Trevo de Quatro Folhas
7 Capítulo 6
Júlia
Quinto dia.
Como toda pessoa normal que se preze, pelo menos eu acredito ser normal, eu precisava ir até o centro comercial de Myeong-dong. Eu juro que tentei não mostrar nenhum tipo de euforia, mas era quase impossível. Era tanta loja e tanta comida que eu só me visualizava ficando ainda mais pobre. Sorri com o nervosismo que me abateu. Eu precisaria retornar ali antes de voltar ao Brasil. Neste momento, fiquei com dó da minha mala que provavelmente iria voltar completamente “esbagaçada” de tanta lembrancinha. Só Deus saberia quando e se eu voltaria a Coreia mais uma vez.
Muito barulho. Muitas pessoas falando. Muitos comerciantes apresentando seus produtos e para uma pessoa extremamente contra o barulho ou qualquer tipo de “lotação”, surpreendi-me ao perceber que aquele ambiente estava me trazendo paz. Todo aquele barulho estava me trazendo paz. Talvez o motivo seria que algo tenha superado o barulho que estava dentro da minha mente com tudo que aconteceu nos últimos dias.
Minha suposta fuga do Brasil. Meu súbito encontro com Tae Yang. O ator que eu sempre quis conhecer, desde que comecei a acompanhar a cultura coreana. Só penso que na loteria de Deus, dessa vez a escolhida foi eu. Sonhei tanto com essa viagem, por tantos anos e idealizando tantas coisas, que talvez a minha fé de que isso poderia realmente acontecer, deu certo. E ter essa percepção fez com que meus olhos lacrimejassem e que eu me sentisse a pessoa mais sortuda desse mundo.
Lembrei de minha irmã que desde que sai de casa me envia mensagens querendo saber sobre tudo a cada segundo que eu respiro. Sorri ao pensar nela. Éramos somente nós duas e mais o papai. Nina era, sem sombra de dúvidas, minha melhor amiga. Minha companheira para toda vida. E saber disso, fez com que eu pegasse o celular e tentasse fazer uma chamada de vídeo para ela. Que Deus também nos ajudasse a conseguir, pois eu ainda não estava ciente de como o pacote de dados móveis funcionava por aqui.
— Seja o que Deus quiser...
Tentei escutar o chamado da ligação mesmo por cima de todo o barulho e quando eu estava para desistir, es que uma cabeleira loura aparece na tela. Nina era o completo oposto de mim. Ela com seus cabelos louros mel e eu com meus castanhos escuros. Ela com sua peruca lisa e eu com a minha peruca encaracolada. Eu era mais esguia e alta que Nina. Já Nina, era aquela baixinha do corpão. Um tremendo mulherão que fazia com que qualquer homem virasse o pescoço para olhar. Nós éramos o doce e o salgado, o humor e a sisudez e mesmo assim, compartilhávamos o mesmo sangue, o mesmo pai e mãe e o mesmo amor uma pela outra.
— Eu juro por Deus que eu estava a ponto de xingar você! – Nina esboçou sua frustração – Estava aqui pensando quando a desnaturada da minha irmã iria fazer a gentileza de me ligar para mostrar alguma coisa.
— Não seja dramática. – Sorri para tela.
— Não me chame de dramática! Eu só não vou falar a lista de elogios que tenho para você agora porque estou vendo que está na rua. – Ela parou e pensou por um instante, dando de ombros logo em seguida – Bem, isso seria indiferente. Nenhum deles entenderia mesmo.
— Nem pense, Nina. Vou desligar...
— NÃO! – Ela respirou – Olha, Julia... Você me aguarde...
— Então, Nininha. Eu queria te mostrar isso aqui. – Fiz um 360 com o celular para que ela pudesse ver ao meu redor.
— Meu Deus do céu, Ju. Isso é enorme. Parece ser maior que a 25 de março. Olha quanta coisa! – Olhei novamente a tela e ela tinha os olhos espantados. – Irmã, se arrependimento matasse, eu estaria embaixo de sete palmos de terra. Por que diabos mesmo eu não viajei contigo?
— Por que você tem uma monografia para entregar daqui a dez dias? – perguntei o óbvio.
— É verdade. Só perdoo você por ter ido sem mim, pois sei que precisava, mas fique sabendo que também vou até esse lugar do outro lado do mundo e você vai comigo.
— Se minhas condições permitirem, com toda certeza.
— A condição a gente arruma. – Como sempre, ela tinha a praticidade que eu gostaria de ter. – Quero maquiagem. Trate de me trazer uma base desse lugar. Fiquei sabendo que os produtos daí são coisa de outro mundo. Então traga essas belezinhas para o nosso mundo, tudo bem?
— Tudo bem. – Dei uma risada de como ela pareceu entusiasmada – Ainda não andei trinta por cento desse lugar e já vi umas cinquenta lojas de cosméticos. Sem exagero!
Estava tão focada em Nina que não percebi que estava chamando um pouco de atenção. As pessoas passavam por mim e olhavam de uma forma estranha. Acho que tentavam adivinhar de qual lugar da face da terra eu era. Obviamente que da asia não era. Escutei a risada de Nina saindo do celular.
— Vai se divertir, Ju. As pessoas estão te olhando como se você fosse um alienígena. – Continuou rindo – Quando voltar a hospedagem, me ligue novamente para que possamos conversar. Talvez papai já esteja em casa e fala com você também. Ele está preocupado. Apesar de você mandar mensagem todo dia, ele quer ver a sua fuça.
— Pode deixar. Prometo não esquecer, mesmo que eu esteja cansada, eu ligo. Beijos.
— Beijos, Jujuba.
Sorri com o apelido que Nina havia me dado. Enquanto via a ligação sendo encerrada. Nina me chama dessa forma desde muito pequena. Ela dizia que amava jujuba e que por meu nome começar com Ju e ela me amar também, esse seria meu apelido para sempre. O problema era que de doce, eu não tinha nada. Foi o que ela me disse antes de deixar claro que seria esse apelido e ponto.
Olhei novamente o celular e vi a última mensagem trocada com Tae há dois dias. Desde então, não nos falamos mais. Fiquei tentada a enviar uma mensagem, mas... Quem sou eu na fila do pão? A insegurança arrombou a porta da minha mente e aqui estou eu apenas desejando que ele envie pelo menos um “oi”. Esse tipo de acontecimento faz eu cogitar a ideia de que talvez tudo tenha sido uma ilusão. Poderia até falar que foi efeito das drogas, mas nunca ao menos provei algo do tipo. E ainda continuo com a sanidade em dia. Apenas suspirei e comecei a caminhar pelas ruas e corredores daquele lugar, afinal o objetivo era outro... Paz e diversão.
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Cheguei ao hostel praticamente me arrastando, tanto por conta das bolsas quanto pelo cansaço. Assim que coloquei meus pés na recepção, o senhor Dong Sun veio correndo em minha direção. Assustado com a quantidade de coisas que eu tinha na mão.
— Deixe-me te ajudar, menina. Uma mulher não deve carregar tanto peso assim. Não te ensinaram isso? – Ele parecia realmente desconfortável com a situação, pegando as sacolas de minhas mãos e subindo as escadas junto comigo.
— Obrigada, Senhor Dong Sun. Eu realmente não vou negar ajuda, pois estou exausta. Andei Myeong-dong inteira. Estou exausta de andar, exausta de comer. Exaustão é a palavra que me define neste momento.
— Não deveria se desgastar tanto, menina. Você veio se divertir ou pagar penitência? – Senhor Dong Sun disse em um misto de espanto e frustração.
— Ah, senhor Dong Sun, eu tenho pouco tempo nesse lugar, preciso aproveitar, não é mesmo? – Ele apenas me olhou de soslaio – Sabe o que eu comi hoje? Tteokbokki! Nossaaaaaa! É maravilhoso! Comi o de queijo e ainda repeti.
— Boa escolha, menina! – sorriu com o meu entusiasmo.
— Comi também: Kimbap, bulgogi – Ia levantando o dedo a cada comida que citava – E Chikin. Realmente uma delícia e eu não sou uma fã de frango. Sei que isso é um insulto a vocês, mas eu precisava deixar em evidência o quanto me surpreendi com o frango daqui. Divino! Mas o toppoki é o melhor de todos. Preciso comer de novo.
Enquanto seguíamos até meu quarto, fui tagarelando tudo o que eu vi hoje. E o sorriso satisfeito de Dong Sun era o combustível para que eu falasse como uma maritaca. Senhor Dong Sun parecia ser uma boa pessoa, desde que cheguei aqui, ele só me ajudou e tenho muito agradecer. Ele sanava a maioria das minhas duvidas referente a essa cidade e isso era melhor do que qualquer guia turístico.
Abri a porta do quarto, peguei as bolsas de suas mãos novamente e fiz um gesto de agradecimento.
— Obrigada, Senhor Dong Sun!
— Não precisa agradecer. Bom descanso, menina.
E assim cada um seguiu seu destino, ele de volta ao recepção e eu ao conforto do meu quarto.
— Meu Deus! Preciso de um banho. Urgente.
Coloquei as sacolas próximo as minhas malas. Tirei toda aquela roupa do meu quarto e fui direto ao banheiro. Eu precisava de um banho quente e lembrar que deveria ligar para casa. A água batendo nas minhas costas me trouxe um sono absurdo. Não acreditei que eu estava tão cansada. E nesse momento relaxante a proximidade que eu tive com Tae na última vez que nos encontramos veio como um tiro na minha mente. Minha respiração pesou e o meu coração acelerou.
— Que merda! Isso é loucura!
Balancei a cabeça tentando esquecer. Eu não poderia ser tão emocionada assim. Não é possível, que eu seja tão emocionada assim. Porém, eu sei que foi tão estranho para ele quanto foi para mim. Terminei meu banho e saí rapidamente do banheiro. Precisava dormir. Nina e meu pai que me perdoassem, mas não ligaria hoje. Coloquei meu pijama e me joguei na cama. Peguei meu celular e tirei uma foto para enviar no grupo de 3 pessoas que tínhamos. Lembrei do quão engraçado foi a criação desse grupo que o único intuito era para enviar notícias minhas, pois os dois brigavam para qual eu deveria enviar primeiro, então para encerrar a disputa, mando para os dois ao mesmo tempo.
Tirei foto da quantidade de coisa que comprei e enviei. Logo em seguida tirei uma foto da minha cara de derrotada e enviei com a seguinte mensagem “Sorry, pessoal! Hoje ficarei off mais cedo. Acabada. Beijos! Amo vocês!”. Coloquei o celular de lado e me cobri. Passaram exatamente dois minutos e meu celular começou a apitar notificação com uma constância que eu deduzir ser a minha querida irmã gastando a lista de elogios comigo. Como as notificações insistiram por mais um tempinho, resolvi pegar o celular novamente.
Olhei as notificações e só não cai na gargalhada, pois até para rir eu estava cansada demais. Os elogios de Nina iam do “adotada” à “vaca mizerenta” em questão de segundos. E meu pai, como o bom pai que era, só enviava os emoticons rindo do surto de Nina através do chat. Era real que eu estava indo dormir mais cedo do que faço. Afinal, ainda eram oito da noite na Coreia e eu com toda certeza iria dormir.
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Desperto com uma enorme necessidade de ir ao banheiro. Havia me esquecido do quanto bebi enquanto estava na rua. Levantei-me meio cambaleando, meio caindo enquanto tentava chegar ao vaso sanitário. Sentei e me senti aliviada por ter conseguido chegar a tempo. Minha cabeça girou e uma leve tontura me assolou por ter levantado rápido demais. Escovei os dentes, pois estava sentindo um gosto amargo na boca e voltei novamente para o quentinho da minha cama.
O visor do celular acendeu, logo em seguida vibrando, o que me indicava que havia uma notificação. Olhei para a tela e descobri que havia dormido por duas horas e meia, mesmo que para mim, parece quinze minutos. Desbloqueei a tela e puxei a aba para ver de quem era a mensagem. Meus olhos que antes lutavam para permanecer abertos, agora estavam arregalados de surpresa e sentei-me rapidamente para ler.
(**)****-****
Ainda está acordada?
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Ainda está acordada?
Era uma pergunta simples, no entanto o sorriso que brotou em meus lábios era grande. Meu Deus! Meu Deus! Ele me mandou uma mensagem e meu coração disparou. Eu estava ferrada! Tampei a boca com mão. Muito ferrada! Olhei para minha mão e vi que estava tremendo. Respirei fundo algumas vezes em uma tentativa falha de me acalmar.
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Sim...
Aconteceu alguma coisa?
Respirei novamente e aguardei a resposta. Meu coração estava na garganta e eu parecia uma adolescente apaixonada por alguém que era inalcançável. A parte do inalcançável, era verdade. Pelo menos eu acreditava que sim.
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Posso te ligar?
E foi então que eu notei, que eu realmente precisava me controlar...
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