Uhen - Um Humano Entre Nós
20 19 (Tracy)
Aaron estacionou o carro antes de chegarmos na esquina do colégio. Abri a porta e fui na frente, sabendo que ele logo correria até mim para irmos juntos para a aula de história. Acertei; em dois minutos ele me alcançou e de mãos dadas entramos na escola.
Há uma semana, Cal ganhara de mim numa luta e assim virou meu segundo do alfa. O terceiro foi Nina, que desapareceu misteriosamente.
Certo, não foi misteriosamente. Sei que Caleb sabe por que ela se foi, mas ele não quer me contar nada. Ele é assim.
Só tive tempo de pegar meus livros no armário antes que o sinal para a primeira aula batesse. Pedi a Aaron que fosse na frente e guardasse nossos lugares. Cal apareceu assim que ele saiu – às vezes, penso que ele calcula quando deve vir falar comigo. Ele tinha alguns papeis na mão e um sorriso no rosto.
– Tenho uma coisa que vai alegrar seu dia.
– O que seria? – perguntei, tentando pegar os papeis da mão dele.
– Não. – ele sorriu, desviando-se de mim. – Vamos para a sala. No caminho eu explico.
– Tudo bem. – concordei, revirando os olhos. Não estava tão confiante nas novidades. – Espero que seja algo interessante.
– E é. – ele sorriu. – Finalmente você e o seu amado Aaron poderão ficar juntos. Como sempre quiseram.
– Não estou entendendo.
– Não é óbvio? Eu descobri como transformá-lo em um de nós! – ele se aproximou e sussurrou em meu ouvido – Basta uma mordida durante relações sexuais.
– Ah, é? – comecei a rir. – Eu duvido!
– Ah, qual é, Tracy? Você não confia em mim?
– Caleb, eu não confio nem em mim mesma!
Infelizmente, eu disse essa última frase já na sala de aula, então o professor ouviu e quis saber o que estávamos discutindo. Cal escondeu os papeis na mochila enquanto murmurou “lobisomens”. O professor deu um sorriso de escárnio e a sala sufocou o riso.
– Oh. E que fonte pegaram para discutir tal assunto?
– O diário do meu avô. – disse Caleb, pigarreando. – Ele era um lobisomem.
– É isso aí. Por isso que o Cal é um cachorro.
Caleb fez uma careta de indignação, mordeu o lábio e me deu um empurrão. A sala toda riu, inclusive Aaron. Rindo, fui para meu lugar e Cal foi para o dele, fingindo indignação.
A última aula antes do almoço era álgebra. Peggy não era tão boa nisso quanto eu, então eu e ela sentamos em dupla para fazer as atividades. Faltavam cinco minutos para o almoço e eu não via a hora de encontrar Aaron – combinamos de sair para comer ao ar livre.
Me levantei, olhando no visor do celular, e expliquei o último item a Peggy.
– E então é só isso?
– Sim, você pega o X e passa para... Oi, Cal. – falei, sorrindo, antes que Caleb me puxasse por trás, fazendo uma de suas brincadeiras favoritas. Eu podia senti-lo chegando e acreditava que quase podia ouvir sua mente também, mas era só uma impressão. Peggy mesmo assim se assusta quando digo o nome dele antes que ele chegue a dois metros de nós.
– Oi... Garotas. Tracy, nós temos que estudar... Aquele assunto... Sabe? Hoje em casa, depois da escola. Até mais.
– Isso foi muito estranho.
– Nem tanto. Até mais, vou me encontrar com Aaron.
Saí correndo da sala, louca para encontrar meu namorado e sair da escola o mais rápido possível. Parecia idiota, mas desde que Caleb me contara sua descoberta, eu queria dividir isso com Aaron. A ideia de que ele fosse igual a mim era tão tentadora que quase não parecia real. Mas era real e eu estava quase realizando-a.
– Te peguei! – Aaron riu quando esbarrei nele. Ele me puxou para fora da escola, me levando para seu carro, enquanto me beijava. Mas quando ele abriu a porta, eu balancei a cabeça.
– Eu vou carregar você. Nós dois sabemos que sou mais rápida que esse carro.
– Tudo bem, The Flash. – ele sorriu. – Mostre-me seus poderes.
Coloquei-o sobre meus ombros e rapidamente atravessei o estacionamento. Fugimos para a floresta, perto de casa, onde ninguém nos procuraria. Nos sentamos na grama e começamos a nos beijar. Ele jogou a mochila do lado, onde tinha alguns sanduiches e refrigerante para nosso almoço. Mas antes que ele pensasse em esquentar o momento, eu o empurrei para longe.
– Espere, Aaron. Eu preciso dividir uma coisa com você.
– Não sabe como essa frase me assusta.
– Está tudo bem. É uma coisa boa. – mordi o lábio, sem saber como continuar. – Olha, Aaron, eu sempre achei impossível ficar com você porque somos diferentes. Tinha o meu segredo, tem a alcateia, eu não posso deixar de ser quem sou, etc., mas...
– Você me contou o segredo. Então está tudo resolvido, não é?
– Mais ou menos. Aaron, e se houver um jeito de podermos ficar realmente juntos? Tipo, sermos iguais, eu digo, em tudo?
– Pensei que não desse para ser transformado em um lobo.
– Eu também pensava assim, mas estava errada. Cal achou documentos do avô dele e lá tinha o que procuramos. Você pode ser igual a mim. Podemos ficar juntos. Pra sempre.
– E, tipo, ser um lobo? – ele respirou fundo. – Olha, Tracy, não me leve a mal. Eu amo você, eu realmente te amo, e é difícil pra mim acordar e lembrar que minha namorada é uma loba, uma alfa, mas eu dou conta. Agora, ser um lobo? Eu não quero isso pra mim, Tracy. Eu realmente não quero.
– Mas, Aaron, se isso significar que podemos ficar juntos, eu...
– Tracy, você me faz sentir... Estranho. Quando eu fico perto de você, eu percebo o quão normal eu sou. Se eu me transformar em um lobo, eu não serei mais eu.
– Você acaba de me chamar de aberração?
– Não, não foi isso que eu...
– Fale comigo quando sentir-se menos esquisito. – me levantei e saí dali, andando furiosamente para dentro da mata. Podia ouvir Aaron berrando meu nome, desesperado por mim, mas não queria voltar. Por amor próprio.
Quando dei por mim, já estava transformada. Minhas patas esmagavam o chão, o vento cortava meu rosto, mas não importava. Eu só queria fugir disso – de tudo.
Então eu sou um monstro. Então todo meu amor, tudo que fiz por ele, não significa nada, é isso?
Um lobo não pode chorar, não quando está sob forma animal. Mas seu coração ainda é humano. E o meu doía desesperadamente.
Depois da escola fui na casa de Cal. Precisava esquecer a conversa com Aaron, precisava me desligar de tudo. É estranho pensar em como eu o odiava, mas não consigo me imaginar sem ele agora. Sua companhia é indispensável.
Bati na porta duas vezes. Cal atendeu antes que eu batesse pela terceira vez. Sua camisa estava amassada e o cabelo despenteado. Ele continuava atraente.
– E aí. – ele deu espaço para que eu entrasse. – Chegou cedo.
– Estou animada. Quero saber que lição você vai me ensinar agora.
– Suba para meu quarto. Eu já vou.
Concordei com a cabeça e subi. Ele demorou alguns minutos antes de aparecer na porta. Trazia um diário velho e uma caneta. Tentei pegá-lo, mas ele não deixou. Disse que ainda estava estudando e eu não podia olhar. Tinha segredos de família.
– Certo, pra começar, quero que feche os olhos e se concentre.
– Em que?
– Na minha voz. – ele sorriu, aproximando-se. Colocou suas mãos em meu rosto, fazendo com que eu fechasse os olhos e posicionou-se atrás de mim. – Agora tente ouvir o mais longe que puder.
Suspirei, sabendo que era muito fácil. Mesmo que não quisesse, eu ouviria qualquer coisa num radio de alguns quilômetros. Mas parecia importante então obedeci.
No começo, ouvia apenas ruídos. O vento batendo nas árvores, pássaros voando, gatos graciosamente pousando no chão, cães ofegando, pessoas caminhando... Até que pude distinguir as vozes de cada um. E uma delas era Peggy.
– É estranho ainda, eu sei. Eles se odiavam, ou pareciam se odiar, mas agora parecem uma coisa só. Eles vivem juntos, fazem brincadeiras particulares e tem horas que parecem poder ler a mente um do outro. Ele vive agarrando ela, tipo como os namorados fazem. Se você perguntar se eles estão namorando, Cal com certeza dirá um sim e dará seu sorriso que faz meu coração acelerar. Mas a Tracy dirá que não. Eu não sei, para mim, eles estão escondendo coisas demais.
Involuntariamente, sorri, mas não pelo que ouvi e sim por ter ouvido.
– Você pode ouvir isso? – disse Cal, a voz perto demais de minha orelha.
– Posso. – respondi, sorrindo, de olhos fechados. – Posso ouvir tudo.
– Ótimo. – eu podia sentir o sorriso dele quando beijou meu pescoço. – Por hoje é só.
– Espere. Essa é minha lição do dia?
– Sim, é. Algo contra?
– Eu pensei... que fosse me ensinar aquele lance de ler mentes. Você me disse uma vez que era possível.
– E é, porque você é a alfa e eu sou alguém próximo a você, sem contar que sou extremamente inteligente nessas coisas de lobo. – ele sorriu. – Mas hoje não. Eu preciso ir. Aliás, eu achei que você odiasse minha companhia, como Peggy acabou de dizer há sei lá mais de três quilômetro de distância.
– Eu odiava. – mordi o lábio, olhando fixamente nele. – Por favor, Cal. Eu quero muito ler mentes.
– E quem não quer? – ele riu. – Mas hoje é só. Você já deve estar exausta...
– Ouvir a distância não cansa ninguém.
– E eu quero ler esse diário velho. – ele continuou, me ignorando.
– Podemos ler juntos. – sugeri, sabendo que ele diria não.
– Tracy, pare de enrolar. Quer ficar aqui por algum motivo.
– Bingo. – suspirei, me sentando no chão.
– Aconteceu alguma coisa? Quem você está evitando?
– Aaron.
Ele sentou-se do meu lado, forçando-me a olhar para ele. Seus olhos eram tão convidativos e eu estava tão chateada que senti que deveria contar. Mas não conseguia.
– O que ele fez?
– Não é ele. Sou eu. Eu sou o problema. Eu sempre fui.
– Não diga isso. Vocês dois estavam tão...
– Cal. – interrompi, antes que ele piorasse tudo.
– Desculpe. Mas me conte.
– Eu não consigo, Cal. Sério, eu...
Ele segurou meu queixo com uma das mãos e olhou no fundo de meus olhos. Seu rosto estava tão perto, seus lábios tão perto...
– Tracy... – ele murmurou, fechando os olhos.
– Sim?
– Cale a boca.
E então ele me beijou.
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