Tudo Começou em Letras

4 Capítulo 4 — Ruídos de Fundo


Tyler caminhava ao lado de Adam com passos largos e uma indignação que parecia inesgotável.

— É revoltante — dizia, gesticulando com as mãos. — Uma tarde inteira presa em trabalho acadêmico. Trabalho! Enquanto Dublin está aí, linda, viva, implorando pra ser explorada por mim.

Adam sorriu de leve.

— Você escolheu Letras — lembrou, com suavidade. — Trabalhos fazem parte do pacote.

— Eu escolhi literatura, não tortura — Tyler rebateu. — A professora Lucy claramente sente prazer em ver jovens promissores definharem entre referências bibliográficas.

Adam sorriu de leve, mas não respondeu. Caminhavam sem destino definido, apenas seguindo o fluxo das ruas próximas ao campus, desviando de turistas e estudantes apressados.

Foi então que ele parou.

O pôster estava colado num mural antigo, meio torto, preso por fita adesiva já começando a se soltar. O papel era escuro, com letras claras anunciando um concerto especial inspirado em O Fantasma da Ópera. Uma adaptação musical, execução ao vivo, no sábado à noite no auditório da universidade.

Tyler percebeu a ausência ao lado e voltou alguns passos.

— O que foi?

Seguiu o olhar de Adam até o pôster e fez uma careta imediata.

— Ah, não. Esse pessoal da música acha mesmo que alguém quer ouvir isso? Deve ser um massacre sonoro. Meus ouvidos não sobreviveriam.

Adam soltou um meio sorriso, fingindo concordar.

— É… — disse, com um leve desdém ensaiado. — Deve ser terrível.

Mesmo assim, Adam continuou olhando. O título ecoou nele de forma inesperada, trazendo lembranças antigas: noites silenciosas em Ennistymon, o livro apoiado no peito, a sensação de isolamento que, paradoxalmente, o fazia se sentir compreendido. Havia algo naquele universo que o atraía.

Talvez pudesse ir…

Porém, a ideia morreu antes de se formar por completo.

A imagem de Finn veio logo em seguida, pesada demais para ser ignorada. O olhar baixo, o constrangimento que ainda surgia em encontros inesperados. As risadas cruéis naquele fatídico dia no bar. A forma como aquele grupo transformara seus sentimentos em piada.

Adam sentiu o maxilar se tensionar.

Não.

Ele não podia nem cogitar atravessar aquele território.

— Vamos — disse, virando-se para Tyler. — Antes que você arranje mais um motivo pra odiar seu curso.

Tyler suspirou, dramático.

— Tarde demais pra isso.

Eles retomaram o caminho, deixando o pôster para trás. Adam não olhou outra vez.


***


O caminho até a biblioteca costumava ser automático para Adam. Os mesmos corredores, as mesmas portas, o mesmo ritmo silencioso que o ajudava a organizar os pensamentos antes mesmo de abrir um livro. Naquela tarde, porém, algo o fez diminuir o passo.

Um som.

Vinha de uma das salas laterais do prédio de artes, uma melodia que escapava pela porta entreaberta, fina e precisa. Um violino. Não era alto, nem exibido. Pelo contrário: havia algo contido ali, quase íntimo, como se a música não estivesse sendo tocada para um público, mas para quem tivesse disposição de escutar.

Adam parou.

Por alguns segundos, ficou apenas ali, com a mochila pendendo de um ombro, sentindo o som atravessá-lo sem pedir licença. Era bonito. Irritantemente bonito. Ele deu um passo para mais perto da porta e, num impulso que não soube explicar, inclinou o corpo o suficiente para olhar para dentro.

A sala estava ocupada por alguns estudantes, cada um concentrado no próprio instrumento ou partitura. No centro, ligeiramente afastado, estava Vincent.

O violino repousava firme entre seu ombro e o queixo, e o arco se movia com segurança, sem pressa. Seus olhos verdes estavam focados à frente, atentos a algo que Adam não conseguia ver, talvez o maestro, talvez apenas a música. Havia uma serenidade nele que contrastava com a lembrança seca da biblioteca, do “algum problema?” dito dias antes entre estantes.

Adam sentiu o estômago se contrair levemente.

Antes que pudesse se afastar, ouviu alguém chegando por trás. Era uma garota de cabelos curtos e pretos, ajustando o casaco. Ele se lembrava vagamente dela.

Ela chegou quase esbarrando nele.

— Ah — disse ela, surpresa. — Desculpa. É que estou atrasada.

— Não, eu… tudo bem — Adam respondeu, rápido demais.

Ela o observou por um instante, como se o reconhecesse vagamente.

— Você é de Letras, né?

Adam assentiu.

— Sim.

Ela sorriu, aberta, e puxou alguns folhetos da bolsa.

— Pega um. — Estendeu um papel para ele. — Concerto de sábado. O Fantasma da Ópera. A gente vai tocar no auditório da universidade.

Adam hesitou por um segundo antes de aceitar. O nome no papel pareceu pulsar sob seus dedos.

— Eu… — começou, sem saber exatamente o que diria.

— Vai ser bonito — ela completou, com naturalidade. — Mesmo pra quem não é da música.

Ela se despediu com um aceno e entrou dentro da sala, fechando a porta. A música continuou, agora mais abafada.

Adam ficou parado por alguns segundos, segurando o folheto. O som do violino ainda escapava pelas frestas, insistente.

Ele olhou para o papel outra vez.

Sábado.

E, sem perceber, permaneceu ali tempo demais antes de finalmente seguir para a biblioteca, levando consigo uma inquietação nova, difícil de ignorar.


***


O sábado chegou envolto naquele clima típico de Dublin, nublado demais para ser triste, claro demais para ser melancólico. Adam passou a manhã inteira com uma sensação incômoda de expectativa.

No fim da tarde, estava no quarto que Tyler dividia com Kyle. O espaço tinha uma desordem cuidadosamente assumida: roupas jogadas sobre a cadeira, livros empilhados sem critério e o cheiro fraco de café frio misturado com algum perfume indefinido. Kyle ocupava sua mesa, de fones de ouvido, concentrado em algo na tela do computador, tão silencioso quanto sempre.

Tyler, por outro lado, estava sentado na beira de sua cama, uma perna cruzada sobre a outra, concentrado em pintar as unhas de preto com uma precisão quase artística. Suas mãos finas e delicadas se moviam devagar, como se aquele ritual fosse parte essencial da preparação para a noite.

— Se eu borrar, vou culpar vocês — avisou, sem levantar os olhos. — Energia negativa atrapalha a estética.

Finn estava sentado do outro lado da cama de Tyler, mexendo no celular.

— Estética questionável — provocou.

— Inveja é feio, Finn.

Isabelle sentava-se na cadeira próxima à janela, folheando distraidamente um livro, observando a rua lá embaixo de vez em quando. Min-su ocupava o chão, encostado na parede, sorrindo mais do que o habitual.

— Estou oficialmente de folga hoje — anunciou. — Sem bar, sem turno extra, sem clientes bêbados reclamando de cerveja quente. Posso ir com vocês.

— Milagre — Finn comentou. — Então está decidido. Pub. Bebida barata, música alta e nenhuma responsabilidade.

Adam sorriu, mas sentiu o peso da própria omissão. Em sua mochila, estava um exemplar de O Fantasma da Ópera. Tinha pegado o livro no dia anterior pela manhã, quase por impulso, dizendo a si mesmo que era apenas uma releitura casual. Um passatempo.

Mentira.

A imagem da turma de música ensaiando para o concerto não saía de sua cabeça. A música. O violino.

Ele encostou-se à parede, ouvindo os amigos discutirem qual pub escolher. Ninguém mencionava o concerto. Adam abriu a boca uma vez, fechou em seguida. O folheto ainda estava dobrado no bolso da mochila.

Ele respirou fundo, frustrado consigo mesmo. Talvez aquela vontade fosse apenas curiosidade passageira, algo que se dissiparia depois de algumas risadas e alguns copos.

Mas, mesmo enquanto ouvia Tyler reclamar do tempo de secagem do esmalte e Finn fazer planos exagerados para a noite, Adam sabia: aquela escolha — ficar ou ir — ainda não estava feita.

Isabelle soltou um suspiro longo e fechou o livro no colo, claramente contrariada.

— Eu… na verdade vou ter que passar — disse. — Preciso terminar meu ensaio hoje.

Finn ergueu o rosto do celular, indignado.

— Em pleno sábado?

Ela revirou os olhos.

— Sim, Finn. Em pleno sábado. O prazo continua sendo segunda, independente do dia da semana.

— Isso devia ser crime — ele respondeu. — Terminar trabalho quando o mundo claramente pede distração.

— Fala isso quando for você virando a noite antes da entrega — Isabelle retrucou, já se levantando.

Nesse momento, Tyler soltou um som dramático de frustração.

— Não acredito nisso — reclamou, olhando para as próprias unhas. — Isabelle, sua energia negativa acabou de borrar meu esmalte.

— Você que não para de se mexer — ela respondeu, pegando o casaco.

Tyler bufou.

— Isso é traição!

— Boa noite pra vocês — Isabelle disse, já perto da porta. — Divirtam-se.

Ela saiu, deixando o quarto um pouco mais silencioso.

Finn se jogou de volta na cama.

— Ótimo. Um a menos. Mas ainda dá pra ir.

Adam sentiu o momento se aproximar antes mesmo de decidir falar. O peso do livro na mochila parecia ter aumentado.

— Eu… — começou, chamando a atenção deles. — Acho que também não vou.

O silêncio que se seguiu foi imediato.

— O quê? — Finn se sentou na hora. — Você tá brincando.

— Hoje não — Adam explicou, mantendo o tom calmo. — Preciso focar na entrega de segunda também.

— Como assim focar? — Tyler perguntou, finalmente erguendo os olhos, o pincel de esmalte suspenso no ar. — Adam, você já não terminou esse trabalho? Você sempre termina tudo antes de todo mundo.

Finn cruzou os braços, concordando.

— É, isso não cola. Você nunca deixa nada pra última hora.

Adam sustentou o olhar dos dois por um segundo a mais do que o confortável. A verdade passou por ele com clareza: o trabalho estava pronto desde a noite anterior, revisado, formatado, salvo em duas versões diferentes.

Mas ele não disse isso.

— Preciso revisar — respondeu, simples. — Tem uns trechos que não ficaram do jeito que eu queria.

— Revisar — Tyler repetiu, desconfiado. — Claro.

— Eu levo esse curso a sério, tá? — Adam retrucou.

Finn soltou um suspiro exagerado.

— Inacreditável. Agora então é só eu, Tyler e o Min-su?

— Parece um ótimo grupo — Min-su comentou, dando de ombros. — Melhor do que ficar socado em trabalho.

— Vocês dois — Tyler apontou alternadamente para Adam e para a porta por onde Isabelle tinha saído — vão passar o sábado inteiro presos em ensaios e revisões enquanto a gente vai aproveitar a vida. É isso mesmo?

— Aproveitar a vida em um pub barulhento — Adam observou, sem provocação.

— Exatamente — Tyler respondeu, animado. — Caos, álcool e péssimas decisões. O pacote completo.

Finn se levantou da cama.

— Depois não reclamem quando a gente chegar contando histórias incríveis.

Adam apenas sorriu de leve.

Ele pegou sua mochila e ajustou a alça no ombro. O folheto ainda estava ali dentro, silencioso, insistente.

Ele se despediu dos amigos, saiu do quarto e caminhou pelo corredor do dormitório sentindo o coração bater um pouco mais rápido do que o normal.


***


Adam atravessou o corredor quase vazio e entrou em seu dormitório, fechando a porta atrás de si com cuidado. Ele largou a mochila sobre a cadeira e ficou parado por alguns segundos, sem fazer nada, apenas ouvindo o som distante da vida do prédio: passos, portas batendo, vozes abafadas.

Sentou-se na cama e passou as mãos pelo rosto.

Uma culpa incômoda começou a se espalhar devagar. Mentir não fazia parte de quem ele é — nunca tinha feito — e justamente por isso o gesto agora parecia maior do que realmente foi. A culpa não vinha do que ele pretendia fazer, mas do fato de ter escondido. Como se, ao mentir, tivesse quebrado uma regra íntima que sempre seguia sem esforço.

Ele encarou a parede à frente, sentindo o peso daquela escolha.

— É só um concerto — murmurou, quase como defesa.

Ainda assim, a lembrança de Finn passou por ele com força. O bar. O riso dos outros. A humilhação. Adam fechou os olhos por um instante, perguntando-se se estava sendo desleal. Se aquele passo, pequeno que fosse, significava trair algo maior.

Ele suspirou.

Levantou-se de repente, como se ficar parado fosse perigoso. Abriu o armário, pegou um moletom escuro com capuz e o vestiu, puxando-o sobre a cabeça num gesto quase automático. Não se arrumou. Não precisava. Aquela não era uma noite para ser visto.

Pegou o folheto do concerto do bolso da mochila, desdobrou-o só o suficiente para confirmar o horário.

Ainda dava tempo.

O coração bateu um pouco mais rápido com essa constatação.

Adam saiu do quarto, trancou a porta e seguiu pelo corredor, depois pelas escadas, como se pudesse mudar de ideia a qualquer momento. Mas não mudou. Do lado de fora, o ar da noite estava frio, limpo, e ele respirou fundo, sentindo algo entre nervosismo e antecipação se espalhar pelo peito.

Ele não sabia exatamente o que esperava encontrar.

Só sabia que precisava ir.