Júlia

Parei de respirar por alguns segundos e voltei ao sentir o celular vibrar em minha mão. Tae não esperou minha resposta.

— Oi. – Atendi tão receosa que minha voz saiu por um fio.

Oi. — Ele me ligou, mas parecia tão receoso quanto eu. E por isso, o silêncio ficou por alguns segundos.

— Aconteceu alguma coisa, Tae?

Não. É só que eu senti vontade de ligar para você. Não conversamos mais desde aquele dia e eu queria saber se estava tudo bem com a sua viagem. – Sua voz continuava contida. Será que ele estava tão envergonhado quanto eu?

— Entendi. Fico feliz que tenha me ligado. – Acredito que minha alegria tenha transparecido a ponto de ouvir uma risadinha do outro lado da linha – Hoje foi o dia que mais aproveitei, não sei como cheguei ao hostel de tão cansada que estava.

­— É mesmo...

Então eu detalhei toda a saga pela cidade e por Myeong-Dong com tanto entusiasmo que até mesmo eu não acreditava que havia gostado tanto. Tae apenas me escutava, volta e meia eu ouvia sua respiração calma ou uma risada pelo modo que eu pronunciava alguma coisa. Falei sobre as comidas que experimentei, assim como tinha feito com o senhor Dong Sun mais cedo e pela primeira vez fui interrompida no meu monólogo.

Espera, espera! Só um momento. Você comeu tudo isso e ainda sim não experimentou o lámen? – sua voz parecia incrédula – Tem certeza de que seu maior desejo era comer lámen na Coreia?

— Então...

Você foi ao maior centro comercial de Seul e não provou o bendito Lámen. Você não tem jeito, Júlia.

— É, eu acho que não mesmo – Sorri – Acredito que a loja de cosméticos tenha me atraído mais, comprei muitos presentes.

Isso parece bom!

­— E é... – Um silêncio pairou sobre nós e eu suspirei – Posso perguntar como foi seu dia?

Claro, por que não poderia?

— Falo sobre sua gravação...

Tae realmente compreendeu o ponto que eu queria chegar, seu silêncio me afirmou isso, afinal, no dia em que tive o privilégio de acompanhar, o clima entre os protagonistas não estava muito condizente com a calmaria.

— Não precisa responder se não quiser...

Foi... Normal.

— Você ainda sente algo por ela? – a pergunta saiu no automático e eu fiquei com medo da resposta. – Não precisa responder se não quiser...

É a segunda vez que você diz isso. Você quer ouvir minha resposta, não precisa se sentir mal por querer saber.

— Você sente? – Ouvi seu respirar profundo através da ligação.

Não. – Sua voz foi firme ­– Pensei muitas vezes sobre isso, ao longo do tempo em que ela esteve longe e não serei hipócrita que quando a vi novamente depois de tanto tempo, meu coração palpitou. Só que... Foi mais pela adrenalina de rever alguém que foi tão importante e destrutiva na minha vida por tanto tempo. Achei que sentiria algum tipo de mágoa quando a reencontrasse, mas me surpreendi ao perceber que ao menos isso eu consegui sentir. Respondi a sua pergunta?

— Sim. – Falei baixo e soltei o ar que estava preso em algum lugar. – Desculpa ser invasiva.

Não foi. Eu só acho que temos coisas mais importantes para falar do que Mi Cha. Não quero perder meu tempo com esse assunto.

— Desculpa.

Não precisa se desculpar, só fui sincero com você assim como desejo que seja comigo. – Ficamos mais alguns segundos em silêncio – Tem mais algum lugar que gostaria de visitar por aqui?

Pensei, pensei, pensei e eu queria realmente ir a um lugar. Sorri com o pensamento.

— Sim, conhece alguma boate, casa de show ou algo parecido?

Você quer sair a noite? — Sua voz parecia um pouco contida.

— Claro! Como eu posso perder essa oportunidade? Conhecer Seul a noite? Mas eu óbvio que eu quero e quero muito. – De repente me senti muito animada. – Você tem alguma para indicar?

Sim, eu conheço algumas, mas... Você vai sozinha?

— Esqueceu que estou sozinha aqui e que os únicos que conheço são você e Hada. Então, sim. Vou sozinha! – Soltei uma risada.

Eu levo você.

— Quê? – Senti meus olhos arregalarem – Não, não. Claro que não. Não precisa fazer isso.

Realmente, não preciso. Mas você mesmo disse que conhece apenas Hada e eu...

— Só que isso não quer dizer que você precisa se sentir responsável por me ajudar aqui.

Júlia, entenda uma coisa, eu faço isso porque eu quero e não porque eu me sinto responsável por algo...

— Mas... – Interrompo.

Júlia? – Ele me interrompe também - porque eu quero. Entendeu?

Desisti.

— Como faremos isso?

Não se preocupe. Tenho um amigo que tem uma boate na cidade. Assim que falar com ele, eu te aviso. Preciso falar com Hada também.

— Não sei como te agradecer...

Apenas divirta-se e tudo bem!

Não vi as horas passando. Com o tempo fomos conversando sobre coisas aleatórias e gostos peculiares. Meu corpo se arrepiava a cada risada que eu ouvia. O som da sua voz era afrodisíaco e a cada vez que eu tomava consciência que isso estava percorrendo um caminho muito estreito e perigoso mais eu queria seguir adiante, simplesmente por ser ele. Chegou um momento que o silêncio perdurou e apenas nossas respirações eram ouvidas. E no final, eu percebi que ele havia caído no sono enquanto ainda conversávamos. Sorri com a situação. Eu definitivamente estava vivendo meu dorama pessoal.

.*.*.*.*.*.*.*.*.

Por ter ficado até tarde conversando com Tae, acordei totalmente indisposta para qualquer tipo de coisa e fiquei imaginando como ele estaria hoje. Um dia de gravação tentando não parecer um zumbi. Se bem que, muito difícil aquele homem virar algo do tipo. Ele era lindo de todas as formas possíveis e só de lembrar esse fato, meu coração dispara descontroladamente.

— Meu Deus!

Sinto que estou me afundando cada vez mais na ilusão. É como uma areia movediça que suga minhas forças e me leva para o fundo do poço, pois é exatamente assim que ficarei se por acaso eu, por algum milagre, me envolver com esse homem além do limite que estamos agora.

Pego meu celular e olho as notificações do dia. Apenas um “bom dia e divirta-se” do meu pai e mais alguns centenas de mensagens da minha irmã mostrando sua total bipolaridade entre me xingar e me elogiar. Para minha decepção, nenhuma de Tae. Mas também, o que eu esperava? Um “Bom dia, adorei nossa conversa...”? Sim, eu esperava. Essa tola iludida esperava exatamente isso.

Levantei-me da cama, tomei um belo banho, comi algo para forrar o estômago e liguei meu notebook. Precisava ver o itinerário, para saber o que poderia fazer na parte da tarde, uma vez que minha manhã tinha sido arruinada. Mudanças de planos. O guia que havia feito antes de vir para não ficar tão perdida assim, acabou servindo somente para mostrar os lugares que eu não deveria esquecer de ir.

Decido meu próximo destino do dia, Seoul Daehangnon, queria algo mais tranquilo para hoje. Estou me sentindo mais cansada que o habitual, talvez seja o fuso horário, talvez seja não ter dormido direito, porém uma coisa é certa, não posso desperdiçar meu tempo por aqui.

Aproveitando, acesso meu Instagram. Minha primeira imagem... Ele.

É mais do que certo de que dos artistas da atualidade, ele estaria no meu top 3 tranquilamente. Por isso acho tudo isso que estou vivendo uma tremenda loucura, muito assustadora por sinal. O medo está tão a espreita que não consigo agir com nenhuma naturalidade diante dessa situação.

E para meu tormento, a notícia do dia:

So Tae Yang está de volta as telas! O mestre dos beijos...”

— Mestre dos beijos... Tsc!

E princesa da Coréia juntos em um único drama.”

E a foto dos dois, lado a lado no que parecia ser o estúdio de gravação. Tae tinha as mãos cruzadas na frente do corpo com um sorriso contido, ao contrário de Mi Cha, que de princesa não tinha nem a unha, estava com a mão em seu ombro fazendo pose e mostrando até a última canjica da boca. Meu humor azedou no mesmo instante. Não que eu tivesse algum direito de falar algo, ou sobre ele, mas dane-se. Eu odiei aquela foto.

Fechei o notebook e fui colocar meu cavalo para andar. Precisa me arrumar e me informar melhor com o senhor Dong Sun como eu faria para chegar até Daehangnon.

O dia estava lindo. Para ser mais exata, de todos os dias, esse parecia ser o melhor. Pelo menos eu não tinha a sensação de que morreria congelada a qualquer momento. Nessas horas, eu me perguntava que diabos eu estava fazendo ali. Logo eu, a que o vento frio soprava em Goiás e eu já estava de casaco no Rio de Janeiro. A cidade estava bem movimentada. Era quase final de semana e mesmo com o tempo ainda frio, alguns jovens se apresentavam em pontos específicos do parque. Cantando, dançando ou até mesmo atuando. Algumas pessoas paravam entre uma ida e vinda do trabalho, ou da hora do almoço, para poder assistir e incentivar quem estava ali se apresentando.

E assim foi meu dia. Curti minha companhia como nunca. Comi, bebi, tirei várias fotos. Muitas fotos. Acho que tenho foto para atualizar meu perfil por pelo menos 1 ano. Sorri ao pensar nisso, eu que odiava tirar foto, agora tinha um estoque.

Parecia que quanto mais tarde, mais os restaurantes ficavam cheios. Parecia que a população coreana era mais adepta a jantar na rua do que em sua própria casa. Caminhei por alguns minutos pela região e cheguei em um pequeno restaurante. Pela propaganda na frente, vendia churrasco. E minha boca salivou. Depois da última saga no centro comercial que eu comi o que devia e não deveria, hoje eu fiquei o dia todo tentando comer coisas leves, mas sentir o cheiro da carne assando, fez com que eu não pensasse duas vezes. E beber, eu definitivamente queria beber. Tentar esquecer um pouco desse sentimento que está girando aqui dentro de mim.

Entrei no restaurante, meio sem jeito. Estava mais vazio do que os outros, porém a impressão que dava era que não ficaria assim por muito tempo. Localizei uma mesa mais no fundo do restaurante e fui me direcionando direto para o lugar. Senti alguns olhares em mim, provavelmente por ser turista. Alguns cochichos, mas eu não era tão fluente assim para entender o muxoxo dos outros. Assim que me acomodei, um rapaz veio ao meu encontro. Ele parecia ter acabado de entrar na fase adulta ou pelo menos passava essa imagem. Sabemos como muitos asiáticos não parecem ter a idade que demonstram. Seus cabelos estavam um pouco bagunçados e alguns fios caiam nos seus olhos, mas isso não parecia incomodá-lo.

— Boa noite, senhorita. – Ele me cumprimentou em um inglês fluente que me fez sorrir – este é o nosso cardápio, assim que decidir, pode me chamar.

Ele me entregou o cardápio e mostrou o crachá pendurado no bolso. Eu sorri em sinal que havia compreendido e ele apenas acenou, se retirando logo em seguida. Comecei a analisar o conteúdo a minha frente e decidi por pedir uma carne bovina mesmo e uma garrafa de soju. Nunca provei soju na minha vida, mas para quem bebe cachaça, isso não deve ser pior. Senti que estava sendo observada e levantei meus olhos do cardápio para o lugar em que encontrei o menino do atendimento olhando concentradamente em minha direção. Sorri para ele e acenei para viesse até mim. Quando ele chegou mais perto, notei que suas bochechas estavam um pouco mais rosadas e fiquei imaginando se era por conta do vapor que saia das mesas por conta do churrasco sendo assado ou se por algum motivo, eu estava causando aquilo.

Me remexi um pouco na cadeira e vi a hora em que seus olhos se direcionaram as minhas pernas. Ali eu tive certeza de que ele estava sem graça em me atender. Foi então que eu notei alguns outros olhares, mas não me deixei reprimir. Eu iria comer e iria embora, estava aqui para isso. Ninguém havia me faltado com respeito, pelo contrário, todos por onde passei até esse momento, foram muito educados comigo. O rapaz se afastou e retornou alguns minutos depois com minha garrafa de soju, uma porção de carne e algumas folhas de alface. Como uma boa brasileira que sou, abri com destreza a garrafa, fazendo o próprio atendente me olhar espantado.

Dei o meu sorriso mais sincero e pedi obrigada pela comida servida, mais uma vez ele acenou e voltou ao seu trabalho. Peguei o copinho e prontamente me servi. Olhei para aquela bebida aparentemente inofensiva e joguei na boca de uma vez só.

— Aissshhhhhhhh... – bati o copo na mesa – Que inferno! Isso é pior que cachaça!

Olhei para a mesa ao lado e os homens que estavam ali apenas fizeram um sinal de ok e sorriram para mim. Eu me senti envergonhada e apenas acenei de volta.

Mesmo para alguém acostumada a beber, aquele soju já deu sinal de vida no meu corpo. Sentia-me mais alegre e mais quente. Não acredito que seja o vapor da carne assando a minha frente. Era essa bendita bebida que só tem aparência de inocente. Peguei meu celular e nada de mensagem daquele bastardo. Comecei a analisar o ambiente ao redor. Estava mais cheio do que quando cheguei. A essa altura eu já não era um alvo para aquele povo que estava ali. Todos estavam em seus próprios mundos e conversas acaloradas. Suspirei. Se minha irmã estivesse aqui, provavelmente estaríamos fazendo vergonha de tanto que iriamos rir da nossa situação. E minha irmã sim. Ela iria chamar muita atenção nesse lugar.

Olhei direto para uma parede alguns metros do lugar onde eu estava e para minha desgraça, aquele homem do sorriso de molhar calcinha estava lá. Olhando para mim!

— Não é possível. Não bebi tanto assim para ele está em todos os lugares. Eu bebo para esquecer e não para lembrar mais, droga!

Maldito poster! Tinha que ficar tão bonito oferecendo bebida?

Peguei novamente o celular. Olhei aquela foto de perfil. Um cachorro. Exatamente um cachorro. Fofo como ele. Meu Deus! Isso é a decadência. Estou ficando bêbada e carente. Suspirei e tomei mais um copo. Abri a última mensagem que trocamos. Cliquei em digitar e cancelei. O que eu falaria? Não tinha nada para falar, somente para lamentar.

Eu não poderia sequestrá-lo e levá-lo para casa. Não, eu não podia. Mas eu queria, queria muito. Entretanto, eu posso sonhar. Isso não me custa nada mesmo, já voltarei falida ao Brasil. Soltei uma gargalhada...

Não sabia o que dizer, então “Fo-da-se” foi a última palavra que pensei quando enviei minha localização através daquela mensagem. Depois disso, eu tinha certeza, era só ladeira abaixo.