Trevo de Quatro Folhas
6 Capítulo 5
Tae Yang
Joguei as chaves e o celular em cima da bancada da cozinha. Sentei no banquinho que fica junto e apoiei os cotovelos em cima da bancada. Respirei fundo uma vez, depois duas e até uma terceira.
— Que merda foi aquela que aconteceu?
Eu estava indignado. Apenas uma leve aproximação de Júlia me deixou nesse estado não muito honrado para um homem. É duro admitir, mas eu precisava beijá-la naquele momento. Talvez se tivesse a coragem de ter prosseguido com a aproximação, eu não me sentiria tão frustrado como agora. Rejeição poderia ser uma opção, porém eu também sei usar da persuasão. E do jeito como aquela maldita “brincadeira” me deixou, está sendo espantoso até para mim.
Júlia, ela me surpreende a cada minuto que estou ao seu lado. E ela ao menos imagina o bem que fez hoje. Jamais pensei que pudesse voltar a agir normalmente na frente de Mi Cha como consegui hoje estando ao lado de Júlia. O jeito como ela lidou com toda aquela situação me fez perceber o quanto eu estava sendo idiota o tempo todo. Foi como uma libertação e ver a raiva nos olhos de Mi Cha, não deveria, mas me deu uma tremenda satisfação. Sei que Júlia tem sua cota sombria de história de vida, percebi isso hoje enquanto seguíamos o caminho para o hostel, assim como percebi também que é algo que ela não quer comentar e apenas esquecer. Gostaria de retribuir o mesmo alívio que ela me deu horas atrás, mas provavelmente não será possível.
Conversar com ela é natural. Não sinto necessidade de me reservar tanto e isso chega a ser um problema, pois minhas emoções ficam mais visíveis podendo nos deixar constrangidos ou com interpretação ambígua. Assim como me senti incomodado com a possibilidade de Júlia se sentir prejudicada se algo vazasse na mídia sobre nós, porém o meu incomodo foi se ela se sentisse prejudicada por ter alguém a sua espera no Brasil. É estranho, eu sei. Não tenho o direito de sentir nada do tipo, afinal acabei de conhecê-la, só que, como posso explicar? Não posso. É tão estranho para mim quanto para qualquer um que saberá dessa história.
Agora estou aqui sem saber o que fazer. Eu dei meu número de celular para ela. Meu Deus! Sinto mais confiança em alguém que conheci faz três dias do que em pessoas que convivem comigo todos os dias e sete dias por semana. Ela está conseguindo ver um Tae Yang que nem eu conhecia.
Sou despertado dos meus pensamentos com a vibração do meu celular em cima da bancada.
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Cheguei bem. Obrigada por perguntar. Tenha uma ótima noite também.
Tae.
Sorri no mesmo instante. Estou virando um adolescente cheio de hormônios, por Deus! Esfrego o rosto e balanço a cabeça.
— Qual foi? É apenas uma mensagem. — Olho para tela do celular novamente pensando no que fazer e resmungo — Uma maldita mensagem.
(**) ****-****
Cheguei bem. Obrigada por perguntar. Tenha uma ótima noite também.
Tae.
(**) ****-****
Hã... Só para avisar... Salvei seu número.
Depois de muito pensar, acabei respondendo. E que resposta é essa? É mais do que certo de que você vai salvar o número da garota seu imbecil, para que avisar? Meu celular apita mais uma vez e vejo sua resposta acenando na tela.
(**)****-****
Não esperava menos de você... :D
Meu Deus! Estou sorrindo feito um idiota. Bufo e desço do banquinho revoltado comigo mesmo. Preciso tomar um banho quente para poder relaxar e tentar esquecer cada loucura que ando fazendo recentemente. Cada dia que passa está sendo mais fácil lidar com Mi Cha e seu ego. Podemos não estar em sintonia nesse momento, assim como eu também não sinto prazer algum em estar ao lado daquela mulher, mas uma coisa era certa, tínhamos química. Isso era o que salvava todo esse projeto no momento.
E pensando no drama, lembro-me mais uma vez de Sunny. A mensagem que enviei antes ainda martelava em minha mente e o pressentimento de algo ruim vem com força em meu peito. Peguei novamente o celular e enviei mais uma mensagem para ela.
(**)****-****
Sunny, boa noite!
Realmente está tudo bem, minha amiga? Eu não sei o que está acontecendo, mas quero que saiba que pode contar comigo se precisar...
Joguei o celular sobre a cama e fui para o chuveiro. A água quente em minhas costas fez com que meu corpo relaxasse por completo, fechei meus olhos apreciando o momento e tentando esquecer tudo que me perturbava no momento. Porém, a força que rege o mundo talvez não esteja ao meu lado ultimamente, pois Júlia vem em minha mente rapidamente. O momento em que estivemos tão próximo um do outro que eu pude perceber como seus olhos têm muito o que dizer mesmo com a pouca luz que nos cercava, assim como seus lábios eram tão convidativos, principalmente, quando sem ao menos perceber, ela morde os lábios em forma de nervosismo.
Senti minha respiração descompassada e abri os olhos imediatamente, em uma luta interna para expulsar a imagem do que ocorreu mais cedo da minha mente. A agua quente se tornou gelada. Nunca terminei um banho tão rápido em toda minha vida. Sentia-me inquieto e um tanto quanto irritado por isso. Era um misto de sentimentos que me causavam euforia e confusão. Parecia que tudo estava acontecendo ao mesmo tempo e com isso eu percebia que o meu tempo servindo o exército não foi tão ruim assim. Odiava me sentir dessa forma. Esse tipo de sensação só era alerta para o perigo. Deitei-me na cama pegando mais uma vez o celular e relendo as mensagens. Esperava estar fazendo a coisa certa, por mais errado que pudesse parecer.
Suspirei e pela milésima vez naquela hora, tentei relaxar e dormir.
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Através da janela da Van eu podia vislumbrar a movimentação do lado de fora. Pessoas andavam de um lado para outro, como se não houvesse amanhã. Algumas falando ao celular, outras apenas mostrando o total atraso. E assim seguia a vida com normalidade e aquilo era cansativo, muito. Hoje a gravação seria um pouco mais tarde, por esse motivo resolvi passar na casa de Sunny e saber se tudo corria bem. Hada, por incrível que possa parecer, estava calado. Apenas dirigindo e aquilo era estranho. Normalmente eu precisava mandá-lo calar a boca.
— Aconteceu alguma coisa? – perguntei.
— Não. – Ele me olhou estranho.
— Está quieto por qual motivo? Está doente?
— Eu sabia – Dessa vez ele sorriu debochado – Você adora ouvir minha voz.
— Veio trabalhar bêbado?
— Admite, Tae! Não precisa ficar com vergonha. Eu sei que você me ama. – Hada continuava rindo da minha cara e eu queria socá-lo.
— Não é possível! Volta a ficar quieto, vai. – Respondi emburrado.
— Agora é sério. – Ele parou de sorrir e seu rosto ficou com um ar sombrio – Estou preocupado com Sunny. Por mais que ela esteja bem, ouvi alguns boatos de que isso seria mentira. Ela teve uma crise de ansiedade no último trabalho que ela fez. Uma propaganda para a marca Fairy. Disseram que ela foi fazer uma pausa e não retornou para continuar a sessão de fotos. Precisaram terminar no dia seguinte, o que gerou um enorme problema.
— Por que só está me contando isso agora, Hada? – Ele tirou os olhos da pista e mirou em mim por alguns segundos.
— Por que eu soube disso ontem? E você sabe como estávamos ontem, eu apenas não tive oportunidade de conversar sobre isso com você. Não é algo que eu possa falar abertamente, não é mesmo?
— Eu sei, você está certo. Me desculpe. – Suspirei – Espero conseguir falar com ela agora, pois não respondeu minha última mensagem e Sunny não é assim.
— Sim.
Hada me respondeu bem cabisbaixo. Terminamos o percurso para a casa de Sunny em silêncio. Eu sabia que Hada estava tão preocupado com tudo quanto eu. Afinal, Hada e Sunny também eram amigos e de longa data. Nos conhecemos antes mesmo do debut e criamos um carinho grande um pelo outro. Com o sucesso, o tempo que passamos juntos diminuiu consideravelmente e eu me culpo por não poder estar próximo a ela como antes, mas meu carinho e afeição não diminuiu nem um ponto por conta disso e sei que o dela por mim, também não.
Chegamos ao prédio em que ela mora e Hada foi direto ao estacionamento que fica no subsolo. Tudo parecia normal. Era um dia normal. A temperatura amanheceu um pouco mais fria que o dia anterior e o céu estava mais cinza também. Senti um aperto no peito, pois apesar de o dia ser normal, tudo parecia triste e sem cor. Depois que estacionamos, fomos direto para o elevador. Mesmo que houvesse algum repórter, não teria problema. Sunny e eu já passamos da fase que as manchetes envolviam algum tipo de romance entre nós dois. Era mais que público que somos amigos há anos.
Hada continuava calado e eu também não estava em clima de ficar conversando. Ela morava no 15 andar e o prédio onde morava era muito tranquilo. Saímos no seu andar e demos de cara com um extenso corredor em granito branco. Sabíamos que todos os apartamentos desse andar estavam ocupados, porém aparentava não haver nenhum morador, devido a quietude. Quando nos aproximamos do apartamento 1511, escutamos uma porta se abrindo e para nossa surpresa era Jae In, empresário de Sunny.
Quando seu olhar se encontrou com o nosso, de primeiro momento havia surpresa, mas logo depois foi dando espaço a um sorriso cativante. Afinal, Jae In era alguém próximo a nós. Jae In era um homem na casa dos 45 anos, muito bem afeiçoado para sua idade. Seus cabelos eram na altura do ombro e seu rosto mais quadrado davam um ar de seriedade apesar do estilo despojado do seu cabelo. Era um pouco menor que Hada e eu, mas em questão físicas, parecia um homem com seus 30 anos. Ele terminou de sair do apartamento e trancá-lo, antes de nos dar qualquer atenção.
— O que fazem por aqui, meninos? Não tem gravação hoje? – perguntou se virando para nós com as mãos dentro do bolso e com um sorriso contido no rosto.
— Viemos ver a Sunny. Ela não me responde desde ontem. – Respondi com um olhar mais sério.
— Sobre isso, Sunny foi visitar os parentes em Jeju. Sua mãe estava um pouco doente, então como ela teve uma folga essa semana, resolveu visitá-la. Deve ser por isso que Sunny ainda não o respondeu.
— Entendo. – Hada se pronunciou, mas seu tom de voz não era dos melhores e isso me deixou em alerta.
— Você conseguiu ter alguma notícia desde que ela foi?
— Sim, por isso estou aqui. Ela pediu para que eu averiguasse algumas coisas no apartamento, pois ela saiu tão rápido que acreditou que pudesse ter esquecido algo ligado, coisa assim. – Jae In parecia tranquilo e passei a me perguntar se a minha preocupação não era exagero.
— Tem certeza de que Sunny está bem, Jae in? – Hada. Eu conhecia aquele olhar.
— Claro que tenho, Hada. Não estou te entendendo. Eu sou empresário de Sunny, mas também sou seu amigo. Estamos há anos juntos. E é claro que eu tenho certeza do que estou falando.
— Jae In, não quero saber se você sobre isso. Estar junto ao lado da pessoa tantos anos não quer dizer que você saiba de tudo. Eu sei o que ocorreu no ensaio da Fairy, sabe que a notícia nesse meio corre rápido, então não vamos fingir que nada está acontecendo. A Sunny, você acredita que ela esteja bem ou reparou algo de errado?
Vi aquele sorriso cativante se desfazer do rosto de Jae In e uma expressão de repreensão cobrir seu semblante.
— Se você sabe tanto sobre esse meio em que vivemos, Hada, deveria estar ciente que esse tipo de lugar não é ideal para conversarmos sobre isso. – Ele respirou fundo e passou a mão sobre os cabelos – Porém, respondendo a sua pergunta, aquilo foi um caso isolado e ela passou mal por algo que ela comeu e não foi uma crise. Sabe que esse meio é um inferno e qualquer coisa é motivo para virar uma confusão.
Parecia que eu era o espectador. A respiração de Hada que antes estava acelerada, foi se acalmando. Ele andou de um lado para o outro, claramente tentando se acalmar e eu percebi que deveria me preocupar com ele também. Vou pedir a agência que faça um teste para verificar o nível de estresse do meu assistente. Coloquei a mão no seu ombro, tentando passar algum tipo de conforto.
— Hada, Jae In tem razão, aqui não é o lugar para falarmos sobre isso. Se Sunny está bem, isso já é um alívio. – Me viro para Jae In – Desculpe o incomodo. Estávamos realmente preocupados com ela. Assim que Sunny entrar em contato com você, avise para nos retornar também.
— Tudo bem, Tae. – Sua boca formava uma linha rígida, mostrando claramente seu desconforto com aquela conversa. – Vamos descendo, já perdemos tempo demais aqui.
Concordamos com ele e nos direcionamos ao elevador. Todos em um silêncio desconfortável. Pelo reflexo da parede do elevador, eu podia ver o quanto Hada estava se segurando. Seu olhar refletia claramente o seu desgosto com toda aquela situação. Por outro lado, Jae In aparentemente estava tranquilo. Ninguém se atrevia a abrir a boca e quando o elevador apitou indicando que havia chegado ao andar do estacionamento, apenas acenamos a cabeça em sinal de despedida e seguimos nosso rumo em direção aos nossos carros. Hada andou mais rápido que o normal e fiquei tentado em pedir para que eu dirigisse. Chegando ao carro, rapidamente segurei seu braço fazendo com que ele olhasse diretamente para mim.
— Hada, espera um pouco, você está...
— Não adianta, Tae. Eu não engoli aquela história dele.
— Passa a chave, eu dirijo.
— Está louco? Claro que não.
— O único que está fora de si aqui é você. Enquanto você se acalma, eu dirijo. Passa logo a droga da chave do carro. – falei de forma um pouco ríspida, fazendo com que ele bufasse, mas me entregasse a chave – Entra no carro.
Hada fez o que eu pedi mesmo contrariado. Eu podia sentir a aura assassina que ele emanava ao meu lado e isso realmente me deixou preocupado. Afinal, estressado poderia ser adicionado aos adjetivos referentes a Hada, mas descontrolado nunca me passaria pela mente. Saí do prédio e segui pela rodovia principal em direção ao estúdio que seria a gravação de hoje, esperei alguns minutos para ver se ele acalmava um pouco antes de voltar ao assunto e tentar compreender toda essa ira.
— Você está me escondendo alguma coisa referente a Sunny? – perguntei e o que ouvi foi um bufar, seguido de uma risadinha irônica.
— Não, Tae. O que sei, eu já compartilhei contigo. Eu só fico puto porque eu não confio e nunca confiei no Jae in e você sempre soube disso. Só aturo ele por causa de Sunny e você. Não consigo confiar em uma única palavra que sai daquela boca.
— Acho que você está sendo extremista...
— Droga! Não começa, Tae. Você perguntou e estou te respondendo. Eu quero muito que vocês estejam certos e o errado da história seja apenas eu, mas até o momento eu só consigo pensar dessa forma. E que Deus me ajude se esse cara estiver mentindo. Eu acabo com a raça dele.
Olhei para Hada totalmente surpreso. Ele estava realmente falando com toda a firmeza que ele poderia e isso realmente me colocou em alerta, me fazendo cogitar a ideia de que talvez, somente talvez, a sua preocupação poderia ter um fundo de razão.
.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.
Chegamos ao estúdio e a essa altura Hada aparentava estar mais tranquilo apesar de ter permanecido todo o caminho em silêncio e pensativo. Saímos do carro e eu devolvi a chave a ele. Bati em seu ombro em forma de tentar acalmá-lo de alguma forma e vi quando ele soltou a respiração de forma pesada.
— Estou bem, Tae. – Ele olhou por cima do meu ombro – Agora quem tem que tentar se manter calmo é você. O projeto de satanás acabou de chegar também e está vindo em nossa direção.
— Então o que estamos fazendo aqui ainda. Vamos, vamos logo para dentro...
— Tarde demais...
— Merda. – Sussurrei e me virei para a direção que Mi cha vinha.
Aquele sorriso estava lá. O sorriso que indicava que ela estava vindo com o único proposito de me irritar.
— Bom dia, Tae. Hada.
— Bom dia. – Respondemos juntos com a vontade de um bicho-preguiça.
— Espero que nosso dia seja produtivo. A última vez foi extremamente cansativo as gravações.
— Infelizmente preciso concordar com você. – Sorri forçadamente – Vamos nos esforçar dessa vez, afinal quanto mais rápido terminarmos, mas rápido podemos correr para longe daqui, não é mesmo?
— Não foi isso que eu quis dizer. – Mi Cha respondeu rapidamente, pois entendeu o recado.
— Ah! Mas eu quis dizer exatamente isso. Vamos? Estão apenas nos esperando. – Escutei uma risadinha vindo de Hada que tentava disfarçar e falhava miseravelmente. – Vamos, Hada? Ainda preciso fazer a maquiagem.
— O camarim é por ali.
Ele apontou para um galpão que tinha logo a frente e eu sinalizei novamente para irmos. Assim que comecei a caminhar naquela direção, escuto novamente meu nome.
— Tae! – Me virei novamente, mas dessa vez a surpresa foi ver aqueles olhos que antes estavam tão cheios de si, parecerem tão desolados agora – Até quando vai fugir de mim como se eu tivesse uma doença contagiosa?
— Até quando você compreender que entre você e eu existe um limite que nunca mais será quebrado.
Agora vi o momento em que seus olhos lacrimejaram e apesar de me sentir surpreso com essa reação de Mi Cha, meu coração não doeu. Dito isso, olhei para Hada sinalizando para irmos e apenas acenei novamente para Mi Cha em sinal de despedida e segui meu rumo em direção ao camarim.
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