Tudo Começou em Letras
5 Capítulo 5 — Através da Música
Adam chegou ao auditório alguns minutos antes do início do concerto. O espaço já estava parcialmente cheio, um burburinho baixo ocupando o ar como uma respiração coletiva. Reconheceu rostos espalhados; estudantes de outros cursos, alguns professores, gente que ele só conhecia de vista pelos corredores da universidade. Aquilo o deixou levemente tenso.
Ele puxou a touca um pouco mais para frente e escolheu um assento mais ao fundo, próximo à lateral. Não era um auditório grande o suficiente para se esconder de verdade, mas era o melhor que podia fazer. Sentou-se com cuidado, como se qualquer movimento mais brusco pudesse denunciá-lo.
Quando as luzes começaram a diminuir, o murmúrio foi cedendo lugar ao silêncio expectante. Adam apoiou as mãos no colo e respirou fundo.
Os estudantes de Música entraram pouco a pouco, ocupando seus lugares no palco. Ele os reconheceu imediatamente, mesmo tentando não fixar demais o olhar.
A garota que lhe entregara o panfleto — que ele descobriu se chamar Victoria — acomodou-se com o violoncelo entre as pernas, postura firme, expressão concentrada. Laurent sentou-se alguns lugares adiante, também com um violoncelo, a presença segura, quase arrogante. Marcel ajustava o tambor, impaciente, girando as baquetas entre os dedos. Miles tomou seu lugar ao piano, alinhando a postura com um cuidado que denunciava anos de prática.
E então, Vincent.
Ele surgiu com o violino em mãos, o instrumento repousando com naturalidade contra o corpo, como se fosse uma extensão dele. Adam sentiu algo apertar em seu peito, uma atenção involuntária que não conseguiu evitar. Vincent parecia diferente ali, menos casual.
Outros músicos se juntaram ao grupo, completando a orquestra. O maestro entrou por último, sob aplausos contidos, fez um breve aceno e levantou a batuta.
A primeira nota se espalhou pelo auditório como uma respiração profunda.
Adam se deixou levar quase imediatamente. As músicas se sucediam, e sua mente começou a preencher os sons com cenas conhecidas das quais ele se lembrava da obra. Ele não estava mais sentado numa cadeira; estava dentro da história.
Em uma das peças, o violino ganhou destaque.
O som era limpo, preciso, e ao mesmo tempo carregado de uma tristeza profunda, quase delicada demais para ser sustentada. As notas se elevavam com clareza, cortando o ar, e Adam sentiu algo se quebrar devagar dentro dele. Não era apenas beleza, era uma dor silenciosa, uma melancolia que parecia entender coisas que ele nunca tinha sabido explicar.
Ele respirou fundo, mas não conseguiu conter.
Uma lágrima escorreu, discreta, pelo canto do rosto. Adam não se mexeu para limpá-la. Ali, na penumbra do auditório, escondido sob a touca e entre desconhecidos, ninguém reparou.
E enquanto o violino seguia, conduzindo a música com uma intensidade quase íntima, Adam teve a certeza de que aquela noite já tinha mudado algo dentro dele.
***
Quando a última nota se dissolveu no ar, o silêncio durou apenas um segundo antes de ser preenchido pelos aplausos. Adam bateu palmas junto com o restante do auditório, sentindo as mãos ainda levemente trêmulas. Os músicos se levantaram, alguns sorrindo, outros visivelmente aliviados, e se curvaram em agradecimento sob a luz quente do palco.
Adam acompanhou o movimento quase sem perceber, os olhos percorrendo o grupo até repousarem, inevitavelmente, em Vincent.
Ele segurava o violino junto ao corpo, o arco pendendo relaxado ao lado, o rosto sereno depois do esforço. Por um instante breve demais, Vincent ergueu o olhar e pareceu olhar diretamente para Adam.
O coração dele deu um salto involuntário. O tempo pareceu desacelerar, como se aquele segundo tivesse se estendido além do possível. Adam sentiu um calor súbito subir pelo rosto e desviou o olhar quase imediatamente, o impulso de se esconder falando mais alto.
“Que bobagem”, pensou. Estava deixando a imaginação correr solta por causa de um concerto e de um som bonito.
Havia muitas pessoas ali. Muitas fileiras. Muitas cabeças entre eles. Não fazia sentido pensar que Vincent o teria notado em meio àquela plateia. Ainda assim, quando arriscou olhar de novo, Vincent já conversava com outro músico, como se nada tivesse acontecido.
Os aplausos diminuíram, as luzes começaram a se acender, e o auditório voltou ao seu murmúrio habitual. Adam esperou as pessoas começarem a sair antes de se levantar.
Depois, ele saiu por uma das portas laterais e seguiu pelo campus já mergulhado na noite. As construções antigas recortavam o céu escuro, iluminadas por postes que projetavam sombras longas no caminho de pedra. O vento estava frio, e ele puxou o capuz novamente, caminhando sem pressa.
A música ainda ecoava dentro dele.
O corredor do dormitório estava silencioso. Entrou no quarto e constatou o óbvio: Finn não estava ali. A cama vazia, o casaco ausente, nenhum sinal de que ele tivesse passado por ali desde mais cedo.
Provavelmente ainda estava na vida noturna da cidade, junto com Tyler e Min-su, rindo alto em algum pub lotado.
Adam largou o casaco na cadeira e sentou-se na própria cama. O silêncio daquela noite era diferente. Não era pesado. Era atento.
Ele deitou, encarando o teto, e deixou que a lembrança do violino — e daquele olhar que talvez não tivesse sido real — o acompanhasse enquanto a madrugada se aproximava.
***
Adam acordou com a sensação estranha de que algo não estava exatamente no lugar certo.
Virou o rosto ainda meio sonolento e foi quando percebeu: Finn e Tyler dormiam na mesma cama. Espalhados, desalinhados, ocupando o espaço um do outro sem o menor cuidado. Tyler estava de lado, um braço jogado por cima do travesseiro, o esmalte preto ainda intacto nas unhas. Finn dormia de barriga para cima, a boca levemente aberta, o cabelo ainda mais bagunçado do que o normal.
Adam piscou algumas vezes, tentando processar a cena.
Ele se sentou devagar, cuidando para não fazer barulho, e pegou suas coisas para ir ao banheiro. Precisava jogar água no rosto. Precisava acordar de verdade. Talvez aquilo fosse apenas uma interpretação confusa do sono.
No banheiro, lavou o rosto com água fria e se encarou no espelho por alguns segundos. Parecia normal. A cena, aparentemente, também era.
Quando voltou para o quarto, encontrou Finn se mexendo, os olhos semicerrados, claramente acordando aos poucos. Tyler continuava imóvel.
Finn levou alguns segundos até focar em Adam parado perto da cama.
— Ugh… — murmurou, passando a mão pelo rosto. — O que foi?
Adam cruzou os braços, apontando levemente com o queixo para a cama.
— Eu só… acordei e vi isso — disse, olhando de relance para Tyler. — O que aconteceu?
Finn soltou uma risada baixa, rouca, ainda grogue, e se virou de lado.
— Relaxa. Nada do que você está pensando.
— Eu não disse nada — Adam respondeu, neutro.
— Mas pensou — Finn rebateu, abrindo um sorriso debochado. — A noite foi longa, o pub fechou, ele tava bêbado demais pra atravessar o campus inteiro e essa cama era a mais próxima. Só isso.
Ele bocejou, esticando os braços e continuou:
— Eu nunca ficaria com ele. Se bem que talvez ele ficasse profundamente ofendido se ouvisse isso — riu.
Adam balançou a cabeça, escondendo um meio sorriso, enquanto Tyler se mexia levemente na cama, completamente alheio à conversa. Adam relaxou a postura e encostou-se na escrivaninha, cruzando os braços com menos tensão.
— E aí… como foi a noite? — perguntou, num tom casual demais para quem realmente queria parecer desinteressado.
Finn passou a mão pelo rosto outra vez, agora mais desperto, e um sorriso lento foi se formando.
— Foi boa. Melhor do que eu esperava, pra ser sincero. A gente riu muito — disse. — Muito mesmo. Em algum momento começamos a conversar com uns gringos completamente aleatórios. Zoamos demais.
Adam soltou um riso baixo.
— Imagino o caos.
— Total. E, por incrível que pareça — Finn continuou, abaixando um pouco a voz — o Tyler não pegou ninguém.
Adam ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Nenhuma pessoa?
— Nenhuma. — Finn fez um gesto dramático com a mão. — Ficou com a gente a noite toda. Bebeu, reclamou da música, julgou a roupa das pessoas… foi quase um momento de união coletiva.
Como se tivesse sido invocado, Tyler resmungou algo incompreensível e virou o rosto para o outro lado, abraçando o travesseiro. O esmalte preto brilhou levemente quando seus dedos se mexeram.
Finn e Adam trocaram um olhar cúmplice antes de rirem baixo, para não acordá-lo de vez.
— Ele vai negar tudo quando acordar — Finn murmurou. — Vai dizer que foi embora cedo e que a noite foi “mediana”.
— Claro que vai — Adam concordou.
O quarto ficou em silêncio por alguns segundos, quebrado apenas pela respiração pesada de Tyler. Finn então inclinou a cabeça, observando Adam com mais atenção, o sorriso ganhando um ar levemente provocador.
— E você? — perguntou. — Como foi a empolgante noite revisando o trabalho?
Adam sentiu a pergunta pousar sobre ele com mais peso do que deveria. Pensou no auditório, no violino, na música ainda ecoando em algum lugar dentro dele. Desviou o olhar por um instante.
— Foi… tranquila — respondeu, por fim. — Deu pra adiantar bastante coisa.
Finn apenas assentiu, ainda sorrindo, aceitando a resposta.
***
No dia seguinte, a sala de aula estava cheia demais para uma manhã de segunda-feira. O burburinho dos alunos se espalhava enquanto o professor ainda não chegava, e o grupo ocupava duas fileiras próximas, livros abertos mais por hábito do que por real atenção.
Adam observava Tyler com uma calma suspeita.
Tyler estava impecável como sempre; casaco bem ajustado, expressão entediada, cabelos loiros bem alinhados. Finn, ao lado dele, parecia estranhamente satisfeito com a vida, balançando a perna enquanto conversava com Min-su sobre alguma coisa irrelevante.
Adam inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Dormiu bem, Tyler?
Tyler nem levantou os olhos.
— Considerando que o mundo insiste em existir às segundas-feiras? Não.
— Curioso — Adam continuou, com uma tranquilidade perigosa. — Porque quando eu acordei ontem, você parecia bem confortável.
Finn parou de falar no meio da frase.
Isabelle virou o rosto lentamente.
Min-su franziu a testa, confuso.
— Do que ele está falando? — Min-su perguntou.
Tyler finalmente encarou Adam.
— Adam — disse, num tom baixo e ameaçador. — Seja muito cuidadoso com o que você vai dizer agora.
Adam sorriu, raro e claramente satisfeito.
— Só achei curioso você e o Finn dividindo a mesma cama. Bastante… íntimo.
Um segundo de silêncio.
Depois, risadas.
— NÃO — Tyler reagiu imediatamente, fazendo uma careta exagerada. — Pelo amor de tudo que é sagrado, não. Isso é repulsivo.
— Repulsivo? — Finn fingiu ofensa. — Eu sou um excelente companheiro de cama.
— Você ronca — Tyler retrucou. — E se mexe demais.
A sala explodiu em risadas. Isabelle levou a mão à boca, tentando conter o riso, enquanto Min-su balançava a cabeça, divertido.
— Eu só estou dizendo — Adam completou, com falsa inocência — que, para quem costuma sair acompanhado, foi uma imagem bastante… sugestiva.
— Eu vou vomitar — Tyler declarou.
Todos riem novamente. Tyler continua:
— E quero deixar algo muito claro: isso nunca mais vai acontecer. Nunca mais durmo com nenhum de vocês. Nem por acidente. Nem bêbado. Nem se o campus pegar fogo.
— Nossa, que exagero — Finn comentou, divertido. — Foi só uma cama.
— Foi um erro histórico — Tyler rebateu.
Isabelle já ria abertamente, apoiada na cadeira.
— Eu adoro como você fala como se tivesse cometido um crime.
— Porque foi — Tyler respondeu. — Contra mim mesmo.
O professor pigarreou à frente da sala, e o grupo finalmente se aquietou, embora os risos ainda escapassem em cochichos. Tyler cruzou os braços, emburrado, enquanto Adam se acomodava na cadeira, com a clara sensação de vitória.
Ele definitivamente não se arrependeria disso.
***
Mais tarde, Adam seguiu sozinho para a biblioteca.
O domingo tinha passado rápido demais; rápido e intenso; e ele tinha devorado O Fantasma da Ópera como se estivesse reencontrando uma parte antiga de si mesmo. Agora, o livro descansava sob seu braço.
A biblioteca estava tranquila. Adam caminhou até a estante correta, passando os dedos pelos lombos conhecidos, até encontrar o lugar exato. Antes de devolvê-lo, hesitou por um segundo, segurando o livro com cuidado.
Depois, encaixou-o de volta na prateleira.
Virou-se para ir embora, tentando ignorar o eco persistente da música, do violino e da sensação incômoda de que aquela história ainda não tinha terminado para ele.
***
Saindo da biblioteca, Adam seguiu sem pressa pelas ruas conhecidas, os fones de ouvido abafando a cidade ao redor. Escolheu o Stephen’s Green quase por hábito; o parque sempre lhe oferecia uma espécie de silêncio organizado, árvores alinhadas, caminhos previsíveis. Um lugar onde os pensamentos podiam andar sem tropeçar uns nos outros.
Sentou-se em um banco, fechou os olhos por alguns minutos e deixou a música preencher o espaço que os últimos dias tinham aberto dentro dele.
Foi quando sentiu a primeira gota.
Depois outra.
E outra.
Adam abriu os olhos a tempo de ver o céu escurecer de vez. Tirou os fones às pressas, levantou-se e começou a correr assim que a chuva engrossou, xingando mentalmente a própria falta de previsão. Não estava com guarda-chuva.
Parou ofegante sob a marquise de um prédio próximo, a chuva já despencando pesada, barulhenta, transformando a calçada em um espelho irregular. Passou a mão pelo cabelo, tentando inutilmente se recompor.
Só então percebeu que não estava sozinho.
À sua direita, encostado na parede, havia um homem fumando. O cheiro de tabaco chegou antes mesmo que Adam levantasse o olhar. Quando levantou, o coração deu um salto imediato.
Vincent.
Ele estava com um casaco escuro, o cabelo escuro levemente desalinhado pela umidade, o cigarro preso entre os dedos com naturalidade. O rosto parecia mais sério fora do palco, menos distante, mas igualmente difícil de ignorar.
Adam desviou o olhar no mesmo instante, como se tivesse sido flagrado fazendo algo errado.
Ótimo, pensou. Absolutamente perfeito.
Amaldiçoou a chuva em silêncio, amaldiçoou o parque, amaldiçoou o próprio hábito de andar sem guarda-chuva. Ficou observando a água cair, fingindo um interesse profundo pelas poças que se formavam no chão.
O tempo passou devagar. O barulho da chuva ocupava tudo.
Então, sem olhar diretamente para ele, Vincent falou:
— Você gostou do concerto no sábado?
Adam sentiu o corpo inteiro enrijecer.
O coração acelerou de um jeito quase ridículo. Ele piscou, tentando ganhar tempo, e virou o rosto devagar demais para alguém que claramente tinha sido pego de surpresa.
— Do… concerto? — repetiu, como se a pergunta não fizesse sentido.
Vincent deu uma tragada no cigarro e, dessa vez, olhou para ele. Havia algo tranquilo em sua expressão, quase curioso.
— Você estava lá.
Adam engoliu em seco.
— Eu achei que… — começou, parando no meio da frase. — Quero dizer, o auditório estava cheio.
Vincent soltou uma risada baixa, curta, mais pelo nariz do que pela boca. Não disse nada de imediato. Apenas desviou o olhar para a chuva.
O silêncio caiu de novo entre eles, pesado o suficiente para Adam perceber o próprio rubor subindo pelo rosto. Sentiu o calor nas orelhas, no pescoço, aquela sensação incômoda de ter sido observado mais do que gostaria.
Vincent apagou o cigarro no cinzeiro improvisado da parede e, só então, voltou a falar:
— É difícil te ver sem aqueles amigos — comentou, com naturalidade. — Você quase sempre está com eles.
Adam soltou uma risada sem graça.
Ele passou a mão pelo bolso do casaco, sem saber muito bem o que fazer com o próprio corpo. A chuva continuava caindo forte, como se não tivesse intenção alguma de acabar tão cedo.
Ficaram em silêncio outra vez.
Não era um silêncio desconfortável, mas era denso. Adam sentia as palavras se acumulando, pedindo passagem. Respirou fundo, como quem toma uma decisão pequena, porém definitiva.
— Eu gosto de O Fantasma da Ópera — disse, por fim, olhando para a rua, não para Vincent. — Muito.
A confissão saiu simples, quase tímida, mas carregada de algo mais profundo do que ele pretendia revelar.
Vincent inclinou levemente a cabeça, atento. Ele apenas assentiu, de leve, como se aquela confissão se encaixasse perfeitamente em algo já esperado.
A chuva começou a ceder aos poucos. O som pesado foi se diluindo até virar um gotejar irregular, menos urgente. O ar parecia mais leve, quase limpo.
Vincent olhou para fora, avaliando o céu, e ajeitou o casaco nos ombros.
— Terão outros concertos — disse, simples. — Em breve.
O tom era calmo demais para ser um convite. Soava mais como uma certeza.
— Te vejo no auditório.
Não havia pergunta na frase.
Aquilo incomodou Adam mais do que deveria. A maneira como Vincent dizia, como se sua presença fosse óbvia, inevitável, despertou nele uma resistência imediata. Um impulso silencioso de discordar, de provar que não era tão previsível assim.
Antes que pudesse responder, ou mesmo decidir se queria, Vincent já se afastava, caminhando pela calçada ainda molhada, misturando-se às pessoas que retomavam seus caminhos agora que a chuva dava trégua.
Adam permaneceu sob a marquise por alguns segundos, observando-o desaparecer.
Contra sua própria vontade, a ideia de outros concertos se instalou em sua mente com uma facilidade inquietante.
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