True Love
14 Capítulo 14
Tinha acabado de estacionar o carro em frente a Revista. Enquanto descia dele, minhas chaves caíram no chão.
— Droga.
Abaixei para apanhar e quando voltei a ficar de pé, sacudindo-as para tentar tirar a sujeira, vi Barry saindo do CCPD. Parecia cabisbaixo.
— Ei! — gritei, chamando sua atenção.
Ele acenou com a mão, atravessando a rua.
— Oi.
— Oi. Como foi seu primeiro dia de trabalho depois de tudo o que aconteceu? Pensei que estaria mais animado.
— E eu estava, mas... Fui afastado da polícia. Pela própria prefeita.
— O quê? Mas por que? Você é o melhor CSI da cidade. Todos sabem disso.
— Não é tão simples assim. Vivemos em uma cidade cheia de meta-humanos, com diversas habilidades. Algumas pessoas acham que não era o DeVoe no tribunal, o que está certo, mas...
— Eu sinto muito. Sei como gosta do seu trabalho.
— É...
— Não é para sempre, é?
— O capitão não deu um prazo. Espero que eu seja restituído logo.
— E o que vai fazer durante esse período?
— STAR Labs. O que me resta agora é ir atrás do DeVoe. Ele fez a minha vida virar de cabeça para baixo. Preciso provar minha inocência.
— Está certo.
— E você? — ele abriu um sorriso discreto, mudando de assunto. — Como vai o trabalho?
— Bem. Muito bem para falar a verdade. Não vai demorar para ficar tudo pronto. Quero que venha na nossa inauguração.
— Claro que eu venho.
— Fico feliz que vai poder estar aqui. Digo, você saiu da prisão, então estou feliz.
— Pois é... — ele riu.
Jogava minhas chaves de uma mão para a outra, brincando com elas. Eu ficava nervosa na presença de Barry. Era como se tivéssemos voltado no tempo, quando nos conhecemos. A diferença era que agora eu estava em um relacionamento.
— Eu tenho que subir. A Liza e a Carly devem estar me esperando.
— Sim, sim. Claro. Eu também tenho que ir. Para o STAR Labs. — ele disse sem jeito. — Nos vemos depois?
— Sim. Acho que vou hoje mesmo lá. O Cisco disse que o Harry está estranho. Acha que ele se sente um pouco sozinho por causa da Jesse. Vou visitá-lo.
— Isso é verdade. Ele está agindo um pouco estranho. Acho que vai ser bom para ele conversar com outras pessoas sem ser eu... ou o Cisco.
— É.
— E aí, Barry. — Edward se aproximou de nós. — Como você está, cara?
— Bem. Tentando voltar com a minha rotina normal, mas é complicado.
— É difícil no começo mesmo, cara. Mas vai dar tudo certo.
— É o que eu espero. Obrigado. — Barry sorriu, agradecido.
— E você, Daph. Pronta para trabalhar?
— Sim. Vamos subir?
— Vamos. Até mais, Barry.
— Até mais, Edward. Tchau, Daphne. A gente se vê mais tarde.
— Sim. Tchau, Barry.
Sorrimos um para o outro e mesmo não querendo me afastar dele, subi com Edward para o escritório.
— Pensei que você não viesse hoje. — disse a Edward, ainda nas escadas.
— Pois é. Eu também pensei que não viria. Estava aqui por perto, então decidi vir ajudar vocês.
— Onde estava?
— Tomando um café com a Karen.
— Com a Karen... Sei... — falei um pouco curiosa.
— Por que sempre faz essa cara quando falo dela?
— Eu? Que cara?
— Essa, de como se eu estivesse fazendo alguma coisa. Como se eu estivesse... Sei lá... Enganado.
— Você que está dizendo isso.
— Daphne, que bom que chegou. — Liza carregava uma caixa para o seu escritório. — Aqui em cima está quase tudo pronto. Acho que agora só precisa... Edward? O que faz aqui? Pensei que não viesse hoje.
— Eu sei. Vim ajudar vocês. Acho que não consigo mais ficar parado sem fazer nada.
— Hum...
— Daphne, parece que o Barry é realmente inocente, não é? — Carly disse encostada na janela.
— É sim.
— Como ele está? — Liza se aproximou.
— Bem na medida do possível. Ele foi afastado do cargo na polícia. Acham que isso pode sujar a imagem deles.
— Isso é horrível.
— E vocês dois? — Carly tinha um sorriso malicioso. — Eu estava vendo daqui de cima. Vocês tem uma conexão muito forte.
— Você está viajando, Carly.
— Não tô não. Dava pra ver a forma como ele te olhava e o seu nervosismo na presença dele.
— O quê? — Liza disse rindo. — Conta mais.
— Não tem nada para contar, ok? Vamos ao que realmente interessa? — mudei de assunto. — O que temos para fazer hoje?
— Como eu estava dizendo, já está quase tudo pronto aqui em cima. Acho melhor você ir para o primeiro andar e cuidar do seu estúdio.
— Então tá.
— Todos os seus equipamentos estão na minha sala. Você só vai precisar pintar lá em baixo. E só para lembrar, a tinta acabou.
— Tudo bem, eu compro mais. — disse saindo.
— Se puder, compra café. — Carly falou apressada.
***
Antes de ir ao armazém comprar as tintas, aproveitei para dar um pulo no STAR Labs. Ao entrar no córtex, não vi ninguém.
— Pessoal? Tem alguém aí? — falei, mas não obtive resposta.
Continuei a andar pelo corredor, até que ouvi vozes alteradas e barulho de coisas sendo jogadas.
— Certo. Se eu quiser ouvir um adulto gritar como criança, vou para casa escutar os sonhos do Joe. Aqui, pegue suas coisas, Harry. — Cecile saiu da oficina de Cisco apressada, quase esbarrando em mim. — Oi, Daphne.
— Oi, Cecile.
Ela arrumou seu cabelo, seguindo em frente.
Entrei na sala e encontrei um Harry chateado, segurando um capacete bem... estranho.
— O que aconteceu aqui? — perguntei olhando as ferramentas no chão.
— Nada.
— Tem certeza?
— Eu estou frustrado, ok? — ele jogou o capacete em cima da bancada.
— Frustrado?
— É.
— Então agora você desconta sua frustração jogando coisas no chão...?
Harry bufou, colocando as mãos na cintura.
— Quer conversar um pouco? Sair para tomar um café... — perguntei.
— Não. Eu estou bem.
— Não é o que essas coisas aqui no chão dizem.
Harry me olhou. Parecia que eu o tinha vencido.
— Ok, Dean. Só preciso guardar isso tudo.
— Eu te ajudo.
— Não precisa. Eu faço.
— Mas eu posso te aju...
— Eu faço, Dean.
— Ok... Te espero no córtex então.
Sai da oficina e quando passei pelo laboratório, vi Barry sentado e pensativo. Fui até ele.
— Parece que as pessoas desse laboratório estão meio emburradas hoje...
— É que parece que finalmente achamos um jeito se derrotar o DeVoe.
— Como? — perguntei curiosa.
— Achamos mais um meta do ônibus. O nome dela é Izzy. E pela primeira vez conseguimos machucar o DeVoe.
— E isso não deveria ser bom?
— Sim. É que ela se machucou e estamos perdendo tempo.
— Ela está bem?
— Precisa de alguns pontos, mas vai ficar bem.
— E é só isso que está te deixando com essa cara?
— O Ralph não sai do lado dela.
— O Ralph? Se preocupando com alguém? — sorri. — Então acho que ele gosta mesmo dela.
— O Ralph não deveria estar incomodando-a. Ela precisa manter-se focada.
— Talvez Izzy possa não estar indo muito bem, mas é a primeira vez que ela treina os poderes, certo?.
— Eu sei.
— Não acha que está sendo um pouco duro?
— Não. Quero ensina-la como se proteger.
— Bem, do jeito que fala, me parece que está tentando transforma-la em uma heroína. E esse caminho não é para todos, Barry. Izzy só está tentando sobreviver.
— E se eu não pressiona-la, ela não vai. — Barry me olhou firme.
— Acha que essa á a única forma de derrotar o DeVoe?
— Não é isso. — ele tentava achar as palavras certas. — Daphne, você não estava em Iron Heights. Eu vi de perto o que DeVoe fez com a Becky. A todos eles. E eu não pude fazer nada, exceto sentar e ver acontecer. DeVoe é implacável. Ele não vai parar enquanto não tiver o poder e a vida da Izzy. Ele não será gentil com ela, então também não posso ser.
Me aproximei de Barry, puxando uma cadeira e sentando em sua frente.
— Esse Barry Allen que está falando agora é muito diferente do que eu conheci há 3 anos.
Barry tinha aflição em seus olhos. Ele parecia começar a falar algo, mas eu o interrompi, segurando suas mãos.
— Sinto muito que tenha vivenciado aquilo tudo em Iron Heights, mas não pode ser implacável como DeVoe. Ele está disposto a sacrificar a tudo e a todos. Lembre-se disso quando forçar o seu time demais, ok? Você sabe que heróis não são feitos da noite para o dia, Barry.
— É, eu sei.
— Dean. — Harry apareceu na porta. — Vamos?
— Vamos. — me levantei, mas me detive na porta do laboratório. — Você vai conseguir.
Barry tentou sorrir de volta, mas eu sabia que era difícil para ele.
***
Eu e Harry tínhamos pedido dois Flashs no Jitters e estávamos sentados em uma das mesas.
— E então... — beberiquei meu café. — O que aconteceu com você e a Cecile hoje mais cedo?
— Ela estava com problemas para dormir, já que agora ela... — Harry apontou para a cabeça.
— Sim, ela lê os pensamentos das pessoas.
— É. E ela escuta os sonhos do Joe e por isso não consegue dormir. Então me ofereci para criar algo que bloqueasse isso para ela poder descansar durante a noite.
— No caso seria aquele capacete que você estava hoje?
— Sim.
— Nossa, Harry. Como que uma pessoa consegue dormir com um negocio daqueles na cabeça?!
— Eu sei, ok. Eu sei! Eu mandei mal e não fui nada delicado com a Cecile.
— Hum. Mas e então, como funciona? Esse negócio mantém as ondas cerebrais do Joe bloqueadas? Ou mantém a leitura de mente dela bloqueada?
— Bloqueia a atividade cerebral que está chegando. Mas suponho que, na verdade, se reverter a polaridade...
— O quê...
— Se reverter a polaridade, posso interromper as ondas de saída também. Então...
— Oh meu Deus! É isso que estou pensando? Podem usar contra o DeVoe?
— Isso. Podemos usar contra o DeVoe para impedi-lo de projetar consciência em outros corpos.
— Harry, isso é brilhante! Tem que fazer isso!
— É.
— Agora.
— Agora?
— É!
— Agora. Ok. Hum... Obrigado pela conversa.
— Não tem de quê. Agora vai.
Harry levantou, tomando o resto do seu café apressado, me fazendo rir daquilo. Terminei de tomar o meu também e acabei lembrando de Carly, que havia pedido que eu levasse para ela. Com isso, me lembrei mais ainda que eu tinha saído para comprar as tintas para a Revista.
— Caramba! Eu esqueci das tintas.
Sai com pressa do Jitters e fui até o armazém compra-las.
Quando cheguei na Saturno, estava exausta. Precisava de um copo de água.
— E o meu café? — Carly perguntou assim que entrei
— Desculpa, Carly. Não deu para trazer. — falei, ofegante.
— Você demorou, ein. Aonde estava? — Liza disse, saindo da sua sala.
— Eu acabei encontrando alguns amigos... Perdi a hora.
— Sei...
— Onde eu coloco essas tintas?
— Pode deixar por aí mesmo. Bem, nós já estamos indo. Já está tarde.
— Então eu também vou. O Louis deve estar me esperando.
Já dentro do carro, no caminho para casa, algo dentro de mim me dizia para ir até o STAR Labs. Talvez tivesse sido minha conversa com Harry mais cedo e a curiosidade sobre o plano contra DeVoe ter dado certo ou não. Decidi não esperar pelo dia seguinte e fui até lá.
Ao entrar, percebi todos com expressões de chateação ou tristeza.
— O que aconteceu?
— Tentamos enfrentar o DeVoe e... a Izzy se foi... — Iris falou.
— Oh, meu Deus! E o Ralph, como ele está?
— Nada bem. — Caitlin respondeu.
— Não era para isso acontecer. DeVoe não podia ter escapado. — Barry falou irritado.
— DeVoe escapou por minha culpa, Allen. — Harry disse frustrado, saindo da sala bravo.
— Harry... — Iris tentou argumentar.
— Deixa que eu falo com ele.
Fui atrás de Harry e o encontrei de novo na oficina de Cisco. Ao me ver entrar, começou a andar pela sala.
— A culpa é minha, Dean. Eu construí o Inibidor Cerebral.
— Inibidor Cerebral...? Espera. Quando Savitar veio ao STAR Labs, disse que criaríamos um aparelho para usar contra o DeVoe. O Inibidor Cerebral.
— É. O Barry já falou sobre isso. E não funcionou porque eu não sou capaz de fazer funcionar. — ele esbravejou.
— Precisa ficar calmo, Harry.
— Desculpe, mas tenho problemas com raiva. Parece que piora quando cometo erros! — ele pegou algo em cima da mesa e jogou contra a parede.
— Ninguém é perfeito. Isso so torna difícil ser um humano.
— Humanos são complicados, Dean.
— Eu acho que toda essa sua raiva e frustração não tem a ver só com o DeVoe. — percebi ele me olhando de canto de olho. — Você só precisa de alguém para conversar, Harry.
— Sim... Talvez.
— Deveria chamar ela.
— Ela quem?
— A Jesse.
Harry deu um sorriso nervoso, tentando disfarçar.
— Por que acha que a Jesse é o meu problema?
— Porque você é pai e porque está escrito na sua testa.
— Ok. Você me pegou. Mas a Jesse está em outro mundo, Dean...
— E o que é que tem? Ela é uma velocista, esqueceu? Pode estar aqui em segundos. Você pode mandar uma mensagem e ela virá. — coloquei minha mão em seu ombro. — Esse problema não vai sumir do nada, Harry.
— E se ela... E se ela não vier?
— Só vai saber se chama-la. — o encorajei.
— Eu vou pensar, Dean.
— Tudo bem. — o abracei. — A Jesse te ama, não esqueça disso.
Ele fez que sim com a cabeça e eu saí da oficina. Quando passei pelo laboratório de velocidade, vi Cisco encostado na parede, olhando algo. Me aproximei e vi Ralph sentado no chão, cabisbaixo.
— Ele não está bem, não é?
— Nem um pouco. — Cisco disse. — Parece que ela era realmente importante para ele. Nunca vi o Ralph assim, Daphne. Estou preocupado.
— Será que eu posso tentar falar com ele?
— Claro. Vai lá.
Respirei fundo e fui até Ralph. Me sentei ao seu lado e nem ao menos recebi um olhar.
— Me disseram o que aconteceu com a Izzy. Eu sinto muito.
Ele permaneceu em silêncio.
— Você gostava mesmo dela, não é?
— Sim. — ele finalmente falou, com a voz embargada. — Izzy era muito especial.
— Ver alguém morrer bem na sua frente... Principalmente alguém que você gosta, não é fácil e eu sei disso. — Ralph finalmente me deu atenção. — Acho que algumas pessoas já vieram te dizer que tudo vai passar logo, mas não vai. Infelizmente não vai.
— Eu me sinto horrível por dentro. Antes de tudo acontecer, eu prometi que não deixaria nada acontecer a ela, mas não fui capaz de manter essa promessa. Não consegui salva-la e isso está me matando. E agora, vendo que DeVoe está conseguindo pegar todos os metas do ônibus que foi atrás... Estou aterrorizado.
— Eu imagino que sim. Mas olha, Ralph, eu sei pelo que está passando.
— Não sabe não, Daphne.
— Sei sim. Não só em relação a Izzy, mas também o seu medo do DeVoe. Ano passado, quando pensei que o Savitar fosse me matar, eu estava morrendo de medo. Não por mim, mas pelo meu filho. Eu já tinha aceitado o meu destino e só queria que o meu filho ficasse vivo. Quando o acidente aconteceu e eu o perdi, foi pior ainda. Eu temi pelo meu pai, pela minha irmã e pelo Barry... Por deixa-los.
— Como lidou com isso?
— Não foi fácil, mas todas as vezes que pensei em me render, pessoas estavam ao meu lado. O que quero dizer é que você tem a todos nós agora, Ralph. Não precisa mais enfrentar nada sozinho. Eu sei que o nosso começo foi um pouco difícil, mas pode contar comigo também.
— Obrigado pelas palavras.
Abracei Ralph, que parecia precisar daquilo e me levantei, afinal ele precisava do momento dele.
— Acho que você foi bem. — Cisco disse quando me aproximei. — Até agora ele não tinha falado com ninguém.
— Ele só precisa do tempo dele.
— Então acho melhor deixarmos ele um pouco sozinho.
— Isso.
Voltamos para o córtex e enquanto Cisco atualizava Caitlin sobre Ralph, vi Barry um pouco mais afastado e pensativo.
— Acho que eu deveria ser psicóloga. O tanto que eu escutei e falei hoje não foi pouco. — comentei ao me aproximar.
— Será que você aguenta mais uma sessão?
Nós rimos.
— O que aconteceu? — perguntei, sentando ao seu lado.
— Você tinha razão. Por mais que eu queira pegar o DeVoe, voltar para a minha vida... Não dá para ser como ele. Não posso simplesmente deixar de pensar e cuidar das pessoas que eu amo por querer vencê-lo de todo jeito. Não posso apressar isso.
— Hum... Sem pressa...? Vai ser complicado para um velocista.
— Ainda mais um velocista desempregado.
Barry me fez rir.
— Relaxa, você vai achar algo.
— O que faço até lá?
Eu conhecia aquele olhar que ele lançava para mim. Tinha doçura e ao mesmo tempo calor.
— Você pode tentar fazer coisas que gosta, que te deixe leve.
— É um bom conselho. Obrigado.
Meu Deus! Como era difícil ficar perto dele. Cada vez que eu o encontrava era mais difícil! Mas eu não podia me deixar levar. Eu iria me casar com outra pessoa nos próximos dias e... Ai minha nossa... Aquele olhar...
— Hum... Eu preciso ir. — falei apressada.
— Mas já?
— Sim. É que... eu... Eu tenho que ir. É isso, eu tenho que ir.
— Tudo bem.
— Até mais, Barry.
— Até. — ele disse rindo.
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