Tudo Começou em Letras
6 Capítulo 6 — Noites Brancas
O fim da aula veio acompanhado do arrastar de cadeiras e do burburinho habitual no corredor. Adam guardou o caderno com cuidado, ainda preso a um pensamento que o professor deixara escapar durante a explicação, enquanto Finn já se levantava impaciente, jogando a mochila sobre um ombro. Tyler falava qualquer coisa sobre a aula ter sido desnecessariamente longa, e Min-su apenas escutava, tranquilo, ajustando a alça da bolsa.
Saíram juntos para o corredor amplo, iluminado pela luz pálida da tarde.
Foi então que os viram.
Do outro lado, caminhando em formação quase casual, estavam Miles, Vincent, Laurent e Marcel. Era impossível não reconhecê-los; talvez pela maneira como ocupavam o espaço, talvez pelo histórico que ainda pairava entre os dois grupos como uma névoa mal resolvida.
Adam sentiu o estômago se contrair antes mesmo de perceber conscientemente o motivo.
Marcel foi o primeiro a notar a presença deles. Seu sorriso surgiu rápido, enviesado, daquele tipo que não carregava exatamente simpatia. Mais um gesto calculado do que cordial.
Finn, imediatamente, desviou o olhar. O corpo se fechou num movimento automático, os ombros levemente tensos, como se aquela simples proximidade fosse um incômodo físico. Ele manteve os olhos fixos à frente, fingindo interesse em algo inexistente no corredor.
Adam percebeu.
E percebeu também Vincent.
O violinista olhou diretamente para ele por um breve segundo, tempo suficiente. Adam sentiu o impulso imediato de desviar o olhar, e o fez, rápido demais para parecer natural. Fixou os olhos no chão, depois em algum cartaz na parede, qualquer coisa que não fosse aqueles olhos verdes.
Tyler, como sempre, não teve filtro.
— Olha só — disparou, a voz carregada de irritação. — A banda do trauma coletivo resolveu fazer turnê pelo campus agora?
Marcel soltou uma risada curta. Laurent ergueu uma sobrancelha, pouco interessado. Miles continuou andando, o rosto impassível, como se Tyler fosse apenas um ruído de fundo.
— Cuidado — Marcel respondeu, com falsa leveza. — Vai acabar se apaixonando.
— Apaixonar? — Tyler respondeu na hora, parando de andar e se virando de vez para eles, a irritação transbordando sem esforço. — Fica tranquilo. Meu gosto é muito melhor do que isso.
Ele fez um gesto vago com a mão, como se dispensasse algo sem valor.
O sorriso de Marcel não desapareceu, mas ficou mais rígido. Laurent desviou o olhar, claramente desinteressado em prolongar a cena. Miles seguiu em frente, sem dizer uma palavra, como se aquela troca não merecesse sequer um segundo de atenção.
Vincent, porém, lançou mais um olhar rápido, não para Tyler, nem para Finn, mas para Adam. Um olhar breve demais para ser um confronto, longo demais para ser acidental.
Adam sentiu o peito apertar e desviou outra vez, desta vez com raiva de si mesmo.
Finn não disse nada. Apenas acelerou o passo, como se cada segundo ali fosse um erro. Adam o acompanhou, e Tyler, ainda bufando, acabou seguindo também.
Os dois grupos se afastaram em direções opostas, o corredor retomando seu ritmo normal, mas a sensação deixada pelo encontro não se dissipou com a mesma facilidade.
— A audácia — Tyler resmungou assim que se afastaram o suficiente para não serem ouvidos. — A cara de pau. Eu juro que, às vezes, eles agem como se o campus fosse deles.
Min-su soltou um suspiro calmo, ajustando novamente a alça da bolsa no ombro.
— Você precisa se controlar um pouco mais — disse, num tom tranquilo, mas firme. — Não vale a pena comprar briga por causa deles.
— Eu não estava comprando briga — Tyler rebateu. — Só deixando claro que não engulo desaforo.
Finn não comentou nada. Caminhava com o olhar fixo à frente, os passos ligeiramente mais rápidos do que o normal. Havia algo tenso em sua postura, uma rigidez que não combinava com o jeito expansivo de sempre. Não era raiva, era desconforto.
Adam percebeu.
Ele acompanhou o ritmo do amigo sem dizer nada, caminhando ao seu lado, numa presença silenciosa.
***
A biblioteca estava quase vazia quando Adam percebeu que já passava das nove da noite. As lâmpadas do teto lançavam uma luz amarelada e cansada sobre as mesas, e o silêncio era pontuado apenas pelo virar ocasional de páginas e pelo som distante de passos entre as estantes.
Ele estava concentrado no notebook, revisando o trabalho sobre Crime e Castigo. Tinha reescrito o mesmo parágrafo três vezes, ajustando frases, cortando excessos. Agora, finalmente, sentia que o texto começava a se fechar de forma satisfatória.
Foi quando sentiu alguém passar atrás dele.
Houve uma mudança súbita no ar. Adam manteve os olhos na tela por instinto, mas o corpo enrijeceu antes mesmo de identificar quem era.
Vincent.
Ele reconheceu pelo reflexo sutil na tela do notebook: o casaco escuro, o movimento calmo, o jeito despreocupado de quem não tinha pressa nenhuma. Vincent seguiu adiante, entre as mesas, como se a biblioteca também lhe pertencesse àquela hora.
Adam tentou ignorar. Forçou-se a voltar ao texto, releu uma frase sem absorver nada. O cursor piscava no fim do parágrafo, impaciente.
Depois de alguns minutos inúteis, fechou o notebook com cuidado excessivo, como se qualquer ruído pudesse denunciar sua irritação. Guardou as coisas devagar, respirou fundo e se levantou. Precisava ir embora. Aquela noite já tinha se estendido demais.
No corredor entre as estantes, antes que pudesse alcançar a saída, ouviu uma voz atrás de si.
— Crime e Castigo, né?
Adam parou por um segundo, os ombros tensos. Virou-se apenas o suficiente para confirmar o óbvio.
Vincent estava encostado numa das estantes, com um livro qualquer na mão, observando-o com aquela mesma expressão tranquila demais.
— É — respondeu Adam, seco. — Trabalho do curso.
— É um dos melhores de Dostoiévski.
Adam franziu levemente a testa, surpreso.
— Você… gosta de ler? — perguntou, antes que pudesse se impedir.
Vincent arqueou uma sobrancelha, claramente divertido. Em vez de responder de imediato, fez um gesto amplo com a mão, indicando o espaço ao redor: as estantes altas, as mesas espalhadas, o silêncio denso da biblioteca quase vazia.
— Estamos numa biblioteca — disse, com um meio sorriso. — Seria estranho se eu estivesse aqui por outro motivo.
Adam sentiu o rosto esquentar na mesma hora. Percebeu tarde demais como a pergunta tinha soado, simplista, quase boba. Apertou a alça da mochila no ombro, irritado consigo mesmo.
Ele desviou o olhar, encarando o corredor como se a saída estivesse mais distante do que realmente estava.
— Eu preciso ir — disse, num tom baixo, definitivo.
— Antes de ir… — Vincent acrescentou, sem pressa. — Acabei de terminar Noites Brancas.
Ele ergueu levemente o livro que segurava, como se aquilo justificasse a interrupção. Então, perguntou:
— Você tem alguma recomendação boa? Estou pensando em começar outro livro.
Adam soltou uma respiração curta, quase impaciente.
— Eu… não deveria nem estar aqui conversando com você — respondeu.
Vincent riu de leve, um som contido que ecoou demais naquele silêncio.
— Isso é por causa do seu amigo?
Foi o suficiente.
Adam ergueu o olhar, agora duro, a irritação finalmente visível.
Virou-se sem responder e seguiu pelo corredor, o passo rápido, quase ríspido. Não olhou para trás. O som dos próprios passos parecia alto demais, denunciando o quanto aquela conversa — breve, desnecessária, evitável — tinha mexido com ele.
***
O semestre avançava de forma quase imperceptível, entre trabalhos, leituras, cafés improvisados e risadas com os amigos. Adam tentava se manter na rotina, mas a lembrança do último concerto e dos encontros fortuitos com Vincent ainda pairava em sua mente como uma nota prolongada que se recusa a terminar.
Quando soube de um novo concerto clássico marcado para o auditório da universidade, sentiu o mesmo aperto no peito. Hesitou. Pensou em inventar desculpas, em se convencer de que tinha coisas mais importantes a fazer. Mas, de alguma forma, aquela sensação de curiosidade insistente não o deixava em paz.
Nos dias que antecederam o evento, percebeu que não tinha visto Vincent pelos lugares que costumava frequentar. Não no estúdio de música, nem nos corredores entre as aulas, nem na biblioteca. A ausência deixou um espaço estranho, um silêncio súbito em meio à sua rotina usual.
Em uma tarde qualquer, enquanto Finn revisava alguns cadernos na sala comum do dormitório, Adam falou rapidamente:
— Preciso sair rapidinho. — O tom era casual, quase automático.
Finn levantou os olhos, mas não insistiu nem perguntou. Só fez um gesto com a mão, indicando que estava tudo bem. Adam sorriu de leve e se retirou, sentindo a adrenalina da expectativa misturada a uma pontada de nervosismo.
O auditório estava cheio, mas não ao ponto de sufocar. As luzes suaves, a disposição impecável das cadeiras e o aroma levemente envelhecido da madeira criavam uma atmosfera quase religiosa. Adam encontrou um lugar discreto, no fundo, como de costume, e sentou-se. Ajustou a mochila ao lado, tirou o casaco e fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
Quando o primeiro acorde ecoou, tudo ao redor pareceu desaparecer. Cada nota era precisa, cada pausa carregada de tensão e significado. Ele se perdeu na música, nas mãos dos músicos, nos olhares do maestro que comandava com a quietude de quem controla o tempo e o espaço.
E então seus olhos encontraram Vincent. O violinista estava ali, imerso em cada movimento, cada gesto, a postura perfeita, os dedos deslizando com uma destreza quase sobrenatural. Adam não conseguiu desviar o olhar imediatamente; havia algo hipnótico na forma como Vincent tocava, na concentração e na paixão evidente em cada nota. Por um instante que pareceu se estender para além do tempo, ele permaneceu ali, absorvendo não apenas a música, mas também a presença de Vincent em meio ao concerto.
A noite inteira passou em um estado quase meditativo. Adam não pensou em trabalhos, não refletiu sobre os amigos ou qualquer outro detalhe da vida cotidiana. A música preenchia cada espaço, cada pensamento, cada canto da sua mente. Ele se permitiu, finalmente, absorver a experiência de forma completa, sem pressa, sem distrações, completamente e majestosamente envolvido pelo concerto.
Quando a última nota caiu, um silêncio respeitoso se instaurou antes do aplauso. Adam permaneceu ali por um instante, absorvendo o eco do som ainda retido no ar, e sentiu uma estranha mistura de paz e expectativa pelo que ainda estava por vir. E, mesmo depois de todo o concerto, seu olhar, involuntariamente, procurava Vincent.
***
Adam empurrou a porta do banheiro com cuidado, agradecendo mentalmente por o espaço estar vazio. O silêncio era quase reconfortante depois da intensidade do concerto. Lavou as mãos, olhou para o próprio reflexo, tentando processar o que ainda reverberava dentro dele. O coração ainda batia acelerado, como se a música e a presença de Vincent tivessem deixado um eco permanente em seu peito.
Ao abrir a porta para sair, o choque: Vincent estava ali, encostado na parede do corredor. A luz fraca do local criava sombras em seu rosto, realçando os traços que Adam conhecia tão bem.
— Você veio — disse Vincent, a voz calma, quase provocativa.
Adam paralisou por um instante. Não respondeu. Apenas começou a se afastar, tentando ignorar o nó no estômago. Mas antes que pudesse se mover totalmente, Vincent segurou seu braço. Adam se virou, olhos arregalados, buscando entender o que ele queria.
O silêncio entre os dois foi pesado.
Num movimento rápido, porém controlado, Vincent empurrou Adam contra a parede do corredor estreito. A proximidade imediata dele fez Adam prender a respiração. O olhar de Vincent estava fixo, intenso, e o mundo pareceu se reduzir àquele instante.
E então, os lábios de Vincent tocaram os de Adam. O beijo começou firme, com uma certa urgência, mas logo se tornou mais intenso, mais profundo. Havia calor, havia fome, havia algo que Adam não sabia como descrever. Cada contato, cada pressão dos lábios, cada pequena hesitação ou insistência de Vincent parecia explorar e incendiar algo dentro dele. Adam sentiu o corpo tremer, a cabeça girar, o coração disparar como se quisesse escapar do peito.
Ele ficou estupefato, sem saber como reagir, perdido entre a surpresa e a excitação. O rubor subiu até as orelhas, queimando sua pele, tornando cada respiração mais difícil. Até Vincent pareceu surpreso por um instante, seus olhos abrindo-se ligeiramente antes de fechar novamente, retomando o beijo com a mesma intensidade.
Quando finalmente se separaram, a respiração de Adam estava irregular, os joelhos levemente bambos. Vincent olhou para ele por um segundo, a expressão séria e intensa, antes de soltar seu braço e se afastar sem dizer mais nada.
Adam permaneceu encostado na parede, sozinho no corredor escuro, recuperando o fôlego, tentando organizar os pensamentos que se recusavam a se acalmar. O mundo parecia ter parado por alguns instantes, e ainda assim, tudo continuava a girar dentro dele.
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