- Não acredito que isso aconteceu. — Disse Elyssa, ainda de olhos fechados, deitada sobre um dos braços de Willian e segurando sua outra mão com os dedos entrelaçados.

- Se arrependeu de ter vindo? — Perguntou ele, sentando-se na cama e olhando em seus olhos agora.

- Não. — Respondeu Elyssa meio que de imediato, tentando imaginar se haveria algum motivo para se arrepender de estar ali com o dono daqueles olhos perfeitos, que a conquistara poucos dias atrás.

- Que bom — Disse Willian sorrindo.

Elyssa o puxou, fazendo-o deitar ao seu lado novamente e colocando-se sobre ele. Willian colocou a mão em seu cabelo e a beijou. Um beijo que fazia o coração de Elyssa vibrar e sua respiração falhar.

- E a Fernanda? — Perguntou Elyssa quando já estavam no carro a caminho de casa.

- O que tem Fernanda? — Willian perguntou confuso.

- Por que está fazendo isso com ela?

- Pelo mesmo motivo que você está fazendo isso com o Matheus.

Elyssa ficou em silêncio e virou-se para olhar para fora da janela do carro.

- Não temos porque nos preocupar com isso agora — continuou Willian e Elyssa voltou a olhar para ele — deixa acontecer, eu estou curtindo o que está rolando agora e sei que você também está. Então por que pensar no depois?

- Você tem razão.

- Mas temos que ser discretos. — Disse Willian mudando sua expressão de despreocupado para a de uma pessoa completamente séria.

- Eu sei.

- Não quero nem pensar no que aconteceria com a Fer se ela descobrisse.

- Como assim o que aconteceria com a Fer? Pensei que estivesse mais preocupado com o que ela faria e não o que aconteceria com ela.

- Fernanda está — disse Willian pausadamente com um tom de preocupação em sua voz — passando por um momento difícil. Uma fase complicada da vida dela.

- Que fase?

- Ela passou por um período de muitos conflitos, muitas perdas e sofrimentos. Enfim, muitos problemas que a deixaram depressiva. Hoje ela está em tratamento por causa de seu transtorno bipolar.

- Transtorno bipolar? Ela não parece alguém que sofre desse transtorno. Parece uma pessoa que está sempre de bem com a vida, sempre alegre.

- Você só a viu por algumas horas. Não teve tempo suficiente para perceber os sintomas. Mas acho que terá, ela gostou muito de você.

- E os problemas que ela enfrentou, têm a ver com você?

- Também. — Willian estacionou o carro de repente em uma rua ainda distante da casa de Elyssa. Desligou o motor e olhou para Elyssa. — Eu terminei com ela uma vez porque não suportava mais o ciúme excessivo dela. Uma semana depois disso ela perdeu o irmão em um acidente de carro. Eu me senti no direito de ficar ao lado dela naquele momento, mas ela confundiu meu apoio com nossa volta. Quando a poeira abaixou eu achei que poderia terminar finalmente, mas me enganei. Ela ameaçou se matar se eu a deixasse, então não tive escolha. A partir daí o comportamento dela começou a mudar. Não havia mais o ciúme controlador dela, mas ela já não era a mesma pessoa.

- O que mudou exatamente? — Elyssa começou a formular imagens de Fernanda em sua mente.

- Havia dias em que ela acordava muito bem, completamente feliz como se nada de ruim tivesse acontecido em sua vida. Mas ao decorrer do mesmo dia isso mudava e ás vezes ela começava a chorar incontrolavelmente e não sabia explicar o motivo. De repente ela se trancava em casa e não queria falar com ninguém. Depois que isso passava, ela me procurava e agia normalmente como se nada tivesse acontecido. Esse comportamento seguiu por meses até a mãe dela e eu conseguirmos finalmente convencê-la a procurar um tratamento. Ela visita uma psicóloga com frequência já tem alguns meses.

- E tem ajudado?

- Muito. Ainda há dias que ela se comporta assim, mas é mais fácil de lidar com ela agora.

- E é por isso que você não termina com ela?

- Esse é o principal motivo.

- Há outros motivos então?

- Eu gosto dela. Não a amo, mas me acostumei a tê-la do meu lado. Somos parecidos em muitas coisas, curtimos os mesmos lugares, as mesmas músicas. Ela é inteligente e me ajuda com algumas coisas da faculdade. Ela se tornou uma grande companheira minha. Já pensei em terminar, mas não sei se conseguiria lidar com a culpa se alguma coisa acontecesse com ela.

- Você acredita mesmo que ela seria capaz?

- No começo achei que não, mas da última vez que brigamos ela desligou o celular e saiu pelas ruas parecendo uma louca em uma manhã muito movimentada no trânsito. Se eu não tivesse saído atrás dela não sei o que poderia ter acontecido. Ela andava como se fosse uma sonâmbula. Parecia que não sabia para onde estava indo.

- Meu Deus. — Elyssa estava chocada. Era difícil absorver tudo aquilo. Mas a voz de Willian e sua expressão deixavam claro que ele não estava brincando.

- Eu sei que é difícil acreditar. Mas se você ignorar isso verá que ela é uma pessoa incrível.

- Eu sei.

- Mas chega de falar sobre isso. Vou te levar para casa. — Willian ligou o carro novamente.

- E nós? — Perguntou Elyssa, ainda tentando assimilar tudo o que acabara de ouvir.

- Como assim nós?

- Continuaremos saindo?

- Só se você não quiser.

- Eu quero, mas...

- Mas?

- Não sei se é certo fazer isso com a Fernanda.

- Não é certo, mas já estamos envolvidos. Pelo menos eu estou e acredito que você também.

- Eu estou, acho que até mais que você.

- Então?

- Isso é totalmente errado.

- Eu sei, mas eu prefiro errar e ter você, a ter que fazer o certo e te perder.

Elyssa olhou para Willian sem acreditar no que ele dissera.

- Então ficaremos juntos. — Disse ela finalmente e Willian sorriu.

Willian deixou Elyssa atrás do shopping onde a havia buscado. Disse que era melhor manter a discrição e não se aproximar da casa dela.

Elyssa foi para casa ainda pensando em tudo o que acontecera naquela tarde e em tudo o que Willian lhe contara sobre Fernanda. Apesar de tudo, ficar com ele era sua única vontade agora.

Ao chegar em casa Matheus estava na sala de estar vendo televisão com sua mãe. Elyssa não gostou de vê-lo ali e então resolveu que não dava mais para continuar.

- Oi gente. – Disse quando cruzou a porta.

- Oi filha – disse Clara em seu tom alegre de sempre – onde estava? Matheus está há horas aqui te esperando.

- Oi amor – disse Matheus levantando-se para cumprimentar Elyssa com um beijo.

- Oi. Eu estava no shopping. Eu te falei mãe. – Disse Elyssa olhando para Clara e desviando a boca do beijo de Matheus que acabou beijando seu rosto.

- Você não falou nada não Elyssa. Ou talvez tenha falado e eu não ouvi. Mas tudo bem. Foi sozinha?

- Sim, eu fui até a livraria me distrair um pouco. Precisava comprar um livro novo.

- E qual você comprou? – Perguntou Clara olhando para a mão da filha procurando alguma coisa.

- Não comprei. Não achei nada interessante dessa vez. – Disse Elyssa tentando fugir do assunto.

- Que estranho. Você ama livros, é impossível não ter encontrado nada. Tem certeza que foi em uma livraria? – Clara estava desconfiada do tom de voz de Elyssa.

- Chega de perguntas mãe. O que aconteceu com você? Nunca foi assim. Vem Matheus, vamos para o meu quarto, preciso falar com você. – Elyssa pegou a mão de Matheus e o puxou indo em direção ao seu quarto.

- Desculpa Elyssa, só estava curiosa. – Gritou Clara quando Elyssa já estava no quarto com Matheus.

- Não devia ter falado daquele jeito com sua mãe. – disse Matheus, também estranhando o comportamento da namorada.

- Eu só não gosto quando ela fica me cobrando coisas que não fazem sentido.

- Eu te entendo. Mas mudando de assunto, tenho uma coisa para você.

- Matheus eu preciso falar com você. – disse Elyssa ignorando o que o namorado acabara de dizer.

- Antes eu quero te mostrar uma coisa – Matheus sorriu e colocou a mão no bolso da calça – você vai amar.

- O que é?

- Olha só – Matheus retirou a mão do bolso e estendeu diante dos olhos de Elyssa. Dois anéis na cor prata sobre a mão de Matheus deixaram Elyssa sem reação.

- Matheus o que é isso? – Elyssa não estava acreditando no que via.

- Nossos anéis de compromisso. Já estamos juntos há quase cinco meses, acredito que está na hora de levarmos mais a sério nosso relacionamento. – Matheus pegou a mão direita de Elyssa e colocou o anel menor em seu dedo.

- É lindo – disse Elyssa olhando para o anel. – Mas acho que não é necessário amor. Não precisamos de um anel para deixar nosso relacionamento mais sério.

- Mas eu quero usar e quero que você use. Quero acreditar que você realmente está comigo. Porque sinceramente, estar com você ainda parece um sonho.

- Ah Matheus, você não existe. – Elyssa olhou para a própria mão novamente e encarou o anel em seu dedo. De repente uma rápida lembrança invadiu sua mente. A mão de Willian sobre o volante quando estavam a caminho da casa onde passaram a tarde. Havia uma aliança em sua mão direita, que Elyssa no momento resolveu ignorar.

- Tudo bem amor? – Indagou Matheus quebrando o silêncio que ficara enquanto Elyssa encarava o anel.

- Sim. – Respondeu Elyssa levantando a cabeça e olhando para o namorado. – Obrigada.

Matheus puxou Elyssa para perto de si e a abraçou forte. Ela deixou uma lágrima cair enquanto o abraçava. Ele não percebeu quando voltou a olhar em seu rosto.

Elyssa gostava de Matheus, mas a atração que estava sentindo por Willian era algo incontrolável.

- Você queria falar comigo amor? – Perguntou Matheus lembrando o motivo pelo qual Elyssa o levara para o quarto dela.

- Eu queria — disse Elyssa procurando uma desculpa em sua cabeça — mas eu esqueci o que era.. Acho que não era importante. Deixa pra lá.
— Tudo bem. O que acha de aproveitarmos esse finalzinho de tarde já que estamos aqui no seu quarto? — Disse Matheus indo até a porta e fechando-a.
— Não Matheus — reclamou Elyssa — minha mãe está em casa.
— E daí? Já dormi aqui outras vezes com ela em casa e você também já foi a minha casa com minha família toda lá. Isso nunca foi um problema.
— Eu sei, mas..
— Mas — Disse Matheus rindo — Está com medo de mim? — Aproximou-se de Elyssa, colocando uma das mãos em sua cintura e com a outra puxou seu rosto para perto do seu e a beijou.
Elyssa não sabia o que fazer. Os olhos de Willian voltaram a invadir seus pensamentos. Ficar com Matheus já não era mais tão prazeroso. Pelo contrário, isso só lhe fazia sentir-se mais culpada a cada minuto que passava ao lado dele.
Durante a noite, o celular de Elyssa tocou.
— Alô? — Elyssa atendeu com uma voz que demonstrou que ainda não havia acordado.
— Elyssa sou eu, Fernanda. Eu preciso muito falar com você. — A voz de Fernanda parecia a de alguém que estava chorando completamente desesperada.
— O que aconteceu? — Disse Elyssa levantando-se rapidamente e sentando-se na cama. Olhou para Matheus e viu que ele ainda dormia. Resolveu falar baixo para não acordá-lo. O que quer que Fernanda tivesse para falar, com certeza não era nada bom. Considerando também o horário em que estava ligando.
— Eu estou me sentindo tão sozinha. Eu não sei o que fazer. — Disse Fernanda tentando parecer mais calma.
— Como assim Fernanda? Você não está sozinha. Você tem seu namorado, com certeza tem muitos amigos e sua família também. — Disse Elyssa sem entender o que Fernanda queria dizer realmente.
— Eu sei. Mas agora não tenho ninguém. Nesse exato momento não tenho ninguém.
— E o Willian?
— Ele não veio me ver hoje. Passei a tarde toda ligando para ele mas ele não atendia. Quase entrei em desespero. A noite ele me ligou e disse que não estava se sentindo muito bem e dormiu a tarde toda. Isso explica porque eu liguei para o escritório dele e a secretária disse que ele havia saído.
— Mas isso não é motivo para você ficar assim. — Elyssa não sabia o que dizer a Fernanda. Naquele momento toda a história que Willian lhe contara sobre a namorada começou a fazer sentido. Tudo era verdade.
— Eu sei Elyssa, mas eu não sei o que aconteceu, de repente me senti assim. Desculpa te incomodar. Eu sei que não tenho esse direito porque você nem me conhece muito bem e deve estar achando que eu sou louca. Mas você foi a única que me atendeu e eu precisava falar com alguém ou iria acabar pirando. Desculpa.
— Tudo bem, você não está me incomodando. Se eu pudesse iria te ver agora, mas está muito tarde. Se quiser podemos ficar ao telefone até a hora que você quiser, eu não me importo.
— Obrigada, sabia que podia contar com você. Você é um amor de pessoa.
— Imagina. Sobre o que quer falar? Quer desabafar sobre o que está te deixando assim?
— Elyssa — começou Fernanda — você acha que o Willian gosta de mim?
— Como assim? Que pergunta é essa? É claro que ele gosta. Afinal vocês estão juntos a tanto tempo, acho que ele não ficaria com você se não gostasse.
— Eu sei, mas ás vezes eu acho que ele só está comigo por sentir pena, sabe?
— Por que ele sentiria pena de você?
— Eu não sei, mas talvez ele saiba o quanto eu o amo e não quer acabar comigo terminando.
— Você não pode pensar assim Fernanda. Já pensou em falar a ele como se sente?
— Já tentei, mas ele diz que eu exagero no drama e que isso tudo é uma bobagem.
— Vai ver ele tem razão. Talvez você não devesse se preocupar tanto assim. Tenho certeza que ele também gosta de você tanto quanto você gosta dele. Não há motivos para se preocupar agora.
— Você e Matheus parecem se entender muito bem. — Fernanda tentou fugir um pouco do assunto — Confesso que senti uma ponta de inveja de como ele olhava para você. Há tanto tempo que Willian não me olha daquele jeito.
— Não foi o que eu percebi. A impressão que vocês me passaram foi de que são um casal muito apaixonado. Acho que você deveria agradecer pelo namorado que tem e não precisa ficar com essa paranoia toda.
— É o que você acha?
— Sim, com toda a certeza.
— É, acho que você tem razão, não sei o que acontece comigo. Deve ser o medo que eu tenho de perdê-lo que me deixa assim. Eu quase entro em desespero só de pensar que ele pode me trair.
— Você acha que ele faria isso? — Perguntou Elyssa, cada vez mais preocupada com o que aconteceria se Fernanda soubesse o que aconteceu naquela tarde entre Willian e ela. Não era só Willian que teria que lidar com a culpa. Elyssa agora também se sentiria tão culpada quanto ele. Aquilo não estava certo. Mas por alguma razão ela não conseguia pensar em parar. Ela queria continuar saindo com o dono daqueles olhos perfeitos.
— Eu não sei. Eu cheguei a pensar que sim, mas talvez, como você disse, isso tudo seja só uma paranoia.
— Com certeza é — Confirmou Elyssa.
— Obrigada por me ouvir. — disse Fernanda depois de alguns segundos de silêncio — Sei que devo ter sido uma chata, te incomodando a essa hora. Muito obrigada mesmo.
— Que isso, já disse que você não me incomodou. Foi bom falar com você. Espero ter ajudado.
— Com certeza ajudou. Obrigada de coração, mais uma vez. Ah, você não quer sair comigo amanhã a tarde? Eu saio da faculdade e te espero em frente ao seu colégio. Podemos tomar um sorvete. É só uma forma de agradecer por estar sendo tão legal comigo.
— Eu iria adorar. — Disse Elyssa, sem saber como dizer não para Fernanda.
— Então combinado. Boa noite e até amanhã. E obrigada de novo.
— Boa noite. Ah, Fernanda, espera..
— O que foi?
— Willian te ama, eu vi isso naquela tarde no shopping.
— Ele te disse alguma coisa?
— Sim. — Mentiu Elyssa. — Ele disse que ama você. Então não se preocupa.
— Obrigada. — Fernanda desligou.
Elyssa não conseguiu dormir o restante da noite. Ficou olhando para o namorado que estava dormindo ao seu lado e pensando em tudo o que estava acontecendo. Só havia uma maneira de sair daquela situação e evitar que coisas piores acontecessem. Mas Elyssa não podia sequer imaginar ficar sem Willian agora. Ainda era cedo para terminar com Matheus e magoá-lo por algo que ela não tinha certeza se daria certo. Tudo estava confuso, sua única certeza era que ficar sem Willian não era sua melhor opção.