Júlia

Parque Naksan.

Vigarista!

É a única coisa que eu penso quando olho para aquela mulher. Como Tae Yang pode cair nos encantos daquela megera? Lembro-me de há mais ou menos 3 anos, lê uma matéria em que eles estariam juntos e logo em seguida outra sobre ela estar deixando a Coréia para se aventurar na França. Como nunca temos certeza da veracidade do que é publicado, isso caiu no esquecimento. No entanto, vendo a cena de ainda há pouco, deu para ter uma ideia, o que foi publicado não era tão mentiroso assim.

Vi com meus próprios olhos as mãos dele esbranquiçar com a força com que as apertavam, pude sentir daqui o veneno que ela espirrava naquele momento e por isso eu só agi e não pensei. Sei que não deveria ser assim, mas como deixar aquele homem, que parecia tão despreparado, nas mãos daquela cretina?

Não consegui. Talvez Deus me castigue por isso, mas infelizmente eu não consegui. E agora estou aqui, visualizando eles gravarem pela décima vez uma cena que deveria ser simples. Estamos em uma parte alta do parque, é basicamente um local amplo com um muro baixo que possibilita a uma vista para boa parte da cidade. A imagem é simplesmente maravilhosa que me põe a imaginar como deve ser poder visualizar isso todos os dias. É calmo, aconchegante e te faz pensar em tudo o que deveria e o que não deveria pensar, porém mesmo assim você continua na tranquilidade, cercada por um ambiente espetacular.

Volto minha atenção para os dois a poucos metros de mim e percebo que Tae está se concentrando ao máximo dessa vez. Acredito que tanto ele quanto ela querem parar logo com as gravações por hoje, afinal, já são sete da noite e estão completando quase doze horas de trabalho ininterrupto. Pararam apenas para comer alguma coisa e trocar de roupa. Pelo que percebi, as cenas de hoje foram apenas momentos de desenvolvimento emocional do casal. E não teria dia pior para isso. Arrumei um lugar para sentar e movi o pescoço de um lado para o outro em uma tentativa falha de relaxar. Quando menos percebo, o tal assistente senta-se ao meu lado e eu logo me pergunto se isso é bom ou ruim. Como ele não diz nada, apesar de todo receio eu tento iniciar algum tipo de conversa.

— An-nyeong-ha-se-yo!

Sorrio de forma totalmente forçada e ele me olha espantado. Hada pronuncia “merda” em coreano e eu começo a gargalhar de forma sincera atraindo a atenção de algumas pessoas ao nosso redor, inclusive de Tae que falava algo com o diretor e parou por um momento para nos olhar com os olhos estreitos, fazendo assim com que o diretor acompanhasse seu olhar. Tentei ignorar o arrepio que subiu por minha pele ao notar aquele olhar, mas tentei agir normalmente.

— Fala para mim que você não fala coreano.

— Joesong-hamnida! – Disse com uma pronúncia razoavelmente boa e com uma voz que fingia se lamentar.

— Puta merda! – Hada me olhava com olhos arregalados. Cruzou os braços na altura do peito – Como você escondeu isso de nós?

— Pareceu divertido! – ri de forma mais controlada agora – Quando vi Tae no aeroporto pela primeira vez, ele falou comigo em inglês, obviamente percebendo que eu não era daqui, apenas continuei como se fosse assim. – Dei de ombros.

— Você é incrível! Você fala português, inglês e agora coreano. – Seu espanto era divertido também – Vai me dizer que é poliglota?

— Hum... Se levar em consideração que sei um pouco de espanhol também, podemos considerar que sim.

— Meu Deus. Você é um monstro!

— Só tenho facilidade com idiomas e todas elas tiveram uma motivação apenas.

— Tae não sabe disso? Que você fala coreano?

— Na realidade, sim. Quando aquela mulher foi até ele, eu intervi falando no idioma de vocês. É que Tae foi mais contido que você. Sua reação foi muito mais engraçada.

Rimos um para o outro e permanecemos em silencio olhando o término da gravação a frente. Depois de um tempo sem pronunciarmos nada, eu fico sem saber o que dizer com o que ele solta a seguir.

— Obrigada pelo que fez mais cedo. — Acredito que eu estava com a mesma cara de antes porque ele riu e tentou explicar — Sobre a Mi Cha e o Tae Yang.

Abri a boca soltando um sonoro “aaaah” de compreensão e permaneci em silencio por mais um tempinho digerindo aquilo. Pelo pouco que vi de Hada o dia inteiro, ele é um homem compenetrado, competente. Para ele me dizer essas palavras só posso imaginar que o assunto entre os dois a nossa frente foi sério e que Hada se importa demais com Tae Yang. Isso me deixou feliz.

— Não precisa me agradecer. Sei que não tenho o direito de interferir em nada referente a qualquer um que seja aqui, mas eu não aguentei aquela cretina querer sapatear em cima dele.

Hada sorriu de novo e eu não pude deixar de acompanhá-lo. Mirei meus sapatos sem saber o que dizer mais. Para alguém que ficou sério o dia inteiro, correndo feito louco de um lado a outro, poder sorrir como agora deve ser um alívio e eu fico grata por ser quem proporcionou isso a ele.

— Então não preciso dizer que você compreendeu toda a nossa conversa hoje de manhã enquanto víamos para cá, não é mesmo? – Dei de ombros novamente e o vi suspirar, balançando a cabeça de um lado para outro — Você é realmente interessante, menina. Não me leve a mal e não pense besteira. Eu quis dizer que você é alguém diferente, você é espontânea e consegue fazer com que as pessoas fiquem bem ao seu lado.

Acredito que ele logo tentou explicar por que eu tenho certeza de que estava olhando para ele como se ele fosse um alienígena. Ele ficou envergonhado e isso foi engraçado.

— Obrigada pelo elogio. Mas na maior parte das vezes só me acho intrometida mesmo.

— Bem, podemos dizer que parece um pouco também. — Ele foi sincero e isso fez com que eu sorrisse mais uma vez. Pelo menos achei alguém tão “espontâneo” quanto eu — Mas as vezes um pouco de intromissão é bom...

— Acabamos por hoje! — Ouvimos o diretor gritar e logo nos levantamos.

— Eu não acredito que você me ouviu dizer que tomei um pé na bunda... – Foi a última coisa que Hada disse antes de sair de perto como um jato e começar a correr de um lado para o outro novamente.

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Quando dou por mim, estou novamente encostada no muro de pedras que deve chegar até a minha cintura de altura e observo a imagem a minha frente. As luzes da cidade acesa, o vento gelado no meu rosto e apesar de estar uma correria ao meu redor, eu só sinto calmaria. Está aqui neste lugar hoje é um sonho realizado e algo que eu nunca conseguirei esquecer. Meu sorriso sai sem que eu perceba, meu coração está descompassado pela felicidade tremenda que sinto neste momento e ele apenas se acelera mais com o susto que levo com Hada cutucando meu ombro.

— Vamos? — Ele me olha esquisito e eu olho para todos os lados procurando o patrão dele, o que não passou despercebido — Já está no carro.

Assenti e ele se virou seguindo o caminho do estacionamento e eu o seguindo. Hada tomou o assento do carona e eu estranhei, apenas dei de ombros e entrei na parte de trás. Percebo que Tae Yang quis dirigir apesar do dia trabalhoso que teve, ele olha para mim através do retrovisor, estava sério e parecia exausto. Ninguém nada diz dentro do carro, talvez estejamos cansados demais para isso. Saímos da gravação era exatamente nove e meia da noite. Não imaginei que poucas cenas demorariam tanto tempo a serem gravadas, mas hoje eu pude ver todo um arranjo por trás daquilo que assisto e foi gratificante. Só me fez gostar mais do que eu assisto.

Seguimos um caminho diferente do qual fizemos antes, porém permaneço calada. Afinal, eu não conheço nada por aqui. Depois de alguns minutos paramos em frente a um prédio enorme e Hada desafivela o cinto para poder sair. Fico quieta e aguardo, acredito que seja aqui que ele more.

— Júlia, venha para frente. Eu ficarei aqui mesmo.

Saí do carro e voltei a entrar, só que dessa vez no banco da frente. Ao lado de Tae Yang e por algum motivo isso me deixou bastante nervosa. Hada bateu a porta enquanto falava com Tae.

— Amanhã eu passo na sua casa as sete, Tae. Não se atrase, por favor.

— Você sempre fala a mesma coisa todos os dias, eu não me atraso.

— Algumas coisas devem ser lembradas sempre, deve ser por isso que você não se atrasa.

— Vai dormir, Hada. Amanhã nos falamos.

— Não deixa de mandar mensagem quando chegar em casa.

— Está bem, pai. — Foi o que Tae disse em tom de deboche enquanto saía com o carro mais uma vez.

Olha que situação! Eu dentro do carro sozinha, as dez da noite, com um dos homens mais lindo que eu conheço no mundo e não sei ao menos como dizer um “A” sem achar que vou gaguejar. Não estou entendendo esse meu lado constrangido e isso está me irritando. Aperto um pouco a bolsa que deixei em meu colo e sinto o olhar dele sobre mim, me deixando ainda mais nervosa e descompassada. Ele provavelmente notou, pois, ao olhar seu reflexo na janela do carro, vi seu sorrisinho. Cretino!

Lembrei de algo que me deixou nervosa e teria que perguntar a ele. Também não poderia ficar calada o restante do caminho até em casa. Caramba, eu estava com So Tae Yang ao lado e ele estava sendo legal comigo, o mínimo que eu poderia oferecer nessas circunstâncias é uma conversa e agradável de preferência. Mas o que perguntei foi totalmente diferente de algo divertido e agradável.

— Será que pode acontecer de sair alguma foto do que aconteceu hoje a tarde? — Perguntei olhando para ele e percebi que não compreendeu, então continuei — Daquele momento fantástico entre você, Mi cha e eu.

— Hã... Tudo é possível nessa vida, Júlia. — Ele aprendeu meu nome e eu sorri internamente — porém foi muito rápido, não acredito que teve tempo para isso, apesar de estarmos sendo muito visados no parque.

— Fico aliviada! Poderia ser uma complicação para nós. — Respirei fundo de alívio e vi que ele franziu o cenho.

— Não seria complicação nenhuma, Júlia. Pelo menos não para mim. Fofoca sai o tempo inteiro na mídia. — Ele ficou em silêncio por uns segundos e depois com o cenho ainda franzido, perguntou dividindo seu olhar entre a estrada e eu — Por acaso você tem alguém te esperando?

— Como assim?

— Você tem um namorado? Um homem te esperando?

— Não. Não, claro que não! — Rapidamente respondi — Eu não viria nessa viagem sozinha se tivesse alguém. Gosto de compartilhar minhas alegrias com quem está ao meu lado, mas a questão maior não é você está preocupado ou não, além de gerar um problema para sua carreira e não, não me olhe dessa forma, ser ligado a uma estrangeira como eu não fará bem para você.

— Como assim?

— Vamos ser realista. Aqui na Coreia a banda toca diferente e por mais que não façamos nada demais, o fato de eu ser estrangeira, brasileira seria algo bastante incomum e julgado aqui. – Vi no momento que ele respirou profundamente.

— Não vou negar. Acredito que não poderia ser tão hipócrita assim... Mas eu não me importo com boatos sobre mim, eu escolhi esse mundo e sei que isso é o que mais acontece...

— Tudo bem você não se importar muito com essas coisas, porém a sua RP deve surtar muito e o Hada, coitado, nem se fala.

— Quem cuida da minha imagem é o Doyoon. Ele já passou alguns sufocos com isso. – E riu de um jeito sapeca e automaticamente o olhei com seriedade. Coitado do Doyoon! – O quê? Agora não me olhe assim você! Foi engraçado. Principalmente porque o boato era que Hada e eu tínhamos um caso de amor escondido. Hada ficou extremamente nervoso com a situação, pois a namorada ficou uma semana sem falar com ele e Doyoon não sabia o que fazer, pois meu fã clube aderiu muito bem a ideia. Elas adoram o Hada.

— Eu lembro dessa notícia. Foi há alguns anos, uns três anos pelo menos, acredito.

— Isso. – Tae franziu o cenho e me olhou de soslaio – Quer dizer que você é minha fã, hu? Não tente negar, caso contrário não saberia sobre isso e muito menos quando aconteceu, uma vez que já faz tempo.

— Não neguei e não pretendo negar. – senti minhas bochechas corando – Acho que isso já era previsível de todo modo, mas voltando ao assunto...

— Hu... – Ele emitiu um som de deboche e eu somente ignorei.

— Como resolveram isso na época?

— Bem, foi um pouco mais trabalhoso do que a história com a Mi Cha, por mais estranho que possa parecer. Quando saiu a nota desmentindo os boatos, foi um alvoroço, pois o meu próprio fã clube não queria aceitar. Eles queriam que fossem verdade e eu realmente fiquei bem irritado com isso na época.

Eu não aguentei e comecei a gargalhar com a frustração que estava evidente em seu resto.

— Não ria. Isso foi problemático! – sua boca estava com um bico enorme, me fazendo rir mais ainda.

— E você vai dizer agora que não liga para os boatos? Conta outra.

— Isso foi diferente. Se eu já era assediado, imagina como foi na época? Passei por cada situação que dei graças a Deus que precisei servir ao exército.

— Imagino. Ou melhor, não imagino. Mas imagino Hada frustrado tentando fazer a namorada entender e querendo matar você ao mesmo tempo.

— Foi realmente cansativo, mas ainda bem que esquecido e por isso vamos apenas ter cuidado. Será realmente melhor para todos.

— É isso ai.

— Boa menina, entende as coisas rápido.

— Não tão rápido assim, mas estou tentando ser uma pessoa melhor — Fiz cara de contrariada e ele riu.

— Amanhã você vai continuar seu passeio pela cidade?

— Claro que sim! Tenho muito o que conhecer e pouco tempo para isso.

— Quanto tempo você permanecerá por aqui?

— Somente dez dias. Eu tirei umas férias. Estava precisando distrair a mente.

— E o que você faz no seu país?

— Sou servidora pública. Minha área é jurídica.

— Que interessante! Desse ser bastante estressante também, por isso você precisou distrair a mente a quilômetros de distância. — Ele tentou brincar, mas não consegui pegar a sintonia porque eu realmente queria muito sair do Brasil nesse momento. Tae ficou sério logo que percebeu minha quietude — Acho que não foi só o trabalho que te fez vir até aqui.

— Não. Não foi. O trabalho é um dos meus menores problemas apesar de ser bem cansativo psicologicamente, mas isso é assunto para outro dia, quem sabe.

E eu agradeci a Deus por ter chegado a porta do Hostel nesse momento. Tae não precisava saber das merdas que aconteceram para eu fugir para a Coréia e percebeu que eu não queria me aprofundar no assunto. Ele parou o carro em frente ao Hostel e desceu para me ajudar a sair do carro. Eu não neguei o cavalheirismo, pois nunca fizeram isso comigo e eu achei tremendamente fofo. Tae havia colocado o capuz do casaco sobre a cabeça pra tentar disfarçar alguma coisa, mas sua presença em si era tão chamativa que eu duvidava que aquilo resolveria algo.

— Obrigada pela oportunidade de ver tudo o que vi hoje. — Sorri verdadeiramente para ele.

— Não precisa agradecer. Fiquei feliz por você ter gostado.

Ficamos parados um de frente para o outro sem saber mais o que falar e apenas sorrindo sem graça. Realmente muito estranho essa situação.

— Me empresta seu celular?

— Claro!

Franzi o cenho diante do pedido, mas desbloqueei e entreguei a ele. Tae começou a mexer e digitar algumas coisas e depois me entregou.

— Pronto! Agora você pode me encontrar nesse número se quiser falar comigo.

— Você me deu seu número de celular? — Perguntei com os olhos arregalados.

— Dei.

— E se eu for aquele tipo de mulher maluca?

— Você não é. Eu não sou louco de dar meu número para qualquer um.

— E se você se arrepender disso? Eu não me responsabilizo pelos meus atos. — Brinquei.

— Se você fizer mais alguma pergunta desse tipo eu vou me arrepender. — Ele entrou na brincadeira.

— Lamento informar que já era, não vai conseguir apagar. — Debochei.

— Não tenha tanta certeza assim, eu posso tomá-lo de você.

— Nem que você fosse dois, senhor! — Escarneci.

Tae foi mais rápido do que eu. Quando percebi, ele segurava minha mão e estava bem a minha frente, próximo demais para minha sorte. Ele olhou bem nos meus olhos e eu não consegui controlar e engoli a seco.

— Ainda duvida, senhora? — Ele arqueou a sobrancelha e falou com a voz mais rouca que o normal.

Aquilo foi um tiro direto no meu coração que parecia um cavalo galopando livremente. Ele percebeu a proximidade entre nós e o clima ficou ainda mais estranho quando ele olhou diretamente para minha boca e novamente para meus olhos. Engoli a seco novamente e com muito sacrifício da minha parte e uma sintonia dos Deuses, nos afastamos no mesmo momento.

— Brincadeiras assim parecem inofensivas, mas não são tanto assim. — Ele tentou brincar, eu apenas sorri sem jeito enquanto ele passava a mão entre os cabelos e eu pude perceber que ele estava tão nervoso quanto eu.

— Acho melhor eu ir agora. ­— Apontei para a entrada do Hostel.

— Está bem. — Ele assentiu e se encaminhou até o carro — Até outro dia.

— Obrigada mais uma vez.

Seu sorriso foi a última coisa que vislumbrei enquanto ele saia para seguir seu caminho para casa. Tae se foi me deixando desestabilizada. Eu estava completamente ferrada.