu não sei como dizer isso a você... A partir do décimo oitavo dia, o cérebro do bebe começa a ser formado assim como todos os órgãos em seu devido tempo. Mas isso não aconteceu com o seu bebe, Annie.
Nesse instante, sinto a mão de Nico cair em meu ombro e aperta-lo. Ainda não processei a informação completa, mas ele já me passa o conforto.
–O seu bebe não tem cérebro, Annabeth. Ele é o que chamamos de Anencéfalo.
–Não há nada que ela e você possa fazer para... –Ele não terminou.
Addison colocou o óculos de aro vermelho na escrivaninha e suspirou.
–Não há nada que nenhum médico do mundo possa fazer. Annabeth você precisa ser forte, agora o aborto não é aconselhado porque seu bebe já é grandinho o bastante, ou seja... Devemos induzir o parto.
–Não! –Saiu do meu estado de inercia, absorvo todas as informações em questões de segundos e sinto o baque de tudo aquilo em meu peito. Quero chorar e esganar Addison por ter coragem de me dizer aquilo. Meu filho não pode ter cérebro. Todas as crianças nascem com cérebros. Afinal, é ele quem coordena as atividades motoras.
–Annabeth, você não pode ficar com essa criança sem cérebro ai dentro por muito tempo. Não é saudável, você põe a sua vida em risco. Esse bebe não tem controle de atividades motores, são mínimas ou inexistentes. Quando ele começar a chutar por mando da medula, irá ser descontrolado e te causar dores terríveis, Annabeth ele pode deslocar a placenta e você sangrar até morrer.
Ponho as mãos em meu rosto e choro, finalmente tenho um motivo digno para chorar. Não porque sinto medo da reação de Perseu, ou por senti-me despreparada para ser mãe... Mas porque meu filho não vai viver. Meu filho já está condenado a morte antes mesmo de respirar pela primeira vez. Choro desesperadamente e sinto o chão se abrir aos meus pés. Quero gritar, mas minha voz está travada e minhas cordas vocais fechadas. Prendo os lábios de tal maneira que sinto o sangue na minha boca. Então, sou levantada de uma única vez sem qualquer vestígio de delicadeza, sinto o aperto dos braços de Nico em meu ao chocalhar do meu corpo e choro, choro, choro... E a única coisa que eu consigo dizer é:
– Aaron... Eu ia chama-lo assim. –Nico arfa por uns instantes e me abraça ainda mais forte, nesse momento seu abraço é a única coisa que me mantem firme.
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