Ultraviolence
16 1949.
Notas iniciais
"What is all this?
Vamos para exatamente onde? Roubar uns dos caras mais poderosos do atual governo americano a fim de pegar um dossiê que incrimina um dos maiores mafiosos mundiais?
Nico saiu do meu quarto por alguns instantes e em seguinte, retornou. Veio ao meu encalço e percebi que ele carregava uma sacola preta em suas mãos pálidas e grandes. Os olhos dele encaravam meu rosto sorrindo para mim com um o gesto único de entortar o músculo da boca.
–Aqui, se vista e não esqueça as luvas pelo amor de Deus, o que eu menos quero é o Conselho Tutelar na minha porta depois de amanhã. –Ele falou, dando-me a sacola. Sorri recebendo, não sabia qual minha opinião sobre a roupa, uma parte de mim achava uma coisa imunda meu próximo ato de roubar algo e a outra parte não negava a quantidade exorbitante de adrenalina em meu corpo, eu estava a mil.
Oh, Senhor, livra-me desses pensamentos.
Continuava em meus devaneios até que notei a ausência de Nico em meu quarto, sorri minimamente, e fechei a porta. Retirei minha roupa, ficando apenas de lingerie, corri para frente do espelho e peguei um elástico transparente e amarrei meu cabelo, prendendo-o totalmente. Abri a sacola que Nico havia me dado instantes antes e despejei o conteúdo na minha cama.
Era uma calça negra de couro que definitivamente iria apertar demais nas minhas pernas, uma blusa preta e um par de coturnos e as luvas. Vesti a roupa rapidamente, e me encarei no espelho. Ouvi batidas na porta e Nico entrou sem nem esperar uma resposta.
Ele sorriu e levantou as sobrancelhas grossas para mim, com um olhar malicioso. O rosto fino de pele pálida e bem cuidada encarou todo o meu corpo como se estivesse à procura de algum defeito, abracei meu próprio corpo enquanto Nico me observava.
–Você está pálida, Annabeth. Passe um batom forte... Combina com você. –Ele disse com a sua voz rouca tomando todo o espaço ao nosso redor. A voz de Nico era como aqueles instantes antes do solo da guitarra que falta estuprar teus tímpanos de músicas de heavy metal. –Preferência, vermelho. Adoro batom vermelho, loira.
Eu ri, capto os olhos negros de Nico se pendendo em meus quadris e um sorriso irônico surge em meu rosto enquanto ando até o guarda roupa a procura de um batom.
–Perdeu algo em minhas pernas, Nico? –Digo, ele parece um pouco perdido alheio ao mundo e eu começo a gargalhar sem conseguir aturar a falta de concentração de Nico.
–Falou algo, loira? –Ele pergunta, voltando a me encarar com aquelas duas bolas negras.
Eu dou uma última risada, e passo o batom em meus lábios. Parecia aquelas assassinas em série ou aqueles manequins que ficam em exibição nos sexs shop espalhados pela cidade.
–Vamos, Annabeth. As armas estão no carro. Lembre-se, o dossiê é algo de extrema importância e tanto eu como Silena faríamos qualquer coisa por ele. Aquele dossiê foi elaborado por Charles e Zeus, então Silena tem por obrigação pegar o dossiê. Agora, ele pode estragar a vida de cada um dos legendários da Quinta Coorte, ou seja: Sally seria presa, Rebekah iria para um orfanato, você seria punida como cumplice, e por aí vai... Perseu faria tudo por esse dossiê e espero que você também.
–Tudo bem.
Foi a única coisa que eu conseguir dizer.
***
O encontro fora marcado em um galpão, um quarteirão antes do prédio de Zeus, pelo que Nico havia me dito. Ele havia me dado um cinto com duas pequenas adagas atrás e duas armas de calibre alto que se enrolavam perfeitamente em meus dedos.
O chão do galpão era imundo que grudava óleo na sola do meu coturno negro, o barulho de pingos de água ressoava por todo o local com um barulho desordenado e frágil. Caminhei mais alguns passos com Nico em minha tiracolo.
–Lembra do que eu ensinei a você, loira? A única coisa que você tem que fazer e mirar, apertando o gatilho em seguida, não é necessário nada. A arma faz o trabalho, não tenha pena, mate todos, menos Zeus, por favor.
–Por que?
–Ele é um pai de família trabalhador e honesto... -Ironizou Nico. –Porque ele é poderoso, Annie, esse tipo de gente não se combate olho no olho e sim, na rasteira para derrubar os alicerces.
Assenti compreendendo. Há quem diga que para virar bandido bastar largar a escola e conseguir uma arma ou até mesmo canivete, mas isso são fichinhas perto do que eles podem se tornar com o treinamento e inteligência certa. Mafiosos e cabeças de crime organizado.
–Milton disse uma vez, Annabeth, uma frase que eu jamais me esqueci em uma de suas obras que eu mais gostei: ‘‘É melhor reinar no inferno do que servir no céu. ’’, não me chame de anti Cristo, por favor... –Ele disse sorrindo para mim. –Mas, você acha que eu, pessoas como Percy, Zeus ou Silena preferem encarar um dia de Sol trabalhando durou ou ser grandiosos fora da lei? Não há uma pessoa que conheça eles, Annabeth.
–E você Nico o que prefere? –Perguntei me aproximando do capo de um carro abandonado que havia ali, estava destruído, provavelmente desmontando o carro para vender as melhores peças.
–Eu, sinceramente, não sei. Devo minha vida a Percy e desde então, trabalho com ele na Quinta Coorte. –Ele respondeu encarando o chão imundo, dessa vez havia uma mistura de óleo e lama, que grudava em meus sapatos.
–Você não teve escolha, simplesmente aderiu entrar para a máfia por que Percy salvou sua vida? –Questionei, ele riu de modo frio no mesmo instante que um vento gelado tocou meus ombros, arrepiando minha pele e eriçando meus pelos.
–Você entrou na máfia em busca de poder, mesmo sendo uma adolescente, porque eu não poderia entrar quando Percy salvou minha vida?
Calei minha boca, assentindo. Ele tinha razão, cada um tem seus motivos para escolher seu caminho e tenho certeza que Percy permitiria que ele saísse quando quisesse da máfia... Mas, acho que Nico jamais abandonaria Percy.
No mesmo instante a porta do galpão se abriu, arrastando as portas de metal com um barulho ensurdecedor, dois carros Troller irromperam o local. Nico subiu no capô do carro, a perna direita ficou dobrada e a esquerda esticada em uma pose extremamente masculina. Olhei para o lado, era impossível sabe onde estávamos devido à falta de luz, olhei meus cabelos, sabia que os cachos loiros se formavam nas pontas dos rabo de cavalo, estiquei a coluna e fechei a cara, mordendo um pedacinhos dos lábios. Passei as mãos para me apoiar no carro e respirei fundo, no mesmo instante que um dos carros estacionou na minha frente a menos de um metro de distância.
Senti meu coração acelerar quando eu o vi descer do carro, novamente senti a dor que eu havia sentido na noite passada com a agressão dele. Ele olhou rapidamente para Nico e veio até mim, continuando sua trajetória. Ele parou na minha frente e eu senti o gosto do sangue invadir minha boca, estava mordendo os lábios com uma força exagerada. Perseu sorriu para mim, e senti minhas pernas ficarem bambas, segurei ainda mais firme minha mão no metal do carro e respirei fundo.
–Vejo que você não tentou fugir, Annabeth... Não é tão tola quanto eu pensei. E está muito gostosa com essa roupa, Annabeth... –Ele pegou minha mão e virou junto com meu corpo, deixando-me de costas para ele. –Realça sua bunda.
–Às vezes, eu penso que você gosta mais da minha bunda do que da minha pessoa. –Respondi, ajeitando meu corpo.
–Agradeça aos céus por ter ganhado essa bunda, querida Annabeth, senão você não estava tão bem... –Ele encarou meus olhos e beijou meus lábios levemente e eu arregalei os olhos.
Silena se aproximou, era daqueles tipos de mulheres que conseguiam ficar lindas com qualquer tipo de roupa, os cabelos negros caiam em uma cascata de cachos belos e delineados, as bochechas rosadas e a pele pálida destacavam os olhos perfeitamente azuis. Não parecia abalada como nas últimas vezes que vi, e usava uma roupa totalmente de couro apertado, ela tocou os ombros de Percy e sorriu.
–Olá, Annabeth. Estão prontos? –Ela disse, assenti não queria falar nada no momento sentia uma ânsia de vomitar. –Clarisse disse que o buraco que cavaram é grande, e até os Stolls passaram, vamos dizer que Hefesto e Ares fizeram um bom trabalho.
–E você sabe o caminho? –Perguntou Nico falando pela primeira vez desde que haviam entrado no recinto.
–Vim aqui ontem à noite e aprendi o caminho, é imundo, caso queiram saber, mas bate bem em cima das escadas de emergência, partimos dali e seguimos subindo, por algum motivo a escada foi interditada então é completamente seguro, e todas as câmeras da escada estão com um fundo falso.
–Não esperei que um túnel cavado a dez metros do chão fosse um exemplo de limpeza, Sil. –Respondeu Nico rindo, encarei-o privando uma risada por algo tão idiota.
Silena rolou os olhos e prendeu os cabelos, olhou para Percy sugestivamente aparentemente conversando sobre algo apenas com o olhar, inclinou a cabeça e saiu. Ela usava botas de saltos, e eu me surpreendi, o barulho das botas causava uma cacofonia junto com o barulho dos pingos de água do encanamento velho.
Andamos por alguns metros, Silena e Percy na dianteira e Nico e eu logo atrás. Sentia a arma esquentar em meu quadril, mas nenhum deles haviam retirado as suas. Continuei seguindo, dessa vez, o barulho se tornava pior a cada vez que adentrávamos no galpão. Silena abriu uma porta velha de metal, que abriu rangendo, olhou para nós e continuou o caminho.
O túnel era feito de terra barrenta e múltiplas pedras solidificavam o chão, Percy se mantinha ereto e com passos compassados enquanto Silena parecia flutuar em meio as pedras devido a sua graciosidade. Já eu, tomava toda a cautela do mundo para não prender meus pés algum espaço entre uma pedra e outra.
O único barulho era dos nossos passos pelo extenso túnel, a respiração de cada um era baixa e sussurrada e mantínhamos o mesmo nível, menos eu que segurava as duas mãos com receio de que alguém as visse tremendo.
Tentaria ser o mais forte possível nessa situação, necessitava mostrar a Percy e ao resto que eu não era apenas uma garotinha com um cérebro focado em bandas adolescentes, tinha que ter um ideal maior e nele focar minha vida e conseguir ultrapassar essa situação.
Viramos à direita e dessa vez fui surpreendida com diversos suportes de luz na minha frente, iluminando todo o caminho, dava um ar medonho e surpreendente, arfei rapidamente surpresa e Percy riu.
–Pensamos em tudo, Annabeth... Imaginou o que, que usássemos aquelas lanternas ridículas? Não querida. –Ele falou e se calou.
Não respondi, não sabia o que dizer, apenas continuei. Nico avançou rapidamente, deixando-me só e partiu rumo aos dois na frente, e engataram uma conversa baixa e sussurrada, Silena gargalhou alto como se Nico tivesse contando algo divertido e Percy apenas balançava a cabeça, eles pareciam um daqueles trios que jamais se separavam. Como Harry Potter, Hermione Granger e Rony Weasley... Ou talvez, Jace Herondale, Isabelle e Alec Lightwood... Daquele tipo de trio que nem mesmo o mais forte dos inimigos separa.
E eu, era a zero a esquerda... Talvez a Gina ou a Clary, algo desse tipo.
Andei solitária por vinte minutos, e passávamos por vários túneis paralelos que surgiam a minha direita. Enquanto os trigêmeos caminhavam unidos, comecei a lembrar do mapa que Nico havia me mostrado do prédio, tinha quinze andares e no ultimo estava o cofre com o dossiê, mas se estávamos a um prédio de distância não deveríamos estar andando a tanto tempo já que o galpão era atrás do prédio e se seguíssemos reto iria para no...
–Estacionamento. –Arfei. Comentei alto demais e eles me encaram com a expressão de que eu era uma idiota.
–O que foi? –Perguntou Silena. –Irá acabar atrasando a gente.
–Não mais do que você se continuar seguindo por esse caminho, isso é uma vertical, traçou uma linha vertical até o estacionamento, não vai bater nas escadas porque pela planta que Nico me mostrou hoje cedo, as escadas de emergências ficam ao leste e estamos indo para o norte, estacionamento.
–Não há um estacionamento no prédio. –Disse Silena áspera.
–Claro que há, é um prédio do governo, a maioria dos prédios do governo tem estacionamentos para os funcionários, principalmente o de confiança que trabalham todo o dia. Isso levará ao local errado, mas com certeza uma dessas paralelas... –Apontei para os três caminhos de túnel cavado, que passasse ali teria que vir curvado. –Levará as escadas.
–Mas, a mensagem dos Stolls disseram sigam a linha principal...
Não havia como, sabia como eram as estruturas desses prédios de governos. Os alicerces eram fixos nos estacionamentos em todos os locais possíveis para impedir um desmoronamento. Dei alguns passos passando para frente dele e caminhei por alguns metros. Toquei minhas mãos nas paredes e por trás da estrutura árida de cimento com barro havia uma estrutura sólida.
–Você errou o caminho, logo ali é o estacionamento. Então, se a escala estiver certa e se for pelo padrão que é de cinco centímetros...
–A entrada para as escadas estavam a seis metros e ninguém percebeu... Exceto você.
Uma voz surgiu no momento em que boa parte das luzes se apagaram e uma luz tão brilhante quando o Sol no deserto surgiu. Um homem de meia idade em um terno arrisca apareceu na nossa frente e Percy arfou alto.
–Pensou que eu não iria descobrir seu plano, Perseu? Por favor, como não descobrir a entrada de três cobras traiçoeiras se esgueirando pelas escadas do meu prédio.
–Pensei que seria mais estúpido, Zeus. –Brandiu Percy, as maças do rosto dele estavam vermelhas de irritação e eu me afastei pouco a pouco até bater minhas costas na parede de barros.
–Você subestima o governo, Jackson. A Justiça tarda, mas não falha e você vai pagar por cada vida que você e sua máfia imunda tirou e mandou para o purgatório.
–Isso é uma ameaça? Você ousa me chantagear, Zeus Grace? –Gritou Percy, a voz dele retumbou por todo o corredor imundo e eu me arrepiei. A única coisa que Zeus Grace fez ajeitar o colarinho do terno e sorrir sem exibir os dentes.
–Eu não ameaço, eu faço promessas, Jackson. E assim como seu pai, eu cumpro-as.
–Não fale de meu pai, esse assunto é meu e seu. –Cortou Percy.
–E de todo o continente que você transformou em caos, como consegue dormir a noite? Sabendo que estraga a vida de tantas famílias e condena tantas vidas a morte? Como consegue colocar a cabeça no travesseiro e dormir? –Questionou Zeus seu tom era frio e acerbo. Duas combinações incomuns.
–Isso não é da sua conta. –Percy encarou Nico que deu de ombros e olho para Silena, e eu abaixei o olhar. –Quanto você quer pelo dossiê?
–Quero que você morra, Jackson. –Respondeu Zeus.
–Hoje, não. –Disse Percy.
Zeus saiu da zona de conforto e trouxe seus sapatos caros para perto de nós, ele encarou Percy que parecia que iria cuspir a qualquer instante na cara dele. Nico rolou os olhos e Silena se afastou dele, então ele pareceu me notar.
Ele tinha olhos lindos. Era de um azul tão profundo quanto o Mar Cáspio, o preto era ofuscado pelas chamas azuis e os cílios eram tão espessos. O cabelo era liso e aparentemente macio, cheirava a mormaço.
–Eu me lembro de você, andava sempre com Lucas Castellan?
–Era Luke, e sim já fui a algumas festas suas, anteriormente. Posso dizer que larguei esse hábito. –Respondi e ele tocou minhas bochechas.
–Sabe Jackson, você escolhe bem suas garotas. Primeiro, a ruiva pintora e agora a loira...–Ele disse, e foi até Percy e se aproximou dele, sussurrando algo em seu ouvido. Percy contraiu os ombros e bufou e afastou Zeus que tinha um sorriso no rosto.
–Não, Zeus. Não pedirei isso a ela.
–O que? –Disse Silena. –O que ele quer?
–Nada. –Respondeu Percy brutalmente e ela ofegou como se tivesse ficado ofendida, mas ela não conhecia Percy Jackson, o verdadeiro?
–Eu apenas quero algo simples em troca do dossiê, algo que não alterará a vida de ninguém aqui, uma noite com a filhota... Quer dizer, com a Chase. –Ele cuspiu meu nome. –E darei o dossiê a vocês, de bom grado.
Arregalei o olho para Percy e senti minhas pernas ficarem bambas, olhei para Zeus e uma mescla de divertimento era nítida em seu rosto.
–Aceita, querida? Você sabe o poder que esse dossiê tem, não é? Afinal, até você está nele como cúmplice e que entrou nesse meio com total convicção de onde estava pisando.
–Annabeth... –Pronunciou-se Percy sério, os dedos dele contavam um por um com um sinal de nervosismo. –Não é necessário fazer isso, não irei explorar você de tal forma.
– Amanhã, às 20h00 horas em um hotel no Upper East Side? –Falou Zeus sorrindo diretamente para mim.
–Duas garrafas de Bourbon? O mais forte? –Perguntei com a voz arrastada, meu coração tremia de medo, era isso, eu iria ceder a Zeus e conseguir o que eu queria. O dossiê.
–Claro, terá o dossiê daqui a algumas horas em suas mãos, mandei minha filha Thalia entregar pessoalmente, não posso mandar algum assessor, aparentemente corrupção é crime na América. Mandarei um carro ir buscar você, Annabeth Chase.
–Mas, você não sabe onde eu moro... –Falei debilmente.
–Você é a queridinha de Manhattan, a futura primeira dama da alta sociedade do Upper East Side, eu pergunto a minha nada adorável esposa, afinal ela sabe de tudo que é inútil para o resto das pessoas.
Ele se virou e deu duas batidas no peito de Percy de leve e saiu em meio à escuridão com seu terno a risca. Todos se voltaram para mim e Percy suspirou.
–Você é uma estúpida, Annabeth. Mas, tenho uma dívida com você. Obrigado.
Ele capturou uma das luzes que estavam pregadas na parede de barro e saiu com ela, deixando-nos sem olhar para trás.
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