Uchiha and Haruno
18 Pássaro
Notas iniciais
Pássaro
バード
A semana transcorreu tranquila, sem grandes conflitos como era o esperado, mas a briga pela cama mantinha-se viva e a cada dia novas soluções eram tomadas, até que juntos, encontraram a ideal. Mesmo que a contragosto de Sasuke, Sakura dividiu a cama por uma muralha de travesseiros, estipulando categoricamente que o lado direito era seu e o esquerdo dele. E até então, funcionava muito bem.
Era a primeira audiência de Sakura no Japão, ela sentia-se animada e finalmente pronta.
–- Preparada? – Tsunade perguntou enquanto arrumava novamente a gravata do marido
–- Hai! – Sakura olhava impaciente a cena – Me diga, porque arruma tanto essa gravata sendo que quem entrara comigo é você e não Jiraya?
–- Arrumar as coisas me acalma – Tsunade finalmente arrumou a camisa e sua saia – Agora vamos, está na hora de entrar.
As mulheres cruzaram as grandes portas do gabinete e logo avistaram o interior do Tribunal, era imponente e todo amadeirado, deixando assim um aroma forte no ar. As bandeiras jaziam ao lado da cadeira do réu e olhando mais atentamente pode avistar o promotor de justiça parado ao lado oposto de sua mesa.
Adentraram rapidamente e como sempre esbanjando elegância por onde passavam, chamaram a atenção dos presentes e o cliente foi trazido da carceragem pelos policiais. Um senhor com aparência frágil, acusado injustamente de assassinato e que andava passando por mal bocados, não só na vida familiar onde havia sido terrivelmente acusado, mas na própria prisão, onde todos abusavam de sua inocência.
–- Olá meninas – Disse o promotor simpaticamente se aproximando
–- Boa tarde – Sakura lhe estendeu a mão que prontamente foi segurada com firmeza – Haruno Sakura.
–- Hozuki Suigetsu – Apresentou-se
–- Senju Tsunade – Apertou a mão do homem que lhe estendia gentilmente – Mas isso o senhor já sabia -- Alfinetou
–- Claro, como não conhece-las? – Suspirou – Vim apenas avisar que lamento muito, mas essa causa já é perdida – Apontou com desdém para o senhor sentado humildemente.
–- Devo avisa-lo que apenas considero causa perdida quando o juiz lê a sentença – Sakura disse firmemente
–- Você ainda é uma menina, tem muito o que aprender – Suigetsu sorriu maldosamente – Sou um dos melhores promotores do Japão, sabe quantos advogados já conseguiram passar por mim? – Começou a contar nos dedos até que sorriu e lhe disse baixo – Nenhum!
–- Sempre existe uma primeira vez Doutor Hozuki– A menina sorriu de canto – Espero que não fique ressentido.
–- Não pense que essa primeira vez chegara pela sua mão. – Virou-se e andou até sua mesa junto com o assistente.
–- Quem ele pensa que é? – Perguntou Tsunade sentando-se – Já ouvi coisas desse homem, mas não conseguia acreditar que eram verdades.
–- Esqueça, temos que nos concentrar – Sakura disse sentando-se também – Como está senhor Yukio? – Voltou-se ao cliente
–- Um pouco melhor Sakura-sama – Disse humildemente – Obrigada por pedir que me colocassem em uma cela especial.
–- Sem problemas – A menina sorriu – Mas hoje o senhor não volta para lá, pelo menos faremos o possível.
–- Eu sei que farão – O homem suspirou e sorriu – Obrigado! Obrigado por acreditar em mim.
A audiência começou, as acusações foram feitas de maneira rude e era palpável o nojo na voz do promotor Suigetsu, ele sentia-se acima de qualquer autoridade e principalmente, ridicularizava o homem por sua posição social. Há todo o tempo olhava com desdém para Sakura e Tsunade que não deixavam-se abater, mas incomodavam-se com a prepotência do acusador.
–- Então vossa excelência, esse senhor é um assassino, pois como minha ultima testemunha afirmou o viu entrar no terreno cinco minutos antes dos disparos a queima a roupa... – Continuou falando enquanto a menina maquinava, algo estava fora de lugar, o réu, o promotor, o juiz, a defesa, a testemunha e... era isso, a testemunha. Assim que notou o que estava errado levantou-se e bradou mesmo que calmamente em tom sério e autoritário.
–- Protesto meritíssimo!
–- Protesto deferido!
–- Como? – Suigetsu disse nervoso
–- Deixe que ela fale senhor promotor! – O juiz pediu silencio fazendo o bufar.
–- Excelência, enquanto ouvia os depoimentos percebi claramente que algo não encaixava-se, e acabo de descobrir que tratasse da história contado pelas testemunhas e pelo promotor – Pode vê-lo fechar a mão em punho – O réu alega jamais ter entrado no terreno em questão, e sua afirmação me é totalmente convincente agora, mais do que nunca.
–- Porque senhorita? – O juiz perguntou curioso – O que viu nas testemunhas?
–- Vejo uma história mal contada meritíssimo – A mulher encaminhou-se a testemunha que continuava sentada – Diga, acabou de me dizer que estava andando com seus amigos, aqueles mesmos que acabaram de sentar-se ai e falar que você não estava junto.
–- Eu...er – Sakura sabia muito bem como intimidar uma testemunha, mesmo que fosse com falsas verdades.
–- E também, falaram que os disparos foram feitos depois de gritos e dez minutos passados – Confirmou olhando para o juiz – Não me lembro de ter mencionado gritos.
–- Gritos, isso gritos...muitos gritos! – Disse o rapaz tentando concertar-se
–- Então haviam gritos? – Perguntou arqueando uma sobrancelha
–- Sim senhora, havia uma mulher gritando muito, havia me esquecido completamente – Levou a mão até a cabeça!
–- Sabe o que acabei de me lembrar? – Sakura encostou-se no balcão onde a testemunha estava sentada e disse – Seus amigos em momento algum falaram de gritos! -- O Tribunal ficou mudo, pois era realmente verdade, não havia sido sequer mencionada a palavra grito.
–- Mas...você...você disse que – Foi interrompido
–- Conte-me, quem te induziu a contar essa história?
–- Protesto! – Gritou Suigetsu, o juiz logo bateu o martelo e ordenou que o promotor sentasse.
–- Sente-se senhor promotor e deixe a advogada de defesa falar!
–- Então, pense no seu futuro meu rapaz, tem muitos anos pela frente para ficar atrás de grades por falso testemunho!
–- Foi ele! – Apontou para o promotor desesperado – Foi ele que mandou que eu e meus amigos falássemos isso, nem moramos lá perto senhora, fomos pagos para vir até aqui!
–- Pagos? – Sakura arregalou os olhos, imaginava que algo estava errado, mas não tão errado como isso.
–- Sim sim senhora, pagos! – O rapaz estava ofegante – Meus amigos e eu estávamos andando na rua quando um carro preto parou e nos ofereceu dinheiro para contar uma história, foi isso que ele mandou que disséssemos.
–- MENTIRA! – Gritou Suigetsu
–- SENTE-SE! – O juiz bateu o martelo com força na mesa – Prossiga! – Disse olhando para Sakura.
–- Ele te disse porque queria que você mentisse?
–- Não senhora, apenas disse que ele nunca perdia e que pagaria bem – O rapaz estava amedrontado atrás do balcão enquanto admirava os belos orbes penetrantes da menina.
–- Seus amigos podem confirmar isso que está me dizendo? – Deu um passo a frente – Podem?
–- Sim senhora, eles podem sim, porque estávamos todos juntos!
–- CHAMEM AS OUTRAS TESTEMUNHAS – O juiz gritou antes mesmo que Sakura pedisse, logo mais dois rapazes chegaram e novamente a história foi confirmada.
–- Isso, é tudo...absolutamente tudo mentira – Suigetsu passava as mãos nervosamente pelos fios de cabelo azulados.
–- Prossiga doutora – O juiz disse firmemente. A menina olhou para o júri e começou
–- Como perceberam senhores e senhoras, meu cliente é inocente, assim como venho defendendo desde o começo. Ele é apenas um senhor que estava no lugar errado e na hora errada, mas incapaz de fazer mal a qualquer um. Um homem de 60 anos que trabalhou honestamente a vida inteira, dando sangue e suor para sustentar sua família a duras penas e que agora está aqui, com marcas profundas do que passou lá dentro injustamente. – Suspirou – Todos os testemunhos desse tribunal da parte da promotoria foram regados a mentiras, a dinheiro, a poder, como acreditar agora que esse homem realmente cometeu esse crime? Não há provas, as testemunhas são falsas e as evidencias dizem que ele é inocente.
Assim que terminou a defesa o juiz dispensou o júri para tomar a decisão, Suigetsu levantou-se e seguiu até a mesa onde a menina estava sentada, bateu as mãos e aos gritos começou
–- COMO OUSA? QUESTIONAR MEU PODER SUA VADIA! – Ele estava descontrolado, Sakura levantou-se encarando-o duramente.
–- Veja bem como fala comigo – Ela falava contidamente, porém era claro a seriedade da voz – Quem mandou arrumar uma história tão falha. Se quiser ser contador de histórias, pelo menos tenha criatividade e conte-a direito.
–- Oras – Antes que Sakura pudesse desviar uma mão pesada pesou em sua face, fazendo com que a mesma virasse bruscamente para o lado levando a mão imediatamente a maça do rosto direita que ardia pela bofetada, seguranças entraram correndo dentro da cúpula de julgamento e seguraram o promotor que tentava partir para cima da advogada que era socorrida por Tsunade.
–- Me bater não vai fazer você tornar-se menos culpado – Sakura passou a mão pelo filete de sangue que descia do canto de sua boca – Muito pelo contrario, agressão será apenas mais um crime em sua ficha.
O promotor acabou sendo contido e algemado, o juiz deu a sentença de inocência para o cliente de Sakura e prendeu Suigetsu por diversos crimes, inclusive lesão corporal em exercício de trabalho. Entretanto antes de sair do tribunal carregado pelos guardas ele bradou.
–- Em breve, eu acabarei com a sua vida sua vadia, assim como você acabou com a minha – Aquilo havia sido uma ameaça, e pela primeira vez na vida Sakura havia ficado realmente com medo.
***
–- Isso esta ficando mais vermelho Sakura – Jiraya dirigia enquanto Tsunade ia ao lado da menina, analisando a situação.
–- Vou ficar bem, mas vejo que desde que cheguei ao Japão – Sorriu debilmente – Estou em uma nova modalidade de problemas, agora não é apenas exclusão, é agressão também.
–- Sayuri ficará furiosa com a gente – Jiraya suspirou – Você não precisa mesmo de um médico Sakura?
–- Jiraya, eu tomei um tapa, não um tiro – Riu segurando bochecha que doia – Vamos para casa, por favor.
***
–- Hinata, para de querer colocar lilás em tudo – Ino resmungava – Sakura não gosta dessas cores.
– Mas as madrinhas ficariam lindas – Sorriu – lilás e faixas uvas
–- Nada de faixas – Tenten intrometeu-se – Se eu colocar qualquer faixa na cintura, vai ficar parecendo um bujão de gás para presente.
Todas começaram a rir, havia livros com tecidos e cores abertos para todos os lados, estavam na casa dos pais de Sakura, esperando a rosada chegar para dar a última palavra sobre os vestidos das madrinhas.
Os homens estavam ali por tabela, esparramavam-se pela sala e ora jogavam truco, ora apenas observavam as mulheres conversando e algumas vezes saltavam em meio a conversa para que elas não se pegassem aos tapas.
Às 17h00 Fugaku, Raiden, Itachi e Sasuke chegaram, os Uchiha sabiam que a matriarca estava em meio a confusão do casamento, e com certeza o jantar seria na casa dos Haruno, e ninguém queria perder a comida depois de tantas horas na empresa.
Não demorou muito para que a porta fosse aberta e o furacão Tsunade entrasse arrastando consigo Sakura e Jiraya.
–- Vá colocar gelo nisso – Tsunade parecia perdida, aquilo nunca havia acontecido e a ameaça ainda lhe gelava os ossos – Melhor, eu pego gelo para você, o sangue já estancou?
–- Sangue? – Sayuri desencostou-se do sofá e olhou para o corredor de onde os três deveriam surgir.
–- Já, não apanhei com um soco inglês não Tsunade – Sakura respondeu com a voz frágil e apareceu lado a lado a Jiraya, enquanto Tsunade sumia rumo a cozinha.
–- Que maravilha, reunião de família – Jiraya murmurou assustado puxando Sakura para trás de si
–- Do que vocês estão falando? – Sayuri já estava de pé junto a Raiden – Quem apanhou?
–- Aqui o gelo Sakura, coloque no machucado até... – Deteve-se ao ver tantos pares de olhos – Boa Tarde! – Cumprimentou nervosa – Por que tem tanta gente aqui.
–- Sakura, musume, o que foi? – Sayuri empurrou Jiraya e viu a filha com um pano em mãos, a camisa branca estava suja de sangue e a bochecha avermelhada com algumas marcas roxas e cortes na altura da mandíbula. – Por Kami, o que foi isso? – Puxou a mulher para o sofá
–- Estou bem okaasan – Sasuke que surgia do jardim com o irmão parou subitamente ao ver Tsunade colocando gelo na bochecha da rosada.
–- O que aconteceu? – O moreno perguntou, sua voz mais grave que o normal, as pernas apressaram-se para aproximar-se da noiva – O que é isso? – Apontou o sangue na camisa e no pano que ela tinha em mãos.
–- Nada demais! – Respondeu com os olhos baixos
–- Sakura, quem fez isso com você? – Hinata analisava os cortes – Isso são marcas de tapas, quem fez isso?
–- O promotor – Jiraya cortou o silêncio e obteve a atenção – Sakura ganhou a causa de hoje, mas com isso, descobriu que o promotor era um grande bandido, ele avançou sobre ela antes que pudêssemos conte-lo. – Finalizou
–- Mas ele já foi preso – Sakura frisou – Esta tudo bem agora!
–- Não, não está tudo bem! – Tsunade censurou-a, os olhos verdes imploraram para que ela não falasse da ameaça e depois de alguns segundos a loira completou – Você esta machucada, como pode estar tudo bem?
–- Estando – Levantou-se assim que Hinata concluiu o curativo
–- Sakura, por Kami – Sayuri aproximou-se tomando as mãos da filha – Você não pode mais se envolver em causas penais, fique nas empresas, isso é o suficiente.
–- Não vou dar fim a meu sonho graças a um tapa, literalmente, da vida mãe – Completou – Vou ficar bem, isso não é nada!
–- Hey rosada – Itachi chamou sua atenção – O tapa não é nada, mas e se vierem coisas piores?
–- Posso aguentar qualquer coisa – Falou firmemente – Não vou baixar minha cabeça para ninguém, seja ele bandido ou promotor, comecei isso e vou até o fim – Finalizou – Agora, vou subir para descansar – Voltou-se ao chão e viu os álbuns de vestidos – Desculpe Ino, mas hoje não poderei ajuda-la.
–- Claro – A loira sorriu – Vá descansar Sakura, amanhã podemos ver isso! – A mulher não deu chances para que ninguém dissesse mais nada, apenas subiu as escadas e sumiu pelo corredor.
–- O que vocês estão escondendo? – Raiden, que mantinha-se observando, pronunciou-se pela primeira vez – Jiraya, conheço meu irmão como a palma de minha mão, não pense que me esconderá algo.
–- O promotor – Começou o homem que teve a mão segurada por Tsunade – Eles precisam saber Tsunade – Relutante, ela assentiu – Hozuki Suigetsu ameaçou Sakura, e não foi algo da boca para fora, ele estava realmente furioso e pela primeira vez, senti o peso de uma ameaça e Sakura também – Suspirou – De alguma forma, esse homem pode ser perigoso e ela já tem problemas demais – Referia-se a Orochimaru
–- Onde vai Sasuke? – Tenten perguntou assim que o moreno levantou determinado do sofá
–- Falar com a Sakura – Mesmo sob protestos, ele subiu as escadas e entrou no quarto sem bater.
Ouviu o barulho do chuveiro, viu a camisa suja de sangue em cima da mesa e a segurou entre os dedos, aquilo o feria mais do que um tapa dado em seu próprio rosto, mas ele sabia bem disso desde a infância.
17 ANOS ANTES
Fazia alguns meses que ambos se conheciam, no começo, pouco trocavam palavras, porém, com Sasuke fazendo parte do grupo, mesmo tão jovens, começaram a trocas farpas.
Brigavam por tudo, quem sentaria ao lado de quem no ônibus escolar, quando eles sabiam que terminariam sentados juntos, brigavam na fila da cantina da escola, principalmente porque o único salgado que possuía tomate, era o de frango, preferido de Sakura. Brigavam nas aulas de matemática e nas aulas de língua japonesa, pois eram as matérias que amavam e detestavam, brigavam porque estavam brigando sempre e principalmente, brigavam porque Sasuke sabia que assim, manteriam-se juntos para sempre.
Quando criança, ele tinha uma vaga ideia que odiava a amiguinha, mas não queria se separar dela, afinal, quem daria crédito a suas discussões infundadas? E também, quem protegeria Sakura quando ela precisasse?
Quando tinham 13 anos, alguns garotos começaram a caçoar da menina graças a sua testa e seus poucos quilinhos a mais, Sakura saiu do local chorando e Sasuke, impulsivo como era foi em sua defesa, mesmo que ela não fizesse ideia que ele assistia a cena. Quebrou o nariz de um, chutou a canela de outro e tomou uma suspensão de três dias, a rosada nunca soube o porque, mas mesmo que perguntasse, ele jamais responderia.
Um ano depois, quando ela partiu, ele trancou-se no quarto revoltado, eles haviam discutido na noite anterior e ele havia dito o que se arrependerá amargamente pelo resto da vida “Sim Sakura, talvez você tenha razão, talvez eu te odeie mesmo”, a rosada saiu desolada e na manhã seguinte, tomou um avião rumo a Portugal, sem adeus, sem explicações, sem uma segunda chance.
Os anos passaram, a adolescência chegou e com ela, as mulheres. Seu irmão, era inacessível para qualquer uma, pois Itachi estava mais preocupado em manter a boa aparência e os negócios da família em dia, já Sasuke, gostava de ser desejado, mas pouco desejava.
As paqueras começaram, várias bocas foram beijadas nas tantas e tantas festas que ele se metia, mas quando ele tentava dar algo mais de si e receber algo mais em troca, sempre desistia. Uma hora o motivo era a garota que falava demais, em outras o perfume que o enjoava, o cheiro do cigarro que o enojava, a malicia com que o tratavam e então ele notou, que aquilo tudo, não era para ele.
Deixou de cobiçar, mas não deixou de ser cobiçado, decidiu que seria economista, concluiu o ensino médio, concluiu a faculdade, começou a vida na empresa, quase se deitou com uma mulher, mas falhou miseravelmente ao ver a foto de Sakura em sua escrivaninha. Viu os amigos namorarem, noivarem, casarem e por todos esses anos manteve-se longe de qualquer relação próxima, pois lembrava-se bem como uma quebra de laços podia doer e como palavras erradas podiam dilacerar corações, das pessoas que ouviam e das que falavam.
Cresceu, assumiu um cargo importante, desistiu de tentar encontrar uma ficante, namorada, esposa até o dia que ela voltou, o muro de Berlin caiu sobre sua cabeça, lembrou-se das palavras ditas, se odiou por isso. Odiou Sakura por ter ido embora sem explicações, a odiou mais por ter voltado sem prévio aviso.
Fez o que nunca pensou fazer, se importou com alguém, noivou, se divertiu como a tempos não se divertia graças as discussões a torto e a direito que tinham, se confundiu por não entender seus próprios sentimentos e principalmente, se culpou, por um dia ter pensado odiar a única mulher que conseguia fazer seus dias diferentes e felizes.
***
–- O que faz aqui? – Sakura segurou com firmeza a toalha enrolada ao corpo, os cabelos caiam em cascatas molhadas pelos ombros, os olhos sutilmente arregalados pela presença do moreno em seu quarto.
–- Vim saber se esta bem – Agitou a camisa branca que continuava em suas mãos
–- Estou bem, obrigada! – Murmurou aproximando-se e puxando a camisa ensanguentada de suas mãos – Pode ir agora!
–- Dizem que é complicado tirar sangue de roupas – Sentou-se na poltrona verde água do quarto
–- Vou dar meu jeito! – Percebendo que ele não sairia do quarto, pegou a única roupa que havia sobrado na casa dos pais e vestiu, um pijama de malha, confortável, com um short curto e camisa de mangás longas, entrou no banheiro e quando saiu Sasuke mantinha-se imóvel – O que?
–- Por que você sempre quer dar um jeito nas coisas sozinha Sakura? – Perguntou direito, sem rodeios ou floreios
–- Porque sou assim Sasuke – Respondeu ainda juntando e filtrando as palavras – Porque há muitos anos não tenho ninguém para me ajudar a resolver as coisas, Tsunade e Jiraya foram bons tutores, mas era cada um por si – Viu-o levantando-se
–- Mas agora você tem a mim! – Murmurou rápido – Você não esta mais sozinha, posso te ajudar a dar um jeito nas coisas e...
–- Até quando Sasuke? Até nosso divórcio? – Respondeu ríspida – Não posso aprender a depender de alguém quando sei que no fim, eu estou e estarei sozinha.
–- Não complique as coisas! – Suspirou
–- Você que esta complicando tudo Sasuke – Sentou-se na cama – Isso... isso que estamos vivendo e passando são apenas negócios, bons negócios e nós sabemos disso.
–- Não são apenas negócios – Exaltou-se virando-se para ela e mexendo nos fios negros – Somos humanos Sakura, somos próximos, somos...amigos – Murmurou – Temos que proteger um ao outro, porque... porque mesmo que isso acabe, não nos deixaremos sozinhos.
–- Sasuke, eu não vou ficar aqui para sempre! – Respondeu e atingiu de forma cortante o Uchiha mais novo
–- Como?
–- Nunca... eu nunca tive a intenção de me estabelecer no Japão – Murmurou – Quando esse casamento acabar, quando...quando estivermos livres disso tudo, creio que a crise na Europa também tenha acabado, e eu vou voltar para lá.
–- Mas...
–- Você nunca entenderia Sasuke – Sussurrou – Nunca entenderia o quão difícil é continuar aqui depois... – As palavras morreram, mas Sasuke sabia o que ela queria dizer, depois do divórcio as coisas não seriam mais as mesmas, para que um casal termine, principalmente no Japão, deve haver um grande motivo. Sakura via as amigas felizes com seus noivos, contentes pelo seu casamento e ela mesma, enfiava-se dia a dia em um poço de infelicidade.
–- Sakura – Ajoelhou-se em sua frente e tomou-lhe as mãos que antes repousavam apertadas em cima dos joelhos
–- Desde que cheguei, venho criando apenas problemas – Voltou a encarar o chão – Como sempre fiz, tenho uma habilidade para angariar inimigos e bom, já contabilizo três – Sorriu
–- Não posso deixar que volte para a Europa – Falou de uma vez, aquilo que mais o incomodava – Te ver partindo novamente, Sakura, pense em quão doloroso pode ser, não só para mim, mas para seus pais também.
–- Todos podem voltar a acostumar-se com minha ausência – Sorriu levemente
–- Entramos nisso juntos, concordamos, bolamos um plano, arrumamos uma casa juntos, vamos escolher as coisas do casamento e nos casar, juntos Sakura – Finalizou com a voz um pouco mais baixa – Podemos trabalhar juntos, daqui em diante e por muito tempo e dos seus inimigos, pode deixar que eu dou um jeito, senão, não seria Uchiha Sasuke.
–- Você se trata na terceira pessoa como se fosse um Yakuza – Murmurou divertida – Sasuke, eu prometi, para mim e para você que levaria isso até o fim, e vou, mas quando o fim chegar, me prometa uma coisa.
–- Depende! – Sentou-se a seu lado na cama
–- Você me deixará partir!
–- Sakura, você é um pássaro muito fujão – Sibilou – Não posso prometer, porque talvez eu deva cortar suas asas – Levantou-se seguindo até a porta
–- E por que você faria isso? – Em pé, o encarou
–- Porque quanto mais eu penso, mais concluo que não posso deixa-la voando longe de mim – Encarou-a sério
–- Sasu... – Tentou falar, mas ele apenas lhe sorriu
–- Durma aqui hoje! – Abriu a porta ficando parado à soleira
–- Okay – Murmurou – Então me...
–- Nos vemos amanhã, boa noite Sakura. – Lhe lançou uma piscadela e fechou a porta do quarto
Sentou-se na cama ainda paralisada com a frase incompleta nos lábio "Então me dê motivos para ficar", mas o que ele havia dito, já não era um motivo? Aquilo havia sido talvez uma declaração? Sakura era muito boa com as palavras, tratava da hermenêutica na faculdade como ninguém, mas qualquer interpretação era dúbia quando tratava-se de Uchiha Sasuke, ele tinha tantas personalidades em uma só, era comunicativo quando queria, grosseiro a maior parte do tempo e agora, quando ela mais precisava que ele alimentasse o ódio que sentia, Sasuke havia tornado-se uma pessoa doce e dócil, gentil e amável...
–- Por Kami – Murmurou deitando-se e aconchegando-se entre os edredons macios e quentes, a cama era incomoda de tão vazia, mas mesmo assim, virou-se encarando a neve que caia e acumulava-se na janela para decidir, ou jogava duro com Sasuke ou era direta, não tinha opções, pois com ele sempre foi assim, ou é 8 ou 80.
***
–- Como esta Sakura? – Sayuri levantou-se aos tropeços, a maioria havia ido embora, restando apenas Harunos e Uchihas
–- Inteira – Sasuke respondeu objetivo
–- Uchiha Sasuke – Mikoto levantou-se chamando sua atenção – Seja claro.
–- Ela esta bem, com o rosto um pouco marcado, mas bem – Respondeu – Ela ficará aqui hoje, espero que cuide bem dela Sayuri-sama.
–- Cuidarei, amanha tínhamos algumas provas marcadas, mas acho que devemos adiar e...
–- Sakura não gostaria que adiassem nada, siga com o programado – Finalizou o moreno – Ela é mais forte do que vocês pensam – Deu as costas a todos dirigindo-se a porta – Boa noite!
–- Musuko, esta indo para casa? – Mikoto apoiou-se no sofá analisando as costas do filho.
–- Hai – Sorriu de cantou encarando-a sobre o ombro – Estou indo para minha casa mãe. – E saiu fechando a porta atrás de si, apertando o casaco sobre o corpo e andando até a residencia que dividia com a Haruno, porque, mesmo que não admitisse, por enquanto, em voz alta, aquela era sua casa, e nunca gostou tanto de voltar para algum lugar.
"Dê a quem você ama: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar."
Dalai Lama
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