Trevo de Quatro Folhas
9 Capítulo 8
Tae
Exausto.
Essa era a palavra que me definia. Eu só queria ir para casa e dormir. Dormir até que eu estivesse cansado de dormir. Estava sentado no sofá do camarim, a cabeça encostada e olhos fechados. Lutando para não apagar ali mesmo e aguardando meu fiel escudeiro me dizer se eu estava liberado ou não, pois eu era o puro suco do caos.
Senti meu celular vibrar ao lado. Ignorei.
Escutei a porta sendo aberta, abri apenas um olho para saber quem era e para minha alegria Hada olhava para mim.
— Liberado?
— Liberado.
— Graças a Deus! Vamos logo. – Disse me levantando.
Peguei meu celular e fui me direcionando com Hada para a porta. Mais uma vez meu celular vibrou. Olhei o visor e tinha duas notificações que muito me interessava. Primeiro era de Sunny. Finalmente tinha entrado em contato e senti um alívio por isso. “Tae, estou bem. Estou com minha família. Em breve estarei de volta...”. Não fiquei satisfeito apenas com isso, mas teria que ser o suficiente no momento. Precisamos respeitar o momento dela.
— Sunny mandou mensagem. – Falei com Hada enquanto saímos do camarim.
— Acabei de ver.
Ele parecia frustrado. Talvez pelo mesmo motivo que eu.
— Também sinto o mesmo, Hada. Mas o que podemos fazer nesse momento? Devemos respeitar o momento de Sunny. Se ela quis passar um tempo com a família é porque realmente está precisando.
— Você tem razão. Não posso atropelar as coisas de qualquer maneira.
Ele deu de ombros enquanto seguíamos nosso destino pelo corredor até o lado de fora do estúdio. Continuei seguindo enquanto respondia a mensagem de Sunny e logo em seguida verificava a segunda mensagem, que era de Júlia. E para minha surpresa, continha apenas uma localização. Franzi o cenho para isso e parei antes que saíssemos do estúdio.
— Aconteceu alguma coisa? – Hada perguntou.
Apenas ignorei sua pergunta e abri aquele endereço no GPS. Era um restaurante no centro de Seul. Pelo mapa, parecia uma daquelas vielas que tem no centro, porém a pergunta que insistia era “por que diabos ela me enviara aquela localização?”. Virei-me para Hada.
— Se importa de pegar um taxi para casa hoje? Preciso do carro para resolver um assunto.
— O que? Por quê? – Hada perguntou de forma confusa. Aproveitei seu momento de confusão e puxei a chave da mão dele.
— Obrigado. — Saí correndo porta fora.
— Eu não falei que sim. Volta aqui, Tae. – Hada gritava da porta enquanto eu acenava um até logo e corria em direção ao estacionamento.
Não evitei rir da minha travessura. Eu sabia, amanhã Hada colocaria minha cabeça a prêmio.
.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.
Deixei o carro a uma distância segura do local em que aparentemente Julia estaria. Olhei ao redor e percebi que as ruas ainda estavam bastante movimentadas aquela hora, o que fez com que eu me perguntasse “por que diabos EU estaria ali?”. Neste momento começo a concordar com Hada e acreditar que não estou em meu juízo perfeito. Encostei a testa no volante e suspirei. Já que eu estava ali, que terminasse de fazer o que eu vim fazer. Fato esse que eu também não saberia responder. Peguei uma máscara de cor preta no porta luvas, um boné também da cor preta que estava jogado no banco de trás do carro e que provavelmente era de Hada e coloquei. Sai do carro e o tranquei. Peguei o celular e olhei mais uma vez o GPS. Segui na direção que ele me indicava e confirmei que realmente era em uma das vielas do centro de Seul.
Parei na porta do tal restaurante e a primeira impressão era de um lugar pequeno e aconchegante. Olhei através da janela e vi algumas pessoas um pouco alteradas, talvez por conta do álcool, mas nada demais. Tentei colher mais alguma informação antes de adentrar e consegui visualizar Julia em um canto afastado. Ela estava sozinha e finalizava uma trouxinha de carne, colocando na boca logo em seguida. Sorri com o gesto. Ela estava levando a sério esse lance de experimentar as coisas por aqui. Quando iria seguir em direção a porta, notei mais uma coisa que, me deixou de certa forma, incomodado.
Um atendente se aproximou dela. Ele parecia bem prestativo, afinal, seu sorriso que cortava a face de ponta a ponta demonstrava isso. O moleque falou algo para ela, que respondeu aparentemente com a mesma animação. Senti meu rosto arder e os lábios doer, o que me fez perceber que os estava mordendo com afinco demais. Respirei fundo e me recompus, afinal, que direito eu tinha de falar alguma coisa sobre aquilo que estava acontecendo ali?
Segui para o interior daquele restaurante e fui diretamente para a mesa do meu atual motivo de estresse. Senti alguns olhares direcionados a mim assim que entrei, mas apenas ignorei e fui até ela. Parei de frente a mesa, entre o sorridente atendente e a simpática cliente. Olhei diretamente para o obstáculo entre a cadeira e eu. Assim que ele notou a minha presença, aquele sorriso largo foi para o espaço, ele apenas acenou um cumprimento, olhou mais uma vez na direção de Julia e saiu. Respirei fundo e sentei-me de frente a ela. Julia não parecia “normal”. Seu sorriso estava preguiçoso e seus olhos um pouco estreitos. Sua bochecha estava mais vermelha que o normal e seus movimentos pareciam um pouco mais lentos também. Júlia realmente não estava normal, Júlia estava bêbada. Ou quase.
— Você veio! – O sorriso ainda estava lá.
— Sim, vim. – Ao contrário de Julia, eu não tinha nenhum sorriso em meu rosto. O que era muito normal toda vez que eu a encontrava. No entanto, dessa vez, eu estava em chamas de pura raiva e frustração.
— Quer? – Ela me ofereceu um pouco do soju que estava em seu copo.
— Não, obrigada. – Quando ela levava o copo novamente a boca, eu o tirei de sua mão. Fazendo com que derrubasse um pouco sobre a mesa.
— Ei... – Ela reclamou e pela primeira vez seu sorriso se desfez.
— Acho que para você já chega. – Falei seriamente e ela automaticamente fez um bico. Em outra ocasião, acharia engraçado, mas ali não era tal ocasião.
— Eu estou ótima!
— Você está bêbada!
— Não. Que calúnia! Talvez um pouco alegre, mas bêbada? Não.
— Você conseguiu ficar “alegre” com uma garrafa de soju? – perguntei incrédulo.
— Essa coisa é pior que cachaça – Franzi o cenho em sinal de confusão e ela pareceu entender – É uma bebida parecido com isso aqui, só que isso aqui veio do inferno.
Foi inevitável, eu ri. Ela parecia bastante frustrada e decepcionada com o gosto do soju. Analisei a mesa que estávamos e realmente não parecia que Julia tomara mais que 1 garrafa dele. Até o momento, o motivo pelo qual ela me enviara sua localização era desconhecida. Estava ficando tarde e eu estava extremamente cansado. O plano era deixá-la em segurança no hostel e depois finalmente ir para o conforto da minha casa. Amanhã eu buscaria saber o motivo de tudo isso. Observei ela fazendo mais uma trouxinha com a carne e colocando na boca. Meu estômago roncou, mas eu não queria tirar a máscara. Eu estava em uma situação complicada e matar minha fome ficaria para mais tarde. Olhando novamente a mesa, algo chamou minha atenção. Ao seu lado tinha alguns pedaços de papéis.
— O que é isso? Posso jogar fora? – perguntei apontando os papeis com a cabeça.
— Acho que sim. – Ela olhou confusa na direção deles. – Apenas deixaram na mesa. Não sei do que se trata.
Estranhei e tomei a liberdade de pegar os papéis. Eram quatro no total.
— Jae Hyun, Hyung Jun, Sun Woo, Min Ho – falei cada um deles entredentes.
Julia parecia totalmente indiferente a minha mudança de humor, que de raiva mudou para ódio. Na verdade, ela parecia indiferente a tudo ao seu redor. Aqueles papéis com números de telefones eram prova disso. Mordi o interior dos lábios mais uma vez. Soltando uma risada irônica. Só o que me faltava!
— O que foi? – Ela perguntou.
— Nada, apenas panfletos. Podemos jogar fora. – menti tentando parecer tranquilo – Precisamos ir, Julia. Não posso ficar muito tempo por aqui e pretendo te deixar no hostel antes de ir para casa.
— Não precisa, eu...
— Isso não é algo para entrar em discussão, Julia. Não no estado em que você está e depois... disso aqui... – Falei a última parte mais para mim mesmo do que para ela. Me referindo ao bando de babaca que estava só esperando uma brecha.
— Não vou discordar. Quero que você me leve para casa – Meu estomago gelou nesse momento. Tratei logo de mandar certos pensamentos para longe.
Vi a hora que ela levantou o braço chamando o rapaz que estava atendendo-a. Ela fez um sinal como se indicasse que gostaria da conta. Olhei para a direção do balcão e vi o menino escrevendo algo no papel que obviamente saia impresso. Estranhei. Ele veio novamente com aquele sorriso que pegava de orelha a orelha, entregando o papel para Julia. Papel esse que eu queria fazê-lo engolir. Só que o que ele está fazendo agora, eu já fiz também e muito. Antes mesmo que Julia pudesse pegar o papel da mão estendida do menino, eu fui mais rápido e peguei.
— Deixa que eu pago.
— Mas...
— Eu pago. Você paga a próxima. – Tentei soar simpático.
Vi a hora que o rapaz arregalou os olhos. Provavelmente notando que eu havia sacado qual era a dele. Olhei o valor e fiz questão de olhar o verso. E para a surpresa de ninguém, estava lá o número do Seo Jun. Trinquei os dentes e peguei a carteira. Não poderia usar o cartão. Coloquei o dinheiro no meio da conta e dobrei o papel entregando para o rapaz que havia saído do estado de espanto para o de vergonha. Levantei.
— Não precisa do troco. – Entreguei e me aproximei mais um pouco para que somente ele me ouvisse – E nem do seu número de telefone.
Por mais que eu tentasse, tinha certeza de que meus olhos indicavam o meu desgosto. Virei para Julia que me encarava com seus olhos estreitos.
— Vamos? – Virei-me novamente para Seo Jun – Se nos der licença.
Ele rapidamente saiu do meu caminho e foi seguir seu rumo. Ajudei Júlia com suas coisas e saímos do restaurante. Eu precisei segurar em seu braço e direcioná-la até onde o carro estava estacionado. Por mais que ela insistisse que não estava bêbada, parecia que quanto mais o tempo passava, mas a bebida surtia efeito.
Chegamos até o carro e precisei ajudar Julia a sentar-se no banco do carona. Ela estava calada. Acho que ela cairia no sono assim que o carro entrasse em movimento. E assim aconteceu. Segui para o hostel, com a mente cheia de pensamentos perturbados. Olhei, para o lado e vi a hora em que Julia suspirou. Ela era linda de uma forma que eu nunca tinha visto. Não como uma estrela famosa. Júlia tinha algo que chamava atenção além. Ela era sexy até quando estava dormindo por estar bêbada.
— Deus, eu estava completamente ferrado. – Resmunguei enquanto voltava minha total concentração para a pista.
Após alguns minutos, paro a poucos metros do hostel em que Júlia estava hospedada. Finalmente tirei aquela máscara que tanto me incomodava. Não a acordei de imediato, fiz novamente a burrice de analisar seu perfil. Nariz afinado, levemente arrebitado e uma boca com lábios mais cheios em um tom rosado, provavelmente por conta de algum batom que esteja usando. Respirei fundo. Cada encontro era mais difícil fingir que nada acontecia. Cheguei ao ponto de sentir ciúmes. Quem acreditaria nisso? Eu estava com uma sensação de posse em alguém que havia conhecido em uma semana.
Saí de meus devaneios quando ela começou a despertar. Pelo modo como olhava ao seu redor, ainda parecia “alegre”.
— Já chegamos?
— Chegamos, senhorita! – respondi, agora menos irritado.
— Desculpe-me pelo trabalho que causei. – bocejou — E obrigada por me trazer até aqui. Acho que realmente não estou em condições de estar por aí sozinha. – Soltou um sorriso sapeca. Agora ela parecia engraçada.
— Não precisa se desculpar. Outra hora conversamos sobre isso. Agora eu realmente preciso ir. – Fui sincero. Eu também estava precisando realmente descansar.
— Oh, oh,ok ok... – Ela fez o sinal de ok na mão e acenando em concordância com a cabeça ao mesmo tempo.
Júlia foi tentando abrir a porta do carro e eu desci para ajudá-la. Ela parecia não assimilar um palmo a frente do nariz e no momento que foi sair do carro, tropeçou direto na minha direção. Apartei a possível queda segurando em seus braços. Júlia olhou diretamente para mim, seus olhos já pequenos, se estreitaram ainda mais.
— Essa mordida de lábios é muito perigosa.
Ela falou com a voz rouca e consequentemente ligou um alerta em mim. Soltei os lábios que ao menos percebi estar mordendo. Para minha surpresa, talvez ela consiga ver um palmo a sua frente.
— O que disse?
— Mas também... Você é um homem perigoso, So Tae Yang. – Ela ignorou minha pergunta, se endireitou fazendo com que eu a soltasse e continuou falando. – Muito perigoso!
— Por que sou perigoso, Julia? – Perguntei e ela sorriu. Aquele maldito sorriso sapeca. Que Deus tenha misericórdia da minha alma, mas por que um sorriso assim?
— Com uma boca tão beijável não é de se espantar que seja o mestre dos beijos da Coréia, não é mesmo? – Ela se aproximou — Uma pena que a princesa é outra.
Franzi a testa. Meu corpo arrepiou por inteiro com o tom da voz daquela mulher. Eu estava perdido. Não entendi o que ela quis dizer, porém de toda forma, me atingiu em cheio. Coloquei as mãos nos bolsos para que não as colocasse em Julia e cobri a distância que nos restava, apenas para que ela ouvisse perfeitamente o que eu queria dizer. Seus olhos abriram um pouco mais ao notar nossa proximidade e eu abaixei para que pudesse falar próximo ao seu ouvido.
— Sua sorte, Júlia... É que você está bêbada, pois quando algo acontecer entre nós dois, eu quero que você esteja completamente consciente para que não posso ter a desculpa de esquecer.
Vi a hora em que ela engoliu seco. Sua respiração estava alterada e se ela acreditava que eu era perigoso é porque ainda não tinha realmente olhado para si no espelho. Soltei o ar, mostrando toda minha frustração.
— Entra. – falei, apontando diretamente para o hostel – Vou assim que ver você passar por aquela porta.
Julia permanecia me encarando. Talvez o que eu disse, tenha causado um efeito reverso e isso era bom. As coisas finalmente estavam indo pelo caminho que, finalmente, deveriam ir. Ela acenou com a cabeça em concordância e seguiu para o hostel. Julia ao menos olhou para trás e eu agradeci mentalmente por isso.
O círculo estava se fechando. Agora eu tinha a certeza que o meu querer refletia o querer de Julia. No entanto, o que ainda não sabíamos era se conseguiríamos lidar com as consequências disso. E assim eu soube que o descanso que eu tanto almejava para essa noite estava sendo anulado por pensamentos e questões que eu não conseguiria resolver.
Fale com o autor